{"id":84279,"date":"2024-10-10T01:11:34","date_gmt":"2024-10-10T04:11:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84279"},"modified":"2024-11-21T00:25:54","modified_gmt":"2024-11-21T03:25:54","slug":"entrevista-faco-musica-para-viver-e-uma-necessidade-basica-pra-mim-diz-luiz-ga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/10\/entrevista-faco-musica-para-viver-e-uma-necessidade-basica-pra-mim-diz-luiz-ga\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Fa\u00e7o m\u00fasica para viver, \u00e9 uma necessidade b\u00e1sica pra mim&#8221;, diz LuizGA"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/luizga.music\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">LuizGA<\/a>, que muito leitor do Scream &amp; Yell pode conhecer tamb\u00e9m como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Luiz+Gabriel+Lopes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luiz Gabriel Lopes<\/a>, tem vivido uma fase bastante especial: num curto espa\u00e7o de tempo, ele gravou o \u00e1lbum coletivo \u201cO Destino do Cl\u00e3\u201d (2023), junto a Gustavito e Nanan, e tamb\u00e9m \u201cAI\u00ca\u201d (2024), esse \u00faltimo em parceria com o artista portugu\u00eas Edgar Valente. E sua carreira solo continua movimentada: al\u00e9m de uma s\u00e9rie de singles e remixes, LuizGA lan\u00e7ou dois EPs: \u201cPresente\u201d (2020) e \u201c<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/realcinema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Real Cinema<\/a>\u201d (2024), ambos sob a chancela do selo Pequeno Imprevisto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu mais recente trabalho, \u201c<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/realcinema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Real Cinema<\/a>\u201d, \u00e9 composto por cinco faixas produzidas de maneira inusitada: as bases de voz e viol\u00e3o foram gravadas ao vivo em um show de LuizGa no Teatro do IV Mundo, em S\u00e3o Paulo, em 2023. A partir dessa mat\u00e9ria prima, o artista e o produtor Ot\u00e1vio Carvalho foram adicionando sutis camadas extras ao material original para chegar ao que voc\u00ea ouve no EP. Liricamente, LuizGa segue dialogando com nossas tradi\u00e7\u00f5es enquanto promove reflex\u00f5es sobre o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ex-Rosa Neon e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=graveola\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Graveola<\/a>, e passando boa parte dos \u00faltimos anos na Europa, LuizGA conversou conosco sobre as experi\u00eancias de tocar para diferentes p\u00fablicos (algo que, inclusive, ele contou recentemente <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/20\/especial-axe-cafe-por-luiz-gabriel-lopes-aka-luizga\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em um texto especial para o Scream &amp; Yell<\/a>, passando pela complexa rela\u00e7\u00e3o entre Brasil, \u00c1frica e Portugal, as parcerias com m\u00fasicos como Jo\u00e3o Silva e o grupo ind\u00edgena Kayatibu, al\u00e9m de explorar de forma mais profunda suas ra\u00edzes e conex\u00f5es com a ancestralidade e a natureza. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Exu\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hqEHcF58qbc?list=OLAK5uy_loOAB95toVp2QVhlwrpZzYgFTx1Nud4hQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A \u00faltima vez que estivemos juntos foi numa apresenta\u00e7\u00e3o realizada em Belo Horizonte. Na ocasi\u00e3o, voc\u00ea estava em turn\u00ea de divulga\u00e7\u00e3o do disco \u201cAI\u00ca\u201d junto ao artista portugu\u00eas Edgar Valente com qual voc\u00ea gravou o \u00e1lbum. Finalizada essa jornada, como voc\u00ea avalia essa experi\u00eancia?<\/strong><br \/>\nFoi mesmo muito especial levar esse trabalho ao Brasil, que \u00e9 o terreiro de onde brota a inspira\u00e7\u00e3o primordial de toda a pesquisa em torno deste \u00e1lbum. Giramos tamb\u00e9m um bocado por Portugal e pela Europa, mas de fato fazer os shows no Brasil teve um significado diferente. Porque sim, h\u00e1 muito que pensar sobre os ecos pol\u00edticos e est\u00e9ticos dessa triangula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (e traum\u00e1tica) entre Brasil, \u00c1frica e Portugal. Sinto que complexificar o caldo de refer\u00eancias desta cosmologia, atualizando suas manifesta\u00e7\u00f5es com o olhar do nosso momento hist\u00f3rico, \u00e9 uma esp\u00e9cie de responsabilidade incontorn\u00e1vel da nossa gera\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 mesmo muito potente investigar a ferida colonial que unificou o destino destes povos e propor leituras criativas, transformar a mem\u00f3ria atrav\u00e9s da poesia. Acho que este trabalho \u00e9 um passo nessa dire\u00e7\u00e3o e, certamente, ter\u00e1 desdobramentos futuros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem vivido uma fase prol\u00edfica em sua carreira nos \u00faltimos anos. A que se deve tamanha inspira\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que sempre fui uma pessoa com interesses muito diversos entre si, e isso tamb\u00e9m se reflete nos v\u00e1rios tipos de m\u00fasica que eu escuto, pesquiso e produzo. A escolha por trilhar esse caminho, de uma esp\u00e9cie de &#8220;liberdade radical&#8221; na arte, tem, portanto, um fundamento espiritual, na ess\u00eancia do que eu sou, ou do que tenho lentamente me tornado, ao longo do tempo. Claro que j\u00e1 percebi que esse excesso de diversidade \u00e0s vezes \u00e9 um pouco malcompreendido: pela imprensa, por parte do p\u00fablico&#8230; vez por outra recebo umas cr\u00edticas tipo &#8220;voc\u00ea devia focar em uma coisa s\u00f3&#8230;!&#8221;. Mas n\u00e3o sinto que tenha outra escolha, sen\u00e3o fazer o que ressoa interna e profundamente com meu esp\u00edrito criativo, que sim, \u00e9 bastante livre, \u00e0s vezes contradit\u00f3rio, ca\u00f3tico. A guian\u00e7a da poesia n\u00e3o \u00e9 muito pedag\u00f3gica, nem sempre \u00e9 &#8220;instagram\u00e1vel&#8221;, mas \u00e9 muito verdadeira e isso me satisfaz bastante. E bem mais do que inspira\u00e7\u00e3o, eu diria que \u00e9 muito trabalho e dedica\u00e7\u00e3o. Amor pela parada mesmo. Os v\u00e1rios \u00e1lbuns, projetos, parcerias, portanto, s\u00e3o fruto dessa inquieta\u00e7\u00e3o genu\u00edna. Fa\u00e7o m\u00fasica para viver, \u00e9 uma necessidade b\u00e1sica pra mim, e tento compartilhar com as pessoas da melhor forma, mas n\u00e3o desejo de fato ser guiado por assuntos que n\u00e3o os da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tempos atr\u00e1s fiz uma entrevista contigo aqui no Scream e, na \u00e9poca, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/08\/entrevista-em-portugal-luiz-gabriel-lopes-grava-o-ep-presente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">falamos sobre o fato de voc\u00ea ter sa\u00eddo do Brasil e ter se estabelecido em Portugal<\/a>. De l\u00e1 para c\u00e1, tenho visto que voc\u00ea tem estado em constante movimento, com diversas apresenta\u00e7\u00f5es realizadas por toda \u00e0 Europa. Como tem sido essa experi\u00eancia de levar o seu repert\u00f3rio para os mais variados p\u00fablicos?<\/strong><br \/>\nGosto muito e sou imensamente grato. Ainda mais pra mim, criado no interior de Minas Gerais, sem parentes importantes, etc, sinto que ter aberto a janela do mund\u00e3o pelas m\u00e3os da m\u00fasica \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, um milagre mesmo. Venho de uma fam\u00edlia onde a m\u00fasica sempre foi um assunto central, de pesquisa mesmo. Tenho tios que escreviam can\u00e7\u00f5es, todo mundo tocava e cantava um pouco, mas ningu\u00e9m nunca gravou nada, ningu\u00e9m se profissionalizou. Ent\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um sentimento bonito isso, sabe? Quando penso nesse caminho c\u00f3smico, desde meus av\u00f3s, semi-analfabetos do sert\u00e3o do Cear\u00e1, at\u00e9 as pequenas extravag\u00e2ncias dessa minha exist\u00eancia de artista independente, expandindo a vis\u00e3o de mundo, ampliando fronteiras, conhecendo tantos lugares e pessoas incr\u00edveis atrav\u00e9s do of\u00edcio de tocar e cantar minhas can\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o maluca, de estar dando saltos qu\u00e2nticos na pr\u00f3pria linhagem. E a m\u00fasica \u00e9 de fato uma linguagem universal, muito generosa, que fala diretamente ao cora\u00e7\u00e3o das pessoas, em qualquer lugar do mundo. Testemunhar isso, fluir nessa onda, \u00e9 uma doideira, tem muitos desafios, claro, mas tem sido muito gratificante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"o que eu quero pro mundo\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/goodrukQBfo?list=OLAK5uy_nzQa4Q9NPQvsuMG6k4fuG50frw28FGqVY\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cReal Cinema\u201d, o t\u00edtulo de seu mais recente EP (ou\u00e7a acima), me remete a famosa frase de Martin Scorsese na qual ele afirma que o &#8220;cinema absoluto&#8221; (absolutely cinema) \u00e9 aquele que estabelece di\u00e1logo com a tradi\u00e7\u00e3o, mas sabe apontar novos caminhos. De certa forma, penso que a sua carreira trilhe esse caminho, pois sua musicalidade vai ao encontro \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, mas suas letras nos remetem a reflex\u00f5es profundas e apontam perspectivas de um futuro melhor. Dito isso, quais s\u00e3o as inten\u00e7\u00f5es para com o p\u00fablico voc\u00ea alimenta a partir do novo trabalho?<\/strong><br \/>\nSinto que esse trabalho tem uma atmosfera emocional forte, no repert\u00f3rio, na sonoridade, na forma de produzir. Tamb\u00e9m por ter essa coisa dos takes ao vivo, talvez de forma ainda mais pronunciada. \u00c9 um grupo de can\u00e7\u00f5es que tem uma personalidade e uma temperatura digamos meio terap\u00eautica, meio confessional, meio autobiogr\u00e1fica&#8230; a tal &#8220;universalidade da vulnerabilidade&#8221; que \u00e9 a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. Ent\u00e3o n\u00e3o sei, mas acho que \u00e9 uma continuidade natural de tudo o que eu tenho feito. Tem o melhor e o pior de mim a\u00ed, sem maquiagem. Aquele suco de verdade imperfeita, da experi\u00eancia, do real, que a m\u00fasica sabe traduzir t\u00e3o bem. Pra quem me acompanha h\u00e1 mais tempo, tenho percebido que existe um carinho especial por esse tipo de produ\u00e7\u00e3o, que de alguma forma remete ao &#8220;velho LG Lopes do Youtube&#8221;, aquele alter-ego jovem de cabelo desgrenhado gravando videos com o photo-boot em lugares improv\u00e1veis mundo afora. Tem um eco tamb\u00e9m com o &#8220;Presente&#8221;, EP de 2020, que \u00e9 tamb\u00e9m um \u00e1lbum todo ac\u00fastico. Ent\u00e3o \u00e9 mais uma pe\u00e7a no quebra-cabe\u00e7a da obra, \u00e9 mais um passinho pra frente, que atualiza e prop\u00f5e novos caminhos, claro, mas que tem os p\u00e9s fincados na raiz de onde tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cReal Cinema\u201d \u00e9 composto por faixas in\u00e9ditas, mas h\u00e1 uma releitura para &#8220;Aprender a Perder&#8221;. A faixa j\u00e1 havia sido lan\u00e7ada no bel\u00edssimo \u201cO Destino do Cl\u00e3\u201d (2023), trabalho gravado junto a Gustavito e Nanan. Por voc\u00ea decidiu revisitar a can\u00e7\u00e3o e qual o significado dela para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica \u00e9 muito especial e eu sentia que precisava entregar uma vers\u00e3o minha, al\u00e9m da vers\u00e3o do Cl\u00e3, da qual tamb\u00e9m gosto muito, obviamente. Sempre que toco ela nos shows, percebo que ela bate num lugar muito profundo nas pessoas. Porque esse assunto \u00e9 uma esp\u00e9cie de tabu mesmo, um t\u00f3pico para o qual ningu\u00e9m quer olhar muito, mas que \u00e9 inevit\u00e1vel de confrontar no processo de envelhecer e amadurecer: a percep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vulnerabilidade, o entendimento e a aceita\u00e7\u00e3o disso durante a vida. Porque tamb\u00e9m vejo que a internet cristalizou uma cultura de performar uma suposta invencibilidade, como se todo mundo fosse s\u00f3 a parte luminosa de si mesmo, a parte vencedora da pr\u00f3pria vida. Mas isso claramente \u00e9 s\u00f3 a superf\u00edcie das coisas, a gente sabe que todo mundo experimenta dor, medo, amargura, todo mundo tem um lugar de fragilidade, todo mundo sofre com as pr\u00f3prias frustra\u00e7\u00f5es, e isso \u00e9 um tra\u00e7o universal entre seres humanos. Da\u00ed falar disso, assumir pra si esse conflito, me parece uma coisa muito potente mesmo. Costumo dizer nos shows que essa can\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;dedicada a todos que est\u00e3o com a terapia em dia&#8221;. \u00c9 bonito ver como ressoa, a galera cantando &#8220;aprender a perder \/ aprender a perder&#8221;, como um mantra mesmo. \u00c9 emocionante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Terra, Terra\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6BydqrbE1Zg?list=OLAK5uy_nI8h-PssKU1Bmr_AW5JzcF3s2qWtsBKew\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Aprender a Perder&#8221; conta com a participa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Silva, violinista e compositor portugu\u00eas, que contribui em outras duas faixas. Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e quais contribui\u00e7\u00f5es ele trouxe para o resultado final?<\/strong><br \/>\nConheci o Jo\u00e3o num concerto que fiz com a B\u00e1rbara Rodrix, em Barcelona. Era um conhecido dela que ela convidou pra participar do show e, logo de cara, me identifiquei imensamente com a musicalidade dele. Uma sutileza bonita, uma eleg\u00e2ncia muito particular. Aquele tipo de m\u00fasico que n\u00e3o d\u00e1 nenhuma nota em v\u00e3o, que tem a escuta muito ativa. Da\u00ed fiquei com vontade de me conectar mais com ele e foi, justamente, na altura em que est\u00e1vamos trabalhando na p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o das faixas desse \u00e1lbum. Acabou rolando de uma maneira muito fluida, e acho que trouxe uma for\u00e7a imensa pros arranjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O grupo ind\u00edgena Kayatibu \u00e9 outro convidado que participa do EP na faixa &#8220;Yame Awa Kawanay&#8221;. Como foi constru\u00edda essa parceria?<\/strong><br \/>\nComecei a trabalhar com o Kayatibu em 2019, quando fui convidado a me juntar como educador num projeto de resid\u00eancia art\u00edstica com jovens do povo Huni Kuin. Fomos pro Jord\u00e3o, uma cidadezinha no cora\u00e7\u00e3o da floresta, no estado do Acre, perto da fronteira com o Peru e estivemos imersos durante duas semanas nesse trabalho, um grande laborat\u00f3rio criativo com eles. Era um projeto financiado pelo Rumos do Ita\u00fa Cultural e resultou num disco chamado \u201cNi-Ishanai\u201d (que significa &#8220;Floresta Futuro&#8221; em hatxa-kuin, a l\u00edngua origin\u00e1ria dos Huni Kuin) \u2013 est\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas e tem tamb\u00e9m um bonito video-\u00e1lbum no Youtube (nota: que voc\u00ea pode assistir abaixo). Eu nunca tinha estado na floresta, e a conex\u00e3o bateu muito forte. Fiquei t\u00e3o apaixonado e instigado com a experi\u00eancia que acabei voltando pro Acre mais umas tantas vezes nos anos seguintes, por conta pr\u00f3pria, pra aprofundar o v\u00ednculo, o trabalho, a pesquisa com essa galera. Lentamente, v\u00e1rios desdobramentos foram acontecendo, a gente pegou uma amizade grande, uma alian\u00e7a bem massa. Da\u00ed, pela for\u00e7a misteriosa das sincronicidades, eles estavam em S\u00e3o Paulo justamente na data desse show em que as bases do disco foram gravadas, e eu os convidei pra cantarmos juntos um dos cantos deles \u2013 essa can\u00e7\u00e3o, &#8220;Yame Awa Kawanay&#8221;, que \u00e9 uma melodia original da Maxi Huni Kuin, uma jovem da aldeia Chico Curumim com quem trabalhamos desde a \u00e9poca da primeira resid\u00eancia. \u00c9 um hit na aldeia, todo mundo ama essa m\u00fasica. A\u00ed fizemos essa vers\u00e3o juntos no show e a grava\u00e7\u00e3o ficou muito bonita, e fui percebendo que era um cap\u00edtulo importante de constar na cartografia. Acabou sendo a faixa perfeita pra fechar o \u00e1lbum.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Intro Paj\u00e9 _ Paj\u00e9 Miguel Sales Huni Kuin _Ni Ishanai ~ Floresta Futuro\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xOSoX2dlO9M?list=PLDWqHWiXjMzSdsw8v1yBRCm3mI-aKV3Cw\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 de hoje que voc\u00ea tem procurado estabelecer conex\u00f5es (art\u00edsticas e pessoais) com a ancestralidade, a interioridade e a natureza em si. Qual a import\u00e2ncia de trazer \u00e0 tona temas como estes na atualidade?<\/strong><br \/>\nAcho que foi um caminho natural e inevit\u00e1vel pro desenvolvimento do meu trabalho art\u00edstico. Tem a ver com minha pr\u00f3pria jornada pessoal no planeta, as coisas e energias que me movem, que me instigam e me inspiram. N\u00e3o sei se consigo elaborar muito teoricamente, porque de fato nunca houve uma decis\u00e3o consciente sobre isso. Mas faz parte de mim, \u00e9 algo constitutivo da minha investiga\u00e7\u00e3o na grande resid\u00eancia art\u00edstica da vida, e fico feliz que possa ressoar e inspirar as pessoas que me escutam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cReal Cinema\u201d voc\u00ea optou por alternar o processo de grava\u00e7\u00e3o usufruindo e alternando os formatos ao vivo e em est\u00fadio. Como se deu de fato a capta\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu estava finalizando uma temporada no Brasil e tinha dois shows em S\u00e3o Paulo, logo antes de voltar pra Portugal, num lugar pequenino e super aconchegante, o Teatro de Bolso do IV Mundo, que fica na Vila Romana. O Ota Carvalho, que \u00e9 o diretor \/ produtor musical \/ meu parceira\u00e7o do selo Pequeno Imprevisto, levou o equipamento dele, e gravamos os dois dias de concerto, voz e viol\u00e3o, ao vivo. Depois, teve um tempo de decanta\u00e7\u00e3o, pra ouvir tudo com calma e escolher os takes. Fui tentando entender quais can\u00e7\u00f5es tinham soado melhor na grava\u00e7\u00e3o, e a partir da\u00ed fui filtrando o recorte, at\u00e9 encontrar esse pequeno grupo de m\u00fasicas, que sinto que tem um magnetismo est\u00e9tico particular entre si. Destes takes ao vivo, fomos fazendo algumas experi\u00eancias, adicionando alguns pequenos elementos, algumas paisagens sonoras, alguns synths, os violinos do Jo\u00e3o&#8230; pequenas camadas que acabaram por somar de forma sutil, mas muito significativa pro resultado final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos passos e planos para o futuro?<\/strong><br \/>\nEstou come\u00e7ando a lan\u00e7ar um EP novo, em parceria com o Paulo Novaes, chamado &#8220;TXAI BAND&#8221;, que \u00e9 mais um desdobramento dessa parceria com os Huni Kuin. \u00c9 fruto de uma viagem que fiz ao Acre em janeiro de 2023, dessa vez na companhia desse querido amigo, o Paulinho, um artista de quem eu j\u00e1 era f\u00e3 antes e que se tornou um grande parceiro nessa hist\u00f3ria. A gente comp\u00f4s algumas can\u00e7\u00f5es juntos durante a viagem, e tamb\u00e9m gravamos v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es originais dos jovens Huni Kuin, e o EP conta um pouco dessa jornada. Tem tamb\u00e9m um lindo document\u00e1rio no Youtube. Vai sair a conta-gotas at\u00e9 o final do ano, e est\u00e1 bem bonito. Ent\u00e3o acabou por se tornar um projeto bastante coletivo, uma colabora\u00e7\u00e3o nossa com a M\u00edstica Samany, o Tuyn Kaya e a Masp\u00e3 Huni Kuin, que s\u00e3o jovens artistas do povo Huni Kuin. Tivemos a alegria de contar tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de outros m\u00fasicos incr\u00edveis: Mestrinho, Kab\u00e9 Pinheiro, Breno Ruiz e Juninho Ibituruna. Pro in\u00edcio do ano que vem, deve sair um \u00e1lbum ao vivo (este sim, um &#8220;ao vivo&#8221; no formato &#8220;cl\u00e1ssico&#8221;), chamado &#8220;LuizGa Electric MicroBigBand&#8221;. Um disco gravado durante um concerto na BOTA, em Lisboa, com uma banda espetacular: B\u00e1rbara Rodrix (do Brasil) e Beatriz Nande (de Portugal) nos vocais, Afrogame e Theu Nascimento (ambos brasileiros, baianos) nas percuss\u00f5es, Jori Collignon (da Holanda) e Raquel Pimp\u00e3o (de Portugal) nas teclas. No \u00faltimo ano, estive trabalhando lentamente na finaliza\u00e7\u00e3o dos fonogramas com o Jori, que \u00e9 o produtor desse disco, e t\u00e1 ficando super bonito. Tem mais um tanto de coisa no forno, claro, mas por enquanto \u00e9 isso que posso adiantar. Damos gra\u00e7as.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TXAI BAND :: o filme\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wGL3D8-18sI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TXAI BAND: TAMANI (Luizga e Paulo Novaes) - Visualizer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7hBdfcOs-hM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. Escreve tamb\u00e9m no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phono.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.phono.com.br<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Seu mais recente trabalho, \u201cReal Cinema\u201d, foi composto de maneira inusitada: as bases de voz e viol\u00e3o foram gravadas ao vivo em um show e, a partir dessa mat\u00e9ria prima, artista e produtor foram adicionando sutis camadas extras\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/10\/entrevista-faco-musica-para-viver-e-uma-necessidade-basica-pra-mim-diz-luiz-ga\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":84280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2444],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84279"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84279"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84295,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84279\/revisions\/84295"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}