{"id":84261,"date":"2024-10-09T00:29:22","date_gmt":"2024-10-09T03:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84261"},"modified":"2024-11-12T09:34:50","modified_gmt":"2024-11-12T12:34:50","slug":"literatura-impostora-yellowface-de-r-f-kuang-e-um-olhar-acido-sobre-o-mercado-literario-lugar-de-fala-e-apropriacao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/09\/literatura-impostora-yellowface-de-r-f-kuang-e-um-olhar-acido-sobre-o-mercado-literario-lugar-de-fala-e-apropriacao-cultural\/","title":{"rendered":"Literatura: \u201cImpostora: Yellowface\u201d, de R.F. Kuang, \u00e9 um olhar \u00e1cido sobre o mercado liter\u00e1rio, lugar de fala e apropria\u00e7\u00e3o cultural"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantos escritores alcan\u00e7am o estrelato? Conseguem conquistar tanto o afago do p\u00fablico quanto da cr\u00edtica, figurando tanto na lista dos mais vendidos, quanto naquelas de melhores do m\u00eas, do ano, da d\u00e9cada? De antem\u00e3o, sabemos que n\u00e3o s\u00e3o muitos \u2013 quando comparados ao universo de lan\u00e7amentos liter\u00e1rios que inundam as prateleiras das livrarias m\u00eas a m\u00eas. O mercado liter\u00e1rio \u00e9 feroz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A protagonista do novo livro de Rebeca F. Kuang conseguiu furar essa bolha. Ap\u00f3s uma estreia morna, seu novo trabalho \u00e9 um sucesso arrasador. Um daqueles contratos liter\u00e1rios de muitos d\u00edgitos de adiantamento. Um futuro promissor aguarda a nova sensa\u00e7\u00e3o da literatura norte-americana. S\u00f3 tem um problema: ela n\u00e3o escreveu essa hist\u00f3ria. \u201cImpostora: Yellowface\u201d \u00e9 um lan\u00e7amento da Intr\u00ednseca com tradu\u00e7\u00e3o de Yonghui Qio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa de \u201cImpostora: Yellowface\u201d se desenvolve a partir de uma dualidade: Athena Liu e June Hayward s\u00e3o como yin-yang, for\u00e7as tanto opostas quanto complementares. Duas jovens autoras e amigas que se conhecem na Universidade de Yale e buscam um lugar ao sol num mercado cruel. Enquanto tudo parece vir f\u00e1cil para a primeira \u2013 a publica\u00e7\u00e3o, as vendas, o sucesso, o dinheiro e a fama \u2013 a segunda se v\u00ea presa no desinteresse do p\u00fablico, da cr\u00edtica e do mercado editorial por seu livro de estreia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto Athena Liu \u00e9 de origem sino-americana e se v\u00ea metamorfoseada numa esp\u00e9cie de jovem porta-voz da comunidade oriental no pa\u00eds, June Hayward \u00e9 uma americana branca m\u00e9dia que parece n\u00e3o ter muito a dizer \u2013 ou, na verdade, n\u00e3o parece ter muitas pessoas interessadas em ouvi-la. Numa curiosa invers\u00e3o, para June &#8212; e muitos outros do mercado liter\u00e1rio &#8212; Athena \u00e9 privilegiada por sua cor e ra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Athena morre num inesperado acidente dom\u00e9stico, June \u00e9 a \u00faltima pessoa a v\u00ea-la com vida. Ap\u00f3s a morte da amiga, Hayward deixa a sua casa carregando consigo n\u00e3o s\u00f3 o trauma pela morte de Liu, mas tamb\u00e9m um manuscrito rec\u00e9m-conclu\u00eddo daquela jovem escritora em ascens\u00e3o: sua obra derradeira. \u00c9 a partir desse manuscrito \u2013 um livro que une fic\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o e uma longa pesquisa hist\u00f3rica para dizer sobre trabalhadores chineses explorados durante a Primeira Guerra Mundial \u2013 que a vida de June Hayward entra num caminho sem volta rumo ao estrelato liter\u00e1rio possibilitado apenas por um verdadeiro best seller. \u201cO \u00faltimo front\u201d, o manuscrito de Athena, \u00e9 publicado por June como se fosse de sua autoria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-84263 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cYellowface\u201d, literalmente \u201ccara amarela\u201d em portugu\u00eas, \u00e9 o uso de maquiagem no meio art\u00edstico \u2013 no teatro e no cinema, sobretudo \u2013 por artistas brancos ao representarem personagens de origem leste-asi\u00e1tica, de pa\u00edses como o Jap\u00e3o, a China e a Coreia do Sul. Uma maneira hist\u00f3rica de silenciamento e exclus\u00e3o dessas comunidades dentro de suas pr\u00f3prias representa\u00e7\u00f5es no campo art\u00edstico. No romance de R.F. Kuang, o termo ganha novas nuances, levando sua rela\u00e7\u00e3o com o racismo e o silenciamento de comunidades minorit\u00e1rias para dentro do mercado liter\u00e1rio &#8212; um espa\u00e7o, supostamente, diverso e aberto ao diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">June Hayward, ou, melhor, Juniper Song &#8212; \u00e9 esse o nome, esp\u00e9cie de alter-ego, que ela constr\u00f3i para si a partir da publica\u00e7\u00e3o do manuscrito usurpado da falecida amiga, carregando certa ambiguidade e estranhamento, por remeter a um orientalismo pertencente \u00e0quela que escreveu \u00e0 obra, mas n\u00e3o \u00e0quela que a publicou &#8212; \u00e9 uma personagem complexa. Todo narrado a partir do seu ponto de vista em primeira pessoa, \u201cImpostora: Yellowface\u201d mergulha no psicol\u00f3gico da jovem escritora, num verdadeiro processo de autoconvencimento sobre a legitimidade de suas escolhas. Enquanto convence a si mesma, ela busca a cumplicidade do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cImpostora: Yellowface\u201d \u00e9 um daqueles livros que s\u00f3 poderiam ter sido escritos por algu\u00e9m que, em alguma medida, tenha passado por experi\u00eancias pr\u00f3ximas \u00e0quelas descritas ao longo de suas p\u00e1ginas. No caso, entre outras, as vicissitudes do mercado liter\u00e1rio e o racismo inerente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es ali desenvolvidas. R. F. Kuang \u00e9 uma autora sino-americana, com obras que lidam com temas como o racismo e o colonialismo, que figuraram nas listas dos mais vendidos e venceram importantes pr\u00eamios liter\u00e1rios como o Locus, o Nebula e o British Book Award.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um olhar \u00e1cido para o mercado liter\u00e1rio e suas intr\u00ednsecas rela\u00e7\u00f5es com quest\u00f5es de identidade, diversidade, autoria, racismo, lugar de fala e apropria\u00e7\u00e3o cultural, \u201cImpostora: Yellowface\u201d \u00e9 uma leitura \u00e1gil e envolvente, marcando a versatilidade da escrita de R. F. Kuang, num texto que flerta com o suspense psicol\u00f3gico e uma narradora que nos coloca a todo momento em d\u00favida acerca de suas inten\u00e7\u00f5es &#8212; e, at\u00e9 mesmo, de sua sanidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84262\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"934\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/yellowface1-241x300.jpg 241w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cImpostora: Yellowface\u201d \u00e9 uma leitura \u00e1gil e envolvente, marcando a versatilidade da escrita de R. F. 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