{"id":84176,"date":"2024-10-04T00:02:00","date_gmt":"2024-10-04T03:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84176"},"modified":"2024-11-06T00:15:52","modified_gmt":"2024-11-06T03:15:52","slug":"critica-em-cutouts-o-radiohead-que-existe-dentro-do-the-smile-toma-a-dianteira-com-otimos-resultados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/04\/critica-em-cutouts-o-radiohead-que-existe-dentro-do-the-smile-toma-a-dianteira-com-otimos-resultados\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: Em \u201cCutouts\u201d, o Radiohead que existe dentro do The Smile toma a dianteira \u2013 com \u00f3timos resultados"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em algum lugar, Ed O\u2019Brien e Phil Selway choram. Colin Greenwood mant\u00e9m a cabe\u00e7a erguida, no entanto: afinal, o baixista recentemente veio a frente mencionar que havia voltado a ensaiar com seus antigos companheiros de Radiohead, embora n\u00e3o haja qualquer tipo de plano para a retomada das atividades do quinteto. A incerteza da declara\u00e7\u00e3o do m\u00fasico, por mais positiva que possa ser, apenas adiciona peso \u00e0 recente atividade de seu irm\u00e3o, Jonny, ao lado do frontman Thom Yorke e do baterista Tom Skinner, sob a alcunha de The Smile. O trio, que j\u00e1 acumula dois \u00e1lbuns lan\u00e7ados ao longo dos \u00faltimos dois anos (\u201cA Light for Attracting Attention\u201d, de 2022, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/06\/critica-wall-of-eyes-segundo-disco-do-the-smile-mostra-que-yorke-greenwood-e-skinner-esbanjam-quimica-e-talento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e \u201cWall of Eyes\u201d, de 2024<\/a>), encontra agora uma outra maneira de surpreender sua relutante, embora maravilhada, base de f\u00e3s: na esteira de apresenta\u00e7\u00f5es matadoras que esbanjam t\u00e9cnica musical, o grupo agora traz seu segundo lan\u00e7amento do ano. Com um repert\u00f3rio registrado nas mesmas sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o que originaram seu \u00faltimo lan\u00e7amento, e precedido por dois singles, \u201c<a href=\"https:\/\/thesmile.x-l.co\/cutouts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cutouts<\/a>\u201d \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/02\/01\/musica-amnesiac-do-radiohead-uma-merda-ou-uma-perola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amnesiac<\/a>\u201d para o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kid A<\/a>\u201d que \u201cWall Of Eyes\u201d pode vir a se tornar \u2013 em uma analogia que vai al\u00e9m das circunst\u00e2ncias que trouxeram o material \u00e0 luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A boa not\u00edcia, que pode ser antecipada pelos dois singles j\u00e1 lan\u00e7ados, \u00e9 que Yorke e Greenwood parecem finalmente ter come\u00e7ado a deixar as influ\u00eancias de seu principal grupo virem \u00e0 tona pela primeira vez de modo mais confort\u00e1vel aqui. J\u00e1 a m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que, dada a qualidade das can\u00e7\u00f5es trazidas (assim como a abund\u00e2ncia de bom material claramente acumulado pelos tr\u00eas) pode fazer com que o retorno do Radiohead se torne uma realidade ainda mais distante do que alguns preferem pensar. N\u00e3o espanta que a primeira faixa de trabalho, \u201cDon\u2019t Get Me Started\u201d, seja a mais longa do \u00e1lbum: valorizando a experi\u00eancia da audi\u00e7\u00e3o em fones de ouvido, o eco aplicado aos vocais de Yorke ajuda a criar uma atmosfera ao mesmo tempo et\u00e9rea e intimista, com uma letra que poderia ser lida como uma mensagem para o Thom do passado, ou para sua dedicada legi\u00e3o de f\u00e3s: \u201cN\u00e3o me puxe para tr\u00e1s\u201d. A percuss\u00e3o com ares eletr\u00f4nicos pode at\u00e9 lembrar, de longe, o tipo de sonoridade explorado pelo vocalista em \u201cThe Eraser\u201d (2006); o piano el\u00e9trico tocado por Greenwood, por\u00e9m, \u00e9 co-protagonista na can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 \u201cForeign Spies\u201d \u00e9 singular mesmo dentro de um disco t\u00e3o variado. O posicionamento da can\u00e7\u00e3o como faixa de abertura \u00e9 de espantar, com uma melodia guiada quase que exclusivamente pelo viol\u00e3o. As texturas adicionadas pelos sintetizadores s\u00e3o um indicativo da ambi\u00eancia microc\u00f3smica explorada no disco, ainda que traga Thom soando mais positivo (\u201c\u00c9 um mundo lindo\u201d, ele entoa) e menos instigado. J\u00e1 o \u201clado B\u201d, \u201cZero Sum\u201d (colocada como terceira faixa no \u00e1lbum) \u00e9 quase um fotonegativo de seu par: a m\u00fasica mais curta do trabalho (a \u00fanica com menos de tr\u00eas minutos de dura\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m \u00e9 agitada e dan\u00e7ante, com os arpejos guitarr\u00edsticos de Jonny tomando os ouvidos de assalto junto com uma el\u00e1stica e detalhada linha de contrabaixo. As polirritmias que Skinner explorava \u00e0 exaust\u00e3o enquanto membro do Sons of Kemet conduzem a melodia nesta que \u00e9, a princ\u00edpio, uma das mais cativantes can\u00e7\u00f5es no novo repert\u00f3rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84177\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/smile2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/smile2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/smile2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cadenciada \u201cInstant Psalm\u201d se imp\u00f5e entre as duas faixas no tracklist, e ajuda a criar uma ponte entre o reflexivo e o inquieto. Fazendo uso de orquestra\u00e7\u00f5es que remontam \u00e0 cl\u00e1ssica \u201cPyramid Song\u201d (em mais um paralelo com o disco de 2001), trata-se da can\u00e7\u00e3o mais diretamente ambiciosa do disco, com efeitos que simulam flautas e linhas de bateria menos assertivas, que d\u00e3o lugar a vocais que exploram tons mais graves. A conex\u00e3o mais expl\u00edcita, aqui, \u00e9 com a s\u00e9tima m\u00fasica do disco, \u201cTiptoe\u201d: de longe, o \u00eaxito mais \u201ccinematogr\u00e1fico\u201d do The Smile, com um in\u00edcio repleto de ru\u00eddos ambientes e conversas entre pessoas nunca identificadas causando desorienta\u00e7\u00e3o, apenas para um bel\u00edssimo arranjo de piano e cordas dominar a mixagem sem, no entanto, perder em termos de nuances.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compet\u00eancia instrumental, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/27\/ao-vivo-the-smile-mostra-seu-disco-de-estreia-e-varias-ineditas-em-show-perfeito-em-milao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fator t\u00e3o comentado quando da estreia do trio ao vivo<\/a>, n\u00e3o se perde neste terceiro registro. \u201cColours Fly\u201d promete ser a nova estrela dos shows do grupo, com destaque para a melodia do baixo tocado por Yorke e funcionando como elemento de maior conex\u00e3o com \u201cWall of Eyes\u201d. A riqu\u00edssima destreza do baterista cria a pulsa\u00e7\u00e3o certa para que os \u00edmpetos virtuos\u00edsticos de Greenwood sejam o elo que torna esta a mais surpreendente can\u00e7\u00e3o no tracklist, apesar de as influ\u00eancias de jazz deixarem a posi\u00e7\u00e3o coadjuvante para valer na faixa seguinte, \u201cEyes &amp; Mouth\u201d, a mais mutante das novas composi\u00e7\u00f5es, seja em suas frases (que trazem linhas como \u201cSempre mudando de defini\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cUm outro jeito de ser\u201d), seja nas delirantes harmonias de teclas e no uso mais encorpado dos tons na bateria de Skinner. \u00c9 aqui que Yorke soa mais revitalizado, e mais confiante em suas pr\u00f3prias capacidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confian\u00e7a, diga-se de passagem, \u00e9 esbanjada na trinca final de can\u00e7\u00f5es: \u201cThe Slip\u201d mescla percuss\u00e3o anal\u00f3gica e digital com tamanha precis\u00e3o que \u00e9 dif\u00edcil discernir uma da outra. O mesmo se pode dizer do baixo sintetizado, por si s\u00f3 um elemento explorado lindamente (assim como as harmonias de Thom, que canta consigo mesmo usando diferentes registros vocais) ao lado de guitarras r\u00edtmicas que apontam para o Talking Heads de \u201cSpeaking in Tongues\u201d (1983). \u00c9 uma pena que \u201cNo Words\u201d, mais tradicional em sua estrutura r\u00edtmica, n\u00e3o seja t\u00e3o marcante em uma primeira audi\u00e7\u00e3o. Longe de ser um dem\u00e9rito da faixa (principalmente em meio a um repert\u00f3rio como este), a can\u00e7\u00e3o acaba servindo de trampolim para a estupenda \u201cBodies Laughing\u201d, com linhas mel\u00f3dicas que remetem \u00e0 genialidade de \u201cKnives Out\u201d \u2013 longe de soar como pastiche ou c\u00f3pia \u2013 e o melhor exemplo do excelente trabalho de mixagem conduzido no \u00e1lbum. Mais do que a melhor m\u00fasica do disco, esta talvez j\u00e1 seja uma das melhores composi\u00e7\u00f5es a figurarem no songbook de uma banda ainda relativamente nova, mesmo que soe t\u00e3o familiar quanto se pode ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado final n\u00e3o surpreende, no melhor dos sentidos imagin\u00e1veis: alternando (poucos) momentos menos marcantes com (muitas) passagens que fazem por merecer o status de cl\u00e1ssico instant\u00e2neo, \u201c<a href=\"https:\/\/thesmile.x-l.co\/cutouts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cutouts<\/a>\u201d mostra, pela primeira vez, o The Smile se sentindo plenamente confort\u00e1vel com sua exist\u00eancia frente ao legado da lend\u00e1ria banda que sucedeu, tempor\u00e1ria ou definitivamente. Demonstrando refinamento, o trio Yorke-Greenwood-Skinner deixa a musicalidade fluir sem amarras, demonstrando assim a maturidade que somente aqueles dispostos a aceitar o pr\u00f3prio passado, mesmo que bebendo de outras fontes, s\u00e3o capazes de mostrar. Transit\u00f3rio ou n\u00e3o, os esfor\u00e7os do trio j\u00e1 s\u00e3o mais do que recompensadores. Onde quer que estejam, Ed O\u2019Brien e Phil Selway podem seguir vertendo l\u00e1grimas, mas com certeza eles mesmos n\u00e3o estar\u00e3o imunes a alta dose de orgulho que um disco como \u201cCutouts\u201d \u00e9 capaz de aflorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ou\u00e7a o disco na integra abaixo!<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Smile - Foreign Spies (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UHkZ5YzJYvI?list=OLAK5uy_lws0_jZuiAHzp0y23p-bP5szyqMte-x7Y\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Onde quer que estejam, Ed O\u2019Brien e Phil Selway podem seguir vertendo l\u00e1grimas, mas com certeza eles mesmos n\u00e3o estar\u00e3o imunes a alta dose de orgulho que um disco como \u201cCutouts\u201d \u00e9 capaz de aflorar.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/04\/critica-em-cutouts-o-radiohead-que-existe-dentro-do-the-smile-toma-a-dianteira-com-otimos-resultados\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":84178,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[341,5842,3299],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84176"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84188,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84176\/revisions\/84188"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}