{"id":84129,"date":"2024-10-03T00:01:00","date_gmt":"2024-10-03T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84129"},"modified":"2024-11-05T00:18:50","modified_gmt":"2024-11-05T03:18:50","slug":"entrevista-intrigante-provocativa-e-nao-convencional-a-displicina-fala-sobre-seu-primeiro-album-as-nupcias-osseas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/03\/entrevista-intrigante-provocativa-e-nao-convencional-a-displicina-fala-sobre-seu-primeiro-album-as-nupcias-osseas\/","title":{"rendered":"Entrevista: Intrigante, provocativa e n\u00e3o-convencional, a Displicina fala sobre seu primeiro \u00e1lbum, \u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intrigante, provocativa e n\u00e3o-convencional, a banda Displicina chega ao seu primeiro disco, \u201c<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/asnupciasosseas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">As N\u00fapcias \u00d3sseas<\/a>\u201d (2024), ap\u00f3s dois EPs lan\u00e7ados em 2023 (\u201cSmells Like 2013 Spirit\u201d e \u201cOs bones do of\u00edcio (que M\u00e1rio)\u201d) apostando na jun\u00e7\u00e3o de elementos ligados ao experimentalismo, ao noise, ao post-punk e ao avant-garde, criando um som denso, dissonante e atmosf\u00e9rico cujas letras s\u00e3o carregadas de refer\u00eancias \u00e0 cultura pop, ao universo do cinema e da literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capitaneado pelo jornalista, produtor, escritor, curador e pesquisador Alex Antunes e pelo tamb\u00e9m produtor e musicista Fernando Bones ao lado de Giovanna Mota, Itamar Alves e Lola James, \u201c<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/asnupciasosseas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">As N\u00fapcias \u00d3sseas<\/a>\u201d (2024) conta ainda com as participa\u00e7\u00f5es de Jorge Pescara (baixo), Lello Bezerra (guitar loop), Akira S (programa\u00e7\u00f5es), Alexandre Diniz (bateria) e os vocais de Luciana Mancini e Lorenzo Sevieri al\u00e9m o dramaturgo Leo Lama \u2013 e interven\u00e7\u00f5es sampleadas de Joseph Campbell, John Balance&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esp\u00e9cie de \u00e1lbum conceitual em que o tema da morte \u2013 e dos estados entre a vida e a morte \u2013 povoa as letras, em &#8220;<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/asnupciasosseas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">As N\u00fapcias \u00d3sseas<\/a>\u201d o grupo segue mantendo em voga os pilares de sua musicalidade torta unindo \u201cesquisitices sonoras + grooves noiados\u201d. Na conversa abaixo, Alex Antunes e Fernando Bones falam das origens do projeto, o processo de forma\u00e7\u00e3o do grupo, o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o do disco de estreia, inten\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, refer\u00eancias culturais, participa\u00e7\u00f5es especiais, planos futuros e mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"As N\u00fapcias \u00d3sseas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kV1PR3gVuuCqHrZy2SKbpJKwOGNaIkHEI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Umas das coisas mais interessantes em rela\u00e7\u00e3o a banda \u00e9 o nome, genial, pois ele consegue transmitir a ess\u00eancia displicente do grupo. Como voc\u00eas chegaram a ele?<\/strong><br \/>\nFernando Bones: Quando as conversas sobre a banda come\u00e7aram, o Alex trouxe uma proposta de capa pro primeiro single (que nem existia ainda) escrito &#8220;displicina&#8221; e eu falei: &#8220;Pera\u00ed, Displicina tem que ser o nome da banda, n\u00e3o do single! \u00c9 o melhor nome de banda do mundo!&#8221;. A partir da\u00ed surgiu o conceito que encapsula totalmente a alma do projeto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;O termo displicina \u2014 do latim: disciplina + displicentia \u2014 descreve um Fripp lesado (como ali\u00e1s essa parceria atual dele com a Toyah), ou a diverg\u00eancia de m\u00e9todo entre Cale (o severo) e Reed (o espontane\u00edsta) finalmente integrada&#8221; (JUNG, C.G.)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Antunes: O Carlos Castaneda chama de \u201cloucura controlada\u201d a atitude que consiste em reconhecer o ilus\u00f3rio, o arbitr\u00e1rio e a vacuidade de todas as coisas e, ao mesmo tempo, se manter em estado de presen\u00e7a e de aten\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de desprezo ou desespero. \u00c9 uma esp\u00e9cie de \u201cembuste ao contr\u00e1rio\u201d, ou \u201czumba niilismo\u201d. A arte, a entrega ao fluxo dionis\u00edaco, tem algo de paradoxal tamb\u00e9m: para sermos tocados por ele (e n\u00e3o toc\u00e1-lo, porque n\u00f3s \u00e9 que somos o instrumento), temos que experimentar ao mesmo tempo soltura e concentra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o veio essa coisa trickster de \u201cdisciplina + displic\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outro car\u00e1ter que chama aten\u00e7\u00e3o, de imediato, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do grupo. Um olhar atento \u00e0 ficha t\u00e9cnica permite perceber que cada um trouxe elementos distintos que, quando somados, criaram uma m\u00fasica de car\u00e1ter indescrit\u00edvel e estranha (no bom sentido da palavra). Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e quais os elementos foram fundamentais para que a qu\u00edmica entre voc\u00eas acontecesse?<\/strong><br \/>\nFernando Bones: A aproxima\u00e7\u00e3o se deu basicamente pelo grupo Death Disco Machine <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/528452067220756\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que o Alex mant\u00e9m no Facebook<\/a> e \u00e9 o grupo de (e n\u00e3o s\u00f3 de) m\u00fasica mais legal que se tem not\u00edcia. Um o\u00e1sis de gente esquisita, inteligente, interessante e, mais importante, que pensa de forma n\u00e3o-linear\/bin\u00e1ria e n\u00e3o se leva a s\u00e9rio. A galera do fund\u00e3o mais nerd de todos os tempos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Antunes: O meu trabalho anterior mais conhecido, o Akira S &amp; As Garotas Que Erraram (a notar que fui eu que criei o nome, e me chamei de \u201cas garotas\u201d, visto que \u00e9ramos um duo, e o Akira era o Akira \ud83d\ude00 ), tinha esse fundamento da combina\u00e7\u00e3o do groove e do canto falado, no limite do spoken word. O Death Disco Machine \u00e9 o nome do grupo do Facebook, mas acabou tamb\u00e9m por nomear um coletivo musical. Para mim, o Displicina converge mais ainda nessas est\u00e9ticas e \u00e9ticas de produ\u00e7\u00e3o. No tempo do Akira S, havia uma divis\u00e3o muito clara entre as \u201cdiretorias\u201d: Akira e a m\u00fasica, eu e as letras. Ao trabalhar ao longo dos anos como produtor, <a href=\"https:\/\/ultragashrecords.bandcamp.com\/album\/alex-antunes-death-disco-machine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">inclusive no disco do Death Disco Machine<\/a>, acabei por encontrar o Bones, que \u00e9 um baixista\/compositor que tamb\u00e9m \u00e9 letrista e vocalista, o que gera uma din\u00e2mica bem legal. Os outros membros do grupo aparecem em atividades variadas \u2013 a Giovanna, especificamente, cuida das artes visuais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Akira S &amp; as Garotas Que Erraram\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nbl5voifBAEcfTNHgHOcJr6WBvWUpnQFE\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d \u00e9 o primeiro \u00e1lbum cheio do grupo. Como se deu o processo de cria\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum e de que forma o novo repert\u00f3rio dialoga com os dois EPs anteriores?<\/strong><br \/>\nFernando Bones: O \u00e1lbum foi bem mais maturado que os lan\u00e7amentos anteriores. O primeiro EP ficou pronto em menos de um m\u00eas, fruto da enorme descarga de energia criativa acumulada. Depois, j\u00e1 come\u00e7amos a pensar no que viria a ser \u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d, mas algumas dificuldades pessoais impuseram um ritmo mais lento. O que acabou se mostrando uma coisa boa, pois o conceito se solidificou cada vez mais e o trabalho pode terminar mais consistente. Coagula mais a proposta est\u00e9tica: esquisitices sonoras + grooves noiados (ou: &#8220;um pouco de droga e um pouco de salada&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Antunes: O disco cheio come\u00e7ou a se formar em torno de um conceito que conectasse as m\u00fasicas \u201cganchudas\u201d e as interven\u00e7\u00f5es mais sinistras. Bones j\u00e1 escrevia m\u00fasicas com essa caracter\u00edstica: letras inquietantes em m\u00fasica dan\u00e7ante. \u201cAlmo\u00e7o nu\u201d j\u00e1 existia. \u201cOs bones do of\u00edcio (Que M\u00e1rio)\u201d surgiu inspirada no tema morte (que j\u00e1 estava presente na vinheta introdut\u00f3ria \u2013 e essa veio da minha gaveta de esbo\u00e7os). O t\u00edtulo \u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d ecoa o t\u00edtulo do livro \u201cAs N\u00fapcias Alqu\u00edmicas\u201d (de Christian Rozenkreuz, 1459), que trata da uni\u00e3o de opostos. O \u201c\u00f3sseo\u201d j\u00e1 estava nos codinomes dos membros, todos citando \u201cbones\u201d, ossos, inclusive o codinome do Bones que se chama Bones mesmo, e que portanto \u00e9 o Bonesbones. E a Rubedo Discos, do Bones, tamb\u00e9m j\u00e1 entregava desde antes o interesse dele em alquimia (rubedo \u00e9 o estado alqu\u00edmico final).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente o disco une elementos que v\u00e3o do rock industrial ao spoken word, de baixos estridentes \/ funkeados ao uso de colagens \/ samples. Quais s\u00e3o as refer\u00eancias musicais que nortearam a cria\u00e7\u00e3o do universo sonoro da Displicina?<\/strong><br \/>\nAlex Antunes: H\u00e1 uma conex\u00e3o com o p\u00f3s-punk mais experimental, onde conviveram influ\u00eancias que vinham do progressivo (igualmente do prog mais experimental, e n\u00e3o dos medalh\u00f5es), da eletr\u00f4nica, da black music (punk funk), algo do jazz (a no wave), e um componente que ent\u00e3o era novo, o da \u201cm\u00fasica industrial\u201d (que vinha de bandas inglesas herdeiras das vanguardas conceituais, como Throbbing Gristle e Cabaret Voltaire). Ent\u00e3o eu penso em grupos como o Shriekback do come\u00e7o (grande inspira\u00e7\u00e3o em alternar grooves ganchudos e climas esquisitos), Tuxedomoon, Clock DVA do come\u00e7o, e outros grupos p\u00f3s-punk mais obscuros. Outra refer\u00eancia forte para mim \u00e9 a spoken word com bases musicais, e as nossas vozes ainda dialogam com fragmentos falados de gente como Joseph Campbell, Laurie Anderson, Leonard Cohen num document\u00e1rio sobre a morte para os tibetanos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Bones: O fio condutor principal do universo sonoro do Displicina \u00e9, sem d\u00favida, o p\u00f3s-punk. Mas o p\u00f3s-punk \u00e9, ele mesmo, uma infinidade de coisas e \u00e9 dif\u00edcil elencar pontos focais muito distintos. Do meu ponto de vista, nossa identidade vem muito do equil\u00edbrio entre a mente ultra-intelectualizada do Alex e sua abordagem ca\u00f3tico-dada\u00edsta picotadora\/ colecionadora\/ montadora de samples e a minha, altamente bagaceira e orientada pelo groove em primeiro plano e uma l\u00f3gica mais &#8220;pop&#8221;. Da\u00ed voc\u00ea vai ter m\u00fasicas que v\u00e3o samplear desde falas do Tarkovsky a sopros de \u201cCareless Whisper\u201d, como se fosse a coisa mais normal do mundo, haha\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As letras rendem um cap\u00edtulo \u00e0 parte, pois o \u00e1lbum tem em si uma carga conceitual (em ode \u00e0 morte) e \u00e9 repleto de refer\u00eancias liter\u00e1rias, cinematogr\u00e1ficas e musicais. Quem foram os artistas que fizeram a cabe\u00e7a do grupo quanto a este quesito?<\/strong><br \/>\nAlex Antunes Gosto de artistas que foram filhotes das vanguardas do s\u00e9culo passado. Artistas que est\u00e3o interessados em todas as linguagens, incluindo, claro, literatura, cinema, temas m\u00e1gicos e filos\u00f3ficos. No caso deste disco, parece que o cinema falou forte. Al\u00e9m dos p\u00f3s-punk citados, minha tr\u00edade de mentores musicais \u00e9 Robert Fripp \u2013 Miles Davis \u2013 John Cale.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Bones: Talvez o maior influenciador, mesmo que indireto, seja William S. Burroughs e o conceito de &#8220;o operador&#8221;: uma figura, geralmente oculta, que exerce influ\u00eancia sobre indiv\u00edduos e os grupos. Esse conceito est\u00e1 presente na cut-up technique, forma experimental de escrita e de grava\u00e7\u00e3o criada por ele e Brion Gysin, cortando um texto em peda\u00e7os e reorganizando aleatoriamente para revelar significados ocultos\/inconscientes. O Burroughs falava em desistir conscientemente do controle da sua escrita e \u201centregar a um operador oculto\u201d o resultado. Durante a composi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, &#8220;o operador&#8221; esteve presente, tanto na cria\u00e7\u00e3o das letras, como na pr\u00f3pria &#8220;Almo\u00e7o nu&#8221;, cujo t\u00edtulo \u00e9 um dos grandes livros de Burroughs, mas no processo como um todo. Em v\u00e1rios momentos nossas escolhas foram baseadas em &#8220;a\u00e7\u00f5es&#8221; do operador; frases como &#8220;o operador prover\u00e1&#8221; aparecem em v\u00e1rias das conversas que tivemos durante o processo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_84134\" aria-describedby=\"caption-attachment-84134\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-84134 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/displicina2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/displicina2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/displicina2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/displicina2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84134\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa de &#8220;As N\u200b\u00fa\u200bpcias \u00d3sseas&#8221;, do Displicina<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para al\u00e9m do grupo, \u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d \u00e9 repleto de participa\u00e7\u00f5es especais. Como se deu o convite para os participantes e quais as contribui\u00e7\u00f5es eles trouxeram para o resultado final?<\/strong><br \/>\nAlex Antunes: O baixo do Pescara, um fretless com cordas duplas, vem das sess\u00f5es do disco anterior do Death Disco Machine, em que eu estava focado em colabora\u00e7\u00f5es com v\u00e1rios baixistas: Pescara, Fernando Savaglia, Du Moreira, Rodrigo Gobbet, Akira S no stick. Isso foi antes do trabalho com o Bones. Funcionou bem para o clima intrigante da vinheta de abertura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A programa\u00e7\u00e3o do Akira vem das profundezas do tempo, dos arquivos do Akira S &amp; As Garotas Que Erraram. Sempre fui obcecado com esse timbre (era uma pe\u00e7a \u00fanica, que foi picada nas vinhetas atuais). Salvo engano, essa pe\u00e7a s\u00f3 foi tocada ao vivo uma vez, como introdu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da banda num show em est\u00e1dio da R\u00e1dio Fluminense, a Maldita, ainda na d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O loop de guitarra do Lello Bezerra \u00e9 de uma performance que ele fez com um dan\u00e7arino, e postou o trecho nas redes. Achei que sustentava bem o clima aflitivo que d\u00e1 base para o spoken word (baseado numa postagem) do dramaturgo Leo Lama. Leo gravou seu texto a pedido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Luciana \u00e9 a voz e o texto de abertura tamb\u00e9m do DDM, cujas vinhetas abordam muito o feminino. E tem um sample da voz dela no disco de Lelo Naz\u00e1rio + MARV (MARV \u00e9 um quarteto com a minha participa\u00e7\u00e3o), o \u201cRess\u00edntese\u201d. Quando pensamos em inserir um \u201crap\u201d (uma passagem em spoken word) em \u201cAlmo\u00e7o Nu\u201d, pedir para ela dizer foi org\u00e2nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra participa\u00e7\u00e3o vocal central \u00e9 a do Airton S., do Plastique Noir. O Airton posta an\u00e1lises de assuntos m\u00e1gicos, de que ele \u00e9 um estudioso aprofundado. A ideia de usar suas falas sobre Oppenheimer e a destrui\u00e7\u00e3o mortal veio junto com o conceito do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Bones: Nosso amigo, o fot\u00f3grafo Lorenzo Sevieri, foi uma ideia do Itamar Alves para a voz em italiano: o texto foi baseado numa letra em ingl\u00eas dos in\u00edcios do grupo Tuxedomoon, nunca gravada em est\u00fadio, em homenagem a Pasolini \u2013 \u00e9 uma letra sobre rela\u00e7\u00f5es gay masculinas. A letra foi traduzida por Itamar, reescrita por Alex e depois retraduzida para o italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Alexandre Diniz \u00e9 baterista da RU NA, banda da qual eu produzi recentemente o primeiro EP, \u201cHeliades\u201d, de onde tirei o sample que se encaixou como uma luva numa linha de baixo minha de 2006 (!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o diferentes backgrounds e inten\u00e7\u00f5es envolvidos, mas nos parece que o disco absorveu e digeriu de uma maneira bem org\u00e2nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Num mundo no qual as pessoas (e porque n\u00e3o dizer os artistas) almejam estrategicamente se encaixar ou fazer parte de um determinado grupo como voc\u00eas descreveriam a m\u00fasica da Displicina? E ainda: quais as inten\u00e7\u00f5es voc\u00eas alimentam para com o novo disco?<\/strong><br \/>\nFernando Bones: Acho que a m\u00fasica do Displicina pode ser descrita como &#8220;e se George Clinton e Stockhausen tivessem um filho que fumasse crack?&#8221;. \u00c9 o mais pr\u00f3ximo que eu consigo imaginar de uma defini\u00e7\u00e3o, haha&#8230; Mas mais do que defini\u00e7\u00f5es, acho que o nosso intuito principal \u00e9 fazer m\u00fasica que seja densa, mas ao mesmo tempo divertida e intrigante, fora da l\u00f3gica imediatista\/pornogr\u00e1fica do mundo das redes. O Alex disse certa vez: &#8220;eu diria que tem algo acontecendo no mundo e que estamos caminhando na contram\u00e3o&#8221; e \u00e9 bem por a\u00ed. E acaba que as inten\u00e7\u00f5es com o disco se confundem com essa ideia: abrir um buraco na &#8220;realidade compartilhada&#8221; para que outras formas de ver a vida (e a morte) possam passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Antunes: Acho que \u00e9 fazer precisamente o trajeto oposto de \u201cse encaixar\u201d: o que precisa ser dito raramente \u00e9 o que o p\u00fablico \u2013 e o mundo \u2013 acha que precisa. \u00c9 algo que o mundo \u2013 e o p\u00fablico \u2013 n\u00e3o reconhecem, porque n\u00e3o traz o conforto das coisas conhecidas. Quer dizer, claro que o groove \u00e9 conhecido, mas por que n\u00e3o o groove como ve\u00edculo de ideias inquietantes? O Miles definiu o seu disco mais provocativo, o \u201cOn The Corner\u201d (1972), como um choque entre Stockhausen e Sly Stone \u2013 assim como o Duran Duran queria ser a jun\u00e7\u00e3o de Sex Pistols com Chic \u2013 que por seu turno, queria ser funk com Roxy Music. E o Akira S queria ser Duran Duran com os discotronics do Fripp \u2013 que eram os frippertronics com disco music. \u00c9 sempre sobre manipular os curto-circuitos entre mente e bunda. O George Clinton sugeria libertar a mente para a bunda segui-la. Mas, como estamos numa \u00e9poca em que a mente est\u00e1 totalmente capturada, ent\u00e3o a ocupa\u00e7\u00e3o tem que come\u00e7ar pela bunda mesmo (ops).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, com o \u00e1lbum novo na pra\u00e7a quais s\u00e3o os planos futuros do grupo?<\/strong><br \/>\nAlex Antunes: Mais um EP ainda este ano? Tem umas faixas correndo por fora do que deve ser o pr\u00f3ximo \u00e1lbum. J\u00e1 temos show de lan\u00e7amento marcado em S\u00e3o Paulo, s\u00f3 n\u00e3o sei se ainda no final de 2024 ou no come\u00e7o do ano que vem. E provavelmente um DispliFest, um encontro m\u00e1gico-liter\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Bones: O passo natural \u00e9 fazermos um show de lan\u00e7amento, mas a configura\u00e7\u00e3o interestadual da banda pede certas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. E vamos seguir promovendo o disco com mais material audiovisual, merch, turn\u00eas, quem sabe? E enquanto isso, j\u00e1 irmos trabalhando no pr\u00f3ximo \u00e1lbum cujo conceito j\u00e1 existe: putaria m\u00edstica. \ud83d\ude00<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eu Sei o Que Voc\u00eas Fizeram No Outono \/ Inverno de 2013\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p0FHudv56LE?list=OLAK5uy_mUdkU78BbrcgRM9c5UqftiNR2OFZRp090\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Straight To R\u00e9u\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8gDHG1r173o?list=OLAK5uy_llJZeTfH_VzYzIz3WVpMd6puUbZGnEcWM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. Escreve tamb\u00e9m no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phono.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.phono.com.br<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Intrigante, provocativa e n\u00e3o-convencional, a banda Displicina chega ao seu primeiro disco, \u201cAs N\u00fapcias \u00d3sseas\u201d (2024), ap\u00f3s dois EPs (\u201cSmells Like 2013 Spirit\u201d e \u201cOs bones do of\u00edcio (que M\u00e1rio)\u201d)&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/03\/entrevista-intrigante-provocativa-e-nao-convencional-a-displicina-fala-sobre-seu-primeiro-album-as-nupcias-osseas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":84133,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7376],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84129"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84129"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84129\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84175,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84129\/revisions\/84175"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}