{"id":83983,"date":"2024-09-28T11:02:03","date_gmt":"2024-09-28T14:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=83983"},"modified":"2024-10-18T00:56:11","modified_gmt":"2024-10-18T03:56:11","slug":"entrevista-caio-resende-co-diretor-de-dois-sertoes-fala-sobre-o-mergulho-filosofico-na-obra-de-geraldo-sarno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/28\/entrevista-caio-resende-co-diretor-de-dois-sertoes-fala-sobre-o-mergulho-filosofico-na-obra-de-geraldo-sarno\/","title":{"rendered":"Entrevista: Caio Resende, co-diretor de &#8220;Dois Sert\u00f5es&#8221;, fala sobre o mergulho filos\u00f3fico na obra de Geraldo Sarno"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2020, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/26\/homenagem-o-cineasta-geraldo-sarno-1938-2022-em-uma-entrevista-sobre-seu-ultimo-filme-sertania-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o cineasta Geraldo Sarno lan\u00e7ou aquele que seria seu \u00faltimo filme<\/a>, \u201cSert\u00e2nia\u201d, uma saga ao mesmo tempo sanguinolenta e filos\u00f3fica sobre a trajet\u00f3ria de um jovem que escapa do massacre de Canudos e se torna, ap\u00f3s ser levado para o sudeste, um militar. Ao retornar ao sert\u00e3o nordestino, se une a um grupo de cangaceiros. Situado entre os del\u00edrios da passagem entre a vida e morte do menino \u00f3rf\u00e3o e o, agora homem, moribundo jagun\u00e7o, \u201cSert\u00e2nia\u201d traz nesse rapaz, Ant\u00e3o, a trajet\u00f3ria do viramundo, marcante personagem central da filmografia de Sarno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selecionado para <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/26\/entrevista-a-mostra-cine-bh-nasceu-em-2007-para-ser-o-evento-internacional-de-cinema-da-capital-mineira-diz-raquel-hallak\/\">a edi\u00e7\u00e3o 2024 da Mostra CineBH<\/a>, \u201cDois Sert\u00f5es\u201d, filme dos diretores Caio Resende e Fabiana Leite, aborda n\u00e3o somente a constru\u00e7\u00e3o da obra-prima final de Geraldo Sarno, mas se torna uma an\u00e1lise da trajet\u00f3ria do diretor oriundo de Po\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio olhar f\u00edlmico e filos\u00f3fico. No document\u00e1rio, vemos o realizador falar sobre as influ\u00eancias da filosofia de Bergson e Nietzsche em sua vida e obra e, nessa reflex\u00e3o, pensamos em como \u201cSert\u00e2nia\u201d, com sua exuber\u00e2ncia imag\u00e9tica e narrativa, reflete essa sua liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas conversas com o cineasta, Caio Resende p\u00f4de comprovar essa rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca e, em entrevista ao Scream &amp; Yell, aprofunda essa an\u00e1lise. &#8220;Em \u2018Sert\u00e2nia\u2019 temos uma presen\u00e7a muito marcante das filosofias de Bergson e Nietzsche e, n\u00e3o de forma menor, tamb\u00e9m do pensamento de Deleuze. (..) Temos uma personagem incapaz de agir diante das situa\u00e7\u00f5es nas quais se insere. O Gavi\u00e3o n\u00e3o age, ele \u00e9 um cangaceiro afamado \u2013 muito conhecido por sua valentia \u2013, mas ele n\u00e3o consegue agir, ele est\u00e1 ferido e se depara a todo momento com o intoler\u00e1vel. \u00c9 o que Deleuze chamaria de colapso do sens\u00f3rio-motor. E esse colapso \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es para um cinema de vid\u00eancia como \u00e9 o caso do filme de Geraldo Sarno&#8221;, explica Resende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, voc\u00ea l\u00ea a integra da entrevista.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TEASER DOIS SERT\u00d5ES\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lVc62EpIfZc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cDois Sert\u00f5es\u201d traz muito da reflex\u00e3o de Geraldo Sarno acerca de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Isso se percebe nas conversas captadas com ele, nos quais s\u00e3o explicados os modos de cria\u00e7\u00e3o narrativa envolvendo o encontro entre suas vers\u00f5es infantil, adolescente, adulto e idoso. Ao trazer essa estrutura narrativa para o filme, abordando esse aspecto em conversas, isso gerou uma introspec\u00e7\u00e3o para ele? Como foi abrir esse leque de reflex\u00f5es?<\/strong><br \/>\nEsses trechos do filme datam de um momento em que a pr\u00f3pria possibilidade de se realizar esse filme era muito vaga. Ent\u00e3o, eu diria que esses trechos gravados de nossas conversas em torno do trabalho passavam muito por um lugar de troca. Esses assuntos foram aparecendo de forma espont\u00e2nea por parte dos dois. Est\u00e1vamos trabalhando e nos relacionando. A c\u00e2mera estava ali, mas n\u00e3o era o foco. Evidentemente, eu disse coisas sobre mim que n\u00e3o foram pertinentes para o filme e que, por isso, ficaram de fora. \u00c9ramos dois amigos se conhecendo, perseguindo um filme, abrindo a pr\u00f3pria vida um para o outro. Ent\u00e3o, sim, havia introspec\u00e7\u00e3o, e abrir esse leque de reflex\u00f5es foi algo da ordem da naturalidade, dada a natureza do nosso encontro. Entretanto, a rela\u00e7\u00e3o entre o passado e o presente, entre o velho e o menino s\u00f3 se fez perceber na montagem, quando da partida do Geraldo. Foi s\u00f3 a\u00ed que partimos na dire\u00e7\u00e3o de outra concep\u00e7\u00e3o f\u00edlmica, nos distanciando do roteiro original. Ali, aos poucos, se desvelou essa narrativa, essa busca do pr\u00f3prio Geraldo pelo menino que foi, presente j\u00e1 como elemento na sua s\u00e9rie \u201cSert\u00e3o de Dentro\u201d. Esta rela\u00e7\u00e3o entre o velho e o menino ser\u00e1, ent\u00e3o, um elemento central da narrativa do nosso document\u00e1rio. E mesmo o t\u00edtulo, que pode indicar diversas leituras, pode tamb\u00e9m traduzir essa busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme traz a cria\u00e7\u00e3o da obra-prima \u201cSert\u00e2nia\u201d e a percep\u00e7\u00e3o de que, por mais que queiramos romantizar o fazer cinematogr\u00e1fico, a labuta do set pode ser extenuante. Isso se percebe quando ele desabafa em certo momento ao falar sobre o modo como as demandas e decis\u00f5es recaem sobre ele. Como voc\u00eas lidaram com esses momentos de tens\u00e3o junto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEm nosso filme, os problemas que surgiram n\u00e3o estavam necessariamente ligados ao set de filmagens. Isso nem sempre acontece, mas como se tratava de um document\u00e1rio e como era uma equipe reduzida, a rela\u00e7\u00e3o entre todos se deu com certa tranquilidade. Ainda assim, tivemos muitos problemas e buscamos lidar com eles de forma transparente, colocando as quest\u00f5es que precis\u00e1vamos colocar, deixando claros os motivos que moviam a alma do filme. Mas, de fato, a cena de tens\u00e3o em que Geraldo desabafa comigo e discute com a produtora do seu filme (e que veio tamb\u00e9m a assinar a dire\u00e7\u00e3o executiva do nosso filme), Gorette Randam, nos pareceu fundamental, quando do processo de montagem, justamente por deixar entrever os conflitos presentes num set de cinema. Esta cena foi tamb\u00e9m muito defendida pela codiretora pela perspectiva de g\u00eanero presente nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos papos com Geraldo, como espectadores, somos levados a testemunhar suas influ\u00eancias filos\u00f3ficas oriundas de Nietzsche e Bergson. Nesses momentos, \u00e9 bem percept\u00edvel a profundidade de seu conhecimento e como isso influencia sua obra. Essa influ\u00eancia, principalmente a advinda dos escritos de Bergson, se faz presente de modo palp\u00e1vel em \u201cSert\u00e2nia\u201d, filme que traz tantos paralelos relacionados com a consci\u00eancia, a mem\u00f3ria e a mat\u00e9ria. Ao criar a estrutura narrativa de \u201cDois Sert\u00f5es\u201d, esse aprofundamento filos\u00f3fico da obra de Sarno espelhou de alguma maneira o trabalho de voc\u00eas, seja na dire\u00e7\u00e3o ou na montagem, para levar uma reflex\u00e3o semelhante ao p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nSim, em \u201cSert\u00e2nia\u201d temos uma presen\u00e7a muito marcante das filosofias de Bergson e Nietzsche e, n\u00e3o de forma menor, tamb\u00e9m do pensamento de Deleuze. Se fosse para dizer o \u201cSert\u00e2nia\u201d em termos deleuzianos, diria que ele traz em si a marca das imagens-tempo. Explico: em \u201cSert\u00e2nia\u201d, temos uma personagem incapaz de agir diante das situa\u00e7\u00f5es nas quais se insere. O Gavi\u00e3o n\u00e3o age, ele \u00e9 um cangaceiro afamado \u2013 muito conhecido por sua valentia \u2013, mas ele n\u00e3o consegue agir, ele est\u00e1 ferido e se depara a todo momento com o intoler\u00e1vel. \u00c9 o que Deleuze chamaria de colapso do sens\u00f3rio-motor. E esse colapso \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es para um cinema de vid\u00eancia como \u00e9 o caso do filme \u201cSert\u00e2nia.\u201d Podemos ver isso no Neorrealismo: impossibilitadas de agir diante da realidade que as cerca, as personagens neorrealistas se deparam com situa\u00e7\u00f5es \u00f3ticas e sonoras puras, que extravasam qualquer possibilidade de resposta motora. O est\u00edmulo n\u00e3o se prolonga mais em resposta. N\u00e3o h\u00e1 actantes. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para o h\u00e1bito. Temos diante de n\u00f3s personagens que vagueiam, entre a vertigem e o sonho, a caminho de nenhum lugar, em face de uma realidade que se faz de muitas formas intoler\u00e1vel, pela beleza ou pelo terror. \u00c9 o que vemos em \u201cStromboli\u201d (1950), de Rossellini, quando Karen, interpretada por Ingrid Bergman, mergulha em um del\u00edrio de beleza, diante do terr\u00edvel e inevit\u00e1vel vulc\u00e3o prestes a explodir. O mesmo acontece com o Gavi\u00e3o de \u201cSert\u00e2nia\u201d, as situa\u00e7\u00f5es em que ele se encontra, de muitas formas, extrapolam as suas possibilidades de a\u00e7\u00e3o. E temos esse mergulho no tempo em que ele tenta a todo custo encontrar a figura do pai. Todavia, como em Bergson, entramos na seara de uma mem\u00f3ria c\u00f3smica e impessoal, e o que vemos desabrochar da tela \u00e9 o passado do pr\u00f3prio Brasil. Contudo, o Geraldo vai al\u00e9m, pois n\u00e3o s\u00f3 a personagem tem seu aparelho sens\u00f3rio-motor danificado. O mesmo acontece com o pr\u00f3prio dispositivo cinematogr\u00e1fico, que racha e revela a equipe, o extracampo. O set se engasga e vemos com isso o desfile das imagens-lembran\u00e7a de outros filmes, como se o pr\u00f3prio cinema tamb\u00e9m fosse uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria universal. De alguma maneira, isso me diz que \u00e9 necess\u00e1rio encontrar, tamb\u00e9m, algo de intoler\u00e1vel no fazer cinematogr\u00e1fico, seja uma beleza capaz de nos lan\u00e7ar numa dire\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, seja a dor e a alegria de resistir e insistir em fazer cinema nas periferias do mundo, sem seguir o itiner\u00e1rio est\u00e9tico dominante. N\u00e3o por acaso Geraldo ter dito tantas vezes que \u201cSert\u00e2nia\u201d era um filme sobre o olhar, porque \u00e9 esse colapso que nos remete ao tempo, nos arrancando dos clich\u00eas do cinema e nos lan\u00e7ando na vertigem, como videntes de um mundo outro, que subjaz sobre o v\u00e9u das conven\u00e7\u00f5es. Entre eu e Geraldo, a filosofia sempre foi uma ponte, um propulsor, o combust\u00edvel de muitas conversas. Ent\u00e3o, sim, foi inevit\u00e1vel que isso repercutisse, de alguma forma, em nosso \u201cDois Sert\u00f5es\u201d. Porque esse filme \u00e9 uma carta de despedida e, como tal, em todo ele est\u00e1 a presen\u00e7a de nossas conversas, que s\u00e3o algumas de nossas melhores lembran\u00e7as. Como em Bergson, a todo momento esse filme diz isso: o passado n\u00e3o foi, o passado \u00e9. \u00c9 tamb\u00e9m por isso que \u201cDois Sert\u00f5es\u201d traz um Geraldo velho e um Geraldo menino. Por essa raz\u00e3o, tudo isso segue em mim, mesmo agora enquanto respondo sua pergunta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83987\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1502\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-scaled.jpg 2560w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-300x176.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-1536x901.jpg 1536w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-2048x1201.jpg 2048w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cena-de-Dois-Sertoes-copiar-752x440.jpg 752w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No filme, Geraldo fala sobre como saiu de Po\u00e7\u00f5es aos dez anos e caiu no mundo, deixando ra\u00edzes para tr\u00e1s e perdendo aquela sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento. At\u00e9 mesmo a ideia de lar, de ter uma casa, n\u00e3o mais fazia parte de sua natureza. Corta para alguns anos depois, e seu primeiro filme \u00e9 justamente &#8220;Viramundo&#8221; (1965), que aborda essa busca do povo brasileiro por um local onde possa viver com dignidade. Encontrar com o cineasta j\u00e1 como algu\u00e9m estabelecido, ainda ativo em seu trabalho como diretor, e abordando de certa maneira esse mergulho em sua hist\u00f3ria de vida, de algu\u00e9m cuja \u00fanica amarra foi o audiovisual, serviu de que maneira na cria\u00e7\u00e3o de \u201cDois Sert\u00f5es\u201d?<\/strong><br \/>\nOlhando hoje, penso que toda a trajet\u00f3ria do Geraldo foi um retorno para essa casa chamada Sert\u00e3o. E isso se deu de diversos modos em sua trajet\u00f3ria cinematogr\u00e1fica: \u201cViramundo\u201d (1965), \u00e0 sua maneira e em alguma medida, \u00e9 isso. O sertanejo daquele momento hist\u00f3rico, muitas vezes, ia para as grandes cidades a contragosto, ia para poder voltar, ter seu peda\u00e7o de terra, criar condi\u00e7\u00f5es para ficar. Em muitos casos, o que existia no fundo desses movimentos migrat\u00f3rios era uma ida que j\u00e1 nascia como desejo de retorno. Geraldo, por toda sua vida, voltou para o Sert\u00e3o. E se olhamos com aten\u00e7\u00e3o as suas duas \u00faltimas obras, isso tamb\u00e9m se faz presente. Em \u201cSert\u00e3o de Dentro\u201d (2017) a busca dessa imagem do Sert\u00e3o \u00e9 interior, fato que, de alguma maneira, elide a rela\u00e7\u00e3o entre sujeito (cineasta) e objeto (Sert\u00e3o), criando uma zona de indiscernibilidade entre os dois, na medida em que o Sert\u00e3o passa a figurar como uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica. J\u00e1 em \u201cSert\u00e2nia\u201d (2021), o que temos \u00e9 uma perspectiva tr\u00e1gica: \u00e9 in\u00fatil buscar esse Sert\u00e3o fora da gente, porque essa casa pregressa j\u00e1 n\u00e3o existe e o esfor\u00e7o de voltar \u00e9, na verdade, um esfor\u00e7o de ir na dire\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o se conhece. Isso est\u00e1 na base do nosso filme, porque temos, de um lado, o Geraldo com sua crian\u00e7a interior presentificada e, de outro, esse fora da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica dele que, mesmo depois de uma longa trajet\u00f3ria, continuou sendo uma aventura tr\u00e1gica que tinha como norte o desconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/26\/homenagem-o-cineasta-geraldo-sarno-1938-2022-em-uma-entrevista-sobre-seu-ultimo-filme-sertania-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em uma entrevista que fiz com ele em 2020<\/a>, falamos sobre esse modo de fazer cinema no qual ele, mesmo j\u00e1 tendo a possibilidade, preferia n\u00e3o assistir ao que j\u00e1 foi captado at\u00e9 que j\u00e1 estivesse na montagem. Como essa maneira de levar sua labuta impactou voc\u00eas dois na cria\u00e7\u00e3o de \u201cDois Sert\u00f5es\u201d?<\/strong><br \/>\nGeraldo foi um mestre do cinema. O dom\u00ednio que ele tinha dentro do set era algo de admir\u00e1vel. Sua seriedade e seu olhar agudo e atento aos m\u00ednimos detalhes permitiam que ele, mesmo em face do acaso, conseguisse tirar do real aquilo de que necessitava. Geraldo dizia que, desde sempre, seu objetivo era filmar como faz o cantador, filmar de improviso, atento \u00e0 vida que acontece diante da c\u00e2mera, aberto aos encontros que s\u00e3o, como nos diria Spinoza, aquilo que nos for\u00e7a a pensar. Todavia, no Geraldo, esse improviso n\u00e3o se dava de qualquer jeito, existia sempre, anterior ao per\u00edodo de filmagens, um longo trabalho de pesquisa, de aprofundamento e de inven\u00e7\u00e3o dos problemas a serem abordados na obra vindoura. Como na arte popular da cantoria, o improviso acontecia dentro de uma estrutura. O acaso e o caos eram bem-vindos, mas isso s\u00f3 acontecia sobre o estofo de uma sensibilidade trabalhada por um longo per\u00edodo de reflex\u00e3o. Eu diria que esse aspecto da labuta do Geraldo foi o que mais nos influenciou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na montagem do document\u00e1rio, \u00e9 percept\u00edvel uma op\u00e7\u00e3o de voc\u00eas em n\u00e3o utilizar o formato talkinghead de entrevistas, focando na fala do pr\u00f3prio Geraldo e na ideia de reflex\u00e3o sobre o nordeste em sua cultura popular. Voc\u00eas poderiam falar sobre como se deram essas escolhas?<\/strong><br \/>\nEsse document\u00e1rio passou por dois grandes momentos. Aquilo que pens\u00e1vamos antes da morte do Geraldo e aquilo a que fomos for\u00e7ados a pensar depois de sua partida. E embora o formato talkinghead nunca tivesse sido o caminho da nossa predile\u00e7\u00e3o, isso caiu por terra de vez com a mudan\u00e7a dr\u00e1stica que a partida do Geraldo nos levou a tomar. Com isso, passamos a buscar um filme mais vivo, com uma predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 cartografia, um desejo de ir junto, de criar um filme que se compusesse com os movimentos da experi\u00eancia, interiorizado a esses movimentos. N\u00e3o um filme que buscasse reconstituir o Geraldo a partir da fala de outras pessoas. N\u00e3o \u00e9 um filme que tenta trazer luz a uma certa imagem do Geraldo a partir daquilo que ele nunca foi, no caso, o olhar de cada um. Assim, ao inv\u00e9s de nos focarmos em instant\u00e2neos de um cineasta captados em depoimentos (formato talkinghead), escolhemos seguir o fluir do pr\u00f3prio Geraldo nessas conversas que tive com ele. Eu diria que foi um esfor\u00e7o intuitivo, que se distancia dos procedimentos da intelig\u00eancia que lida com as partes na tentativa de reconstituir ou explicar uma totalidade, qualquer que seja. Intuitivo, \u00e9 claro, no sentido bergsoniano, que distingue dois modos de conhecer: o da intelig\u00eancia que, como eu disse, tenta reconstituir o todo a partir de parcialidades, rodeando a realidade aferida; e oda intui\u00e7\u00e3o (palavra que deriva da palavra latina intuere, que quer dizer vis\u00e3o ou ver), que conhece por simpatia se interiorizando no movimento, conhecendo de dentro, sem media\u00e7\u00f5es externas. \u00c9 nessa visada que o filme se constitui a partir de um ato simples, qual seja o de fluir com e atrav\u00e9s das falas do pr\u00f3prio Geraldo. E a montagem teve um papel fundamental, seja pela for\u00e7a criativa de Renato Vallone, seja pela sensibilidade agu\u00e7ada da nossa co-diretora. O filme que tentei fazer junto aos meus amigos buscou de todas as formas poss\u00edveis ressoar com o fazer do pr\u00f3prio Geraldo. Afinal, \u00e9ramos todos, de algum modo, atravessados pela vida dele.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83988\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Geraldo-no-set-de-Sertania-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"1488\" height=\"872\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Geraldo-no-set-de-Sertania-copiar.jpg 1488w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Geraldo-no-set-de-Sertania-copiar-300x176.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Geraldo-no-set-de-Sertania-copiar-752x440.jpg 752w\" sizes=\"(max-width: 1488px) 100vw, 1488px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador. A foto que abre o texto \u00e9 de Leo Lara.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Selecionado para a edi\u00e7\u00e3o 2024 da Mostra CineBH, \u201cDois Sert\u00f5es\u201d se torna uma an\u00e1lise da trajet\u00f3ria do diretor Geraldo Sarno e de sua \u00faltima obra, &#8220;Sert\u00e2nia&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/28\/entrevista-caio-resende-co-diretor-de-dois-sertoes-fala-sobre-o-mergulho-filosofico-na-obra-de-geraldo-sarno\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":83989,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7370,3182],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83983"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83983"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83990,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83983\/revisions\/83990"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83989"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}