{"id":83838,"date":"2024-09-21T03:01:29","date_gmt":"2024-09-21T06:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=83838"},"modified":"2024-10-09T00:30:23","modified_gmt":"2024-10-09T03:30:23","slug":"cinema-quase-tudo-soa-artificial-em-prisao-nos-andes-de-felipe-carmona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/21\/cinema-quase-tudo-soa-artificial-em-prisao-nos-andes-de-felipe-carmona\/","title":{"rendered":"Cinema: Quase tudo soa artificial em &#8220;Pris\u00e3o nos Andes&#8221;, de Felipe Carmona"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83843\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/120x160-PRISAO-NOS-ANDES-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/120x160-PRISAO-NOS-ANDES-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/120x160-PRISAO-NOS-ANDES-copiar-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cinco milicos torturadores condenados pelos crimes cometidos durante a ditadura de Pinochet habitam uma faixa de terra designada a eles aos p\u00e9s da cordilheira. Nesse amplo espa\u00e7o, que mais parece um eco retiro, os encarcerados e os carcereiros vivem, dia ap\u00f3s dia, uma vida confort\u00e1vel at\u00e9 que um evento at\u00edpico transforma a din\u00e2mica mon\u00f3tona do ambiente. Quando um dos torturadores concede uma entrevista para a televis\u00e3o chilena, pouco cioso das consequ\u00eancias do seu discurso fascista, que exala nostalgia por uma \u00e9poca de intoler\u00e2ncia plena, interrompe-se o marasmo e instala-se a desconfian\u00e7a. Atos violentos e misteriosos s\u00e3o cometidos, passarinhos s\u00e3o enforcados, uma pessoa aparece morta. Medo e del\u00edrio nos Andes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de instigar curiosidade diante de sua premissa, logo percebe-se que &#8220;Pris\u00e3o nos Andes&#8221; (Penal Cordillera, 2023) \u00e9 uma obra que tem dificuldade para definir o seu tom, for\u00e7ando a barra para se encaixar na l\u00f3gica do thriller pol\u00edtico, ainda que esteja sempre muito ligado ao drama &#8211; uma hist\u00f3ria baseada em fatos reais &#8211; e se arrisque vez ou outra pelo sarcasmo. O grande problema \u00e9 que nenhuma dessas tr\u00eas abordagens \u00e9 bem trabalhada pelo roteiro ou pela dire\u00e7\u00e3o, ambas as fun\u00e7\u00f5es assinadas pelo estreante em longas-metragens Felipe Carmona.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83844\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_05-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_05-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_05-copiar-300x126.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O humor nunca pega, a viol\u00eancia nunca se materializa de fato, e quando h\u00e1 uma tentativa mais direta de se causar determinada emo\u00e7\u00e3o, como em uma das cenas derradeiras do filme, que registra os milicos em close, se lambuzando no banquete oferecido a eles, as escolhas formais s\u00f3 refor\u00e7am uma caricatura que, contraditoriamente, o diretor parece constantemente querer evitar. A compara\u00e7\u00e3o do filme com &#8220;Bom trabalho&#8221; (1999), da Claire Denis, feita pelo pr\u00f3prio diretor em entrevistas, s\u00f3 revela como n\u00e3o \u00e9 sempre que boas refer\u00eancias resultam em um grande filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos aspectos mais valiosos de &#8220;Pris\u00e3o nos Andes&#8221;, um tanto desperdi\u00e7ado, \u00e9 a ideia de que os militares condenados dominam psicologicamente os militares sentinelas. Durante os exerc\u00edcios f\u00edsicos matinais da tropa, quem d\u00e1 as ordens \u00e9 um dos condenados, munido de apito e autoritarismo (ecos de Sgt. Hartman), bufando frases motivacionais e anticomunistas. Para dar conta desta rela\u00e7\u00e3o com algum n\u00edvel de profundidade, o filme logo nos apresenta a Navarrete (Andrew Bargsted), respons\u00e1vel por traduzir de maneira mais concreta toda a sensa\u00e7\u00e3o de isolamento e inquietude pela qual passam todos os personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Navarrete \u00e9 o mais pr\u00f3ximo de uma ideia de protagonista que o filme consegue construir, pois \u00e9 a porta de entrada para o espectador no universo proposto &#8211; tanto o chileno quanto o espectador do mundo. O personagem serve aos generais assim como os demais soldados tamb\u00e9m o fazem: eles s\u00e3o faxineiros, cabeleireiros, limpadores de piscina, mordomos e cozinheiros. Por\u00e9m, Navarrete d\u00e1 um passo al\u00e9m e se envolve muito mais do que os outros, n\u00e3o por pena ou simpatia, mas quase por indu\u00e7\u00e3o, como se n\u00e3o houvesse mais nada a fazer al\u00e9m de se deixar seduzir pelos torturadores. A dire\u00e7\u00e3o de fotografia comp\u00f5e praticamente todas as cenas externas noturnas com um amarelo delirante, quase como se aquele local &#8211; a natureza, os animais, a magnitude da cordilheira &#8211; tivesse algo a ver com o del\u00edrio que assola a todos, enquanto que nas cenas internas privilegia o jogo de luz e sombras, registrando os personagens em contraluz, certamente a maneira mais comum de se traduzir em imagens um conflito moral. \u201cAlgum dia este pa\u00eds vai lhe agradecer\u201d, diz o filho de um dos generais, fotografado em meio \u00e0s sombras de um quarto mal iluminado. A frase busca retratar o momento atual do povo chileno, fragmentado e dividido entre aqueles que n\u00e3o toleram mais as desigualdades sociais e a impunidade, e os que perpetuam um &#8220;pinochetismo&#8221; perverso, ancorados em grupos de extrema-direita que perpetuam o autoritarismo e a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-83840\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_06-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_06-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PRISAO-NOS-ANDES_06-copiar-300x126.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trilha sonora original composta por Mari\u00e1 Portugal e o desenho de som criado por Daniel Turini (os brasileiros dominam o trabalho de som do filme chileno), contribuem muito para essa estiliza\u00e7\u00e3o. Patriotismos \u00e0 parte, a abordagem sonora \u00e9 a coisa mais interessante de &#8220;Pris\u00e3o nos Andes&#8221;, sobretudo porque \u00e9 ela que est\u00e1 comprometida em propor uma ideia menos quadrada dos eventos, mais livre em fun\u00e7\u00e3o de sua abordagem abstrata. Com frequ\u00eancia, a composi\u00e7\u00e3o das imagens caem em ciladas, ou pelo excesso de engajamento com o real ou pela vontade de estilizar ao m\u00e1ximo determinada situa\u00e7\u00e3o para fugir do compromisso hist\u00f3rico com os fatos pol\u00edticos. Neste sentido, um dos momentos mais marcantes \u00e9 aquele no qual o general &#8220;cossaco&#8221; relata ter encontrado, em sonho, seu \u00eddolo Pinochet. Carmona opta por encarar esse relato de maneira radical, traduzindo o sonho na forma de um filme silencioso, preto e branco, com direito a intert\u00edtulos e tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tipo de di\u00e1logo \u00e9 recorrente entre os generais. Em rompantes ufanistas, se vangloriam dos grandes feitos desempenhados por esportistas chilenos, e instigam uns aos outros a lembrarem qual atleta ganhou determinada medalha em certa competi\u00e7\u00e3o. A reincid\u00eancia dessa brincadeira, somada ao prazer dos homens em revisitar o passado e as ditas &#8220;gl\u00f3rias&#8221; de seu pa\u00eds s\u00f3 poderia mesmo ser um artif\u00edcio para reiterar o que j\u00e1 sabemos desde o in\u00edcio: em uma de suas \u00faltimas sequ\u00eancias, &#8220;Pris\u00e3o nos Andes&#8221; utiliza o mesmo padr\u00e3o de di\u00e1logo para que os torturadores verbalizem os crimes hediondos que cometeram; o recurso at\u00e9 poderia funcionar se n\u00e3o fosse t\u00e3o ordin\u00e1rio e filmado de forma t\u00e3o mec\u00e2nica. Ali\u00e1s, quase tudo soa artificial aqui, at\u00e9 mesmo quando ouvimos a seguinte frase: \u201cO dia em que deixarmos de cuidar deste pa\u00eds, isso aqui vai ficar cheio de negros, de traficantes, de bichas, de terroristas. Guardem as minhas palavras.&#8221; Apesar de inflamada, revoltante, falta peso a este e a todos os outros momentos do filme. Nem mesmo a op\u00e7\u00e3o por subir os cr\u00e9ditos finais citando T. S. Eliot (&#8220;The Waste Land&#8221;) foi capaz de salv\u00e1-lo da superficialidade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PRIS\u00c3O NOS ANDES | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fLT4P5LvTWI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A compara\u00e7\u00e3o do filme com &#8220;Bom trabalho&#8221; (1999), da Claire Denis, feita pelo pr\u00f3prio diretor em entrevistas, s\u00f3 revela como n\u00e3o \u00e9 sempre que boas refer\u00eancias resultam em um grande filme.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/21\/cinema-quase-tudo-soa-artificial-em-prisao-nos-andes-de-felipe-carmona\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":83839,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7361],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83838"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83838"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83845,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83838\/revisions\/83845"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83839"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}