{"id":8379,"date":"2011-04-26T21:23:27","date_gmt":"2011-04-27T00:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8379"},"modified":"2020-07-21T21:44:54","modified_gmt":"2020-07-22T00:44:54","slug":"rodtchenko-dever-de-experimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/04\/26\/rodtchenko-dever-de-experimentar\/","title":{"rendered":"R\u00f3dtchenko: dever de experimentar"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>p<\/strong><strong>or <a href=\"http:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Precisamos revolucionar nosso pensamento visual&#8221;. A frase de Aleksandr R\u00f3dtchenko chama a aten\u00e7\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o \u201cRevolu\u00e7\u00e3o na Fotografia\u201d e explicita bem o esp\u00edrito deste fot\u00f3grafo russo, que mexeu com os padr\u00f5es da fotografia e da arte nas d\u00e9cadas de 20 e 30. A obra de R\u00f3dtchenko tem um car\u00e1ter m\u00faltiplo: aliando forma e conte\u00fado, acessibilidade e riqueza de informa\u00e7\u00e3o, ele desafiou estruturas de poder. Ao diferenciar enquadramentos, queria levar a arte para fora dos museus e a fotografia para dentro deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De in\u00edcio, algumas caracter\u00edsticas se destacam nas imagens do russo, que nasceu em 1891 e morreu em 1956: linhas geom\u00e9tricas guiando o olhar, retratos n\u00e3o posados, \u00e2ngulos heterodoxos, a escolha por cores fortes. Nada disso \u00e9 gratuito: trata-se de reflexos do tempo de R\u00f3dtchenko. A utopia socialista guiava seu pensamento: a arte deve ser feita para o povo, para que ele mude sua percep\u00e7\u00e3o sobre o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPara acostumar as pessoas a ver a partir de novos pontos de vista, \u00e9 essencial tirar fotos de objetos familiares, a partir de perspectivas e posi\u00e7\u00f5es completamente inesperadas\u201d, disse o artista em 1929. Desde o Renascimento, a arte ocidental habituou-se a utilizar a perspectiva italiana. Nela, tem-se a ilus\u00e3o de que o artista tem poder sobre o mundo: o que existe s\u00f3 existe porque est\u00e1 nesta tela, e s\u00f3 pode ser visto do jeito como est\u00e1 aqui representado. Com o surgimento da fotografia no s\u00e9culo XIX, a no\u00e7\u00e3o de simulacro da realidade se perdeu para a pintura, mas passou a sufocar os fot\u00f3grafos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8381 aligncenter\" title=\"rodtchenko2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 contra esses grilh\u00f5es que R\u00f3dtchenko procura lutar: quebrar a no\u00e7\u00e3o de poder e fornecer ao apreciador de sua obra novos pontos de vista imag\u00e9ticos \u00e9 tamb\u00e9m ampliar a consci\u00eancia sobre o que existe a seu redor e libertar a fotografia do simples papel de representar \u201ca vida como ela \u00e9\u201d. \u00c9 assim que se mostram escadas de inc\u00eandio e rostos vistos verticalmente, ou pra\u00e7as em diagonal: para se mostrar que existem outros jeitos de perceber o mundo. Esse ideal tamb\u00e9m de dar poder ao observador acontece quando o artista estabelece narrativas fotogr\u00e1ficas: ele d\u00e1 liberdade a quem o v\u00ea de inventar sua pr\u00f3pria ordem narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 \u00f3bvio, por\u00e9m, que R\u00f3dtchenko n\u00e3o criou tudo sozinho. Ele conviveu com outros artistas importantes, como Maiak\u00f3vski e Eisenstein, e deu aulas numa \u201cvers\u00e3o\u201d russa da Bauhaus, a VkhUTEMAS, durante 1920 e 1930. Nela, Rodtchenko era o titular de uma disciplina criativa chamada \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, em que os alunos faziam desde cartazes at\u00e9 m\u00f3veis, mas utilizando materiais diferentes: no lugar de tinta \u00e0 \u00f3leo e m\u00e1rmore, ali se usava a\u00e7o, madeira e fotografia. Al\u00e9m de empregar R\u00f3dtchenko, o governo sovi\u00e9tico patrocinava peri\u00f3dicos e exposi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de utiliz\u00e1-lo para a confec\u00e7\u00e3o de campanhas populares como \u201caprenda a manejar um rifle\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, esse apoio estatal n\u00e3o durou: a escola VkhUTEMAS foi fechada em 1930, e os temas que o artista devia seguir nas publica\u00e7\u00f5es estatais tornaram-se cada vez mais restritos durante a d\u00e9cada: esportistas, ex\u00e9rcitos, a constru\u00e7\u00e3o de uma barragem \u2013 como pode-se perceber, tudo ligado \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Era o in\u00edcio do chamado realismo socialista. Nos anos 50, ele at\u00e9 chegou a ser acusado de \u201cformalismo\u201d, ou seja, uma aproxima\u00e7\u00e3o dos valores burgueses de arte. Por\u00e9m, cabe observar que mesmo tolhido pelo regime, R\u00f3dtchenko consegue manter sua concep\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Ele retira o foco das imagens para dar for\u00e7a \u00e0 geometria de uma pir\u00e2mide humana; ou trata um batalh\u00e3o como se fosse um bloco \u00fanico; ou ainda mostra comportas em \u00e2ngulos diagonais, de maneira a fazer como quem v\u00ea aquelas fotos se perguntar: \u201cmas como \u00e9 que ele conseguiu essa imagem?\u201d. Uma parte razo\u00e1vel da culpa disso se deve ao aux\u00edlio de c\u00e2meras port\u00e1teis, como a Leica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8382 aligncenter\" title=\"rodtchenko3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko3-300x210.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois pontos importantes da carreira de R\u00f3dtchenko s\u00e3o retratos e fotomontagens. Quanto aos primeiros cabe comentar que tamb\u00e9m h\u00e1 uma quebra de paradigmas sobre o que era feito at\u00e9 ent\u00e3o. Os retratos feitos pelo russo n\u00e3o parecem posados: ou os retratados n\u00e3o olham para a lente e d\u00e3o a impress\u00e3o de fazer (fotografando, fumando) ou observar algo al\u00e9m da imagem; ou est\u00e3o olhando de maneira t\u00e3o fixa para a c\u00e2mera que parecem encarar o observador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 sobre as fotomontagens, \u00e9 poss\u00edvel dizer que elas tamb\u00e9m s\u00e3o muito importantes na ideia de \u201crevolucionar o pensamento visual\u201d: \u00e9 muito mais f\u00e1cil se fazer entender a partir de fotografias e formas geom\u00e9tricas em disposi\u00e7\u00e3o simples: uma mo\u00e7a de apar\u00eancia convidativa gritando \u201cLivros!\u201d \u00e9 um \u00f3timo e claro apelo para que se leia mais. Quanto \u00e0s cores, vale notar que o que era uma dificuldade t\u00e9cnica \u2013 a reprodu\u00e7\u00e3o colorida era muito cara \u2013 se tornou op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: as fotomontagens de R\u00f3dtchenko primam pela utiliza\u00e7\u00e3o de poucas e fortes cores, como o vermelho e o azul, contrastando com o usual p&amp;b.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 30, R\u00f3dtchenko foi acusado de plagiar a Bauhaus. Ledo engano: ambos compartilhavam ideais e condi\u00e7\u00f5es de trabalho semelhantes, chegando a resultados muito parecidos. Assim, \u00e9 poss\u00edvel observar impress\u00f5es digitais dos alem\u00e3es e do russo em lugares t\u00e3o d\u00edspares quanto o design gr\u00e1fico, \u2013 o que s\u00e3o as infografias sen\u00e3o uma evolu\u00e7\u00e3o das fotomontagens? \u2013 websites, capas de discos &#8211; as capas de \u201cVelo\u201d, de Caetano Veloso, e \u201cYou Could Have It So Much Better\u201d, da banda Franz Ferdinand, remetem \u00e0 fotomontagem Knigui \u2013 e coberturas jornal\u00edsticas \u2013 as massas \u201cgeometrizadas\u201d s\u00e3o presen\u00e7a maci\u00e7a nas fotografias de desfiles de Carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8383 aligncenter\" title=\"rodtchenko4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko4.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"761\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko4.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rodtchenko4-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez as utiliza\u00e7\u00f5es modernas para o que R\u00f3dtchenko idealizou n\u00e3o sejam o que ele queria para sua arte \u2013 nem sejam mostras fidedignas de arte feita para o povo, em meio ao cen\u00e1rio da \u201cind\u00fastria cultural\u201d. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a obra dele n\u00e3o seja presente nos dias de hoje. As pessoas podem at\u00e9 n\u00e3o ter mudado de ponto de vista, mas com alguma certeza \u00e9 poss\u00edvel dizer que seu universo imag\u00e9tico \u00e9 bem mais amplo e rico por culpa de homens como R\u00f3dtchenko.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Bruno Capelas \u00e9 estudante de jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a>. Todas as imagens por Moscow House of Photography Museum \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"R\u00f3dtchenko desafiou estruturas de poder. 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