{"id":83510,"date":"2024-09-13T01:12:28","date_gmt":"2024-09-13T04:12:28","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=83510"},"modified":"2024-10-02T00:10:42","modified_gmt":"2024-10-02T03:10:42","slug":"entrevista_exclusiva_vitor_ramil_bob_dylan_belchior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/13\/entrevista_exclusiva_vitor_ramil_bob_dylan_belchior\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vitor Ramil em um bate papo sobre ra\u00edzes, composi\u00e7\u00f5es, Belchior, Bob Dylan e novos projetos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/diegoqueijo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diego Queijo<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vitor Ramil deixou o frio do Rio Grande do Sul para encarar o calor do planalto central. Com duas apresenta\u00e7\u00f5es na capital do pa\u00eds, o m\u00fasico saiu de Pelotas, onde a umidade \u00e9 de pelo menos 77% ao longo de todo o ano, para destilar seu repert\u00f3rio na des\u00e9rtica Bras\u00edlia, que na semana passada bateu recorde hist\u00f3rico ao atingir sufocantes 7% de umidade relativa do ar. Na bagagem, a vis\u00e3o da neblina e can\u00e7\u00f5es de alguns de seus 12 \u00e1lbuns. Uma obra que ganhar\u00e1 novos cap\u00edtulos a partir deste m\u00eas, com o lan\u00e7amento do single &#8220;Amar Voc\u00ea&#8221;, no dia 26 de setembro, e que antecede o novo trabalho de 15 can\u00e7\u00f5es para poemas de Paulo Leminski, ainda sem t\u00edtulo divulgado, que ser\u00e1 lan\u00e7ado no dia 3 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 alguns anos, ele vem sendo reverenciado por atravessar fronteiras geogr\u00e1ficas e culturais. Sua obra dialoga com diferentes tradi\u00e7\u00f5es, unindo a est\u00e9tica do frio do sul do Brasil ao calor dos aplausos em pa\u00edses como Argentina, Uruguai, Espanha e Portugal. Com ra\u00edzes familiares espalhadas por esses territ\u00f3rios e uma forma\u00e7\u00e3o musical que combina influ\u00eancias locais e internacionais, o m\u00fasico construiu uma carreira marcada pela introspec\u00e7\u00e3o e pela experimenta\u00e7\u00e3o. Tudo mediado por conceitos profundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecido por seu pensamento cuidadoso e perfeccionista, Vitor Ramil \u00e9 um arquiteto de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria musical. Ao longo da carreira, consolidou um conjunto de princ\u00edpios est\u00e9ticos inovadores calcados no \u201crigor, profundidade, clareza, concis\u00e3o, pureza, leveza e melancolia\u201d, como canta em &#8220;Milonga de Sete Cidades&#8221;. Vitor criou, ou adaptou, ou imp\u00f4s um conjunto de regras at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o-escritas, e autoexigentes, para desenvolver o senso das ideias que permeiam \u00e1lbuns como &#8220;Tambong&#8221;, &#8220;Satolep Sambatown&#8221;, &#8220;d\u00e9lib\u00e1b&#8221; e &#8220;Campos Neutrais&#8221;. Assim, tornou-se um dos grandes expoentes da m\u00fasica brasileira contempor\u00e2nea, conhecido por sua capacidade de capturar a ess\u00eancia da cultura sulista e traduzi-la em sons e palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De personalidade subtropical, passa longe do inconformista desinibido e espont\u00e2neo atrelado aos tropicalistas. Tornou-se um estandarte da imagem do cool (cold) habitante de uma regi\u00e3o do Brasil que compartilha costumes, palavras e sons com vizinhos de outros pa\u00edses. Um artista que se mostra em paz com as pr\u00f3prias escolhas. O que resulta na serenidade e na autoconfian\u00e7a necess\u00e1rias para refletir, aqui, sobre seu papel na m\u00fasica brasileira e sua conex\u00e3o com o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consultado sobre a possibilidade de a entrevista ser realizada presencialmente ou por e-mail, Vitor, claro, preferiu a segunda op\u00e7\u00e3o. Vitor em seus pr\u00f3prios termos. Sem cron\u00f4metro, e com toda a liberdade para pensar e articular as respostas considerando seu tempo pr\u00f3prio e seu pr\u00f3prio tempo, seu momento. O resultado \u00e9 uma entrevista reveladora em que o m\u00fasico fala sobre o tr\u00e2nsito entre diferentes culturas, o relan\u00e7amento do emblem\u00e1tico &#8220;Ramilonga&#8221;, e a marca indel\u00e9vel que o viol\u00e3o deixou em sua trajet\u00f3ria art\u00edstica. A conversa passa ainda por sua rela\u00e7\u00e3o com o palco e o legado de artistas como Belchior, Bob Dylan e Milton Nascimento, revelando um pouco mais da mente por tr\u00e1s de algumas das can\u00e7\u00f5es mais introspectivas da m\u00fasica brasileira. O campo neutral onde Vitor Ramil ecoa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ramilonga\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eruZiBQjm0w?list=OLAK5uy_m4-PL_G_f04ns4CLbnkCnZ8nm_ZCbEdR8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vitor, em 2022 voc\u00ea participou do Festival Coma, em Bras\u00edlia, no Clube do Choro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/30\/a-magia-e-o-misterio-de-paul-mccartney-em-show-secreto-em-brasilia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">local que tamb\u00e9m recebeu Paul McCartney<\/a>). Qual foi sua impress\u00e3o da cidade e do p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nA melhor poss\u00edvel. Eu tinha chegado em Brasil\u00eda todo errado, meio resfriado e mal dormido, vindo da \u00famida Pelotas, com uma passagem r\u00e1pida por Floripa para participar de um show do Antonio Zambujo. Estava preocupado. Mas o clima seco e o p\u00fablico grande e caloroso me revigoraram e encheram de \u00e2nimo e alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual ser\u00e1 a base do repert\u00f3rio desses dois shows previstos para setembro em Bras\u00edlia? Haver\u00e1 alguma mudan\u00e7a entre um show e outro? Alguma participa\u00e7\u00e3o especial prevista? Qual a sua expectativa e o que o p\u00fablico pode esperar?<\/strong><br \/>\nPretendo fazer um apanhado de can\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios discos a partir de &#8220;Estrela, Estrela&#8221;, reunindo can\u00e7\u00f5es que goste de cantar e aquelas que o p\u00fablico costuma querer ouvir. Pode haver mudan\u00e7as de um show para o outro, sim. N\u00e3o tenho nenhuma participa\u00e7\u00e3o prevista. O p\u00fablico pode esperar de mim muita vontade de tocar e cantar. Algumas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o toco h\u00e1 muito tempo. Vou gostar de voltar a elas. Al\u00e9m disso, acabo de gravar um disco novo, o que deixa a gente meio submerso por um tempo, movido a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 curioso pensar que Portugal sempre buscou o novo no al\u00e9m mar, mas de costas, geograficamente, para a Espanha. E que aqui na Am\u00e9rica do Sul, o Brasil tamb\u00e9m sempre olhou para as refer\u00eancias culturais do al\u00e9m mar (EUA?) tendo nas costas, tamb\u00e9m geograficamente, os pa\u00edses da Am\u00e9rica espanhola. Essa rela\u00e7\u00e3o (ou falta de rela\u00e7\u00e3o macro) entre pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa e espanhola parece criar algumas barreiras para a produ\u00e7\u00e3o cultural e para o p\u00fablico majorit\u00e1rio. Entretanto, parece que voc\u00ea consegue transitar entre essas diferentes culturas, sendo reverenciado pela cr\u00edtica tanto no Brasil como em Portugal, Espanha, Argentina e Uruguai. Qual o desafio para sua obra nesse contexto de expans\u00e3o de fronteiras e como voc\u00ea v\u00ea a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para al\u00e9m dos cr\u00edticos?<\/strong><br \/>\nPara mim n\u00e3o chega a ser um desafio de ordem art\u00edstica, porque, convivendo com o espanhol como segunda l\u00edngua em casa, sendo cidad\u00e3o espanhol e uruguaio al\u00e9m de brasileiro (meu av\u00f4 era espanhol; meu pai, uruguaio) e tendo tido contato com a cultura de todos esses lugares, tudo se deu sempre de modo muito natural, inevit\u00e1vel mesmo. A percep\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica e p\u00fablico acho bem parecida. E em geral me surpreende, n\u00e3o pelo modo como me veem, mas porque algumas coisas que fa\u00e7o repercutem entre eles mais do que seria esperado por mim, considerando que nunca botei energia em ter muito reconhecimento. Em Lisboa, um jornalista muito importante me perguntou qual era a minha explica\u00e7\u00e3o para o \u00eaxito de &#8220;d\u00e9lib\u00e1b&#8221; (2010). Eu disse que n\u00e3o sabia, porque era um disco metade em espanhol, metade num dialeto gauchesco que mesmo no RS era pouco compreendido. E devolvi a ele a pergunta. Ele ent\u00e3o me disse que para eles, em Portugal, &#8220;d\u00e9libab&#8221; era como receber not\u00edcias de um lugar novo no mundo. Para mim, pensando na est\u00e9tica do frio, no RS como um lugar que n\u00e3o aceito \u00e0 margem de um centro, mas no centro de uma outra hist\u00f3ria, foi sensacional ouvir isso. Depois, quando lotamos a enorme sala da Culturgest, em Lisboa, e o p\u00fablico se mostrou emocionado, cr\u00edtica e p\u00fablico me pareceram muito alinhados.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83523 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/NRC_VITORRAMIL_RAMILONGA_LP-E-DISCO_1_1200x.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/NRC_VITORRAMIL_RAMILONGA_LP-E-DISCO_1_1200x.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/NRC_VITORRAMIL_RAMILONGA_LP-E-DISCO_1_1200x-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O clube de assinaturas de discos de vinil da revista Noize trouxe uma edi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum \u201c Ramilonga &#8211; A est\u00e9tica do frio\u201d (lan\u00e7ado originalmente em 1997). O que esse relan\u00e7amento representa para voc\u00ea e para a sua carreira?<\/strong><br \/>\nQuando preparamos o \u00e1lbum para este lan\u00e7amento, confirmei que ele tinha mesmo voca\u00e7\u00e3o para o formato, pela quantidade de m\u00fasicas e at\u00e9 pela ordem original das can\u00e7\u00f5es. Apenas tiramos uma faixa e l\u00e1 estava um \u00e1lbum que parecia ter sido lan\u00e7ado originalmente em LP. Nessa \u00e9poca em que se come\u00e7a a desejar manusear de novo um disco, olhar seu encarte, ouvir at\u00e9 o final tendo que virar para o lado B, este lan\u00e7amento \u00e9 um prazer. Eu me criei ouvindo LPs e comecei profissionalmente gravando LPs. At\u00e9 hoje tenho o cacoete do LP na hora de selecionar m\u00fasicas e definir o roteiro de um \u00e1lbum. Com o formato LP a gente se ocupa do suporte, do objeto; nos voltamos para a m\u00fasica, botamos nela o foco, tiramos aquele momento para aquela experi\u00eancia. Streaming \u00e9 feito para funcionar na dispers\u00e3o. O LP, para operar a vitrola, sentar e ouvir com aten\u00e7\u00e3o. No caso do lan\u00e7amento pela Noize, houve ainda o engajamento do projeto nas a\u00e7\u00f5es de apoio aos artistas afetados pelas inunda\u00e7\u00f5es no RS. Uma honra pra mim que o &#8220;Ramilonga&#8221; tenha sido lembrado como emblem\u00e1tico para estar nesse contexto colaborativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns \u00e1lbuns seus j\u00e1 s\u00e3o considerados cl\u00e1ssicos, mas h\u00e1 um que acaba sendo pouco lembrado ou mencionado, talvez at\u00e9 subestimado, que \u00e9 o \u201cSatolep Sambatown\u201d (2007), feito com o percussionista Marcos Suzano. A \u00fanica faixa do \u00e1lbum entre as suas 10 mais ouvidas no Spotify, inclusive, \u00e9 \u201cViajei\u201d, mas na vers\u00e3o do \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/29\/disco-do-ano-thiago-pereira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Foi no m\u00eas que vem<\/a>\u201d. Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com este trabalho e como voc\u00ea v\u00ea ele hoje?<\/strong><br \/>\nAdoro este disco. Observa que depois dele parei muitos anos de usar baixo el\u00e9trico ou ac\u00fastico nos meus discos. Como no &#8220;Satolep Sambatown&#8221; \u00e9ramos s\u00f3 Suzano e eu, meu viol\u00e3o foi para a frente definitivamente. Antes, muito dele sempre se perdia na rela\u00e7\u00e3o com o baixo, principalmente na hora da mixagem. O viol\u00e3o tendia a ser sacrificado em seus graves, perdia corpo. Depender s\u00f3 do viol\u00e3o me fez evoluir no instrumento, explor\u00e1-lo mais e melhor, at\u00e9 porque o Suzano toca percuss\u00e3o e meu viol\u00e3o n\u00e3o \u00e9 r\u00edtmico, est\u00e1 mais mais para atmosf\u00e9rico. Nossas diferen\u00e7as viraram o conceito do trabalho. &#8220;Satolep Sambatown&#8221; tem alguma das can\u00e7\u00f5es que mais gosto, como &#8220;Livro Aberto&#8221;, &#8220;Astronauta L\u00edrico&#8221; ou &#8220;12 segundos de oscuridad&#8221;, essa com o Jorge Drexler. O Suzano \u00e9 um m\u00fasico de g\u00eanio e parceiro dos melhores. Muito do que h\u00e1 de modernidade no \u00e1lbum vem das experi\u00eancias dele e se consolidaram em meus discos posteriores. Quanto ao uso de baixo, s\u00f3 agora, no \u00e1lbum que est\u00e1 por ser lan\u00e7ado \u00e9 que voltei a usar. E radicalizei, fui muito fundo, literalmente, fundo e pesado, usando synth bass de modo a fazer a terra tremer enquanto preservava a integridade dos viol\u00f5es (que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/11\/29\/musica-campos-neutrais-vitor-ramil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a partir de &#8220;Campos Neutrais&#8221;,<\/a> de 2017, passei a gravar dobrados). Gosto muito de graves pesados, definidos, breves e r\u00edtmicos. Mas quero que tudo o mais soe tamb\u00e9m, l\u00f3gico, que ele n\u00e3o ocupe todo o espectro sonoro. Aprender a lidar com os baixos, e mesmo a am\u00e1-los, come\u00e7ou no &#8220;Satolep Sambatown&#8221;, at\u00e9 porque o Suzano senta a marreta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83524 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/ab67616d0000b273c958498cc865c3d6c8f87bda.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/ab67616d0000b273c958498cc865c3d6c8f87bda.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/ab67616d0000b273c958498cc865c3d6c8f87bda-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/ab67616d0000b273c958498cc865c3d6c8f87bda-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria falar sobre dois artistas que talvez de alguma forma tenham alguma liga\u00e7\u00e3o entre si e com voc\u00ea. O primeiro deles \u00e9 um compositor que n\u00e3o aparece como refer\u00eancia patente na sua obra, que \u00e9 o Belchior. Belchior nasceu no Nordeste, esteve no topo da MPB em pleno Sudeste, e no fim da vida foi buscar algo no Sul do Brasil. Mais especificamente na fronteira com o Uruguai, com passagens por Jaguar\u00e3o, Santa Vit\u00f3ria do Palmar e Acegu\u00e1 (UY), por exemplo. Tanto que morreu no Rio Grande do Sul. Mas ele n\u00e3o parecia buscar apenas o anonimato. Talvez algo de inspira\u00e7\u00e3o ou atra\u00eddo pelo modo de vida com base na cultura da regi\u00e3o, enfim, suposi\u00e7\u00f5es. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m saiu do RS e voltou. O que h\u00e1 no RS, al\u00e9m da fam\u00edlia, que te atrai e provoca em outros artistas essa curiosidade?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei o que trouxe o Belchior para RS e Uruguai. Para o andarilho que ele demonstrou ser, o sul\/sur pode ser um grande \u00edm\u00e3. A milonga sure\u00f1a \u00e9 m\u00fasica de espa\u00e7os, sil\u00eancios, dist\u00e2ncias, vazios. Convida \u00e0 reflex\u00e3o, a se perder. Tamb\u00e9m assim \u00e9 o sul\/sur, seu habitat. N\u00e3o sei se o Belchior tinha not\u00edcia disso, mas certamente se deu conta quando chegou. Soube que no final ele andava escutado as can\u00e7\u00f5es do meu disco &#8220;Tango&#8221; (1987), o que me comoveu. Voltei ao Sul pela fam\u00edlia e pela casa em que moramos ainda hoje, uma casa chorizo, como dizem os argentinos, estreita, alta e comprida. Muitas vezes abro a janela da frente, onde trabalho, respiro o ar fresco, olho o sol, a rua, de prefer\u00eancia quando est\u00e1 deserta, e agrade\u00e7o por estar ali. Me motiva muito, me emociona. Acho que tem a ver com o fato de, na minha inf\u00e2ncia, termos passado muitos invernos no Uruguai e ter sido sempre bom. Era quando via meu pai feliz, coisa que n\u00e3o costumava demonstrar no dia a dia. Pelotas \u00e9 uma cidade muito uruguaia, n\u00e3o s\u00f3 pela luz, pelas ruas planas, mas tamb\u00e9m por ser cheia de uruguaios, com boas parrilladas e outros sinais culturais del paisito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O outro \u00e9 Bob Dylan. Talvez seja um dos artistas mais versionados em seus discos (\u201cJoquim\u201d, \u201cUm dia voc\u00ea vai servir a algu\u00e9m\u201d, \u201cS\u00f3 voc\u00ea manda em voc\u00ea\u201d e \u201cAna\u201d). Queria saber o que te toca na obra dele e o porqu\u00ea dessa liga\u00e7\u00e3o no seu trabalho?<\/strong><br \/>\nTodo mundo fala nas letras de Bob Dylan como sendo o seu melhor, talvez a \u00fanica coisa boa. Pois sempre fui atra\u00eddo por sua m\u00fasica (ali\u00e1s, quase n\u00e3o presto aten\u00e7\u00e3o em letras), em parte por associ\u00e1-la \u00e0s imensid\u00f5es norte-americanas, \u00e0s estradas, \u00e0s desola\u00e7\u00f5es, e estas \u00e0s dist\u00e2ncias retil\u00edneas do Sul e ao meu estado de esp\u00edrito quando estou nesses lugares. Gosto de repeti\u00e7\u00e3o em m\u00fasica, e isso ele sempre fez muito bem, de uma maneira que as can\u00e7\u00f5es poderiam nunca terminar que n\u00f3s continuar\u00edamos ouvindo. A m\u00fasica dele tem um poder de chegada imenso, refr\u00e3os arrasadores, melodias que, improvisando ao cantar, ele n\u00e3o deixa nunca serem as mesmas. Acabo de versionar &#8220;The ballad of a thin man&#8221; (Nota: segundo Vitor, a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o estar\u00e1 no \u00e1lbum dedicado a Leminski, mas no pr\u00f3ximo, a princ\u00edpio). Como fiz com as outras, trouxe para um contexto brasileiro. \u00c9 um exerc\u00edcio maravilhoso para mim. Ele \u00e9 um poeta democr\u00e1tico, parece que escreve para ser versionado, com suas palavras que parecem nascer de um jorro, receber pouco tratamento; com seus temas-enigmas ou suas hist\u00f3rias com personagens-modelo; com suas associa\u00e7\u00f5es doidas e suas rimas super musicais. Como gosto do trabalho fino, de ir no detalhe, sinto-me entrando num mundo aberto por ele, autorizado a recolocar as coisas de modo a corresponderem ao meu pr\u00f3prio mundo, como se entrasse em uma sala com m\u00f3veis incr\u00edveis que me d\u00e3o vontade de dispor de outra maneira e ele ainda tivesse deixado l\u00e1 um aviso: arrume como quiser e fique \u00e0 vontade para colocar seus pr\u00f3prios objetos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitor Ramil e Katia B - Joquim\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nrcXbZHYwsw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas Dylan tem um apre\u00e7o muito grande pelo palco e continua. Desde 1988 ele inventou a Never Ending Tour, que percorre o mundo at\u00e9 os dias de hoje, inclusive com shows espalhados pelos Estados Unidos no \u00faltimo ver\u00e3o no hemisf\u00e9rio norte. J\u00e1 voc\u00ea parece ter uma rela\u00e7\u00e3o mais complexa com os palcos, mesmo j\u00e1 tendo realizado apresenta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, na Am\u00e9rica Latina e na Europa. Por que isso? Como est\u00e1 a sua rela\u00e7\u00e3o com os palcos?<\/strong><br \/>\nDe tudo que eu fa\u00e7o, estar no palco n\u00e3o \u00e9 o que mais me motiva. Depois que l\u00e1 estou, eu gosto. Posso adorar um show, transcender de emo\u00e7\u00e3o enquanto canto, mas ainda posso me sentir desconfort\u00e1vel em muitos momentos, \u00e0s vezes sem saber por qu\u00ea. Demorei muito a aprender a lidar com os imprevistos do palco ou a impedi-los de acontecer, tudo porque n\u00e3o gostava de subir nele. No come\u00e7o, por muito tempo n\u00e3o precisei fazer isso porque tinha ganho uma boa grana editando minha obra, ent\u00e3o n\u00e3o precisava correr atr\u00e1s fazendo shows. Mas n\u00e3o recomendo a ningu\u00e9m. Aquilo me fez demorar muito a adquirir experi\u00eancia de palco, coisa que \u00e9 vital para qualquer artista. \u00c9 no palco que se aprende a cantar e tocar bem. O Bar\u00e3o de Satolep, meu personagem, me ajudou nisso, me deu desenvoltura. Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o houve ganhos, evitar os palcos me deixou mais tempo e foco para apenas compor e escrever, que \u00e9 o que eu mais gosto mesmo de fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Parte da sua marca sonora, do seu som, est\u00e1 calcada no viol\u00e3o como instrumento primordial de express\u00e3o art\u00edstica. Inclusive, em 2012, voc\u00ea foi eleito pela Rolling Stone como um dos 70 mestres brasileiros da guitarra e do viol\u00e3o. Diante das poss\u00edveis limita\u00e7\u00f5es do instrumento, voc\u00ea sempre buscou dedilhados, disson\u00e2ncias e afina\u00e7\u00f5es fora do padr\u00e3o. Como se deu essa busca pela sonoridade no in\u00edcio da sua carreira e como voc\u00ea trabalha hoje para chegar a um som ou ideia de viol\u00e3o que te deixe satisfeito na hora de compor?<\/strong><br \/>\nL\u00e1 no come\u00e7o, estudar viol\u00e3o cl\u00e1ssico foi determinante para mim, no sentido de dominar o instrumento, principalmente desenvolver a m\u00e3o direita e tirar o melhor som. Quanto a desenvolver uma maneira pessoal de tocar, isso veio com o tempo. Come\u00e7ou pra valer quando troquei o viol\u00e3o de nylon pelo de a\u00e7o, por ocasi\u00e3o do \u00e1lbum &#8220;\u00c0 be\u00e7a&#8221; (1995), mas principalmente do &#8220;Ramilonga&#8221;. Trouxe para o a\u00e7o a t\u00e9cnica do cl\u00e1ssico. Mas nylon e a\u00e7o soavam distintos um do outro. Comecei ent\u00e3o buscar com minhas unhas o som do nylon no a\u00e7o. Fiquei mais jo\u00e3ogilbertiano no sentido do rigor na execu\u00e7\u00e3o, da regularidade, das sutilezas r\u00edtmicas e timbr\u00edsticas, embora, diferentemente dele, meu viol\u00e3o seja feito principalmente de arpeggios, pedais, afina\u00e7\u00f5es preparadas, acordes n\u00e3o filiados \u00e0 bossa nova, acordes sem ter\u00e7as, abertos, com estranhezas, disson\u00e2ncias que criam tens\u00f5es onde s\u00e3o necess\u00e1rias. Quanto menos dedos eu utilizar para armar um acorde, quando menos eu precisar levantar a m\u00e3o para trocar de acorde, ou seja, quanto mais cordas soltas permanecerem soando nessas trocas, quanto menos se perceber que gravei dois viol\u00f5es que parecem um s\u00f3, mais estarei no meu ambiente sonoro. Meu viol\u00e3o \u00e9 uma plan\u00edcie levemente ondulada com algum evento aqui e ali. A repeti\u00e7\u00e3o torna as estranhezas parte natural da paisagem. O fato de dever pouco \u00e0 bossa nova foi buscado de forma consciente, porque Tom Jobim e Jo\u00e3o Gilberto s\u00e3o para a can\u00e7\u00e3o no Brasil o que Astor Piazzolla \u00e9 para o tango na Argentina: novos compositores precisam se puxar para n\u00e3o ouvi-los protagonizando em sua pr\u00f3pria m\u00fasica. A gente aprende com os mestres, depois tem de lutar contra eles, disse Picasso (parece que a frase era de um mestre dele\u2026). Neste processo, minha maneira de tocar tornou-se parte da minha composi\u00e7\u00e3o e vice versa. Busco no viol\u00e3o uma linguagem que demarque que estamos no centro de uma outra hist\u00f3ria, entre o \u201cBrasil\u201d e os pa\u00edses do Prata. Ele tem elementos de l\u00e1, c\u00e1 e acol\u00e1, filtrados por minhas pr\u00f3prias inven\u00e7\u00f5es. Para lidar com o fardo tradicionalista-regionalista, passadista e restritivo, afinei-me com a ideia de \u00cdtalo Calvino de adotar um novo ponto de observa\u00e7\u00e3o, outra \u00f3tica, l\u00f3gica. Isso se reflete no instrumento e em seu uso tamb\u00e9m. \u00c9 preciso reagir ao mundo quando ele nos parece condenado ao peso. E instaurar a leveza. S\u00f3 assim se combate o que j\u00e1 est\u00e1 esgotado pelo uso e se abre espa\u00e7o para o novo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitor Ramil canta &#039;Estrela, Estrela&#039;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F2dK50up8DI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 um compositor compulsivo? As m\u00fasicas saem naturalmente prontas ou h\u00e1 um trabalho de autocr\u00edtica e perfeccionismo que pode demorar? Pode citar exemplos?<\/strong><br \/>\nFui compulsivo no per\u00edodo de musicar os poemas do Paulo Leminski, por exemplo. Era um impulso irresist\u00edvel. Cheguei a fazer tr\u00eas can\u00e7\u00f5es num dia. Mas normalmente n\u00e3o sou assim. Algumas can\u00e7\u00f5es nascem quase prontas. Outras se fazem de modo mais lento. &#8220;Estrela, Estrela&#8221; saiu inteira assim, tipo em menos de meia-hora. J\u00e1 &#8220;Longe de voc\u00ea&#8221;, compus com um tipo de acordes mais convencionais. Meses depois, mudei a afina\u00e7\u00e3o do instrumento e, consequentemente, todos os acordes. A letra, s\u00f3 vim a escrever um ano depois. O fazer em si \u00e9 r\u00e1pido, mas as decis\u00f5es pr\u00e9vias, \u00e0s vezes, podem demorar muito, como nesse caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recentemente o colunista do G1 Mauro Ferreira <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2024\/09\/01\/por-que-os-grandes-nomes-da-mpb-nao-sao-biografados-em-vida.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">publicou um texto<\/a> questionando sobre o porqu\u00ea de os grandes nomes da MPB n\u00e3o serem biografados em vida. Algo diferente do que acontece na Argentina, por exemplo, onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar v\u00e1rias biografias e ensaios sobre m\u00fasicos vivos. Mas, aqui, voc\u00ea e sua obra s\u00e3o temas de pelo menos dois livros, o \u201c<a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livro\/vitor-ramil-nascer-leva-tempo-1YT-5623-000\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nascer leva tempo<\/a>\u201d, de Lu\u00eds Rubira, e o mais recente, \u201c<a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livro\/vitor-ramil-o-astronauta-lirico-B1L-8230-000-BK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O astronauta l\u00edrico\u201d<\/a>, de Marcos Lacerda. A que voc\u00ea atribui esse interesse e o que voc\u00ea acha desse tipo de documento ou reflex\u00f5es sobre as obras dos grandes artistas?<\/strong><br \/>\n&#8220;Nascer leva tempo&#8221; e &#8220;Vitor Ramil &#8211; o astronauta l\u00edrico&#8221; s\u00e3o sobre o meu trabalho. Uma vez que experimento muito, que mudo bastante de um disco, show ou livro para outro, j\u00e1 que sou movido pelos desafios formais, a leitura do que fa\u00e7o pelos autores desceu luz sobre coisas que muitas vezes as pessoas n\u00e3o conseguem conectar entre si. O que tem a ver &#8220;Ramilonga&#8221; com &#8220;Satolep Sambatown&#8221;, &#8220;Pequod&#8221; com a &#8220;A primavera da pontua\u00e7\u00e3o&#8221;, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/11\/musica-encontro-borbulhante-entre-os-universos-de-vitor-ramil-e-angelica-freitas-avenida-angelica-e-lancado-como-disco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ang\u00e9lica Freitas<\/a> com Jorge Luis Borges ou o \u00e1cido Bar\u00e3o de Satolep com o Vitor l\u00edrico de &#8220;Estrela, Estrela&#8221;? Acho que a minha produ\u00e7\u00e3o vai se justificando num grande arco de tempo. Leituras de fora ajudam nesse sentido. O Lacerda, por exemplo, se ligou muito no personagem expressionista do Bar\u00e3o, vampiro, corcunda, assustador e engra\u00e7ado. Sua abordagem fez meus contempor\u00e2neos repensarem o sentido do personagem e jovens descobrirem um Vitor Ramil que jamais imaginariam existir. Resulta n\u00e3o s\u00f3 num conhecimento maior sobre o que fiz e fa\u00e7o, mas tamb\u00e9m num fortalecimento cultural da cena cultural de que fa\u00e7o parte, o que \u00e9 ben\u00e9fico para todo mundo. Hist\u00f3ria acontecendo. O mesmo vale para outros livros dessa linha sobre os outros artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o atual momento da m\u00fasica brasileira em que temos gigantes se aposentando dos palcos, como Milton e Gil?<\/strong><br \/>\nPois \u00e9\u2026 Aos 13, 14 anos assisti Milton Nascimento ou Egberto Gismonti em seu auge criativo apresentando-se para pouca gente. Aprendi quando guri a amar esta gera\u00e7\u00e3o que agora est\u00e1 na casa dos 80. Eles se tornaram grandes por seus imensos talentos, mas tamb\u00e9m porque o mercado da m\u00fasica era outro, dava tempo para um artista crescer, formar seu p\u00fablico, se consolidar, enfim. Eu esperava anualmente os discos de cada um deles. Que gravadora major suportaria hoje um artista com a devolu\u00e7\u00e3o de discos que teve Caetano Veloso em &#8220;Ara\u00e7\u00e1 Azul&#8221; (1973), com o fato de ele s\u00f3 ter chegado ao Disco de Ouro na maturidade? Qual delas contrataria Egberto Gismonti? Atualmente, com as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e respectivas estrat\u00e9gias de mercado, a m\u00fasica popular se pulverizou, tornou-se parte de um pacote de entretenimento. Pode-se dizer mesmo que perdeu relev\u00e2ncia. Por que registrar uma obra extensa ou mesmo um conjunto de can\u00e7\u00f5es se os ouvintes das plataformas mal passam das primeiras m\u00fasicas de um \u00e1lbum? As crian\u00e7as nem mesmo escutam hoje uma m\u00fasica inteira. Virou coisa para abnegados. Acho que a m\u00fasica brasileira de hoje, que poderia ser filiada \u00e0quela iniciada por Chico Buarque, Gil e outros dessa gera\u00e7\u00e3o, tornou-se um segmento quase para iniciados. Quando gravei meu primeiro disco em 1981, aos 18 anos, a previs\u00e3o inicial da gravadora era de que em quatro anos eu estaria estourado. Olha s\u00f3, eu teria quatro anos para me firmar! Mas com o advento da gravadora Ariola, que entrou no pa\u00eds comprando o passe dos artistas que tinham come\u00e7ado a vender bem, ouvi o seguinte: por que vamos investir em voc\u00ea se daqui a pouco vem outra companhia e te leva? E fui pra rua. Estava acabando ali o capitalismo rom\u00e2ntico, se isso \u00e9 poss\u00edvel, dos anos 70. Em breve n\u00e3o adiantaria mais ser jovem e talentoso. A vendagem tinha que estar assegurada j\u00e1 na largada. Hoje em dia, para interessar aos grandes grupos empresariais, \u00e9 preciso ser um grande vendedor j\u00e1 antes de gravar. Mas, claro, muitos como eu n\u00e3o d\u00e3o a m\u00ednima para grandes grupos empresariais. Vas fuden, como diria o Bar\u00e3o. O que n\u00e3o nos impede de produzir, com outras ambi\u00e7\u00f5es, outro alcance, sabedores de estar em outro mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua carreira \u00e9 bastante marcada pelo sentimento do n\u00e3o-lugar (ou lugar), pela inquietude musical, conceitual e pelo pertencimento de uma cultura sulista que ultrapassa fronteiras. Mas olhando para sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, voc\u00ea est\u00e1 onde queria estar? O que falta para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nEstou exatamente onde queria estar. Moro no interior com a Ana Ruth, amor de toda a vida, numa casa de 100 anos a duas horas do Uruguai. Nossos filhos e netas s\u00e3o o m\u00e1ximo. Lembro que eu simpatizava com o Jo\u00e3o Gilberto por ser recluso, com o Chico Buarque por se recusar a aparecer na TV ou fazer poucos shows. Sempre fui um sujeito perfil bajo. Tornei-me o que sou, como se diz. Passo os dias muito sozinho, escrevendo. A vida afetiva e amorosa est\u00e1 mais que encaminhada. Da art\u00edstica me falta muita coisa, l\u00f3gico, do contr\u00e1rio n\u00e3o haveria mais motiva\u00e7\u00e3o. Termino um disco j\u00e1 pensando no pr\u00f3ximo; avan\u00e7o num livro tendo sempre no horizonte outro j\u00e1 iniciado. Sempre me falta o que s\u00f3 saberei quando chegar l\u00e1 e descobrir que n\u00e3o era bem o que eu n\u00e3o sabia que era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>V\u00edtor, para onde suas ideias est\u00e3o indo nesse momento? O que voc\u00ea est\u00e1 planejando? O que est\u00e1 no horizonte?<\/strong><br \/>\nEstou escrevendo &#8220;A est\u00e9tica do frio&#8221;, um desenvolvimento e aprofundamento da ideia original, que nunca cheguei a fundamentar e expor completamente. Acabo de gravar um disco com 15 can\u00e7\u00f5es para poemas de Paulo Leminski. Mais uma vez um trabalho diferente dos anteriores, mas aposto que ser\u00e1 poss\u00edvel identificar nele muita auto-refer\u00eancia. O lan\u00e7amento ser\u00e1 em 3 de outubro, com um single, &#8220;Amar voc\u00ea&#8221;, saindo em 26 de setembro. Desse disco agora preciso montar o show de lan\u00e7amento. Mas, como sugeri antes, j\u00e1 tenho esbo\u00e7os para um pr\u00f3ximo \u00e1lbum e para um livro de fic\u00e7\u00e3o, que interrompi para poder avan\u00e7ar nos outros projetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ainda se emociona com a m\u00fasica? O que te emociona?<\/strong><br \/>\nEscutar Glenn Gould tocando Bach ou alguma linda melodia numa linda voz sempre emociona. Mas, de um modo especial, minha fam\u00edlia me emociona mais que tudo: ver a Ana Ruth pesquisando e desenvolvendo lindas ideias, meus filhos crescendo como pessoas e artistas (o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/21\/faixa-a-faixa-tetein-de-ian-ramil-um-belo-disco-criado-entre-o-caos-e-o-afeto-a-leveza-e-a-aspereza-a-crianca-e-o-homem-bomba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ian<\/a> e a Isabel produzem coisas incr\u00edveis) e minhas netinhas, Nina e Ol\u00edvia, sendo a alegria da vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Casa Ramil | Ao Vivo (Show Completo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/szu47NmWFmo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Show de Vitor Ramil no Sarau El\u00e9trico\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-KNbL-gaGSU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitor Ramil - Avenida Ang\u00e9lica\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xX5Jczoxzm4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LIVE SHOW DO DIA DO PROFESSOR - VITOR RAMIL\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/50EdAOy_Has?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Diego Queijo \u00e9 jornalista! Acompanhe:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/diegoqueijo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">instagram.com\/diegoqueijo<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Prestes a lan\u00e7ar um novo \u00e1lbum em outubro, o m\u00fasico discorre sobre ra\u00edzes, composi\u00e7\u00f5es, Bob Dylan, e a marca indel\u00e9vel de seu viol\u00e3o, em entrevista exclusiva\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/13\/entrevista_exclusiva_vitor_ramil_bob_dylan_belchior\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":140,"featured_media":83521,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1651],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83510"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/140"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83510"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83573,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83510\/revisions\/83573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83521"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}