{"id":83150,"date":"2024-08-29T01:03:24","date_gmt":"2024-08-29T04:03:24","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=83150"},"modified":"2024-11-02T15:14:52","modified_gmt":"2024-11-02T18:14:52","slug":"entrevistao-papangu-volta-com-rock-troncho-e-hermetocore-no-segundo-album-lampiao-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/29\/entrevistao-papangu-volta-com-rock-troncho-e-hermetocore-no-segundo-album-lampiao-rei\/","title":{"rendered":"Entrevista: Papangu volta com rock troncho e hermetocore no segundo \u00e1lbum, &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de aparecer em diversas listas de melhores \u00e1lbuns de 2021 \u2013 a exemplo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/09\/scream-yell-os-50-discos-mais-votados-de-2021\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">das sele\u00e7\u00f5es do Scream &amp; Yell<\/a> e dos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/12\/20\/apca-revela-lista-com-50-melhores-albuns-brasileiros-de-2021\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">50 melhores discos brasileiros da APCA<\/a> \u2013 com seu debut &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/16\/entrevista-papangu-mistura-literatura-nordestina-prog-e-sludge-metal-no-disco-holoceno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Holoceno<\/a>&#8220;, a banda paraibana Papangu est\u00e1 de volta com novo disco, &#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/papangu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lampi\u00e3o Rei<\/a>&#8220;, lan\u00e7amento da Repose Records.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferente da produ\u00e7\u00e3o pesada e sludge de &#8220;Holoceno&#8221;, &#8220;<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/papangu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lampi\u00e3o Rei<\/a>&#8221; revela uma dire\u00e7\u00e3o musical mais diversificada e n\u00edtida. Os dois primeiros singles, \u201cOferenda no Alguidar\u201d e \u201cMaracutaia\u201d, indicam essa guinada para o &#8216;rock troncho&#8217; e &#8216;hermetocore&#8217; \u2013 termos que a banda usa brincando para descrever sua fus\u00e3o do chamado zeuhl (g\u00eanero musical caracterizado por experimenta\u00e7\u00f5es criado pela banda francesa Magma) com influ\u00eancias brasileiras, combinando a sonoridade de nomes progressivos como King Crimson com a heran\u00e7a de artistas nacionais aparentemente opostos, como Hermeto Pascoal e Sepultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa de &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; se distancia da alegoria faustiana de &#8220;Holoceno&#8221; e mergulha na vida do ic\u00f4nico cangaceiro brasileiro Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampi\u00e3o. O \u00e1lbum explora sua trajet\u00f3ria, desde o nascimento at\u00e9 sua ascens\u00e3o como uma figura lend\u00e1ria e temida no Brasil. A primeira parte da saga culmina com a famosa decapita\u00e7\u00e3o de Lampi\u00e3o e sua tripula\u00e7\u00e3o em 1938, com a conclus\u00e3o da hist\u00f3ria prevista para uma grava\u00e7\u00e3o futura. A capa do disco, criada por Eduardo Ver, complementa essa narrativa com um estilo de arte que evoca a literatura de cordel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83154 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo \u00e1lbum tamb\u00e9m apresenta a nova forma\u00e7\u00e3o da banda: Rai Accioly (guitarra, vocais), Marco Mayer (baixo, guitarras, vocais) e Hector Ruslan (guitarras, vocais), contam agora com os irm\u00e3os Pedro Francisco (flautas, guitarras, percuss\u00e3o, vibrafone, Fender Rhodes, Clavinet, vocais) e Rodolfo Salgueiro (Fender Rhodes, Wurlitzer, Mellotron, piano, \u00f3rg\u00e3o, synths, tri\u00e2ngulo, vocais) e o baterista e percussionista Vitor Alves. &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; tamb\u00e9m traz participa\u00e7\u00f5es especiais de Philippe Bussonnet (ex-baixista do Magma), Marian Sarine (Deafkids), Jo\u00e3o Kombi (Test), Paulo R\u00f3 e Andrea P.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de grava\u00e7\u00e3o de &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; foi realizado por Fernando Sanches com assist\u00eancia de Rodolfo Duarte e Maiane Souza no Est\u00fadio El Rocha em S\u00e3o Paulo, enquanto a mixagem ficou a cargo de Richard Behrens no Big Snuff Studio, em Berlim (Alemanha). A masteriza\u00e7\u00e3o foi feita por Andrea P. no MSTR Studio em Vicenza (It\u00e1lia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o novo repert\u00f3rio a tiracolo, a Papangu est\u00e1 se preparando para tocar na segunda noite do KnotFest, que acontece no Allianz Parque, em S\u00e3o Paulo, em 20 de outubro. O grupo dividir\u00e1 o palco com nomes internacionais como Slipknot, Bad Omens, Till Lindemann, BABYMETAL, P.O.D. e Poppy, al\u00e9m de bandas brasileiras como Black Pantera, Ego Kill Talent, Korzus e The M\u00f6nic com Eskr\u00f6ta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma longa e exclusiva entrevista com Scream &amp; Yell via Google Meet, os integrantes Marco Mayer e Hector Ruslan discutiram em detalhes o processo de composi\u00e7\u00e3o, grava\u00e7\u00e3o e o conceito por tr\u00e1s de \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d, al\u00e9m do entusiasmo com o convite para tocar no KnotFest e muito mais. Confira a seguir.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lampi\u00e3o Rei\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_muVmPRHVPfa3OaszxYuPeyDafeOpJRb4I\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom gente, primeiramente parab\u00e9ns pelo disco novo, est\u00e1 muito bom. J\u00e1 gostava do &#8220;Holoceno&#8221;, mas o &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; me conquistou ainda mais. O som est\u00e1 diferente, mais limpo em compara\u00e7\u00e3o ao anterior e <a href=\"https:\/\/papangu.bandcamp.com\/album\/live-at-sesc-carmo-official-bootleg-vol-i\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mostra muito do show que vi da banda no Sesc Carmo<\/a> (S\u00e3o Paulo, SP, em julho de 2023). Quanto tempo foi de prepara\u00e7\u00e3o pro &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;? Voc\u00eas j\u00e1 tinham essas m\u00fasicas na \u00e9poca do primeiro disco?<\/strong><br \/>\nMarco: \u00c9 meio complicado dar uma data certa para o tempo de fabrica\u00e7\u00e3o do &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;, mas isso j\u00e1 estava sendo maturado desde o come\u00e7o da banda. Em 2012, quando Hector, Nichollas [o baterista original que n\u00e3o est\u00e1 mais no grupo] e eu fundamos a Papangu, j\u00e1 havia uma ideia de fazer alguns discos sobre o imagin\u00e1rio folcl\u00f3rico do Nordeste. Apesar da parte musical n\u00e3o ter sido muito influenciada pela m\u00fasica nordestina na \u00e9poca, a gente tocava o stoner que sab\u00edamos tocar, mas sempre pensando nessa coisa de ter crescido na Para\u00edba, em Pernambuco, e ter sido criado nessa cultura musical, sabe? A primeira ideia que a gente teve era de fazer um tal \u201cmonstru\u00e1rio do Nordeste\u201d, um disco na linha do que o Secret Chiefs 3 (banda norte-americana que tem Trey Spruance, guitarrista do Mr. Bungle, como principal compositor) faz com discos tem\u00e1ticos, e tamb\u00e9m tentar algo parecido com &#8220;O Livro dos Seres Imagin\u00e1rios&#8221;, de Jorge Luis Borges. Ele tem uma enciclop\u00e9dia de bestas mitol\u00f3gicas e a gente queria fazer um disco que fosse influenciado pelas lendas de grandes monstros do folclore nordestino. Mas a\u00ed, a gente viu que n\u00e3o tinha muito paralelo na m\u00fasica com o que o Cinema Novo havia feito, com a remitifica\u00e7\u00e3o do cangaceiro. V\u00e1rios filmes foram feitos sobre Lampi\u00e3o, mas faltava na m\u00fasica um paralelo que fosse bacana e suj\u00e3o. O mesmo esp\u00edrito vanguardista que voc\u00ea encontra nos filmes, n\u00e3o encontra na m\u00fasica. Talvez voc\u00ea conseguisse alguma coisa com o Quinteto Armorial, mas a proposta era diferente. Ent\u00e3o naquela ideia, a gente j\u00e1 tinha uma m\u00fasica de aproximadamente 12 minutos de dura\u00e7\u00e3o chamada apenas &#8220;Lampi\u00e3o&#8221;, que era algo meio\u2026 qual \u00e9 mesmo o nome daquele mito grego do cara que vai no inferno buscar a amada e ela \u00e9 levada embora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Putz, eu sei que tem at\u00e9 uma saga dos Cavaleiros Zod\u00edaco que copia isso a\u00ed\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o Inferno de Dante n\u00e3o, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarco: N\u00e3o, isso a\u00ed tem a ver com\u2026 Orfeu! Ent\u00e3o, era meio que a hist\u00f3ria de Orfeu descendo para o inferno na forma de Lampi\u00e3o para enfrentar o Diabo na encruzilhada. Mas pensamos que era um &#8216;prato muito cheio&#8217; para a gente comer naquela \u00e9poca. Porque ainda \u00e9ramos m\u00fasicos amadores, n\u00e3o sab\u00edamos exatamente como produzir, como compor\u2026 Ent\u00e3o, meio que deixamos essa ideia guardada. Mas tinha uma outra coisa que juntamos depois, que \u00e9 um riff que Hector fez. Esse foi literalmente o primeiro riff da banda e se tornou a melodia do verso de &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221;. Ent\u00e3o esse talvez seja o nosso material mais antigo, se voc\u00ea pegar por esse par\u00e2metro. Fora esse riff de &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221;, a primeira das m\u00fasicas mais recentes foi uma que eu fiz chamada &#8220;Rito de Coroa\u00e7\u00e3o&#8221;, que \u00e9 a \u00faltima faixa desse disco, e eu compus em aproximadamente dezembro de 2021. E \u00e9 o \u00fanico tema que eu fiz sozinho nesse disco. As outras vieram depois. &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221; j\u00e1 est\u00e1 sendo tocada desde que a banda voltou enquanto entidade ao vivo em 2022, com a adi\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas outros membros da banda: Rodolfo, Pedro e Vitor. Hector sabe dizer melhor porque ele tocou ela mais ao vivo do que eu, mas ela \u00e9 massa demais de tocar. Uma baita m\u00fasica. No Sesc Carmo ela foi fenomenal de tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Sobre essa quest\u00e3o do tempo das composi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do que Marco j\u00e1 falou, o que eu poderia acrescentar \u00e9 que, a t\u00edtulo de exemplo, isso me lembra tamb\u00e9m uma parada que o Frank Zappa fazia que <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Xenochrony\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acho que \u00e9 xenocronia<\/a>. Ele tocava um solo interessante ao vivo, e dali ele recortava um tema e elaborava uma m\u00fasica nova [em est\u00fadio]. As coisas s\u00e3o meio repartidas no tempo, como o Marco falou; \u00e9 dif\u00edcil refazer a linha temporal, porque a melodia de &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221; talvez tenha sido o primeiro riff da hist\u00f3ria da banda. Mas &#8220;Terra Arrasada&#8221; tamb\u00e9m foi uma das primeiras m\u00fasicas e est\u00e1 no &#8220;Holoceno&#8221;, entendeu? A coisa fica guardada ali no nosso arm\u00e1rio, e a gente pensa que nem sempre a hora de usar \u00e9 agora. O nosso processo composicional \u00e9 muito de paci\u00eancia. Acho que ficamos buscando a ideia certa para quando chegar o momento certo, no contexto certo a ser usado. Mas tirando esse exemplo, eu posso afirmar que &#8220;Maracutaia&#8221;, que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de Rodolfo, \u00e9 integralmente nova. &#8220;Ru\u00ednas&#8221; \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de Pedro integralmente nova. E como Marco falou, &#8220;Rito de Coroa\u00e7\u00e3o&#8221;, que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o dele tamb\u00e9m, \u00e9 nova tamb\u00e9m. A &#8220;Boitat\u00e1&#8221; \u00e9 relativamente nova tamb\u00e9m\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: S\u00f3 um coment\u00e1rio a fazer sobre &#8220;Boitat\u00e1&#8221;: na verdade ela \u00e9 meio que uma \u201cTerra Arrasada parte 2\u201d. Ela \u00e9 baseada numa varia\u00e7\u00e3o de um pequeno trecho de &#8220;Terra Arrasada&#8221;, que usamos como semente para fazer uma faixa completamente diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: E a &#8220;Acende a Luz&#8221;, que \u00e9 a &#8216;prog epic&#8217; do disco, n\u00e3o \u00e9 algo antigo em termos de melodia e harmonia, mas a ideia dela surgiu com essa hist\u00f3ria que Marco falou l\u00e1 atr\u00e1s, de fazer uma uma hist\u00f3ria \u00e9pica do Lampi\u00e3o. Ent\u00e3o ela meio que talvez seja a sucessora espiritual dessa can\u00e7\u00e3o de 12 minutos que a gente tinha l\u00e1 no come\u00e7o, que era meio tosca, mas que agora virou essa beleza a\u00ed (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Papangu - Terra Arrasada [Taken from Holoceno]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5b6ELRaBd78?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que voc\u00eas comp\u00f5em? Voc\u00eas ficam gravando demos separadamente para depois mostrar \u00e0 banda ou v\u00e3o apresentando ideias pequenas tipo riffs? Ou esse processo n\u00e3o segue uma f\u00f3rmula espec\u00edfica?<\/strong><br \/>\nMarco: Eu n\u00e3o sei dizer se segue uma f\u00f3rmula espec\u00edfica para mim, porque agora temos dois outros compositores na banda, que s\u00e3o Rodolfo e Pedro. No caso, eles compuseram as faixas deles de maneira individual, mas sentiam que cabia no esp\u00edrito da banda. Eles utilizaram parte do mesmo vocabul\u00e1rio musical que se esperaria da Papangu, e trabalhamos os arranjos em conjunto para que tudo ficasse bem sintonizado e coubesse no disco. Mas s\u00e3o faixas que foram pensadas na estrutura do \u00e1lbum, em uma sequ\u00eancia que fizesse sentido e que a hist\u00f3ria tamb\u00e9m fosse vinculada. Essas duas faixas de Rodolfo e Pedro s\u00e3o respectivamente &#8220;Maracutaia&#8221; e &#8220;Ru\u00ednas&#8221;&#8230; E tamb\u00e9m tem outra faixa de Pedro que \u00e9 &#8220;Sol Raiar&#8221;. Essas tr\u00eas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o, digamos, &#8216;side quests&#8217; no disco; n\u00e3o s\u00e3o integralmente parte da hist\u00f3ria, mas seguem o mesmo ritmo de constru\u00e7\u00e3o de mundo de \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d. Eu particularmente costumo compor sozinho, mas pensando em quem vai executar as m\u00fasicas. Para a Papangu, eu fa\u00e7o os arranjos do zero pensando em quem \u00e9 que vai executar cada parte, para usar melhor as qualidades de cada um dos m\u00fasicos. E tamb\u00e9m quando consigo estar no Brasil, eu sou mais produtivo quando sento com Hector e Ra\u00ed e a gente comp\u00f5e junto. Acho que n\u00f3s tr\u00eas conseguimos uma maneira meio que el\u00e9trica, de um olhar para a cara do outro e fazer alguma coisa que fa\u00e7a sentido. Na mesma hora a gente mata o conceito ou segue adiante. Teve um intensivo que a gente fez em 2021 ou 2022 que passamos entre uma semana ou uns dez dias com Hector na minha casa, quase todo dia, pra compor. E nessa tirada saiu &#8220;Acende a Luz&#8221;, &#8220;Boitat\u00e1&#8221;, terminamos &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221; e tamb\u00e9m mais duas faixas que n\u00e3o est\u00e3o nesse disco, mas que v\u00e3o ser usadas em breve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: \u00c9 exatamente isso, eu parto da mesma perspectiva. Tem coisas que eu vou fazendo aqui em casa, de demo. Tem um riff, uma melodia, que eu vou anotando e guardando nessa grande caixa. Mas acho que realmente o momento de catarse \u00e9 quando a gente se junta, at\u00e9 mesmo dentro do est\u00fadio para fazer o disco. A coisa \u00e9 muito org\u00e2nica; faz daquele jeito, faz daquele outro, principalmente com a adi\u00e7\u00e3o de Pedro e Rodolfo. Porque Pedro nunca vai tocar o mesmo solo duas vezes, sabe? Ele \u00e9 totalmente avesso a isso, ele \u00e9 da escola da m\u00fasica universal de Hermeto Pascoal, de Itiber\u00ea Zwarg. Ent\u00e3o n\u00e3o tem como chegar para Pedro e dizer &#8216;toca isso&#8217;; ele vai passear na can\u00e7\u00e3o da maneira que ele achar pertinente naquele tempo. Rodolfo tamb\u00e9m tem uma comunica\u00e7\u00e3o com Pedro que \u00e9 muito flu\u00edda, ent\u00e3o \u00e9 muito massa. Eu gosto de pensar que temos nossas pecinhas de Lego ali e vamos montando, mas quando a gente se junta \u00e9 que a coisa realmente explode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: S\u00f3 uma coisa para mencionar: Pedro e Rodolfo s\u00e3o irm\u00e3os, eles nasceram com dez anos de diferen\u00e7a, e o pai deles era um grande arranjador chamado Odair Salgueiro. Eles cresceram tocando juntos, ent\u00e3o se voc\u00ea quiser pegar duas pessoas que tem uma comunica\u00e7\u00e3o musical instant\u00e2nea, como se fosse telep\u00e1tica, s\u00e3o eles. N\u00e3o sei se voc\u00ea lembra do show do Sesc Carmo, mas quando um solava, o outro respondia a mesma frase que ele fazia, mas harmonizando para cima! \u00c9 muito bonito ver dois irm\u00e3os se comunicando atrav\u00e9s da m\u00fasica desse jeito. A gente tem muita sorte de ter ambos agora fazendo parte do nosso grande leque musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto eles quanto o pai tamb\u00e9m s\u00e3o de Jo\u00e3o Pessoa (PB)?<\/strong><br \/>\nHector: Isso, o pai deles eu n\u00e3o tenho certeza do nascimento, mas fez carreira acad\u00eamica primeiro em S\u00e3o Paulo, depois na Para\u00edba. Ele era professor da UFPB [Universidade Federal da Para\u00edba], do Departamento de M\u00fasica. Um ponto que sempre acho que \u00e9 muito foda de amarrar na cronologia da m\u00fasica paraibana \u00e9 que Odair Salgueiro foi respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e pela grava\u00e7\u00e3o do primeiro registro fonogr\u00e1fico do Jaguaribe Carne, que \u00e9 um coletivo de m\u00fasica experimental avant-garde daqui. \u00c9 meio que folk, meio que muita coisa. Vale muito a pena ouvir pessoas que passaram pelo Jaguaribe Carne, como por exemplo Chico C\u00e9sar. Acho que at\u00e9 o pr\u00f3prio Z\u00e9 Ramalho chegou a contribuir em algum momento. Mas o cora\u00e7\u00e3o da coisa \u00e9 formado por dois irm\u00e3os tamb\u00e9m, que s\u00e3o Paulo R\u00f3 e Pedro Osmar, e o primeiro registro fonogr\u00e1fico do Jaguaribe Carne teve o pai dos meninos gravando dentro de uma sala de concerto na UFPB e \u00e9 um neg\u00f3cio assim que vale muito a pena ouvir. \u00c9 uma grande influ\u00eancia pra gente tamb\u00e9m. E como que isso tudo se amarra, n\u00e9? Essa cronologia da \u201cm\u00fasica torta paraibana\u201d com o Jaguaribe Carne, com Odair Salgueiro e com Papangu: Paulo R\u00f3 \u00e9 um m\u00fasico convidado em uma das nossas can\u00e7\u00f5es do disco. Pra gente foi uma honra fenomenal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jaguaribe Carne\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nJyV5DR94AMfXW9-5co6gUrSL2V46rpiQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele tocou nesse \u00faltimo disco? Qual faixa? E qual instrumento ele tocou?<\/strong><br \/>\nHector: Ele tocou na &#8220;Ru\u00ednas&#8221;, percuss\u00e3o vocal e moringa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00eas acham que mudou e do processo de composi\u00e7\u00e3o desse novo disco em rela\u00e7\u00e3o ao anterior? Al\u00e9m de ter a quest\u00e3o dos novos m\u00fasicos e etc\u2026<\/strong><br \/>\nHector: Eu vou dar um exemplo pr\u00e1tico e que foi um desafio para mim, mas que me colocou em um novo lugar musical e que me deixou extremamente satisfeito com o resultado, porque \u00e9 algo que eu nunca tinha feito. Normalmente, nas outras faixas do &#8220;Holoceno&#8221; e das outras m\u00fasicas que a gente tem, ainda n\u00e3o lan\u00e7adas, eu sei exatamente o que vou fazer porque estava ali na hora de fazer as partes de guitarra ou de viol\u00e3o. S\u00f3 que em &#8220;Maracutaia&#8221;, por exemplo, que \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o de Rodolfo, eu peguei a can\u00e7\u00e3o totalmente pronta feita no piano. E a\u00ed, Rodolfo apresentou a can\u00e7\u00e3o pra gente e eu nunca fiz isso, de receber uma can\u00e7\u00e3o composta no piano para que eu fizesse a guitarra em cima, saca? Eu construo a \u201cargamassa da guitarra\u201d&#8217; para que depois a gente possa p\u00f4r outras coisas. Com &#8220;Maracutaia&#8221;, n\u00e3o; Rodolfo apresentou a can\u00e7\u00e3o no piano e eu disse: &#8220;caramba, que massa, eu agora vou fazer as guitar tracks de uma m\u00fasica que \u00e9 piano-based&#8221;. Ent\u00e3o eu gostei muito de poder incluir guitarra em uma m\u00fasica que n\u00e3o foi pensada originalmente para nascer naquele instrumento. Isso me colocou num aprendizado muito foda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Eu tamb\u00e9m acho que o processo de agora foi muito menos intuitivo do que\u2026 eu n\u00e3o vou dizer \u201ccerebral\u201d porque eu n\u00e3o sou inteligente assim, mas quando fizemos o primeiro disco (&#8220;Holoceno&#8221;), n\u00e3o sab\u00edamos quase nada de harmonia, nada de melodia, arranjo, um ter\u00e7o do disco foi feito no est\u00fadio e o resto nos nossos quartos, com interface bem barata, sem saber exatamente 100% o que est\u00e1vamos fazendo. Mas deu super certo, por mera sorte do destino. E agora temos tr\u00eas m\u00fasicos que s\u00e3o as adi\u00e7\u00f5es, uma nova banda. Gente que estudou em conservat\u00f3rio ou que, no caso de Rodolfo, vem tocando m\u00fasica de maneira profissional h\u00e1 15 anos, no m\u00ednimo. N\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um pouco amedrontador tocar com gente que sabe tanto de m\u00fasica assim, mas tamb\u00e9m nos incentiva bastante a tentar cobrir os pontos cegos na nossa forma\u00e7\u00e3o musical e correr atr\u00e1s do preju\u00edzo. Ent\u00e3o o material que estamos apresentando nesse \u00e1lbum novo \u00e9 mais complexo. N\u00e3o s\u00f3 no termo t\u00e9cnico em si, do qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 de executar, mas a harmonia \u00e9 diferente. A gente tem que pensar na m\u00fasica de uma maneira um pouco diferente, n\u00e3o s\u00f3 na secura do riff e melodia, sabe? Isso a\u00ed \u00e9 coisa que est\u00e1 no &#8220;Holoceno&#8221;&#8230; \u00c9 muito reducionista pensar nisso para encarar qualquer m\u00fasica que vem nesse segundo disco. Apesar de ter feito o \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d com um pouco mais de esfor\u00e7o na maneira musical, nos sentimos muito mais soltos nessa forma\u00e7\u00e3o nova. Porque agora temos a experi\u00eancia de palco, de ter tocado n\u00e3o s\u00f3 em Jo\u00e3o Pessoa, mas tamb\u00e9m em outros estados. Isso d\u00e1 uma liga diferente, d\u00e1 uma confian\u00e7a diferente na banda. E agora temos a experi\u00eancia de j\u00e1 ter gravado dois discos. Acho que o fato de termos crescido juntos como m\u00fasicos faz com que a gente encare as performances nesse e nos pr\u00f3ximos registros que vir\u00e3o com muito mais confian\u00e7a. Acho que \u00e9 o maior aprendizado que tivemos nesse \u00faltimo tempo, n\u00e3o \u00e9, Hector?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Sem d\u00favida! Eu sigo as palavras de Marco, na quest\u00e3o de ser desafiador. A gente n\u00e3o tinha conversado sobre isso e nem combinado, mas j\u00e1 falei isso pra minha esposa em particular, no sentido de que da primeira vez que eu entrei no est\u00fadio para tocar com Pedro, Rodolfo e Vitor (o baterista), eu fiquei: &#8220;caramba, eu t\u00f4 intimidado aqui&#8221;, porque os caras s\u00e3o monstros. Eu pensei: &#8220;ah \u00e9 isso, os caras est\u00e3o jogando na S\u00e9rie A, eu vou ter que jogar na S\u00e9rie A tamb\u00e9m&#8221; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que eles entraram na banda? Eles j\u00e1 eram amigos de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nMarco: Brother, come\u00e7ou tudo quando eu fui morar fora. Eu j\u00e1 tinha tocado com Pedro uma vez, acho que em 2014. Pedro \u00e9 um cara super novo, nasceu em 1997 ou 1998. E eu em 1994. Ent\u00e3o sou quatro anos mais velho que ele, eu acho. Tocamos juntos uma vez num ensaio em 2014 no qual Pedro quis tocar bateria, eu toquei baixo e tinha um colega de Pedro que tocou guitarra e a gente fez simplesmente um ensaio de sopet\u00e3o. Acho que Pedro conhecia minha banda na \u00e9poca e a comunica\u00e7\u00e3o foi legal, mas a gente nunca voltou a tocar junto. At\u00e9 porque Pedro \u00e9 um cara super ocupado. Mas eu o conhecia, sabia que ele gostava das coisas mais progressivas e tal, e sabia que ele tamb\u00e9m \u00e9 um excelente baixista. E na hora que eu sa\u00ed do Brasil, pensei: &#8220;p\u00f4, a gente precisa chamar um baixista pra me substituir nos shows\u2026o \u00fanico cara que eu conhe\u00e7o que conhece essas &#8216;proguerajem&#8217; em Jo\u00e3o Pessoa \u00e9 Pedro&#8221;. A\u00ed eu falei com ele e disse: &#8220;\u00f3, a gente tem esse material e tal, estamos precisando de baixista, tu topa? Quer ensaiar com a gente e ver como \u00e9 que fica?&#8221; A\u00ed Pedro topou, e eu pensei em chamar Rodolfo porque eu conhecia de vista, e falei: &#8220;\u00f3, Rodolfo n\u00e3o tem interesse tamb\u00e9m n\u00e3o?&#8221; A\u00ed os dois vieram para um ensaio. Ensaiamos eu, Hector e Ra\u00ed quando a gente estava no Brasil, ainda nessa etapa de composi\u00e7\u00e3o das faixas do segundo disco e fomos para o est\u00fadio com Pedro e Rodolfo para dar uma passada nas primeiras faixas. Acho que a primeira que a passamos foi &#8220;\u00c1gua Branca&#8221;, se n\u00e3o me engano, que \u00e9 a segunda faixa do &#8220;Holoceno&#8221;. E a\u00ed teve uma batalha grande para achar um baterista em Jo\u00e3o Pessoa. Porque a Para\u00edba tem excelentes bateristas de MPB e excelentes bateristas de jazz, como o gigantesco Dennis Bulh\u00f5es, que toca agora em Nova York com gente tipo Ari Hoenig, sabe? Dennis Bulh\u00f5es \u00e9 foda para caralho como baterista. E, al\u00e9m dele, tem bateristas de metal, mas achar algu\u00e9m que consiga ser t\u00e3o vers\u00e1til no metal e nos ritmos nordestinos \u00e9 meio dif\u00edcil\u2026 Porque normalmente, quem estuda ou toca algum g\u00eanero nunca tem aquela poliniza\u00e7\u00e3o cruzada de um g\u00eanero para outro; ou o cara \u00e9 \u201cmetaleiro da pra\u00e7a\u201d ou ent\u00e3o \u00e9 jazzeiro MPB que vai tocar na banda de sei l\u00e1 quem, sabe? E a\u00ed acontece que fui mandando mensagem para a galera e os caras dizendo: &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o rola para mim tocar essas paradas mais prog&#8221; ou ent\u00e3o: &#8220;n\u00e3o rola para mim tocar ritmos nordestinos, mas conhe\u00e7o esse cara&#8221; e mandaram o contato de Vitor e disseram o seguinte portf\u00f3lio dele: &#8220;ele toca em todas as bandas de death metal daqui, voc\u00ea j\u00e1 deve ter visto, e ele tamb\u00e9m toca tri\u00e2ngulo em grupos de forr\u00f3 p\u00e9-de-serra&#8221;. A\u00ed a gente pensou &#8220;puta que pariu, esse \u00e9 o cara!&#8221;. Eu j\u00e1 n\u00e3o estava no Brasil na \u00e9poca, mas mandei mensagem no WhatsApp para o Vitor, mandei para ele o disco e ele &#8220;beleza, vou ouvir aqui e aprender&#8221;. A\u00ed eu sei que os meninos foram ensaiar com ele e Hector sabe dizer melhor como foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Ah, foi muito engra\u00e7ado porque\u2026 S\u00f3 vou voltar um passo, porque o &#8220;Holoceno&#8221; ganhou uma baita tra\u00e7\u00e3o na internet, n\u00e9? A gente sem divulga\u00e7\u00e3o, sem produ\u00e7\u00e3o, sem nada, simplesmente na base de boas reviews de bons portais, e o neg\u00f3cio foi ganhando tra\u00e7\u00e3o no Brasil e fora dele. O disco saiu em 2021, e estava muito ruim de show aqui em Jo\u00e3o Pessoa por causa da pandemia. Mas o disco foi girando bem, ent\u00e3o a gente: &#8220;porra, agora vai ter que montar uma forma\u00e7\u00e3o ao vivo com a sa\u00edda de Marco e com a quest\u00e3o da bateria&#8221;, n\u00e9? Nichollas, que era o batera original da banda, tamb\u00e9m foi morar na gringa. Ent\u00e3o vamos expandir a banda e montar essa nova forma\u00e7\u00e3o. E a\u00ed veio toda essa hist\u00f3ria que Marco acabou de contar, de trazer Pedro, Rodolfo e Vitor. Fizemos o grupo ali no famoso Zap [Whatsapp] e mandamos as can\u00e7\u00f5es, pedindo: &#8220;p\u00f4, faz isso, faz aquilo, manda v\u00eddeo, p\u00e1, p\u00e1 e volta&#8221; e a gente marca o primeiro ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei l\u00e1 com tr\u00eas outras pessoas que eu nunca tinha tocado na vida. J\u00e1 t\u00ednhamos encontrado Pedro e Rodolfo, mas eu n\u00e3o conhecia Vitor pessoalmente. Nem Pedro nem Rodolfo nem Ra\u00ed o conheciam, e a gente: &#8220;\u00e9 isso, esse aqui \u00e9 o novo baterista da nossa banda, eu n\u00e3o te conhe\u00e7o, mas vamos tocar&#8221;. E a\u00ed a coisa foi, bicho! Eu tenho at\u00e9 um trechinho gravado em v\u00eddeo desse primeiro ensaio que foi muito massa. Eu acho que a gente est\u00e1 tocando &#8220;S\u00e3o Francisco&#8221;, que \u00e9 uma m\u00fasica do &#8220;Holoceno&#8221;, e foi muito foda, porque no primeiro ensaio Vitor j\u00e1 botou o DNA dele, que \u00e9 uma coisa que a gente conversou com ele no grupo. &#8220;Bicho, a gente n\u00e3o quer que voc\u00ea copie Torstein [Lofthus]&#8221;, que \u00e9 o batera noruegu\u00eas que efetivamente gravou as faixas do &#8220;Holoceno&#8221;. &#8220;Bicho, \u00f3, n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea copiar, n\u00e3o adianta for\u00e7ar. Voc\u00ea vai fazer o seu trabalho aqui. Bota teu sangue, bota teu DNA&#8221;. E tem umas partes que ele faz bem diferentes de Torstein, mas que fica muito foda ao vivo. Uma pegada mais suingada, mais groovada, ao passo que Torstein tocaria de uma maneira mais jazz\u00edstica, e Vitor vai botar um molejo ali. Enfim, \u00e9 muito massa, \u00e9 muito interessante de ver. E al\u00e9m de ter ingressado na banda nessa maneira, meio de supet\u00e3o, hoje n\u00f3s somos todos absolutamente amigos. Ainda bem que deu uma liga muito forte. N\u00e3o apenas musical, mas tamb\u00e9m pessoal. A gente se gosta muito, at\u00e9 porque nada \u00e9 mais prova de amizade e conviv\u00eancia do que um monte de caba falando besteira dentro de um carro tendo que dirigir quatro horas de Petr\u00f3polis para Pouso Alegre em Minas Gerais\u2026 isso a\u00ed \u00e9 o maior teste de amizade que existe, amigo! (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83155 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 legal isso! J\u00e1 toquei em bandas assim e \u00e9 chato ter que aprender material anterior sem poder imprimir a sua interpreta\u00e7\u00e3o naquilo. J\u00e1 que voc\u00eas falaram da participa\u00e7\u00e3o do Torstein, quero aproveitar e perguntar: como \u00e9 que aconteceu a participa\u00e7\u00e3o do Philippe Bussonnet, ex-baixista do Magma, nesse disco novo?<\/strong><br \/>\nMarco: \u00c9 uma longa hist\u00f3ria, mas em 2013 Philippe Bussonnet ainda era baixista do Magma. Na \u00e9poca ele tocou no Mimo, o festival de m\u00fasica internacional de Olinda (PE) com uma banda chamada Guillaume Perret &amp; The Electric Epic, que \u00e9 um quarteto de jazz fusion com uma pegada bem rock meio Rage Against the Machine, com saxofone cheio de efeitos. Guillaume Perret pegou uma infec\u00e7\u00e3o na m\u00e3o numa piscina de um hotel em Bras\u00edlia (DF), a\u00ed ele cancelou a participa\u00e7\u00e3o dele no show, mas a banda j\u00e1 estava l\u00e1: Yoann Serra (baterista), Philippe Bussonnet (baixista) e Jim Grandcamp (guitarrista) tocaram o repert\u00f3rio todinho em trio, com a guitarra e o baixo substituindo o que o saxofone faria nas melodias e foi um showza\u00e7o do caralho. N\u00e3o tinha tanta gente no show em Olinda porque foi bem cedo, acho que tr\u00eas da tarde, mas a banda botou para lascar, foi maravilhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, nessa \u00e9poca eu j\u00e1 era obcecado pelo Magma, era f\u00e3 desde antes do ensino m\u00e9dio, acho que tinha uns 13 anos quando eu descobri a banda. Tinha estudado v\u00e1rias coisas deles no baixo. E a\u00ed depois do show eu pedi pra falar com Philippe no backstage. Os seguran\u00e7as n\u00e3o quiseram me deixar passar, mas a\u00ed ele interviu pessoalmente e me deixaram entrar. E a\u00ed eu fui l\u00e1 no backstage, passamos uma hora e meia conversando, ele me deixando comer a comida do camarim porque eu estava faminto pra caralho (risos). E a\u00ed conversa vai, conversa vem, ele me deu o e-mail dele, disse: &#8220;\u00f3, se voc\u00ea t\u00e1 precisando de dicas para melhorar no instrumento, para estudar, s\u00f3 mandar uma mensagem para mim que a gente sugere umas coisas&#8221;, o que foi super massa um cara como ele ter oferecido a um pirralho de 19 anos um conselho desses, n\u00e9? E a\u00ed eu fui bombardear ele com perguntas e a gente manteve uma rela\u00e7\u00e3o de cordialidade via e-mail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou que eu fui visitar uma namorada, que na \u00e9poca estava morando em Paris, e a\u00ed eu aproveitei e consegui ver uns shows dele. Ele foi tocar com uns grupos de jazz l\u00e1, e nesses tr\u00eas dias aprendi muito; vi ele tocar, ele me ensinou umas coisas, toquei no baixo dele l\u00e1 no Le Triton, em Paris (que \u00e9 o clube onde o Magma normalmente grava os discos). Depois, ele mandou uma mensagem dizendo que ia tocar em um festival de avant-prog no sul da Alemanha, o Freakshow Artrock Festival em W\u00fcrzburg, na Bav\u00e1ria, e eu conhecia o dono do festival e fui para l\u00e1\u2026 Enfim, a grande jogada foi que eu trouxe minha interface de \u00e1udio, mostrei as m\u00fasicas [da Papangu] para ele e disse &#8220;Philippe, voc\u00ea quer tocar baixo nessas faixas? Voc\u00ea t\u00e1 com tempo livre agora, que \u00e9 a sua folga do festival\u2026&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Olha o tamanho da armadilha! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Pois \u00e9, j\u00e1 cheguei com a faca e o queijo na m\u00e3o. Entreguei na m\u00e3o dele e obviamente ele cortou o queijo. A\u00ed fui no Airbnb dele e trouxe um caf\u00e9 da manh\u00e3 pro bicho. Ele fumou uma carteira de cigarro, tomou o caf\u00e9\u2026 Sabe aquela tinta preta que absorve toda luz, que n\u00e3o reflete nada? Que foi objeto de um grande processo judicial na Alemanha? Vantablack eu acho\u2026 O caf\u00e9 que o cara tomou era tipo isso, um \u00f3leo de carro usado. A\u00ed ele tomou esse caf\u00e9, fumou o cigarro e foi l\u00e1 aprender as m\u00fasicas. E elas n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis. Mas o cara pegou um pouco de imediato. &#8220;Acende a Luz&#8221; n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas ele tirou essa m\u00fasica em meia hora, eu acho. Ele fritou naquele sola\u00e7o que est\u00e1 no grande \u00e1pice no final da faixa. E se deu assim: foi meio que sorte e cara de pau, uma baita combina\u00e7\u00e3o que eu recomendo a todos. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele fez a grava\u00e7\u00e3o assim, em poucas tentativas, na tua frente?<\/strong><br \/>\nMarco: Ele fez dois takes de baixo dessa m\u00fasica. Ele praticou um pouquinho, disse: &#8220;Marco, \u00e9 o seguinte: eu vou precisar de uns vinte minutos aqui para aprender, fica a\u00ed, beleza?&#8221; A\u00ed, 15 minutos depois vamos l\u00e1 gravar. Fizemos duas vezes e ele matou tudo. Nossa, o cara \u00e9 um g\u00eanio. E assim, fico super honrado de ter um dos her\u00f3is do meu instrumento colocar uma participa\u00e7\u00e3o no disco, sabe? Um neg\u00f3cio que me deixou \u201chumilhado\u201d e tamb\u00e9m ciente do quanto sou sortudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 engra\u00e7ado que Marco tamb\u00e9m fez a ponte para a participa\u00e7\u00e3o do Torstein na bateria do primeiro disco, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMarco: Exato, infelizmente acabei assumindo o papel de &#8220;assessor de assuntos internacionais&#8221; da banda! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Olha, justamente tudo que for para conectar o Papangu com a cena da m\u00fasica troncha europeia, o embaixador \u00e9 Marco, n\u00e3o tem jeito! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Cara de pau, amigo. A cara de pau leva voc\u00ea para qualquer lugar!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83157 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o do Bussonnet, o que voc\u00eas podem me falar sobre essas outras participa\u00e7\u00f5es no \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nHector: Cara, primeiro eu vou falar do Jo\u00e3o [Kombi], que foi basicamente um grande propagador da palavra \u201cpapanguz\u00edstica\u201d no Sudeste, n\u00e9? A gente saiu em turn\u00ea com eles e isso deu uma baita tra\u00e7\u00e3o pra gente no Sudeste. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/11\/entrevista-test-uma-banda-peculiar-de-grindcore-fala-sobre-seu-disco-normal-e-seu-filme\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Jo\u00e3o e o Barata do Test s\u00e3o absolutos guerreiros da cena brasileira<\/a>, uma das poucas bandas que voc\u00ea consegue contar nos dedos das m\u00e3os que j\u00e1 se apresentaram em todos os estados do territ\u00f3rio nacional. Tem essa admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua, nossa com o Test e eles com a Papangu, mas a gente desenvolveu uma conex\u00e3o al\u00e9m da quest\u00e3o musical e realmente nos tornamos amigos. E foi muito simples no sentido de falar: &#8220;a gente precisa chamar Jo\u00e3o para participar de alguma coisa desse disco&#8221;. E a\u00ed, atrav\u00e9s de Jo\u00e3o, nesse universo expandido do rock troncho e do Sudeste, a gente conheceu o Deafkids tamb\u00e9m. Trocamos uma ideia com eles na nossa \u00faltima turn\u00ea em S\u00e3o Paulo e foi super legal, e quando a gente convidou o Jo\u00e3o para participar, a gente chamou o Marian Sarine tamb\u00e9m e foi uma coisa muito natural. Eu curto para caralho Deafkids e Marian \u00e9 um m\u00fasico talentos\u00edssimo, um puta percussionista e a presen\u00e7a dele em &#8220;Oferenda no Alguidar&#8221; trouxe um suingue naquela metade da m\u00fasica que \u00e9 muito massa. Toda vez que escuto, eu pesco uma batida nova que ele d\u00e1 e eu acho muito foda. Al\u00e9m deles, temos o Paulo R\u00f3, que veio a\u00ed para acrescentar vocaliza\u00e7\u00f5es e percuss\u00e3o em &#8220;Ru\u00ednas&#8221;, como j\u00e1 falamos. Ficou muito foda, muito massa mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas gravaram esse disco todo aqui em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o foi?<\/strong><br \/>\nMarco: Tivemos sete dias de grava\u00e7\u00e3o no est\u00fadio El Rocha em S\u00e3o Paulo, sob a dire\u00e7\u00e3o de Fernando Sanches. Fizemos alguns overdubs em Jo\u00e3o Pessoa e na Alemanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00eas lembram mais dessa experi\u00eancia aqui?<\/strong><br \/>\nHector: Caf\u00e9! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Excelente (risos). Tivemos a participa\u00e7\u00e3o do imenso <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Yokota<\/a>, grande fot\u00f3grafo do cen\u00e1rio da m\u00fasica, que trouxe um caf\u00e9 que acho que foi o combust\u00edvel respons\u00e1vel por 98% das performances do disco, com exce\u00e7\u00e3o das participa\u00e7\u00f5es especiais que n\u00e3o estiveram no El Rocha nesses dias de grava\u00e7\u00e3o. Mas foi fant\u00e1stico. O est\u00fadio El Rocha tem uma sensa\u00e7\u00e3o de casa de fam\u00edlia, sabe? Pessoal super gente boa, extremamente detalhista e profissional no trabalho, mas fizeram a gente se sentir em casa durante esses sete dias. Realmente nos acolheram durante essa grava\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se \u00e9 o caso para Pedro e Rodolfo, visto que eles t\u00eam bem mais experi\u00eancia de est\u00fadio do que a gente. Mas para mim, Hector e Vitor, foi a primeira vez que estivemos num est\u00fadio top de linha. A sala tem um som incr\u00edvel, voc\u00ea n\u00e3o tira um som de bateria em outro canto no Brasil que soe t\u00e3o legal quanto a sala ao vivo do El Rocha. E o fato da gente estar no local com gente t\u00e3o acolhedora, com uma qualidade profissional muito grande, acho que trouxe o melhor das nossas performances. A gente se sentiu super \u00e0 vontade o tempo todo para executar m\u00fasica sem se preocupar com a parte t\u00e9cnica, sabe? Tudo ficou a par de Fernando, de Rodolfo Duarte e de Maiane Souza, que foram os dois assistentes de grava\u00e7\u00e3o nesses dias. [A mixagem ficou por conta de Richard Behrens no Big Snuff Studio, em Berlim, e a masteriza\u00e7\u00e3o por Andrea P. no MSTR Studio, em Vicenza]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria s\u00f3 perguntar qual \u00e9 a vers\u00e3o oficial pro lance do Nichollas n\u00e3o estar mais na banda. Ele saiu porque foi fazer as coisas dele em outro pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nMarco: Ele foi se concentrar na cadeira acad\u00eamica. Ele trabalha com engenharia de materiais e \u00e9 um super pesquisador na \u00e1rea dele. Por isso, preferiu se concentrar na carreira acad\u00eamica, mas ainda gravou uma faixa foda para caralho conosco que ainda vai ser lan\u00e7ada, que remonta aos prim\u00f3rdios da Papangu. \u00c9 uma pegada super suja, super doom e maravilhosa. Foi muito massa poder tocar com Nichollas, e quem sabe ele n\u00e3o faz uma participa\u00e7\u00e3o com a gente no futuro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: A gente tem um carinho enorme por ele. Gra\u00e7as a Deus nunca aconteceu da gente ter na banda nenhum tipo de rusga ou desentendimento. E \u00e9 realmente isso: o cara simplesmente se mudou para a Europa e foi viver uma vida de cientista l\u00e1. Eu fiz um post no Instagram sobre o Knotfest e eu falo isso, que eu tenho um puta orgulho da carreira dele porque o cara literalmente \u00e9 um cientista; o maluco \u00e9 doutor em engenharia de materiais, velho! O bicho participa de congresso na Europa, na Alemanha, na Fran\u00e7a, sei l\u00e1, apresenta trabalho\u2026 Que porra, \u00e9 muito massa que o cara tenha enveredado para essa \u00e1rea, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: era o sonho de Bulma pro filho em Dragon Ball, n\u00e9? (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83160 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu6-300x173.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a idade de cada um de voc\u00eas da banda?<\/strong><br \/>\nHector: Eu tenho 30. Acho que at\u00e9 a entrada de Pedro e Vitor, eu era o mais novo. Mas acredito que eles s\u00e3o mais novos que eu. Mas o Marco vai falar porque lida melhor com dados\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Pela minha tabela de Excel aqui, Pedro \u00e9 o mais novo; ele nasceu em janeiro de 1998. E Rodolfo \u00e9 o mais idoso da banda: ele nasceu em novembro de 1988. E todo o resto da banda nasceu em 1993, 1994 ou 1997. Ent\u00e3o a m\u00e9dia de idade \u00e9 30 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando vi voc\u00eas no Sesc Carmo, me pareceu que al\u00e9m do setlist com coisas do &#8220;Holoceno&#8221; e j\u00e1 adiantando algo do &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;, voc\u00eas abriram um certo espa\u00e7o para improvisos. \u00c9 isso mesmo? Voc\u00eas pretendem fazer esse tipo de coisa sempre?<\/strong><br \/>\nMarco: Teve um show que a gente tocou em Campina Grande (PB), na \u00faltima turn\u00ea no Nordeste, que na metade de &#8220;S\u00e3o Francisco&#8221;, em vez de tocar o improviso que a gente costuma fazer, a gente simplesmente tocou &#8220;Chameleon&#8221; do Herbie Hancock porque apareceu um cara que entrou no bar com a camiseta do Herbie, e a gente pensou: &#8220;ei, vamos tocar &#8220;Chameleon?&#8221;. E a\u00ed Vitor disse: &#8220;nunca ouvi essa m\u00fasica&#8221;, a\u00ed fomos l\u00e1 no carro ouvir. Da\u00ed a gente foi no show e mandou &#8220;Chameleon&#8221; no meio da m\u00fasica para a surpresa dos metaleiros que estavam na plateia e para o grande \u00eaxtase do cara que estava usando essa camisa do Herbie! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Teve outro exemplo massa que foi no show de Jo\u00e3o Pessoa, dessa mesma turn\u00ea do Nordeste. O show que a gente tocou aqui na capital. Est\u00e1vamos l\u00e1 tocando, e a\u00ed Pedro fez: &#8220;pera a\u00ed gente, t\u00f4 a fim de fazer um solo&#8221;. A\u00ed ele vai l\u00e1 no teclado de Rodolfo e ficam os dois l\u00e1 fritando e a gente segurando o riff. \u00c9 isso bicho, uma cena comum que voc\u00ea pode ver simplesmente algu\u00e9m dizer: &#8220;pera a\u00ed gente t\u00f4 afim de fazer um solo aqui&#8221;, a\u00ed o cara vai l\u00e1 e faz! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das coisas que eu achei muito foda e que tamb\u00e9m foi engra\u00e7ado [durante o show] foi aquela m\u00fasica com aqueles franguinhos de borracha que voc\u00ea aperta e sai som. E essa m\u00fasica est\u00e1 no disco tamb\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1?<\/strong><br \/>\nMarco: Na verdade o arranjo dela foi muito bem pensado, inclusive para os frangos de borracha. Mas \u00e9 o seguinte: Pedro trouxe isso como influ\u00eancia do F\u00e1bio Pascoal, que \u00e9 o filho e percussionista da banda de Hermeto Pascoal, e ele usa alguns instrumentos, digamos, n\u00e3o-ortodoxos de percuss\u00e3o, inclusive bichinhos de borracha. A verdade \u00e9 que se voc\u00ea for analisar o som que esses bichinhos fazem, \u00e9 absurdo porque voc\u00ea tem um instrumento de percuss\u00e3o com glissando microtonal. Ele n\u00e3o s\u00f3 emite uma nota, ele emite um pequeno acorde um pouco dissonante e ele reage de acordo com a maneira que voc\u00ea aperta. De certa maneira voc\u00ea tem um sintetizador anal\u00f3gico no formato de um frango, o que particularmente eu acho maravilhoso, e n\u00e3o precisa de energia [el\u00e9trica]. \u00c9 excelente, voc\u00ea tem como usar e manipular isso para fazer um som percussivo muito foda, e ele reage pelo toque. Ele vai do pian\u00edssimo ao fort\u00edssimo, vai soltar uma nota diferente. E Pedro come\u00e7ou a usar isso no arranjo de &#8220;Maracutaia&#8221; nos shows e o frango ficou excelente tamb\u00e9m no est\u00fadio. A gente gravou ele com um microfone condensador de vinte mil reais, com um preamp de dez mil reais num est\u00fadio profissional\u00edssimo e o resultado ficou excelente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PAPANGU - Maracutaia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WoPAPcggbnM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa que tem o frango ent\u00e3o \u00e9 &#8220;Maracutaia&#8221;, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMarco: Exato, de autoria de Rodolfo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: \u00c9 engra\u00e7ado essa coisa da galinha, porque agora eu dei de presente para Pedro um novo integrante, que \u00e9 um porco. Em breve o porco vai estar a\u00ed tamb\u00e9m sendo visto como um mascote da banda. Mas enfim, essa parada da galinha de borracha foi muito engra\u00e7ada, porque o pessoal j\u00e1 ficava comentando, na expectativa. Me lembro quando eu fui com Pedro, Ra\u00ed e acho que Vitor tamb\u00e9m no programa do Thiago DJ, o Heavy Pero No Mucho, l\u00e1 da 89 FM, A R\u00e1dio Rock de S\u00e3o Paulo. A\u00ed o bicho perguntou pra gente: &#8220;rapaz, e que hist\u00f3ria \u00e9 essa a\u00ed de que voc\u00eas tocam com uma galinha de borracha?&#8221; E eu: &#8220;que isso, j\u00e1 chegou aqui, velho?&#8221; (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado tamb\u00e9m porque voc\u00eas gostam de Magma, de prog, de jazz e tal, que na teoria seria algo super cerebral, mas tamb\u00e9m tem essa coisa que d\u00e1 uma quebrada na expectativa. O pessoal pode imaginar que voc\u00eas seriam m\u00fasicos super sisudos, t\u00e9cnicos demais, mas a\u00ed voc\u00eas v\u00eam com coisas assim e quebra essa imagem.<\/strong><br \/>\nHector: Tem um meme que achei muito engra\u00e7ado que vi em algumas p\u00e1ginas tipo &#8220;Jazz Memes&#8221; ou qualquer merda parecida, que era tipo: \u201cJazz \u00e9 m\u00fasica de seriedade\u201d e a\u00ed tamb\u00e9m tem um cara fazendo um puta solo de scat singing, a coisa mais doida do mundo, e a galera se abrindo de rir, t\u00e1 ligado? Eu acho que isso resume bastante. Uma coisa que eu sempre digo: o povo do rock velho, do metal, do rock pesado, do punk e do hardcore\u2026 Enfim, eu vejo que \u00e9 uma galera que, \u00e0s vezes se leva muito a s\u00e9rio e n\u00e3o deveria tanto. Eu acho que trazer esse movimento \u00e9 legal para qualquer g\u00eanero musical. Se voc\u00ea ficar se for\u00e7ando a fazer aquela imagem de \u201ctruez\u00e3o\u201d o tempo todo, a coisa fica meio boba, sabe? A gente \u00e0s vezes entra em line-ups que tem bandas assim justamente de metal extremo e tal. No Abril Pro Rock (em Recife, PE), a gente tocou antes do Krisiun. Velho, eu fiquei assim: &#8220;ser\u00e1 que os caras v\u00e3o come\u00e7ar a jogar coquetel molotov aqui na gente?&#8221;. Mas porra, a gente n\u00e3o tem que ter essa preocupa\u00e7\u00e3o. A gente simplesmente cresceu junto, a gente \u00e9 muito amigo, eu, Marco e Ra\u00ed. A gente fica trocando besteirol o tempo todo, e isso acaba refletindo na m\u00fasica. N\u00e3o que a banda seja \u201cChacrinha\u201d, n\u00e3o \u00e9 isso que eu quero dizer. A banda \u00e9 extremamente s\u00e9ria. Essa banda \u00e9 parte da minha vida. Mas a gente n\u00e3o precisa se vestir com armadura de &#8220;\u00f3, eu sou truez\u00e3o&#8221;, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O &#8220;Holoceno&#8221; j\u00e1 era um disco conceitual e cada faixa funcionava como um cap\u00edtulo de um livro. O &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; segue essa mesma receita?<\/strong><br \/>\nMarco: \u00c9 um pouco menos linear do que o &#8220;Holoceno&#8221;. Esse disco foi pensado com uma linha do tempo bem clara, ele termina mais ou menos no ano 1920 e 1925, eu acho. A gente leu umas biografias de Lampi\u00e3o e tem um monte delas&#8230; Eu n\u00e3o vou dizer refer\u00eancias porque acho que isso \u00e9 um neg\u00f3cio muito LetterBoxd, de ficar dizendo que sabe, mas h\u00e1 muitos paralelos com outras figuras e eventos hist\u00f3ricos, que fizemos no \u00e1lbum e que est\u00e3o escondidos nas letras, nos nomes das m\u00fasicas, mas que acho melhor n\u00e3o revelar porque acho que \u00e9 coisa para o ouvinte que quer se perder um pouco mais, puxar alguns fios e ir descobrindo umas coisas. Mas se me perguntarem na lata eu vou dizer sim, s\u00f3 n\u00e3o vou ficar contando sempre. O disco come\u00e7a com uma esp\u00e9cie de chamado m\u00e1gico que remete a uma figura hist\u00f3rica que existiu antes do Lampi\u00e3o e que teve um fim parecido com o dele. E talvez essa figura tenha reencarnado na m\u00e3e do Lampi\u00e3o. Quando ele nasceu, pode ter sido feito um ritual, talvez sat\u00e2nico, talvez ocultista, que talvez tamb\u00e9m sirva como uma explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para todo o mal que foi feito com a popula\u00e7\u00e3o mais necessitada do interior nordestino, do Sert\u00e3o, como uma resposta do povo aos males que foram cometidos por gente do governo, dos latifundi\u00e1rios. Mas \u201cLampi\u00e3o Rei\u201d tem uma linha do tempo mais ou menos definida na maioria das m\u00fasicas, e o resto tamb\u00e9m trata de outros temas que aparecem ao longo da hist\u00f3ria. Mas ele foi pensado como uma primeira parte de uma bilogia ou uma trilogia de disco sobre Lampi\u00e3o. N\u00e3o necessariamente sobre Lampi\u00e3o em si, mas sobre a trupe dele, que iria desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim tr\u00e1gico dele em 1938.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: o fim do Canga\u00e7o, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Exato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No &#8220;Holoceno&#8221; j\u00e1 tinha um pouquinho disso, n\u00e9? Porque o personagem tamb\u00e9m era um cangaceiro. E no release do &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;, voc\u00eas est\u00e3o falando que o final da biografia do Lampi\u00e3o pode ser explorada num pr\u00f3ximo disco. Voc\u00eas j\u00e1 tem m\u00fasicas para um pr\u00f3ximo disco assim?<\/strong><br \/>\nMarco: Temos duas m\u00fasicas que j\u00e1 fizemos e falta polir, al\u00e9m de alguns outros esbo\u00e7os que ainda precisamos terminar de construir ao redor. Temos alguns riffs, algumas letras montadas, mas a gente prefere n\u00e3o falar nada mais sobre isso por enquanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para o disco anterior voc\u00eas tinham lan\u00e7ado single, lyric video e tal. Voc\u00eas pretendem fazer coisas assim para esse disco tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nMarco: Pretendemos. N\u00f3s gravamos v\u00eddeos de duas faixas ao vivo que est\u00e3o no &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; e elas v\u00e3o ser lan\u00e7adas quando o disco sair. Mas acho que n\u00e3o faremos clipe porque honestamente falta or\u00e7amento para fazer um clipe bem produzido. Sai bastante caro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: A gente tem uma vis\u00e3o art\u00edstica mesmo da parada. A gente n\u00e3o quer fazer aquele clipe que \u00e9 somente a gente tocando. J\u00e1 conversei com Marco e a gente j\u00e1 foi atr\u00e1s de fazer uma anima\u00e7\u00e3o, ou com atores mesmo, com uma loca\u00e7\u00e3o foda, um lugar legal, um enredo massa, com atores interessantes, atrizes e diretor\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Mas \u00e9 isso, para fazer cinematografia massa tamb\u00e9m tem que encaixar com a est\u00e9tica da gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Perfeito, Marco. Uma fotografia foda, com tudo que tem direito. Mas a\u00ed bicho, para fazer isso, a gente precisaria ter um or\u00e7amento maior. Apoio de um edital ou algum tipo de fundo que investisse nisso. N\u00e3o \u00e9 a realidade agora. E para fazer algo que fosse s\u00f3 a gente tocando, que seja como, sei l\u00e1, essas grava\u00e7\u00f5es tipo KEXP, Live at the basement, que tem a rodo no YouTube, podemos fazer assim no est\u00fadio foda tocando ao vivo, mas para gravar clipe com um fundo de 3D, CGI n\u00e3o vejo tanta gra\u00e7a. Mas ao vivo no est\u00fadio com capta\u00e7\u00e3o sonora foda vai rolar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo fato de nem todos os integrantes estarem na mesma cidade, talvez fazer um clipe com historinha fosse &#8220;mais f\u00e1cil&#8221; de realizar, por\u00e9m tamb\u00e9m seria custoso. De repente pode rolar com algum edital mesmo. N\u00e3o acho que seria dif\u00edcil de aprovar, porque tem uma quest\u00e3o tanto hist\u00f3rica como cultural. Voc\u00eas est\u00e3o contando a hist\u00f3ria do Lampi\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nMarco: A gente s\u00f3 acha que, \u00e0s vezes, o fomento cultural \u00e9 inacess\u00edvel por muitas raz\u00f5es. Ou n\u00e3o \u00e9 suficiente. Ent\u00e3o fica um pouco dif\u00edcil at\u00e9 para n\u00f3s, que apesar de sermos m\u00fasicos, temos carreiras profissionais paralelas, sabe? E arranjar o tempo que poderia ser gasto para realmente ir atr\u00e1s de fomento cultural, poder realmente dedicar o tempo necess\u00e1rio para escrever uma proposta de projeto e acompanhar tudo isso, \u00e9 um pouco dif\u00edcil. Mas assim que a gente tiver o lan\u00e7amento [do \u00e1lbum], com certeza tentaria fazer algo super bem produzido, bem pensado, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83156 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/knotfest.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/knotfest.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/knotfest-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00eas podem falar sobre como rolou o convite para o Knotfest?<\/strong><br \/>\nHector: Quando veio o dia de divulga\u00e7\u00e3o do line-up completo na internet, foi uma felicidade, uma catarse muito foda, muito massa. Inclusive de ver algumas bandas que a gente conhece l\u00e1 tamb\u00e9m, como as meninas da Eskr\u00f6ta, que tamb\u00e9m v\u00e3o tocar no domingo, dia 20. No dia que saiu, eu estava indo para um show l\u00e1 no centro de Jo\u00e3o Pessoa para tomar uma cervejinha e comemorar. E a\u00ed as meninas da Eskr\u00f6ta me ligaram de v\u00eddeo no telefone e eu dentro do Uber, todo mundo gritando, comemorando. Foi muito massa. A gente est\u00e1 super animado e vamos mandar o nosso melhor no palco. \u00c9 foda que a carga que a gente leva para esse show \u00e9, tipo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre a gente; \u00e9 sobre a m\u00fasica da Para\u00edba, do Nordeste, sabe? De estar ali do lado das bandas que a gente cresceu ouvindo, dos nossos amigos, das pessoas com quem a gente convive\u2026 \u00c9 muito foda a galera depositar essa confian\u00e7a na gente. Tanto da produtora do Knotfest como os daqui tamb\u00e9m, sabendo que vamos estar l\u00e1 representando a galera, \u00e9 um puta orgulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o disco novo vai sair dia 6 de setembro pela Repose Records e agora voc\u00eas t\u00eam o suporte da Atonal Music Agency. Quem arranjou essas coisas todas, foi o Marco?<\/strong><br \/>\nMarco: Exatamente. Infelizmente fui eu (risos). Foi o seguinte: est\u00e1vamos h\u00e1 algum tempo tentando tocar aqui na Europa, porque tenho uns amigos que s\u00e3o promotores de casa de show por aqui. Outros amigos m\u00fasicos disseram: &#8220;cara, o que \u00e9 que voc\u00eas est\u00e3o fazendo que ainda n\u00e3o vieram tocar aqui? \u00c9 um p\u00fablico que seria super receptivo ao show e voc\u00eas t\u00eam a cara de v\u00e1rios festivais que tem por aqui. Voc\u00eas t\u00eam que dar um jeito de vir&#8221;. E cara, Estados Unidos sai muito caro para ir, porque tem visto, outras coisas. Europa obviamente tem uns custos altos, mas \u00e9 bem mais f\u00e1cil pelo detalhe que eu j\u00e1 estou morando aqui \u2013 o que j\u00e1 corta bastante investimento, porque a gente teria meio que um quartel general \u2013 e tenho amigos em Berlim. Ent\u00e3o nessa ideia eu pensei: &#8220;beleza, somos uma banda independente e \u00e9 um pouco dif\u00edcil para a gente, sem ter experi\u00eancia de tocar na Europa antes, simplesmente fazer uma tour do zero&#8221;. Ent\u00e3o para podermos fazer alguma coisa, eu pensei em entrar em contato com as ag\u00eancias de booking, que normalmente chamam uma pessoa para marcar os shows e mandam j\u00e1 o calend\u00e1rio pra banda, facilitando o trabalho porque elas j\u00e1 t\u00eam um contato, j\u00e1 sabem quem \u00e9 que organiza shows em tais cidades e tais pa\u00edses. Eles s\u00e3o o middle man [intermedi\u00e1rio] que corta 90% do trabalho de marcar shows. Basicamente eles mandam para voc\u00ea tudo o que vai ganhar, as condi\u00e7\u00f5es, hospedagem, alimenta\u00e7\u00e3o e etc. E \u00e9 isso, &#8220;quer tocar ou n\u00e3o?&#8221;. \u00c9 dif\u00edcil chamar a aten\u00e7\u00e3o de uma galera que trabalha com essas ag\u00eancias, porque normalmente elas t\u00eam um elenco bem reduzido e trabalham com quantidade relativamente diminuta de bandas. Mas de vez em quando, elas se interessam pelo som de alguma e querem levar o passo adiante, ent\u00e3o depois de muito tempo mandando e-mail para um monte de gente, eu tive a resposta dessa ag\u00eancia. Ent\u00e3o estamos nos planejando para fazer os primeiros shows na Europa com o apoio dessa ag\u00eancia, e um an\u00fancio vir\u00e1 em tempo h\u00e1bil. E vai ser bacana levar nosso som para fora do Brasil e representar nossa regi\u00e3o para ouvidos que s\u00e3o igualmente receptivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Marco terminou com o gancho perfeito do que eu queria falar. \u00c9 uma perspectiva pessoal minha; acho que a Europa tem mais tra\u00e7\u00e3o para esse tipo de rock doido do que nos Estados Unidos. Al\u00e9m de ter a quest\u00e3o de, como Marco j\u00e1 falou, um n\u00edvel de burocracia a mais nos Estados Unidos, eu acho que a cena l\u00e1 do prog, do avantgarde, h\u00e1 muito mais bandas desse g\u00eanero. S\u00f3 de pensar que hoje no psicod\u00e9lico, stoner, enfim, esse tipo de onda que a gente pode surfar tamb\u00e9m \u00e9 bem maior e bem mais abrangente nesse sentido na Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 ruim tamb\u00e9m porque parece que o custo do visto para tocar nos Estados Unidos tamb\u00e9m aumentou muito, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarco: T\u00e1 super caro viajar pra l\u00e1 com m\u00fasica. Voc\u00ea tem que ser de uma banda de um porte bem grande. Tem que ter um caixa grande para poder valer a pena fazer uma tour l\u00e1. Sem contar que o risco para voc\u00ea tocar nos Estados Unidos \u00e9 muito maior, porque normalmente voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir um &#8220;soft ticket&#8221;, sabe? Aquela oferta fechada, que voc\u00ea vai ganhar tanto de dinheiro. \u00c9 normalmente por ingresso e voc\u00ea tem que arcar com todos os custos de gasolina, acomoda\u00e7\u00e3o, hospedagem, transporte, tudo. Ao passo que na Europa \u00e9 de praxe eles oferecerem para voc\u00ea um teto, um sof\u00e1 para voc\u00ea dormir e comida de qualidade para voc\u00ea recuperar as energias depois de passar dez horas no carro, sabe? \u00c9 bem mais humanizado o tratamento a m\u00fasicos na Europa do que nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem muito m\u00fasico em todas as partes do mundo falando que fazer turn\u00ea, tanto dentro do dos pa\u00edses como internacional, est\u00e1 cada vez mais caro e dif\u00edcil. Como \u00e9 que vai ser para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nHector: Cara, eu acho que um grande ponto que realizamos at\u00e9 agora para todas as turn\u00eas terem fechado a conta matem\u00e1tica e no sentido positivo \u00e9 que a gente \u00e9 organizado. Temos a cultura de planilhar tudo, fazer proje\u00e7\u00e3o de gastos, saber quanto cada um est\u00e1 investindo e quanto cada um precisa ter de retorno. Pensar em merch, em instrumento, em todas as vari\u00e1veis: gasolina, manuten\u00e7\u00e3o de um ve\u00edculo, quer seja ele locado ou pr\u00f3prio, todas essas vari\u00e1veis que podem acontecer. E eu acho que isso nos ajuda bastante. Tem um cara de uma produtora que fez nossa \u00faltima turn\u00ea do Nordeste e ele usou uma frase que eu t\u00f4 repetindo para todo mundo agora: &#8220;banda em 2024 \u00e9 orquestra&#8221;. \u00c9 tipo como se tivesse levando uma orquestra para tocar, pelos valores de tudo; de dormida, de passagem\u2026 Enfim, \u00e9 foda, \u00e9 muito dif\u00edcil. Claro, a gente est\u00e1 falando de fatores macroecon\u00f4micos e trazendo aqui para um aspecto muito pr\u00f3ximo da gente, mas a melhor forma que podemos fazer \u00e9 fazendo com que a coisa seja planejada. Acho que n\u00e3o anula os fatores macroecon\u00f4micos, mas pelo menos vamos com uma perspectiva um pouquinho mais balizada, sabe? E agora j\u00e1 temos algumas turn\u00eas no nosso curr\u00edculo, ent\u00e3o coisas que erramos na primeira vez j\u00e1 n\u00e3o fizemos na segunda, e assim vai. O aprendizado \u00e9 constante. Como o Marco falou, a gente meio que j\u00e1 entendeu como fazer uma turn\u00ea no Brasil, ent\u00e3o o pr\u00f3ximo grande salto agora \u00e9 ir para fora. Ent\u00e3o \u00e9 planejar para caramba, ter essa rede de apoio de amigos, de bandas, que consigam nos fornecer um local para dormir, comida, tentar fechar shows que n\u00e3o sejam bilheteria e cach\u00ea com a ajuda do booking\u2026 \u00c9 isso\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: E tinha outra coisa; o fato de ter come\u00e7ado a tocar shows apenas quando o cen\u00e1rio piorou em 2022, no p\u00f3s-pandemia. Ent\u00e3o meio que j\u00e1 crescemos nos calejando nesse cen\u00e1rio. Fazer shows \u00e9 extremamente dif\u00edcil e isso nos for\u00e7ou a desde cedo a nunca dar o passo maior do que a perna. A gente \u00e9 uma banda super cautelosa, sempre fazemos conta de tudo, planilha de tudo, para n\u00e3o errar. E se pudermos dar um conselho para qualquer banda independente que est\u00e1 come\u00e7ando \u00e9 se atentar para isso, saber fazer conta de padeiro e planilhar tudo, porque eu acho que o cen\u00e1rio \u00e9 super impiedoso para quem n\u00e3o consegue se organizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Sim, com certeza. E para finalizar, tamb\u00e9m \u00e9 a prova de que levamos a banda numa extrema e absoluta seriedade e compromisso. \u00c9 como o Marco falou: hoje a Papangu n\u00e3o paga nossas contas integralmente, todo mundo tem trampos por fora, e a\u00ed temos a consci\u00eancia de at\u00e9 certo ponto investir na banda. Claro que com a perspectiva de retorno, para fazer a coisa gerar tra\u00e7\u00e3o. J\u00e1 se passou o tempo de anos 1980, 1990, come\u00e7o do anos 2000, onde vinha um selo e dava grana na tua m\u00e3o. Ningu\u00e9m mais faz isso hoje, porque os caras fazem acordo de &#8220;vamos lan\u00e7ar o disco, tal percentual aqui&#8221;, mas de tipo &#8220;toma aqui a grana para tu financiar uma tour&#8221;&#8230; Isso \u00e9 uma parada que simplesmente n\u00e3o existe mais. Ent\u00e3o n\u00f3s somos os nossos pr\u00f3prios produtores executivos. Ent\u00e3o isso tamb\u00e9m gera um n\u00edvel de responsabilidade exigida bem maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em tour; al\u00e9m do Knotfest, quais os planos para pr\u00f3ximos shows?<\/strong><br \/>\nMarco: Al\u00e9m do Knotfest, estamos preparando alguns shows de lan\u00e7amento do &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;. O an\u00fancio vir\u00e1 em tempo h\u00e1bil, mas por enquanto est\u00e1 na fase de planejamento. A gente s\u00f3 pode revelar depois e dizer que v\u00e3o ter alguns shows especiais em sexteto, com a banda completa. E que pretendemos executar o &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; na \u00edntegra.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-83158 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu5-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/papangu5-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sendo assim, s\u00f3 para finalizar: tem alguma coisa que voc\u00eas acham que seria importante falar e que ficou de fora?<\/strong><br \/>\nHector: Acho que a parte da capa, que a gente buscou fazer um contraponto est\u00e9tico do primeiro disco. O &#8220;Holoceno&#8221; tem aquela coisa de parede de som, aquela produ\u00e7\u00e3o massiva, o vocal mais enterrado. E a parte est\u00e9tica do disco \u00e9 nesse sentido, que a capa tem muitos elementos e voc\u00ea vai ficar procurando coisas escondidas naquela imagem linda do Ars Moriendee [pseud\u00f4nimo de Pedro Felipe, um artista e m\u00fasico de Belo Horizonte, MG]. E o &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; vem como um contraponto disso; ele tem uma produ\u00e7\u00e3o mais limpa, os vocais est\u00e3o bem mais na tua cara, n\u00e3o tem essa produ\u00e7\u00e3o \u201cwall of sound\u201d. A gente buscou uma est\u00e9tica sonora mais voltada para o rock progressivo, rock cl\u00e1ssico e at\u00e9 mesmo no prog brasileiro, uma coisa meio Mutantes, essa parada que a gente curte. A gente sempre tentou evitar bastante a sonoridade do que chamam de &#8220;metal moderno&#8221;, que \u00e9 aquela bateria com clique, metr\u00f4nomo bem cravado. A gente buscou parecer algo tipo Black Sabbath gravando os primeiros discos ali nos anos 1970, uma coisa bem de banda de rock, que entra no est\u00fadio e faz ao vivo. No &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; a gente tentou imprimir essa est\u00e9tica e gosto de pensar que conseguimos. E a capa traz isso; ela \u00e9 bem mais limpa, tem aquele fundo branco com a xilogravura do Eduardo Ver bem centralizada, e aquela arte que busca remontar \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da xilogravura, a literatura de cordel e a literatura fant\u00e1stica imagin\u00e1ria nordestina. Tem v\u00e1rios elementos na capa que, quando o ouvinte prestar aten\u00e7\u00e3o nas letras, vai sacar do que a gente est\u00e1 falando, vai fazer a conex\u00e3o do enredo do disco com a capa e pensar: &#8220;uau, agora eu saquei porque que esse potezinho de barro est\u00e1 aqui&#8221;, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Exatamente. Eu acho que o paralelo que a gente pode citar \u00e9 que o &#8220;Holoceno&#8221; \u00e9 talvez um disco de metal filmado \u00e0 noite com uma c\u00e2mera Super 8 e o &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221; talvez seja um rock progressivo technicolor, mais digamos assim, Cinema Novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o fazendo algum outro esquema como banda paralela ou algo assim? Ou nem d\u00e1 tempo?<\/strong><br \/>\nHector: Da minha parte, n\u00e3o. De vez em quando eu toco um coverzinho para brincar aqui, sabe? Quando a galera chama para tocar um rockzinho, eu vou. Mas de banda s\u00e9ria para mim \u00e9 s\u00f3 Papangu mesmo. Talvez algumas outras paradas que n\u00e3o casem com o estilo, por exemplo. Vitor esses dias falou: &#8220;ah vamos fazer uma banda de death metal, de thrash metal?&#8221; e eu disse: &#8220;vamos ver&#8221; e tal, mas \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Eu tenho duas bandas de metal psicod\u00e9lico aqui em Berlim, mas n\u00e3o \u00e9 nada s\u00e9rio. Eu n\u00e3o componho nada nesse material, e \u00e9 bem esquisito para mim tocar m\u00fasica que eu n\u00e3o compus. E sendo bem honesto, falta tempo para me concentrar tanto nessas bandas como me concentro na Papangu. Estou mais nessas outras bandas digamos para n\u00e3o perder o embalo e n\u00e3o ficar enferrujado. Se eu tivesse mais tempo, acho que adoraria fazer um disco solo. Eu tenho algumas composi\u00e7\u00f5es que gostaria de gravar, mas \u00e9 quest\u00e3o de tempo e dinheiro. No futuro, daqui alguns anos, se eu tiver condi\u00e7\u00f5es melhores, eu faria um disco solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/16\/entrevista-papangu-mistura-literatura-nordestina-prog-e-sludge-metal-no-disco-holoceno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembro que quando fizemos aquela mat\u00e9ria sobre o &#8220;Holoceno&#8221; aqui no Scream &amp; Yell<\/a>, soube de alguns coment\u00e1rios do tipo \u201cnossa, mas quem s\u00e3o esses caras dessa Papangu? Nunca ouvi falar. Eles n\u00e3o v\u00e3o nos shows daqui de Jo\u00e3o Pessoa, quem s\u00e3o?\u201d e fiquei sem entender. Eu acho que ficaria feli<\/strong>z<strong> se algu\u00e9m da minha cidade estivesse chamando aten\u00e7\u00e3o por a\u00ed. Rolou algum problema expl\u00edcito assim com voc\u00eas localmente?<\/strong><br \/>\nHector: Eu encaro essa vis\u00e3o da galera com naturalidade, porque o \u00fanico de n\u00f3s que realmente \u00e9 bem mais imerso assim na cena pesada daqui \u00e9 Vitor, porque ele tem outras bandas de metal extremo aqui. Ele tem banda de death metal, thrash metal, metalcore e tal. Ent\u00e3o ele vive tocando bastante nesses projetos e a galera conhece muito a cara dele. Apesar de que eu colo tamb\u00e9m nos shows, mas n\u00e3o com a mesma intensidade que Vitor. Mas acho que o fato da gente ter chegado com o primeiro disco, que fez um barulho, e a\u00ed depois vem uma sequ\u00eancia de outros acontecimentos, de turn\u00ea, de boas resenhas, a\u00ed agora um segundo disco, o Knotfest\u2026 eu acho que para algumas pessoas pode soar estranho, mas o que eu posso fazer, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Eu acho que isso tamb\u00e9m meio que revela sintomas de duas coisas que aconteceram recentemente: a primeira delas \u00e9 que Jo\u00e3o Pessoa perdeu as cenas musicais que ela tinha, no sentido de casas de shows. Acho que em toda cidade no mundo, as cenas musicais s\u00e3o muito dependentes dos produtores e das casas. Chicago \u00e9 um excelente exemplo disso, S\u00e3o Paulo talvez seja um outro exemplo disso, Rio de Janeiro tamb\u00e9m com a Audio Rebel, que \u00e9 basicamente o baluarte do cen\u00e1rio experimental l\u00e1\u2026 e Jo\u00e3o Pessoa, depois da pandemia, e depois mais ou menos do ano de 2015 ou 2016, com uma timidez do fomento cultural na cidade meio que resultou na morte de casas de show que serviam de espa\u00e7o para bandas de estilos diferentes se comunicarem e para as bandas do mesmo estilo se fortalecerem tamb\u00e9m, sabe? E depois que isso passou, eu acho que o que aconteceu foi que formaram-se pequenos c\u00edrculos que se fecharam entre si e \u00e0s vezes n\u00e3o se comunicam. Eu acho que isso acontece muito, especialmente na cena do metal. E isso n\u00e3o s\u00f3 torna as pessoas um pouco refrat\u00e1rias a ter gente de fora entrando, mas tamb\u00e9m acho que \u00e0s vezes revelam uma falta de abertura a bandas que est\u00e3o tendo desempenhos diferentes que n\u00e3o s\u00e3o os mesmos das bandas que est\u00e3o no mesmo c\u00edrculo, lutando, tocando os mesmos shows e etc. E outra coisa que eu queria comentar \u00e9 que, sendo bem honesto, o &#8220;Holoceno&#8221; s\u00f3 recebeu qualquer aten\u00e7\u00e3o no Brasil porque chamou a aten\u00e7\u00e3o do pessoal de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, sim! Eu mesmo fiquei sabendo de voc\u00eas por conta da rea\u00e7\u00e3o de l\u00e1 de fora sobre voc\u00eas.<\/strong><br \/>\nMarco: Exato! A gente sempre tentou mandar single, release, para tentar com o pessoal das r\u00e1dios, dos blogs\u2026 Assim, ningu\u00e9m nunca deu a m\u00ednima at\u00e9 que come\u00e7ou um burburinho l\u00e1 no rateyourmusic.com, eu acho. E a\u00ed o pessoal come\u00e7ou a ver review positivo, sair em blog, entrar em podcast e tal. E foi s\u00f3 a partir de ter alguma aten\u00e7\u00e3o de fora que o pessoal de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro come\u00e7ou a prestar aten\u00e7\u00e3o na gente. S\u00f3 depois disso \u00e9 que o pessoal do cen\u00e1rio local pensou: &#8220;eita, tem essa banda aqui que \u00e9 do Nordeste, \u00e9 da Para\u00edba, Jo\u00e3o Pessoa. Vamos ouvir o que esses caras t\u00eam&#8221;. Isso n\u00e3o s\u00f3 revela como funcionam esses c\u00edrculos e como a falta do fomento tornam a coisa muito mais dif\u00edcil para uma banda se inserir no cen\u00e1rio local como tamb\u00e9m mostra\u2026 assim, n\u00e3o quero falar o \u201ctermo feio\u201d, mas existe um certo \u201cvira-latismo musical\u201d, que faz com que as pessoas n\u00e3o liguem para o que est\u00e1 sendo produzido na casa e quintal delas, sabe? S\u00f3 quer ver o que est\u00e1 na gringa. Isso \u00e9 triste, eu n\u00e3o acho que deveria ser esse o caminho certo a ser tomado, mas foi o que a gente percorreu at\u00e9 agora. E eu seria muito ing\u00eanuo se falasse para uma banda n\u00e3o se vender para fora, em trazer a aten\u00e7\u00e3o da galera de fora, porque foi a \u00fanica coisa que funcionou para n\u00f3s, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: S\u00f3 para completar bem brevemente tamb\u00e9m, estou sempre falando isso para uma molecada do Tela Azzu, que \u00e9 uma outra banda que os caras tamb\u00e9m adotaram essa parada de chamar de rock troncho. \u00c9 uma banda muito legal, eles tem um disco chamado &#8220;Baleia Explode&#8221; que \u00e9 muito massa e eles misturam um monte de coisa. Os caras v\u00eam com um som meio The Mars Volta, a\u00ed entra um batuquezinho de samba, daqui a pouco tem quase uns breakdown de hardcore, de metalcore. \u00c9 bem interessante e eles falam que n\u00f3s somos influ\u00eancia para eles, o que para n\u00f3s \u00e9 muito doido. A molecada \u00e9 super jovem, eles tem vinte e poucos anos, o disco \u00e9 muito bom e est\u00e1 gerando uma tra\u00e7\u00e3o muito interessante. Eles t\u00eam se comunicado comigo justamente com essa dificuldade sobre onde tocar. E a\u00ed eu falo pro Ian, que \u00e9 o vocal, &#8220;o que voc\u00ea est\u00e1 passando agora \u00e9 uma coisa que eu sempre conversei com os meninos da Papangu e o que eu \u00e9 isso: a gente n\u00e3o tem cena aqui&#8221;. N\u00f3s somos muito experimentais pro metal tradicional, muito pesado pro rock tamb\u00e9m, e \u00e9 muito doido para o rock tradicional. A gente talvez seja muito rock pro jazz e muito jazz pro rock, e a\u00ed qual \u00e9 a cena da Papangu? N\u00e3o sei, a gente est\u00e1 criando, t\u00e1 ligado? Eu digo pra eles: &#8220;eu acho lindo que voc\u00eas agora estejam aqui tamb\u00e9m&#8221;, tanto que fico incentivando &#8220;vamos usar esse termo, \u00e9 rock troncho&#8221;! Eu quero que Jo\u00e3o Pessoa seja a capital brasileira do rock troncho. Vamos fazer banda doida e vamos apostar no experimentalismo, no progressivo, no avant-garde e no que mais a gente sabe fazer. Duas bandas j\u00e1 \u00e9 uma cena, n\u00e9? Uma banda talvez n\u00e3o, mas se tem duas, j\u00e1 \u00e9 uma cena. Vamos tentar fazer o corre aqui, e \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O lance do rock troncho eu acho que at\u00e9 j\u00e1 vi banda de Manaus usando o termo tamb\u00e9m\u2026<\/strong><br \/>\nMarco: Adorei!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hector: Al\u00e9m do rock troncho, tem um outro termo que agora eu vou fazer de tudo que tiver na minha capacidade para pegar, que o [fot\u00f3grafo] Fernando Yokota que falou. Ele passou uns dias l\u00e1 no est\u00fadio vendo o disco ser gravado e falou que o nosso novo g\u00eanero vai ser o &#8220;hermetocore&#8221;! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse t\u00edtulo \u00e9 muito bom tamb\u00e9m! (risos)<\/strong><br \/>\nHector: N\u00f3s seremos a primeira banda brasileira de rock troncho e hermetocore, meu amigo. Agora eu s\u00f3 vou responder assim! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco: Outra coisa s\u00f3 queria mencionar: esse fato da gente ser &#8220;rock demais para o jazz&#8221; ou &#8220;jazz demais pro rock&#8221;, essas coisas\u2026 Eu acho que, no nosso caso, foi ao mesmo tempo uma maldi\u00e7\u00e3o e uma ben\u00e7\u00e3o, porque fez a gente ser diferente de tudo. Se voc\u00ea \u00e9, digamos, uma excelente banda de death metal, por exemplo, o que voc\u00ea precisa para voc\u00ea se destacar \u00e9 sorte, os contatos certos, a influ\u00eancia\u2026 Ao passo de que, se voc\u00ea est\u00e1 fazendo alguma coisa diferente do que vinha antes, n\u00e3o existe refer\u00eancia correta para o que voc\u00ea t\u00e1 fazendo, entende? Ent\u00e3o eu acho que o fato de bandas poderem ser abertas \u00e0 vanguarda e experimentar com combina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e tipos de composi\u00e7\u00e3o e uma forma de performar diferente faz com que voc\u00ea tenha mais espa\u00e7o para se destacar, enquanto banda independente. N\u00e3o querendo convencer gente a usar frango de borracha no show deles, mas s\u00f3 dizendo que talvez o mais interessante para uma banda independente n\u00e3o seja copiar o que algu\u00e9m faz ou tentar soar exatamente como uma cena, sabe? Talvez o mais legal, e que mais recompense um artista, seja realmente tentar fazer o seu som pr\u00f3prio, e n\u00e3o for\u00e7ando um som, mas se sentindo confort\u00e1vel para soar como voc\u00ea mesmo. Ver o que essa combina\u00e7\u00e3o de vozes e egos d\u00e1 quando voc\u00ea consegue dar asas a tudo sem conflito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Papangu \u2013 Oferenda no Alguidar (Live at Sesc Carmo, S\u00e3o Paulo, July 30, 2023)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fl7Qoedag48?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Papangu no DoSol \u2013 March 3rd, 2024\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rF90o6pJlYE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Holoceno\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nXKfd1wDA53hqiIUkj8hl-mNvpyPrMWb8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Depois de aparecer em diversas listas de melhores \u00e1lbuns de 2021 \u2013 incluindo Scream &#038; Yell e APCA \u2013 com seu debut &#8220;Holoceno&#8221;, a banda paraibana Papangu est\u00e1 de volta com o novo disco &#8220;Lampi\u00e3o Rei&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/29\/entrevistao-papangu-volta-com-rock-troncho-e-hermetocore-no-segundo-album-lampiao-rei\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":83153,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5284],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83150"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83150"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84080,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83150\/revisions\/84080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}