{"id":8297,"date":"2011-04-05T13:21:25","date_gmt":"2011-04-05T16:21:25","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8297"},"modified":"2016-10-13T10:22:47","modified_gmt":"2016-10-13T13:22:47","slug":"a-alegria-segundo-jorge-ben","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/04\/05\/a-alegria-segundo-jorge-ben\/","title":{"rendered":"A alegria segundo Jorge Ben"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-8299\" title=\"jorge_tabua\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentin?i<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Ben \u00e9 uma esp\u00e9cie de Van Morrison brasileiro. Mais do que brasileiro: carioca. Parece at\u00e9 que, t\u00e3o disparatada a compara\u00e7\u00e3o, as letras de \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d ficam at\u00e9 mais compreens\u00edveis. Mas siga o racioc\u00ednio. Neste disco de 1974, Jorge Ben \u2013 ele ainda n\u00e3o era Jor \u2013 diz pretender uma \u201calquimia musical\u201d. Naquela \u00e9poca, ele n\u00e3o estava sozinho nessa viagem: Tim Maia andava as voltas com a doutrina Racional enquanto Raul Seixas e seu parceiro Paulo Coelho exaltavam a Sociedade Alternativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como \u201cAstral Weeks\u201d, disco de 1968 de Van Morrison, \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d pode ser definido como um documento m\u00edstico. Do qu\u00ea? Sinceramente, menor id\u00e9ia. Jorge Ben estava estudando alquimia por essa \u00e9poca, procurando interpretar os textos alqu\u00edmicos e sua filosofia. Suas declara\u00e7\u00f5es fazem crer que ele sabe mesmo o que est\u00e1 cantando, embora n\u00e3o consigamos alcan\u00e7ar o sentido das palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, estabelecer conex\u00e3o com esse estranho \u00e1lbum? Sim. Como? Isso, amigo, voc\u00ea vai ter de fazer sozinho. N\u00e3o tem como ensinar a gostar de um disco t\u00e3o bizarro. Ou voc\u00ea se conecta, ou n\u00e3o se conecta. Simples assim. De repente, bate. Calma alegre, plenitude sem fulmina\u00e7\u00e3o, nas palavras de Clarice Lispector.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, o ponto onde tudo se liga, uma cita\u00e7\u00e3o de Lester Bangs sobre \u201cAstral Weeks\u201d: \u201cVan Morrison est\u00e1 interessado, obcecado com a quantidade de informa\u00e7\u00e3o verbal ou musical que ele consegue imprimir no menor espa\u00e7o poss\u00edvel e, de maneira inversa, qu\u00e3o longe ele consegue esticar uma nota, palavra, som ou imagem. Capturar o instante, ou um carinho ou um belisc\u00e3o. Ele repete certas frases a extremos que, na boca de qualquer outro, seriam rid\u00edculas, porque ele est\u00e1 esperando uma vis\u00e3o se descortinar, tentando, da maneira mais livre poss\u00edvel, arrast\u00e1-la pelos cotovelos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admir\u00e1vel. Troque Van Morrison por Jorge Ben e releia a \u00faltima frase de Bangs. Agora ou\u00e7a \u201cOs Alquimistas Est\u00e3o Chegando Os Alquimistas\u201d, a primeira faixa do disco. Repare como ele nutre um tipo de prazer especial em repetir \u201cde temperamento s\u00f3rdido, de temperamento s\u00f3rdido\u201d. Ao vivo, Jorge leva esse mantra ao limite, repetindo a express\u00e3o quatro vezes at\u00e9 explodir num grito \u201cde temperamento s\u00f3rdido!\u201d, antes de reafirmar que \u201cos alquimistas est\u00e3o chegando, est\u00e3o chegando os alquimistas\u201d. Como se ainda pud\u00e9ssemos ter d\u00favidas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As repeti\u00e7\u00f5es aparecem por todo o disco. Como exemplo, bastaria \u201cErrare humanum est\u201d: a Grande Indaga\u00e7\u00e3o \u2013 \u201ceram os deuses astronoutas?\u201d \u2013 \u00e9 repetida \u00e0 exaust\u00e3o, como se a resposta pudesse surgir nesse abismo de d\u00favidas, que termina numa contagem regressiva. Na segunda faixa, \u201cO Homem da Gravata Florida\u201d, uma alus\u00e3o ao alquimista Paracelso, praticante da \u201cagricultura celeste\u201d, Jorge \u00e9 capaz de se maravilhar com uma simples gravata: \u201cMeu deus do c\u00e9-\u00e9-\u00e9-\u00e9-u&#8230; que gravata mais linda, que gravata sensacional, olha os detalhes da gravata\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u201cAstral Weeks\u201d carrega de ang\u00fastia (basta pensar em \u201cMadame George\u201d), \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d carrega de alegria. Tente imaginar algu\u00e9m cantando qualquer m\u00fasica desse disco sem ter um sorriso no rosto? Imposs\u00edvel. \u201cEu vou torcer\u201d se encaixa na defini\u00e7\u00e3o de Bangs: frases que seriam rid\u00edculas na boca de qualquer outra pessoa. D\u00e1 para acreditar em algu\u00e9m que vai \u201ctorcer pelo Gato Barbieri\u201d? Se for Jorge Ben quem canta, d\u00e1. Como n\u00e3o se deixar levar por \u201cMinha Teimosia \u00e9 uma arma pra te conquistar\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O auge \u00e9 \u201cMagn\u00f3lia\u201d: \u201cMag. Mag, Mag. Magn\u00f3lia. Eu disse Magn\u00f3lia, eu disse Magn\u00f3lia\u201d. Entre cada frase, um solinho de flauta com toque de filme chin\u00eas. O que Magn\u00f3lia significa, por que ela vem numa \u201cnave maternal doirada\u201d? Imposs\u00edvel saber, mas conv\u00e9m ficar todinho de branco, no caso de ela chegar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali na oitava faixa est\u00e1 escondida uma j\u00f3ia do cancioneiro nacional. Atende pelo nome de \u201cZumbi\u201d. Come\u00e7a com um solinho de viol\u00e3o e j\u00e1 parte direto para uma enumera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o parece fazer o menor sentido: \u201cAngola Congo Benguela Monjolo Capinda Nina Quiloa Rebolo\u201d. Em seguida, a letra descortina essas palavras desconexas \u2013 mas que ouvido tem Jorge Ben! Ele poderia musicar uma lista telef\u00f4nica que ainda soaria legal \u2013 at\u00e9 chegar nessa bela imagem: \u201cAqui onde est\u00e3o os homens, dum lado cana-de-a\u00e7\u00facar, do outro lado o cafezal, ao centro senhores sentados vendo a colheita do algod\u00e3o branco sendo colhido por m\u00e3os negras\u201d. N\u00e3o \u00e9 cinematogr\u00e1fico? \u201cEu quero ver, eu quero ver, eu quero ver, eu quero ver\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d se encerra em tom menor ma non troppo: ela o abandonou, n\u00e3o esperou os cinco minutos pedidos por ele. Pior para ela, oras! Ela que n\u00e3o sabe o quanto vale cinco minutos na vida. A tristeza at\u00e9 existe, mas ningu\u00e9m vai ficar chorando no meio da rua. O recado, no entanto, j\u00e1 tinha sido dado na faixa de abertura do disco anterior, \u201cBen\u201d, de 1972: \u201cSe ela disser que n\u00e3o te quer mais, arranja outra meu rapaz\u201d. O namomomorado da vi\u00fava passou por aqui e ainda tem a menina mulher da pele preta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito pode se especular sobre o sentido das letras, mas qual o real valor dessa quest\u00e3o em um disco cujo sentido est\u00e1 muito mais no ritmo do que no significado. \u201cTu ter\u00e1s por esse meio a gl\u00f3ria do mundo e toda obscuridade fugir\u00e1 de ti\u201d. No instante em que Jorge Ben canta, essas palavras parecem verdadeiras: \u201ctoda obscuridade fugir\u00e1 de ti\u201d. Ele deseja que sua m\u00fasica traga \u201cpaz de esp\u00edrito e tranq\u00fcilidade a quem a escuta\u201d. Julgando-o em suas pr\u00f3prias bases est\u00e1 perfeito: \u201cA T\u00e1bua de Esmeralda\u201d\u00a0 \u00e9 igual a tranq\u00fcilidade, alegria, felicidade. Pois como disse William Blake, \u201ca Energia \u00e9 a eterna Alegria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8300 aligncenter\" title=\"jorge_tabua2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua2-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/jorge_tabua2-299x300.jpg 299w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog  <a href=\"http:\/\/blogeurogol.blogspot.com\/\">Eurogol<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentin?i\nJorge Ben \u00e9 uma esp\u00e9cie de Van Morrison brasileiro. 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