{"id":82965,"date":"2024-08-23T00:01:00","date_gmt":"2024-08-23T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82965"},"modified":"2024-10-01T01:27:32","modified_gmt":"2024-10-01T04:27:32","slug":"entrevista-joao-barone-fala-sobre-o-livro-1-2-3-4-contando-o-ritmo-com-os-paralamas-do-sucesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/23\/entrevista-joao-barone-fala-sobre-o-livro-1-2-3-4-contando-o-ritmo-com-os-paralamas-do-sucesso\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jo\u00e3o Barone fala sobre o livro \u201c1, 2, 3, 4! Contando o ritmo com Os Paralamas do Sucesso\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Barone conheceu Herbert Vianna e Bi Ribeiro em 1981, e pouco depois os tr\u00eas come\u00e7ariam a mudar a identidade do rock brasileiro sob a alcunha de Paralamas do Sucesso. J\u00e1 s\u00e3o mais de 40 anos de uma hist\u00f3ria que ajudou a definir v\u00e1rios marcos no cen\u00e1rio pop nacional, abrindo suas portas para sonoridades latinas e africanas que quase nunca davam as caras por aqui, ao mesmo tempo que assumiam o car\u00e1ter 100% vira-lata de sua m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o mais de 40 anos de uma jornada impressionante, e o assunto merecia mesmo um livro. As mesmas m\u00e3os que seguram as baquetas escreveram \u201c1, 2, 3, 4! Contando o ritmo com Os Paralamas do Sucesso\u201d (M\u00e1quina de Livros). Em 84 cap\u00edtulos breves, Jo\u00e3o Barona resgata mem\u00f3rias que v\u00e3o da inf\u00e2ncia do m\u00fasico at\u00e9 o acidente a\u00e9reo sofrido por Herbert Vianna, que lhe deixou com sequelas severas e vitimou sua esposa Lucy Needham Vianna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O recorte de tempo deixa os \u00faltimos 22 anos de fora, mas \u00e9 compreens\u00edvel: a narrativa desse livro j\u00e1 ultrapassa as 400 p\u00e1ginas, e o per\u00edodo p\u00f3s-acidente pode ter sido menos prol\u00edfico em termos de discos lan\u00e7ados, mas certamente foi rico em termos de viv\u00eancias pessoais e at\u00e9 de outros caminhos profissionais \u2013 de 2006 a 2008, o m\u00fasico manteve uma coluna na revista Grandes Guerras, onde come\u00e7ou a tratar publicamente de temas pelos quais \u00e9 aficionado e que vinha pesquisando havia anos, como a participa\u00e7\u00e3o do Brasil na Segunda Guerra (sobre o qual escreveu tr\u00eas livros), ve\u00edculos militares e afins. A paix\u00e3o pelo tema tamb\u00e9m o levou a produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, em programas de TV e document\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c1, 2, 3, 4! Contando o ritmo com Os Paralamas do Sucesso\u201d j\u00e1 tem hist\u00f3ria o suficiente. F\u00e3s e pesquisadores interessados no processo de cria\u00e7\u00e3o dos Paralamas n\u00e3o ficar\u00e3o decepcionados: o livro \u00e9 cheio de relatos de bastidores de todos os discos, listando desde a g\u00eanese de v\u00e1rias composi\u00e7\u00f5es at\u00e9 as peles e afina\u00e7\u00f5es usadas na bateria. Causa algum estranhamento que um \u00e1lbum estourada\u00e7o como \u201c9 Luas\u201d (1986) mere\u00e7a pouca aten\u00e7\u00e3o nesse sentido, enquanto o confuso \u201cAc\u00fastico\u201d ganha v\u00e1rios cap\u00edtulos, mas de maneira geral, h\u00e1 um equil\u00edbrio na aten\u00e7\u00e3o dedicada aos discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, quem espera aquela dose de veneno, que j\u00e1 \u00e9 quase um clich\u00ea em biografias, pode esquecer. Barone \u00e9 sempre comedido, e descontando as quest\u00f5es com Lob\u00e3o e uma ou outra alfinetada que escapa aqui e ali, h\u00e1 zero indiscri\u00e7\u00f5es. \u00c9 verdade que elas n\u00e3o s\u00e3o imprescind\u00edveis, mas incomoda um pouco ver que todos os materiais biogr\u00e1ficos produzidos sobre a banda \u2013 os document\u00e1rios \u201cHerbert de Perto\u201d (2009) e \u201cOs Quatro Paralamas\u201d (2021), mais o livro \u201cVamo Bat\u00ea Lata\u201d (2003), de Jamari Fran\u00e7a \u2013 tenham essa cara t\u00e3o chapa-branca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, \u201c1, 2, 3, 4! Contando o ritmo com Os Paralamas do Sucesso\u201d \u00e9 um livro afetuoso, escrito por algu\u00e9m apaixonado pela m\u00fasica (\u00e9 empolgante ver seu deslumbramento intacto depois tantas d\u00e9cadas no of\u00edcio) e extremamente realizado com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 pouco, e merece a leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma tarde no in\u00edcio de agosto, Barone falou por videochamada com o rep\u00f3rter do Scream &amp; Yell, encontrando uma brecha em meio ao in\u00edcio da turn\u00ea latino-americana com o Call The Police, projeto dedicado ao repert\u00f3rio do The Police que ele mant\u00e9m com um dos integrantes originais, o guitarrista Andy Summers, e com o baixista e vocalista brasileiro Rodrigo Santos. Ent\u00e3o o papo come\u00e7ou por ali mesmo, antes de falarmos na \u201chist\u00f3ria por tr\u00e1s da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-82973\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Capa-Simples-1234-Contando-o-tempo-com-Os-Paralamas-do-Sucesso-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1078\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Capa-Simples-1234-Contando-o-tempo-com-Os-Paralamas-do-Sucesso-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Capa-Simples-1234-Contando-o-tempo-com-Os-Paralamas-do-Sucesso-copiar-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 em turn\u00ea com o Call The Police agora, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nEstou, cara. O primeiro show foi no [festival] Moto Week em Bras\u00edlia e foi um neg\u00f3cio, tinha quase 50 mil pessoas, uma catarse. Vou festejar meu anivers\u00e1rio de 62 anos com um show em La Paz!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Excelente jeito de passar a data!<\/strong><br \/>\n(risos) Pois \u00e9. Logo come\u00e7a a perna latino-americana da tour, com Chile, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, El Salvador&#8230; Vai ser muito bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro, voc\u00ea deixa bem claro o quanto a m\u00fasica do The Police foi essencial para voc\u00ea encontrar o seu jeito de tocar bateria, fala da influ\u00eancia que o Stewart Copeland exerceu na sua m\u00fasica e a sua rela\u00e7\u00e3o posterior com ele. Como \u00e9, agora, estar tocando com um ex-integrante do Police, tendo toda essa rela\u00e7\u00e3o de parceria com o Andy Summers e tocando um repert\u00f3rio que foi t\u00e3o determinante para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\n\u00c9 a quinta rodada que a gente faz com o Call The Police. Quando a gente come\u00e7ou, a gente achava que era um neg\u00f3cio que ia tocar na Zona Sul do Rio, s\u00f3 (risos). Porque a gente n\u00e3o esperava que o Andy tivesse essa disposi\u00e7\u00e3o de viajar para fazer shows em lugares que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente ideais. Ele ainda est\u00e1 com esse g\u00e1s, cara! \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o muito incr\u00edvel v\u00ea-lo com seus 81 anos ainda com esse g\u00e1s! E a\u00ed a gente pensa no Paul McCartney de novo, pensa agora no Mick Jagger, isso coloca um pouco em xeque aquela ideia inicial do rock de \u201cI hope I die before I get old\u201d, n\u00e9? Esse conceito caducou, mas o rock n\u00e3o caducou, continua ainda com esse apelo incr\u00edvel de renova\u00e7\u00e3o, de frescor. O Andy Summers traz esse aspecto para o nosso entendimento: \u00e9 um cara que poderia estar quieto l\u00e1 na casa dele jogando buraco (risos), mas ele se alegrou, se animou a tocar o repert\u00f3rio de ouro do Police. Ele podia ter escolhido um sem-n\u00famero de m\u00fasicos carimbados, conceituados, mas quis o destino que eu e o Rodrigo [Santos, baixo e voz] divid\u00edssemos essa pelota com ele. T\u00ednhamos parado por causa da pandemia, do contr\u00e1rio a gente teria continuado. Em 2022, n\u00e3o conseguimos agendar datas, mas ano passado a gente voltou, e estamos a\u00ed de novo neste ano. A gente est\u00e1 na expectativa de que ano que vem a gente consiga antecipadamente datas nos Estados Unidos e na Europa, porque as que nos foram oferecidas neste ano a gente n\u00e3o conseguiu pegar. No ano passado os shows no M\u00e9xico foram incr\u00edveis, parecia que o Police n\u00e3o tinha acabado! Eles foram uma banda muito mete\u00f3rica, n\u00e3o duraram nem 10 anos, mas deixaram uma marca indel\u00e9vel no rock, inclusive no rock latino e no Brasil. Os Paralamas foram uma consequ\u00eancia direta de como o Police chegou na cena musical, do carisma da banda e de cada uma das suas partes. Quando a gente faz esses shows pela Am\u00e9rica Latina, parece que a gente est\u00e1 compensando um pouco o fato de a banda ter acabado, por estar com um dos respons\u00e1veis por essa m\u00fasica existir. \u00c9 um privil\u00e9gio poder fazer isso, at\u00e9 hoje a gente se belisca, \u00e9 um momento muito intenso antes de cada show.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82975\" aria-describedby=\"caption-attachment-82975\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-82975\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/joaobarone1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/joaobarone1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/joaobarone1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82975\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto 1: Barone na adolesc\u00eancia \/ Foto 2: Barone com Barone com Stewart Copland. Cr\u00e9dito: Maur\u00edcio Valladares<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 outra coisa que eu ia te perguntar. Ningu\u00e9m fica inocente para sempre, mas veja s\u00f3: logo no come\u00e7o da carreira, os Paralamas estavam gravando com o Gil, recebendo letra in\u00e9dita dele. Voc\u00eas tocaram com o Brian May, gravaram com o Linton Kwesi Johnson, voc\u00ea tem uma banda com o Andy Summers\u2026 Em meio a tudo isso, aquele Barone adolescente, sempre fissurado em m\u00fasica, ainda consegue manter esse deslumbramento de estar tocando com os pr\u00f3prios her\u00f3is, a ponto de ter virado par deles?<\/strong><br \/>\nEsse momento em que a gente est\u00e1 meio que revisitando nossos 40 anos de estrada, \u00e9 muito oportuno olhar para eles ainda com essa magia pelo que a gente faz. E a\u00ed quando voc\u00ea v\u00ea artistas com essa longevidade, voc\u00ea se sente em sintonia. Por mais que a gente esteja a anos-luz de dist\u00e2ncia de um Paul McCartney, de um U2, a gente se sente um pouco identificado e com a mesma vontade de continuar tocando e se apresentando para grandes plateias. A rela\u00e7\u00e3o que eu, o Herbert e o Bi temos \u2013 e tamb\u00e9m o Z\u00e9 [Fortes, empres\u00e1rio] e o [tecladista] Jo\u00e3o Fera \u2013 nossa liga\u00e7\u00e3o passa muito por esse emocional de lembrar o que trouxe a gente at\u00e9 aqui, essa magia de querer tocar junto com essa intera\u00e7\u00e3o muito intensa. Claro, a gente tem desarmonias, por\u00e9m as harmonias se sobrep\u00f5em \u00e0s diferen\u00e7as. Tudo aconteceu t\u00e3o r\u00e1pido: a gente se conheceu em 1981, se reencontrou em 1982, que foi quando a gente efetivamente ficou junto, e a\u00ed gravamos e j\u00e1 fomos pra programa\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio Fluminense em 1983. Abrimos o show do Lulu Santos no Circo Voador, assinamos o contrato, gravamos o compacto de \u201cVital e sua Moto\u201d, e dali a pouco a gente gravou o LP. Depois veio \u201cO Passo do Lui\u201d e de repente a gente estava no palco do Rock in Rio! Foi tudo muito mete\u00f3rico, n\u00e9? E sem nunca perder essa coisa muito coletiva. O Herbert foi desenvolvendo esse talento incr\u00edvel dele de compositor, sempre tendo vis\u00f5es que antecipavam os nossos passos seguintes, e sempre alertando para que a gente se diferenciasse da matilha. At\u00e9 por isso o Police virou uma refer\u00eancia para tentar fazer alguma coisa diferente daquele rock mais clich\u00ea, de blues de 12 compassos, que a gente via na \u00e9poca. At\u00e9 hoje a gente mant\u00e9m, de alguma forma, essa chama Inicial. Ela n\u00e3o se perdeu, a gente ainda tem esse encantamento com o Herbert, eu adoro a minha bateria, temos esse fetiche pelo instrumento, a busca por nos aprimorarmos e chegar a uma realiza\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, eu n\u00e3o perco a esperan\u00e7a de ver voc\u00ea e o Bi fazendo um disco ou pelo menos um show s\u00f3 de dubs\u2026 (risos)<\/strong><br \/>\nNesse livro eu falo do The Mighty Reggae Beat, que foi um projeto que a gente fez em 1989, uma brincadeira de ser uma banda de reggae, com o Nabby Clifford como cantor. Era brincadeira, mas a gente foi fundo nessa pesquisa da ess\u00eancia do reggae. Depois, quando a gente estava esperando o Herbert se reerguer, o Bi acabou se dedicando \u00e0 Reggae B. Ele foi atr\u00e1s dessa turma para reeditar essa forma\u00e7\u00e3o voltada para um repert\u00f3rio de reggae, al\u00e9m de umas intera\u00e7\u00f5es bem legais com o B Neg\u00e3o e outras pessoas. Quem sabe uma hora dessas a gente se d\u00e1 ao trabalho de fazer alguma coisa. A gente pode manter essa porta aberta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82976\" aria-describedby=\"caption-attachment-82976\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-82976\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-2-Primeira-foto-dos-Paralamas-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-2-Primeira-foto-dos-Paralamas-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-2-Primeira-foto-dos-Paralamas-copiar-300x162.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82976\" class=\"wp-caption-text\"><em>Primeira foto dos Paralamas, feita em 1982, durante um show na casa punk Dancing M\u00e9ier Club, no sub\u00farbio do Rio. Perdida desde os nos 80, a foto (presente no livro) nunca havia sido publicada.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse trabalho mais recente n\u00e3o \u00e9 o seu primeiro livro, mas \u00e9, sim, o primeiro que voc\u00ea escreve sobre m\u00fasica. Os anteriores eram voltados a uma perspectiva de historiador, e a\u00ed eu queria saber se voc\u00ea quis fazer deste um livro de mem\u00f3rias, mais solto mesmo, ou se ainda assim manteve um pouco desse rigor de pesquisa hist\u00f3rica.<\/strong><br \/>\nEsse livro passou pelo sentimental. Eu quis fazer uma vis\u00e3o muito pessoal de toda essa jornada, a premissa nunca foi fazer uma \u201cbiografia autorizada\u201d. Eu tentei fazer uma narrativa bem despojada, quase uma tentativa de cr\u00f4nica, para contar essa hist\u00f3ria. Eu ia escrevendo tudo muito r\u00e1pido, cheio de erros, e fiz um \u201crascunho do inferno\u201d (risos). Mas a\u00ed eu conheci no Twitter a tradutora dos livros de Neil Peart no Brasil, a Candice Soldatelli. Come\u00e7amos j\u00e1 trocar figurinhas e um belo dia eu resolvi sujeitar o que eu estava escrevendo para ela dizer o que achava, se estava prestando ou n\u00e3o. Passaram-se alguns meses e ela muito gentilmente me retornou, disse que tinha lido e que estava muito bacana. Disse que era um privil\u00e9gio poder saber daquelas hist\u00f3rias todas e que tinha certeza que muita gente gostaria de ler isso tamb\u00e9m. Ent\u00e3o decidi me aprofundar e refinar um pouco mais, para sair daquele \u201crough\u201d bagun\u00e7ado. A\u00ed veio a pandemia e foi quando eu pude fazer essa imers\u00e3o de uma forma mais intensa e objetiva, pude tentar achar um flow para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se referenciou no livro de algum outro m\u00fasico brasileiro ou internacional, seja em termos de estilo, conte\u00fado ou estrutura?<\/strong><br \/>\nEu aproveitei algumas experi\u00eancias, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, de algumas coisas que eu li, e que at\u00e9 fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o nos agradecimentos no livro. \u00c9 o caso da biografia do Bob Dylan, em que ele fala sobre coisas totalmente banais, tipo \u201ceu estava andando e dei uma topada numa pedra\u201d, mas dito pelo Bob Dylan isso ganha um outro sentido (risos). Porque ele \u00e9 aquele cara genial, que escreveu aquelas m\u00fasicas espetaculares, mas que ao escrever sobre coisas t\u00e3o triviais faz at\u00e9 a gente acreditar que ele \u00e9 um cara normal, n\u00e9? (risos) Imbu\u00eddo desse esp\u00edrito, eu tentei \u2013 mais uma vez, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es \u2013 fazer esse tipo de narrativa. Mas n\u00e3o tem tanto esse teor de querer agradar, e sim tentar dar um formato, um ritmo para essa escrita que ajudasse a contar minha jornada incr\u00edvel na m\u00fasica, sempre desse ponto de vista pessoal. Porque eu n\u00e3o queria falar em nome da banda, sabe? O tempo todo estou deixando claro que s\u00e3o as minhas lembran\u00e7as, \u00e9 o que eu estive vendo ali do banquinho da bateria. Tanto que um dos nomes prov\u00e1veis do livro era \u201cAtr\u00e1s dos Tambores\u201d. Nos meus livros sobre a Segunda Guerra, eu me inspirei muito no Eduardo Bueno, que tem isso de tirar a hist\u00f3ria do arcabou\u00e7o academicista e torn\u00e1-la pop, deixar a hist\u00f3ria mais palat\u00e1vel. O Laurentino [Gomes] tamb\u00e9m fez isso. Ent\u00e3o, os meus livros sobre a Segunda Guerra tentavam trazer essa participa\u00e7\u00e3o do Brasil para as pessoas que n\u00e3o a conhecem. E no fim o \u201c1942\u201d virou um sucesso de vendagens. Pra esse primeiro livro sobre m\u00fasica, eu busquei ainda mais esse tom coloquial, e o pessoal da editora me ajudou muito a formatar isso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82977\" aria-describedby=\"caption-attachment-82977\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-82977\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-5a-Passagem-de-som-no-Rock-in-Rio-1985-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"528\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-5a-Passagem-de-som-no-Rock-in-Rio-1985-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-5a-Passagem-de-som-no-Rock-in-Rio-1985-copiar-300x211.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-5a-Passagem-de-som-no-Rock-in-Rio-1985-copiar-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82977\" class=\"wp-caption-text\"><em>Passagem de som \u00e0s v\u00e9speras da primeira edi\u00e7\u00e3o do Rock in Rio, em 1985<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/entrevista-joao-barone-fala-dos-paralamas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando te entrevistei em 2013<\/a>, voc\u00ea falou que ficou insatisfeito com a biografia que o Jamari Fran\u00e7a escreveu, \u201cVamo Bat\u00ea Lata\u201d. Mesmo esse seu livro tendo nascido sem a pretens\u00e3o de ser uma biografia oficial dos Paralamas, voc\u00ea procurou compensar alguma lacuna que voc\u00ea acha que foi deixada por aquela primeira obra?<\/strong><br \/>\nPosso dizer com toda a sinceridade que, apesar de eu n\u00e3o ter gostado muito do livro do Jamari, acho que ele tem os seus atributos. At\u00e9 hoje a gente autografa exemplares desse livro, os f\u00e3s sempre trazem. Acho que o que eu quis te dizer na \u00e9poca n\u00e3o era alguma coisa depreciativa, era s\u00f3 uma quest\u00e3o de n\u00e3o ter gostado muito da maneira como ele foi escrito. A narrativa dele me parecia um pouco cacoete, mas acho que isso passou ao largo para muita gente. Os f\u00e3s gostam dessas narrativas, ao que parece. A gente foi muito generoso com ele ao abrir as nossas lembran\u00e7as, concedemos horas e horas e horas de depoimentos e material pessoal, de imagens, de tudo, e talvez a gente tenha criado uma expectativa maior, n\u00e9? O resultado final realmente n\u00e3o correspondeu muito, acho que tem muitos dos cacoetes do Jamari no texto, mas eu quero deixar claro que o livro dele tem o seu valor. Eu soube inclusive que ele est\u00e1 querendo fazer um relan\u00e7amento, e estou tentando ajud\u00e1-lo nesse sentido. Porque precisa de um adendo, muita coisa j\u00e1 aconteceu desde a hora em que o livro saiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem o livro do Jamari, o seu, o document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/24\/cinema-herbert-de-perto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Herbert de Perto<\/a>\u201d, outro document\u00e1rio que \u00e9 o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/27\/documentario-os-quatro-paralamas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os Quatro Paralamas<\/a>\u201d&#8230; Depois de mais de 40 anos de estrada, \u00e9 inevit\u00e1vel esse revisionismo, e at\u00e9 bem-vindo. Mas a pergunta \u00e9: e o futuro dos Paralamas? Em tese, voc\u00eas t\u00eam uma obra mais que suficiente para \u201cjustificar\u201d n\u00e3o gravar mais nada. D\u00e1 pra fazer turn\u00ea de 100 anos da banda (risos). Ainda assim, imagino que tenha algo que fica a\u00ed puxando por dentro, pensando em como a banda se reposiciona nesses tempos t\u00e3o diferentes de outros que voc\u00eas j\u00e1 viveram.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 um desafio muito interessante para qualquer artista e banda com essa longevidade, n\u00e9? Como uma resposta bate-pronto, eu diria que a gente jamais gostaria de medir o que a gente poderia realizar de novo com o nosso sucesso pregresso. \u00c9 outro momento hist\u00f3rico, a gente vive uma outra realidade de como a m\u00fasica \u00e9 difundida e tudo mais. Aos moldes dos artistas e bandas com essa longevidade, a gente vai fazer o que consegue com o que a gente tem em m\u00e3os. A gente est\u00e1 se ressentindo de n\u00e3o ter conseguido fazer esses encontros para compor, levar um som. Desde a pandemia que a gente n\u00e3o consegue, porque a gente est\u00e1 numa mar\u00e9 de trabalho muito intensa, como n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. A gente est\u00e1 fazendo muito show, aproveitando essa mar\u00e9 a nosso favor. A gente ainda n\u00e3o conseguiu salvar um tempo para se reunir e compor o material in\u00e9dito, e a gente est\u00e1 se devendo isso pra n\u00f3s mesmos. O Herbert deve estar l\u00e1, cheio de ideias que a gente quer formatar, e \u00e9 um processo muito prazeroso, a gente s\u00f3 precisa ir l\u00e1 e mexer nele para poder acontecer. Vejo como muita gente equivocadamente comparando o n\u00edvel de sucesso do rock brasileiro com outras vertentes musicais mais populares, insistindo numa ideia um pouco enviesada de que o rock brasileiro n\u00e3o tem mais renova\u00e7\u00e3o. Mas a\u00ed de repente voc\u00ea v\u00ea a turn\u00ea dos Tit\u00e3s enchendo est\u00e1dios, voc\u00ea v\u00ea os festivais de rock vendendo todos os ingressos meses antes da realiza\u00e7\u00e3o\u2026 Vamos tocar no Coala, tocamos no Lollapalooza pela primeira vez e parecia que a gente tinha feito o Rock in Rio de novo, foi um neg\u00f3cio de louco, uma verdadeira redescoberta dos Paralamas, impactou at\u00e9 na demanda de shows. Na ess\u00eancia, os Paralamas s\u00e3o uma banda de estrada: a gente gosta de fazer show, de viajar e tocar e encontrar uma plateia, seja um mega evento ou um sal\u00e3o para mil pessoas. A gente se sente muito dono da nossa bola no palco. Por outro lado, tamb\u00e9m fomos cuidadosos para n\u00e3o criar fama e deitar na cama. Por isso, vejo que, depois de 40 anos, aquelas plantinhas que a gente foi regando virarem \u00e1rvores; Ano passado eu tive um insight que nos levou a remixar o primeiro disco, que era algo do qual a gente n\u00e3o gostava muito, achava meio incipiente, feito \u00e0s pressas. E foi uma surpresa incr\u00edvel o que a gente descobriu: que \u00e9ramos uns moleques de 20 e poucos anos querendo comer a bola (risos). Para a nossa sorte, ele foi muito bem digitalizado, ent\u00e3o quando a gente meteu o dedo no multitrack, deu pra melhorar o disco sem descaracteriz\u00e1-lo. Com isso, a nossa percep\u00e7\u00e3o do \u201cCinema Mudo\u201d mudou, vimos que ele \u00e9 um excelente primeiro \u00e1lbum! Esse tempo decorrido acaba botando as coisas no lugar. Tipo, a gente n\u00e3o quer brigar com o nosso sucesso pregresso, n\u00e9? Muito dificilmente vamos fazer uma m\u00fasica que vai ficar t\u00e3o conhecida quanto as que j\u00e1 fizemos, mas isso n\u00e3o \u00e9 mais a quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais o foco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tem uma carreira de escritor. Depois desse livro, se v\u00ea, talvez, fazendo algo sobre um outro m\u00fasico, sobre um determinado per\u00edodo ou estilo?<\/strong><br \/>\nEu acho dif\u00edcil, porque eu teria que parar o meu trem para fazer isso, n\u00e9? Tipo, parar pra valer. Acho que, em mat\u00e9ria de pesquisa musical, se eu tivesse tempo e dedica\u00e7\u00e3o e alguma coisa realmente estivesse me consumindo nesse sentido \u2013 tipo, \u201ceu preciso falar muito sobre a hist\u00f3ria do Milton Banana, o grande baterista brasileiro\u201d, algo assim \u2013 talvez eu me animasse. Mas eu n\u00e3o tenho muito esse \u00edmpeto no momento. O que estou tentando agora seria um segundo tomo dessa narrativa, porque eu fiz uma esp\u00e9cie de um falso ep\u00edlogo nesse livro, parando logo depois do acidente do Herbert. Mas tem uma nova hist\u00f3ria depois, um novo come\u00e7o. Como se fosse um t\u00edtulo da saga do Star Wars (risos). Dependendo da colheita deste livro, talvez eu consiga me motivar a contar os \u00faltimos 22 anos, sobre os quais tem muita coisa para falar tamb\u00e9m. A gente est\u00e1 h\u00e1 mais tempo com o Herbert depois do acidente do que antes, n\u00e9? \u00c9 uma esp\u00e9cie de segunda vida, realmente, com tudo o que aconteceu. Talvez eu consiga mais facilmente me dedicar a continuar essa narrativa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82978\" aria-describedby=\"caption-attachment-82978\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-82978\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-10-Jantar-com-o-produtor-Phil-Manzanera-no-estudio-em-Londres-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-10-Jantar-com-o-produtor-Phil-Manzanera-no-estudio-em-Londres-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Foto-10-Jantar-com-o-produtor-Phil-Manzanera-no-estudio-em-Londres-copiar-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82978\" class=\"wp-caption-text\"><em>Jantar em Londres no est\u00fadio de Phil Manzanera, guitarrista da banda Roxy Music e produtor do \u00e1lbum \u201cSeverino\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201c1, 2, 3, 4!\u201d \u00e9 um livro afetuoso, escrito por algu\u00e9m apaixonado pela m\u00fasica e extremamente realizado com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 pouco, e merece a leitura.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/23\/entrevista-joao-barone-fala-sobre-o-livro-1-2-3-4-contando-o-ritmo-com-os-paralamas-do-sucesso\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":82971,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[4538,73,72],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82965"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82965"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82965\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82979,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82965\/revisions\/82979"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}