{"id":82875,"date":"2024-08-15T00:01:00","date_gmt":"2024-08-15T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82875"},"modified":"2024-09-30T15:29:38","modified_gmt":"2024-09-30T18:29:38","slug":"cinema-o-diabo-na-rua-no-meio-do-redemunho-de-bia-lessa-propoe-novos-dialogos-com-o-classico-grande-sertao-veredas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/15\/cinema-o-diabo-na-rua-no-meio-do-redemunho-de-bia-lessa-propoe-novos-dialogos-com-o-classico-grande-sertao-veredas\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d, de Bia Lessa, prop\u00f5e novos di\u00e1logos com \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-82878\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes3-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ano de 2024 duas adapta\u00e7\u00f5es de \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d (1956), de Guimar\u00e3es Rosa, chegaram aos cinemas brasileiros e \u00e9 bastante natural que se compare as duas obras, n\u00e3o s\u00f3 por seu material base, mas tamb\u00e9m porque as duas t\u00eam seus cruzamentos. Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 um escritor considerado quase \u201cinfilm\u00e1vel\u201d, especialmente quando falamos de \u201cGrande Sert\u00e3o\u201d, com sua narrativa complexa, sua linguagem \u00fanica e seus m\u00faltiplos personagens. Duas vezes a hist\u00f3ria foi filmada seguindo uma perspectiva bastante fiel \u00e0 narrativa de Guimar\u00e3es: em 1965, na adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Renato Santos Pereira e Geraldo Santos Pereira e na miniss\u00e9rie televisiva de 1985, de Walter Avancini. Na nova adapta\u00e7\u00e3o que chegou \u00e0s telas em junho sob dire\u00e7\u00e3o de Guel Arraes, a hist\u00f3ria de Riobaldo e Diadorim foi relida numa perspectiva p\u00f3s-apocal\u00edptica, com Caio Blat e Luisa Arraes como protagonistas. Proposta extremamente ousada, com roteiro assinado por Arraes ao lado de Jorge Furtado, o filme dividiu opini\u00f5es da cr\u00edtica, que foi de textos elogiosos a textos destruidores &#8211; como o da revista Veja, que listou motivos para se fugir (sic) da vers\u00e3o de Guel Arraes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fato \u00e9 que o \u201cGrande Sert\u00e3o\u201d (2024) de Guel Arraes foi um fracasso nos cinemas. Com intensa divulga\u00e7\u00e3o da Globo Filmes, com direito a chamadas constantes nas telas da Globo e mat\u00e9ria no Fant\u00e1stico, o filme foi lan\u00e7ado com a pompa de uma grande estreia, com 400 salas pelo pa\u00eds, por\u00e9m fechou o m\u00eas de junho com pouco mais de 36 mil espectadores e logo em seguida j\u00e1 saiu de cartaz. Agora, tamb\u00e9m com co-produ\u00e7\u00e3o Globo Filmes, chega aos cinemas \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d (2024), adapta\u00e7\u00e3o dirigida por Bia Lessa, em lan\u00e7amento bem, mas bem menor. O filme ter\u00e1 um lan\u00e7amento diferenciado nos cinemas a partir do dia 15 de agosto &#8211; com distribui\u00e7\u00e3o da Filmes do Esta\u00e7\u00e3o, dentro do projeto M\u00e3os \u00e0 Obra, que \u00e9 apresentado pelo Instituto Cultural Vale atrav\u00e9s da Lei Federal de incentivo \u00e0 Cultura &#8211; nas cidades do Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte, S\u00e3o Lu\u00eds, Fortaleza, Salvador e Porto Alegre, onde ser\u00e3o promovidos encontros com a diretora e o elenco e ser\u00e3o desenvolvidas diversas atividades em torno do universo de cria\u00e7\u00e3o do filme, como palestras, debates, a apresenta\u00e7\u00e3o do making of da pe\u00e7a dirigida por Bia Lessa, e a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio premiado \u201cOnde Nascem as Ideias\u201d, de Carolina S\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo Guel Arraes como um de seus produtores associados, \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d traz tamb\u00e9m no elenco Caio Blat e Luisa Arraes, por isso falamos anteriormente das ineg\u00e1veis compara\u00e7\u00f5es entre as duas adapta\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m as similaridades acabam a\u00ed. O filme de Bia Lessa \u00e9 um desdobramento de sua adapta\u00e7\u00e3o teatral da obra de Guimar\u00e3es Rosa, que foi sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico com seu formato \u00fanico: a trama se desenrolava em uma esp\u00e9cie de gaiola de andaimes instalada nas \u00e1reas de conviv\u00eancia dos Sescs onde foi exibida. Em arquibancadas, o p\u00fablico recebia seus fones de ouvido para conferir a trilha sonora e viver uma experi\u00eancia de quase tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o. A pe\u00e7a e o filme s\u00e3o experimentos de Lessa em torno da obra de Guimar\u00e3es Rosa e das diferentes linguagens poss\u00edveis para se contar uma hist\u00f3ria &#8211; esse processo experimental come\u00e7ou quando a artista fez uma exposi\u00e7\u00e3o no Museu da L\u00edngua Portuguesa, em S\u00e3o Paulo, com textos do autor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-82880\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/grandes2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tela, \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d \u00e9 uma experi\u00eancia est\u00e9tica \u00fanica: em um fundo preto, com objetos de cena m\u00ednimos, somos transpostos para um di\u00e1logo direto com o nosso protagonista-narrador Riobaldo (Caio Blat). Toda a narrativa \u00e9pica de Riobaldo, sua amizade-amor com Diadorim e as muitas guerras e batalhas que sua trupe de jagun\u00e7os se envolve s\u00e3o contadas de forma n\u00e3o-linear, em constru\u00e7\u00e3o narrativa que passeia no tempo, sempre em fun\u00e7\u00e3o da fluidez narrativa do pr\u00f3prio personagem. Para encenar tudo isso, temos figurinos minimalistas em preto e, como acompanhamento, adere\u00e7os feitos com aqueles cobertores baratos de cor cinza, produzidos com restos de fibras da ind\u00fastria t\u00eaxtil e de garrafas pl\u00e1sticas descartadas. O pr\u00f3prio elenco ora interpreta seus personagens humanos, ora d\u00e1 conta de interpretar os animais que constroem aquela cenografia do sert\u00e3o, indo dos sapos aos ruminantes, al\u00e9m de tamb\u00e9m ajudar a construir o pr\u00f3prio cen\u00e1rio do ambiente, criando com o corpo o movimento dos rios, em performances f\u00edsicas marcantes. Tudo isso \u00e9 bem marcado por uma trilha que cria essa ambi\u00eancia de sons e ru\u00eddos da natureza &#8211; os ru\u00eddos do ambiente dialogam de forma certeira com a trilha absolutamente arrebatadora de Egberto Gismonti e O Grivo. Destaca-se ainda o detalhe de que todas as falas s\u00e3o legendadas com fonte em tom forte de vermelho, uma escolha fundamental quando pensamos que a palavra em Guimar\u00e3es Rosa ganha sentido e fluxo \u00fanico, por isso as legendas ajudam o espectador a mergulhar de forma mais certeira nesse ritmo narrativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De primeira, pode se questionar essa forma de se filmar uma pe\u00e7a de teatro e transpassar isso para a tela &#8211; o que remete ai minimalismo c\u00eanico de \u201cDogville\u201d, de Lars Von Trier. De todo modo, o filme de Bia cria seu pr\u00f3prio universo m\u00edtico, em que somos mergulhados nessa est\u00e9tica proposta pela artista, num fluxo t\u00e3o cont\u00ednuo que depois h\u00e1 at\u00e9 um estranhamento na hora de retornarmos para as dimens\u00f5es do mundo real. E isso tudo \u00e9 poss\u00edvel pela for\u00e7a criativa de Lessa, que entende a magnitude do texto que tem em m\u00e3os e n\u00e3o busca em nenhum momento ultrapassar ou suplantar a obra de Guimar\u00e3es, mas sim criar di\u00e1logos, abrir possibilidades interpretativas, nos levando por essas veredas de forma \u00fanica e certeira. Em \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d temos Caio Blat novamente como Riobaldo, e tamb\u00e9m Luisa Arraes como um jovem Riobaldo &#8211; a atriz, assim como muitos do elenco, se desdobra em diferentes personagens. J\u00e1 Diadorim fica por conta de Luiza Lemmertz, em atua\u00e7\u00e3o completamente arrebatadora. Se as d\u00favidas apaixonadas e metaf\u00edsicas de Riobaldo s\u00e3o assombrosamente encenadas por Caio Blat, em atua\u00e7\u00e3o completamente entregue, por outro lado temos Luiza Lemmertz criando um Diadorim cheio de nuances, com um olhar que cria compaix\u00e3o, mas que esconde todo o mist\u00e9rio e a dor do segredo de sua personagem. O rosto de Luiza tem uma for\u00e7a cinematogr\u00e1fica que \u00e9 absurdamente bem captada no filme de Lessa e que, de alguma forma singular, remete diretamente a forma como Lilian Lemmertz era filmada por Walter Hugo Khouri &#8211; Luiza \u00e9 filha de Julia Lemmertz e neta de Lilian.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final das contas, \u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d \u00e9 uma experi\u00eancia sensorial muito forte que nos reconecta com a obra de Guimar\u00e3es Rosa e que nos refor\u00e7a o poder narrativo da l\u00edngua portuguesa, que nos relembra a riqueza cultural do nosso pa\u00eds e que nos possibilita vislumbrar toda a criatividade de um Brasil outro, que se abre ao novo e ao diferente e que se deixa apaixonar pelos mist\u00e9rios sem-g\u00eanero de Diadorim. Dito isso, este aqui \u00e9 filme para se ver na tela grande do cinema, com alta qualidade de som e imagem, com a suspens\u00e3o temporal que s\u00f3 o escuro do cinema propicia. Bia Lessa \u00e9 artista fundamental do Brasil nos \u00faltimos quarenta anos e esse filme \u00e9 s\u00f3 mais uma prova de sua inventividade e de sua capacidade \u00fanica de convidar o espectador para o desconhecido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO | TRAILER OFICIAL\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5_NejLPa7Us?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cO Diabo na Rua no Meio do Redemunho\u201d \u00e9 uma experi\u00eancia sensorial muito forte que nos reconecta com a obra de Guimar\u00e3es Rosa e que nos refor\u00e7a o poder narrativo da l\u00edngua portuguesa\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/15\/cinema-o-diabo-na-rua-no-meio-do-redemunho-de-bia-lessa-propoe-novos-dialogos-com-o-classico-grande-sertao-veredas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":82879,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7319,7320],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82875"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82875"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82875\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82882,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82875\/revisions\/82882"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82879"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}