{"id":82866,"date":"2024-08-14T00:01:00","date_gmt":"2024-08-14T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82866"},"modified":"2024-09-29T00:07:51","modified_gmt":"2024-09-29T03:07:51","slug":"musica-julia-holter-cria-um-intrincado-e-belo-universo-sonoro-em-seu-disco-something-in-the-room-she-moves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/14\/musica-julia-holter-cria-um-intrincado-e-belo-universo-sonoro-em-seu-disco-something-in-the-room-she-moves\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: Julia Holter cria um intrincado e belo universo sonoro em seu disco \u201cSomething in The Room She Moves\u201d"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-82871 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/jukya1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/jukya1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/jukya1-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julia Holter \u00e9 um dos nomes mais inventivos e criativos da m\u00fasica norte americana nos \u00faltimos 15 anos e seus trabalhos j\u00e1 passearam por diferentes universos, de complexas experi\u00eancias sonoras cheias de camadas em seu come\u00e7o de carreira at\u00e9 possibilidades de casamentos bem pr\u00f3ximos com a m\u00fasica pop, como no excelente \u201cHave You In My Wilderness\u201d (2015). J\u00e1 \u201cAviary\u201d (2018) tinha apelos \u00e9picos com uma hora e meia de dura\u00e7\u00e3o em que Julia criava um universo barroco e complexo, misturando experi\u00eancias sonoras amplas que iam de refer\u00eancias cl\u00e1ssicas medievais a sons modernos e experimentais. Agora, seis anos depois, Holter retorna com \u201cSomething In The Room She Moves\u201d (2024), um \u00e1lbum que parece balancear de forma muito inteligente os seus universos mais experimentais com seu lado mais pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ampla janela sem \u00e1lbuns \u00e9 algo at\u00e9 raro dentro da prol\u00edfica carreira de Holter. Nesse \u00ednterim ela lan\u00e7ou alguns trabalhos de trilha sonora e um disco em parceria com Alex Temple e o Spektral Quartet, por\u00e9m grande parte do tempo ela realmente ficou parada por diferentes motivos. Julia Holter descobriu que estava gr\u00e1vida durante a pandemia de covid-19, que paralisou a todos, e sua filha com o m\u00fasico Tashi Wada nasceu ainda sob o distanciamento social. Reclusa em casa, em puerp\u00e9rio e com outras quest\u00f5es em curso, Holter deixou o seu trabalho em \u201crepouso\u201d, pois n\u00e3o estava conseguindo escrever nem ler com a mesma frequ\u00eancia e assiduidade, envolvida nas quest\u00f5es familiares e dom\u00e9sticas, bem como nas frequentes sess\u00f5es revendo \u201cPonyo: Uma Amizade que Veio do Mar\u201d (Hayao Miyazaki, 2010) ao lado de sua filha &#8211; voltaremos a \u201cPonyo\u201d, pois no final das contas o disco de Holter pode at\u00e9 conversar bastante com o filme dos Studio Ghibli.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fato importante mexeu com a vida da artista nos \u00faltimos anos: a perda de seu sobrinho, um jovem de 18 anos, para quem Holter acabou dedicando o seu disco e que ela definiu como \u201cum belo jovem que adorava fazer arte, debater ideias e era apaixonado por pol\u00edtica socialista\u201d. O sobrinho de Holter faleceu logo ap\u00f3s o nascimento de sua filha e, nesse mesmo espa\u00e7o de tempo, seus av\u00f3s faleceram, criando todo um universo tem\u00e1tico em que Holter se viu envolvida em quest\u00f5es como a nossa presen\u00e7a no mundo e perante o outro e nas transforma\u00e7\u00f5es em geral. <a href=\"https:\/\/toneglow.substack.com\/p\/tone-glow-135-julia-holter\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em entrevista \u00e0 newsletter Tone Glow<\/a>, Julia falou um pouco sobre essas experi\u00eancias e vale conferir esse trecho na \u00edntegra em tradu\u00e7\u00e3o livre:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 dif\u00edcil quando voc\u00ea perde algu\u00e9m. Meu av\u00f4 tinha 100 anos, na verdade, e ele e sua esposa faleceram n\u00e3o muito longe um do outro &#8211; durante o mesmo per\u00edodo. Perder algu\u00e9m idoso \u00e9 obviamente muito diferente de perder um sobrinho de 18 anos. Isso \u00e9 uma trag\u00e9dia completa. Mesmo sendo t\u00e3o diferentes, h\u00e1 essa tristeza e arrependimento de desejar ter mais tempo para ficar com essas pessoas. Existe esse desejo de me conectar, e esse \u00e9 provavelmente o meu sentimento mais honesto, e acho que ainda estou nisso. Em ambos os casos s\u00e3o familiares que n\u00e3o moravam perto de mim, por isso n\u00e3o os vi muito nos \u00faltimos anos. Existe essa desconex\u00e3o que os torna tudo mais dif\u00edcil porque eram pessoas interessantes e significativas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esta perman\u00eancia \u00e9 intensa \u2013 a perman\u00eancia da morte. Para algu\u00e9m como eu, que n\u00e3o \u00e9 religiosa, mas talvez seja espiritual de uma forma abstrata, essa perman\u00eancia da perda desafia aquilo que sempre procuro em busca de conforto, que \u00e9 a forma como as coisas mudam. Essa ideia de que somos um pontinho no universo e que nada importa muito \u00e9 como sempre me senti e acho isso reconfortante. A perman\u00eancia da morte confronta isso de alguma forma, e n\u00e3o sei como explicar. \u00c9 como o reverso de quem \u00e9 religioso, onde algo ruim acontece e isso faz com que questionem. E como isso se manifesta na m\u00fasica? N\u00e3o sei. E talvez n\u00e3o tenha nada a ver com a m\u00fasica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cTalking to the Whisper\u201d \u00e9 para mim a m\u00fasica que mais trata do luto e do amor em geral. Isso \u00e9 algo que aprendi ao fazer este disco, que o amor profundo pode ser muito doloroso. H\u00e1 uma frase: \u201cO amor pode ser devastador\u201d, e \u00e9 assim que o amor verdadeiro \u00e9. Pode ser completamente destruidor. Essa consci\u00eancia do amor, seja porque voc\u00ea tem um filho ou um relacionamento rom\u00e2ntico de longo prazo com algu\u00e9m ou porque voc\u00ea tem um relacionamento forte com seus pais ou sua irm\u00e3&#8230; esse tipo de consci\u00eancia da preciosidade desse amor &#8211; e qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9, e que exige trabalho e uma mudan\u00e7a positiva &#8211; todos esses fatores influenciam meu hist\u00f3rico. Eu n\u00e3o estava completamente consciente disso quando gravei, mas parece que foi isso que surgiu.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSomething In The Room She Moves\u201d capta de forma completamente po\u00e9tica e instigante todas essas quest\u00f5es que moveram Julia durante a produ\u00e7\u00e3o do disco. A perspectiva de mudan\u00e7a, de se transformar a partir das rela\u00e7\u00f5es e de se recriar a partir de perdas e ganhos \u00e9 um caminho tratado pela artista de forma bem distante do \u00f3bvio. Todos esses questionamentos resultam em can\u00e7\u00f5es que passeiam das orquestra\u00e7\u00f5es pop barrocas \u00e0 experimenta\u00e7\u00f5es ruidosas do jazz, com muitas conex\u00f5es com a m\u00fasica ambiente e experi\u00eancias sonoras que remetem ao et\u00e9reo ou ao espiritual. E tudo isso pode aparecer das maneiras mais \u00fanicas poss\u00edveis. Lembra que falamos de \u201cPonyo\u201d ali em cima? Quando pegamos a letra da bel\u00edssima \u201cSpinning\u201d, Holter fala sobre o amor e as conex\u00f5es com versos como \u201cWhat is the opposite love in becoming fish? \/ I&#8217;m in the way, I&#8217;m in the way \/ I&#8217;m in the precious belonging of day\u201d, e fica bem clara a refer\u00eancia quando pensamos no pequeno peixinho dourado do filme de Miyazaki que se transforma em humano por amor e amizade ao pequeno garoto Sousuke, enfrentando assim todas as descobertas e belezas da vida em terra firme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa correla\u00e7\u00e3o entre \u201cPonyo\u201d e o disco de Holter \u00e9 s\u00f3 uma dessas possibilidades narrativas propostas pela artista, pois seu disco \u00e9 constru\u00eddo em intrincadas hist\u00f3rias e conex\u00f5es, por\u00e9m todas elas extremamente fluidas e abertas para as possibilidades interpretativas de cada ouvinte. Quer outro exemplo dessas correla\u00e7\u00f5es simples que podem gerar diferentes possibilidades interpretativas? O t\u00edtulo do disco veio da forma como Holter nomeou uma faixa demo mudando uma palavra da linha \u201cSomething in the way she moves&#8221;, da m\u00fasica \u201cSomething\u201d, dos Beatles, trocando o \u201cway\u201d ali por \u201croom\u201d, isso por que na \u00e9poca ela estava assistindo a s\u00e9rie \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/12\/05\/get-back-ou-algo-sobre-amizade-e-amadurecimento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Beatles: Get Back<\/a>\u201d, de Peter Jackson. Uma mudan\u00e7a simples que, segundo a artista, foi feita sem grandes inten\u00e7\u00f5es, sem grandes significados escondidos, por\u00e9m que foi lida por muitos ouvintes como uma mudan\u00e7a que agregou uma transgress\u00e3o feminista, tanto que at\u00e9 chegou a se conectar o t\u00edtulo do disco ao ensaio feminista \u201cUm teto todo seu\u201d, de Virginia Woolf, que no original se chama \u201cA Room of One&#8217;s Own\u201d. Aquela quest\u00e3o interessante de quem uma obra pode ganhar m\u00faltiplos significados e camadas perante cada ouvinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas essas possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o e m\u00faltiplas leituras do disco v\u00eam principalmente em decorr\u00eancia de sua tentativa de criar can\u00e7\u00f5es que partem desses joguetes infantis, de criar trilhas sonoras como que para brincadeiras infantis, como que desenhando um universo para sua pr\u00f3pria filha. Produzido ao lado de Kenny Gilmore &#8211; nome que j\u00e1 trabalhou ao lado de Weyes Blood -, e escrito ao lado dos m\u00fasicos Devin Hoff e Chris Speed, \u201cSomething In The Room She Moves\u201d pode conversar com diferentes tipos de ouvintes, pois em seus momentos mais estranhamente pop parece se conectar com as sonoridades de gente como Kate Bush, Laurie Anderson e Cassandra Jenkins, enquanto em seus momentos mais experimentais se aproxima bastante com sonoridades que podem ir de Dead Can Dance a Laraaji. E nesse mar de possibilidades, o que se destaca \u00e9 a voz cada vez mais delicada e bem colocada de Holter, que consegue ir do canto pop \u00e0s vocaliza\u00e7\u00f5es meditativas, convidando o ouvinte para uma jornada encantadoramente bela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mergulhar em faixas como \u201cSun Girl\u201d, \u201cMateria\u201d ou \u201cTalking to the Whisper\u201d (ali\u00e1s, os minutos finais dessa aqui s\u00e3o de chorar de beleza!) \u00e9 como se abrir para um mundo em que a dor, a perda e as d\u00favidas se irmanam com a beleza do renascimento, da descoberta e da transforma\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, recomendamos que voc\u00ea d\u00ea play em \u201cSomething In The Room She Moves\u201d com o tempo necess\u00e1rio e se deixe levar pelo universo pessoal de Julia Holter, pois estamos convencidos de que voc\u00ea n\u00e3o passar\u00e1 inc\u00f3lume pela beleza de seu trabalho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Julia Holter - Sun Girl (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CsmBrWiC_94?list=OLAK5uy_n3fFwoSW0-apaidkLfwIdmnNCT6PdJp8Y\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista<\/em>&nbsp;e<em>&nbsp;escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do&nbsp;<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>&nbsp;e colabora com o&nbsp;<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>&nbsp;e a&nbsp;<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mergulhar no novo disco de Julia Holter \u00e9 como se abrir para um mundo em que a dor, a perda e as d\u00favidas se irmanam com a beleza do renascimento, da descoberta e da transforma\u00e7\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/14\/musica-julia-holter-cria-um-intrincado-e-belo-universo-sonoro-em-seu-disco-something-in-the-room-she-moves\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":82872,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1297],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82866"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82866"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82866\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82883,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82866\/revisions\/82883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82866"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82866"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82866"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}