{"id":82471,"date":"2024-07-13T10:24:04","date_gmt":"2024-07-13T13:24:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82471"},"modified":"2024-09-03T16:00:55","modified_gmt":"2024-09-03T19:00:55","slug":"literatura-melhor-nao-contar-de-tatiana-salem-levy-e-um-objeto-de-observacao-social-poderoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/07\/13\/literatura-melhor-nao-contar-de-tatiana-salem-levy-e-um-objeto-de-observacao-social-poderoso\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221;, de Tatiana Salem Levy, \u00e9 um objeto de observa\u00e7\u00e3o social poderoso"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatiana Salem Levy come\u00e7a seu novo romance com uma lembran\u00e7a. Para ela \u2013 p\u00e9ssima com datas, nos diz \u2013 essa \u00e9 sua primeira lembran\u00e7a datada: 3 de dezembro de 1989. Poderia ter sido um dia como outro qualquer, um domingo de sol e piscina, ao lado da m\u00e3e e do padrasto. Uma Tatiana de ainda 10 anos, em in\u00edcio da puberdade, toma sol sem a parte de cima do biqu\u00edni. Imersa em pensamentos, sentada no ch\u00e3o, a jovem \u00e9 surpreendida por um desenho. No tra\u00e7o do padrasto, o papel exp\u00f5e uma menina sem rosto, de cabelo levemente encaracolado e os mamilos \u00e0 mostra \u2013 eretos, h\u00e1 mais tinta de caneta ali, como se desenhados com for\u00e7a. Esse dia, &#8220;me perseguiu durante os anos que vieram mais tarde, e continua me perseguindo agora, enquanto escrevo&#8221;. &#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; (2024) \u00e9 um lan\u00e7amento da Todavia Livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele dia de dezembro marca o fim de um per\u00edodo na vida da narradora. O fim da inoc\u00eancia, talvez. A entrada brusca na vida adulta. Vida esta, enquanto mulher, exposta a regras sociais fortemente desenhadas a partir do olhar e do desejo masculino. Esta foi a primeira, mas n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima, experi\u00eancia de abuso na rela\u00e7\u00e3o com o padrasto \u2013 vale ressaltar, um famoso cineasta, figura-chave do cinema brasileiro no s\u00e9culo passado. Do olhar, esse ass\u00e9dio passar\u00e1 por liga\u00e7\u00f5es, aproxima\u00e7\u00f5es inoportunas e toques n\u00e3o consentidos. Um ac\u00famulo de traumas que se sedimentam uns sobre os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; \u00e9 corajosamente autobiogr\u00e1fico. O t\u00edtulo \u00e9 paradoxal. &#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; foi o conselho que Tatiana Salem Levy ouviu repetidamente de amigos e amigas, ex-companheiros, da terapeuta da m\u00e3e, quando buscava um conselho: deveria ou n\u00e3o contar para a m\u00e3e os abusos sofridos? Se seguiu o conselho at\u00e9 a morte da m\u00e3e, v\u00edtima de um c\u00e2ncer precoce e doloroso, Tatiana encontra no texto escrito uma maneira de contar. E como ela conta. O livro \u00e9 um mergulho em todo esse processo de abuso e ass\u00e9dio e nos efeitos no seu desenvolvimento enquanto mulher, enquanto filha, enquanto companheira, enquanto escritora.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-82473\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/melhor2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/melhor2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/melhor2-300x228.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatiana segue diferentes linhas narrativas \u2013 que n\u00e3o seguem paralelas, sem que uma toque a outra, mas criando curvas e conex\u00f5es, influenciando umas \u00e0s outras de maneira inevit\u00e1vel. Assim, na medida em que ela reconstr\u00f3i essa rela\u00e7\u00e3o abusiva com o padrasto, ela tamb\u00e9m desenha um retrato delicado e emocionante da figura materna \u2013 uma jornalista bem sucedida, a primeira mulher brasileira a cobrir uma guerra no exterior \u2013 e da doen\u00e7a que a levou e, ainda, reflete sobre a pr\u00f3pria escrita, inserindo-a dentro de um contexto maior, pol\u00edtico e social, que insere a literatura feminina dentro de uma no\u00e7\u00e3o de escrita do eu, fortemente calcada na escrita de di\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este gesto, do micro ao macro, do que \u00e9 \u00edntimo para um contexto social mais amplo, aproxima o texto de Salem do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/04\/01\/literatura-os-anos-de-annie-ernaux-e-um-livro-brilhante-que-beira-o-inclassificavel\/\">projeto liter\u00e1rio da francesa Annie Ernaux<\/a>. &#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; \u00e9 como um romance-ensaio, no qual a autora alia a experi\u00eancia pessoal \u00e0 uma an\u00e1lise da sociedade e da literatura escrita por mulheres desde tempos passados. S\u00e3o muitas as refer\u00eancias que ela traz aqui, de autoras e textos \u2013 a pr\u00f3pria Annie Ernaux, a brit\u00e2nica Virginia Woolf. Em comum a muitas dessas autoras, Tatiana descortina experi\u00eancias traum\u00e1ticas de abuso e viol\u00eancia patriarcal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos em que o corpo feminino segue sendo alvo primordial do conservadorismo \u2013 a PL do Aborto est\u00e1 a\u00ed, para n\u00e3o nos deixar esquecer \u2013 Tatiana Salem Levy compartilha com o leitor sua experi\u00eancia de aborto. N\u00e3o no Brasil, mas em Portugal, pa\u00eds em ele \u00e9 legalizado, por meio do sistema p\u00fablico, com os cuidados e o apoio necess\u00e1rio por parte governamental. O que parecia, a in\u00edcio, ser simples, se mostra mais complicado e doloroso: o desconforto e o distanciamento do antigo companheiro ao longo deste processo \u2013 marcado pelo sangue que insiste em ser expelido do corpo, repetidamente \u2013 joga a autora\/personagem noutra experi\u00eancia traum\u00e1tica na rela\u00e7\u00e3o com o masculino, no papel social do homem dentro de uma sociedade patriarcal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; \u00e9 um texto corajoso, cru e profundamente liter\u00e1rio. No contato entre o \u00edntimo e o p\u00fablico, entre o dito e o n\u00e3o-dito, Tatiana Salem Levy faz da escrita de si um objeto de observa\u00e7\u00e3o social poderoso. Ainda bem que a autora contou, apesar de todos os conselhos contr\u00e1rios ouvidos ao longo dos anos, sentimentos e lembran\u00e7as guardadas durante tanto tempo. Desde j\u00e1, um dos lan\u00e7amentos mais importantes da literatura brasileira neste ano.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trilha de Letras recebe a escritora Tatiana Salem Levy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vnbX1390cjk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No contato entre o \u00edntimo e o p\u00fablico, entre o dito e o n\u00e3o-dito, &#8220;Melhor n\u00e3o contar&#8221; \u00e9 um texto corajoso, cru e profundamente liter\u00e1rio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/07\/13\/literatura-melhor-nao-contar-de-tatiana-salem-levy-e-um-objeto-de-observacao-social-poderoso\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":82472,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[7290],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82471"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82471"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82474,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82471\/revisions\/82474"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}