{"id":82300,"date":"2024-06-28T00:50:47","date_gmt":"2024-06-28T03:50:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82300"},"modified":"2024-07-31T01:03:04","modified_gmt":"2024-07-31T04:03:04","slug":"entrevista-caio-marques-luis-pellanda-e-rodrigo-stradiotto-apresentam-a-smoko","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/28\/entrevista-caio-marques-luis-pellanda-e-rodrigo-stradiotto-apresentam-a-smoko\/","title":{"rendered":"Entrevista: Caio Marques, Lu\u00eds Pellanda\u00a0e Rodrigo Stradiotto apresentam a Smoko"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Smoko \u00e9 uma n\u00e3o banda, um grupo gestado na pandemia por tr\u00eas amigos curitibanos que participaram juntos de diversos projetos musicais (Woyzeck, Frutos Madurinhos do Amor, Gente Boa da Melhor Qualidade) e que, quando o isolamento abrandou, se encontrou para tocar \u201cpara desenferrujar como m\u00fasicos e tamb\u00e9m para recuperar as rela\u00e7\u00f5es, que estavam muito enferrujadas\u201d, relembra o vocalista Luis Pellanda \u2013 Rodrigo Stradiotto e Caio Marques completam a agremia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos encontros dessa turma (que al\u00e9m dos tr\u00eas reunia v\u00e1rios amigos m\u00fasicos de Curitiba), a banda formada na ocasi\u00e3o tocava covers de \u201cBoygenius, Sharon Van Etten, Lana Del Rey, Big Thief, The National, Cure\u201d para dar uma arejada, o que, naturalmente, apresentou aos participantes formas de composi\u00e7\u00e3o que, um tempo depois, acabaria inspirando-os a compor, novamente, material pr\u00f3prio. O ponto de partida foi \u201cRather Be Better\u201d, faixa que abre o disco da Smoko, que nasceu numa noite de ins\u00f4nia de Luis, e depois foi retrabalhada por Rodrigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Fio, projeto anterior de Luis e Rodrigo, marcou presen\u00e7a no Scream &amp; Yell tocando \u201cVendetta\u201d <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/01\/selo-scream-yell-ouca-baixe-o-tributo-a-tom-bloch\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no tributo \u00e0 Tom Bloch lan\u00e7ado em 2021<\/a> \u2013 Rodrigo tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/12\/selo-scream-yell-ouca-e-faca-o-download-gratuito-de-morphe-ep-de-rodrigo-stradiotto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lan\u00e7ou um EP pelo Selo Scream &amp; Yell<\/a> em 2023. \u201cSmoko\u201d (<a href=\"https:\/\/tratore.ffm.to\/smoko\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tratore.ffm.to\/smoko<\/a>) \u00e9 o <span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/28\/ouca-e-baixe-o-disco-de-estreia-da-smoko-selo-scream-yell\/\" rel=\"noopener\">45\u00ba lan\u00e7amento do Selo Scream &amp; Yell<\/a><\/span>. Na conversa a seguir, os tr\u00eas contam sobre a g\u00eanese do Smoko, o processo das composi\u00e7\u00f5es e do ato de fazer m\u00fasica enquanto forma de rezar. Cabem, ainda, v\u00e1rias reflex\u00f5es inescap\u00e1veis a quem se interessa pela m\u00fasica, seja como ouvinte ou como m\u00fasico.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Rather Be Better\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/N2IJ7AxQg2A?list=OLAK5uy_l4qo2pZU9b4wLC-hI4B2tA2M_66ZFJzQI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou voc\u00eas tr\u00eas a se juntar e compor can\u00e7\u00f5es juntos?<\/strong><br \/>\nRodrigo Stradiotto: Bom, a gente sempre teve coisas juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio Marques: O Rodrigo produziu um EP meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Stradiotto: Come\u00e7ou antes. Uma das primeiras grava\u00e7\u00f5es que eu fiz na minha vida, experimentando ainda, foi com uma banda do Caio chamada Frutos Madurinhos do Amor (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: O Luis foi um dos integrantes inclusive. Era uma banda contempor\u00e2nea ao Woyzeck. N\u00f3s \u00e9ramos amigos desde essa \u00e9poca. Eles eram os caras do Woyzeck e eu sempre andava por ali com eles. Sempre meio que trabalhamos e trocamos ideias desde os anos 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis Pellanda: Meio que pra resumir: com o Rodrigo eu fiz o Woyzeck e fiz O Fio. Com o Caio, eu estive no Frutos Madurinhos do Amor e no Gente Boa da Melhor Qualidade, que era um grupo de samba. E o Caio era uma esp\u00e9cie de participante-coringa nos primeiros anos do Woyzeck. A\u00ed o Rodrigo fez a produ\u00e7\u00e3o do \u201cCalada\u201d, um EP do Caio. E agora eu fa\u00e7o letras para o trabalho solo do Caio. Acho que essas s\u00e3o nossas rela\u00e7\u00f5es diretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: \u00c9 uma coisa bem prom\u00edscua, n\u00e9? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OK, mas a\u00ed voc\u00eas decidiram fazer algo juntos em um determinado momento\u2026<\/strong><br \/>\nLuis: A semente do Smoko est\u00e1 na pandemia, ou talvez um pouco antes, quando eu estava fazendo O Fio com o Rodrigo. Eu e ele t\u00ednhamos feito um monte de coisas, \u00edamos lan\u00e7ar novas faixas, mas a\u00ed veio a pandemia e houve aquele balde de \u00e1gua fria. A gente tinha planejado um monte de coisas e deixou tudo de lado. Meio que desanimamos daquilo, ficamos traumatizados, sei l\u00e1. S\u00f3 sei que, na \u00e9poca, o Caio tinha falado que tinha algum interesse em participar d\u2019O Fio. S\u00f3 que a gente deixou tudo t\u00e3o em suspenso que nunca mais voltou \u00e0 tona. E a\u00ed durante a pandemia, para n\u00e3o enlouquecer \u2013 como quase todas as pessoas precisaram fazer \u2013 n\u00f3s mant\u00ednhamos um grupo semanal de reuni\u00e3o online: \u00e9ramos eu, o Caio, Rodrigo e outros amigos, tamb\u00e9m m\u00fasicos. N\u00f3s nos reun\u00edamos toda quinta-feira, se n\u00e3o me engano, e fic\u00e1vamos falando de m\u00fasica, de pol\u00edtica, de v\u00e1rias coisas, enquanto as pessoas morriam aos milhares ao nosso redor, no meio daquela atmosfera de adoecimento geral. Quando houve a abertura do isolamento, a primeira coisa que n\u00f3s fizemos foi come\u00e7ar a tocar, porque era uma saudade muito grande que n\u00f3s t\u00ednhamos. Foi o grupo todo. A gente se reunia na casa do [Jos\u00e9 Carlos] Branco, que foi o baterista do Woyzeck, do Bad Folks \u2013 que \u00e9 outra banda do Caio \u2013, do Excelsior \u2013 que \u00e9 que o Rodrigo teve. Ele tem o est\u00fadio de ensaio montado, e n\u00f3s \u00edamos at\u00e9 l\u00e1, n\u00f3s e outras pessoas, e toc\u00e1vamos qualquer coisa que a gente quisesse sem nenhum compromisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: A gente tocava Boygenius, The National, Alejandro Escovedo\u2026 o que aparecesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: E que fosse f\u00e1cil (risos). Se fosse complicado, a gente passava pra outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Tocamos Elton John, The Cure\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Toc\u00e1vamos para desenferrujar como m\u00fasicos e tamb\u00e9m para recuperar as rela\u00e7\u00f5es, que estavam muito enferrujadas. \u00c9 dif\u00edcil eu falar hoje que eu n\u00e3o tenho interesse em seguir uma carreira como m\u00fasico, porque isso \u00e9 algo que eu quis fazer a vida toda, desde que eu era pequeno, e tentei, tentei e tentei, e quebrei a cara v\u00e1rias vezes. Mas no caminho adquiri muita experi\u00eancia, que uso em tudo que eu fa\u00e7o hoje. Mas mesmo n\u00e3o querendo mais seguir carreira, eu ainda sentia muita vontade de cantar. Eu sei que o Rodrigo e o Caio t\u00eam isso ainda como um norte na vida deles: eles s\u00e3o m\u00fasicos realmente, enquanto eu sou meio que um passageiro na m\u00fasica \u2013 sei um pouco de m\u00fasica, toco muito pouco, e canto. Hoje trabalho com literatura, principalmente, mas eu queria poder cantar porque me fazia muita falta. Durante aquelas reuni\u00f5es, aqueles ensaios, resolvemos compor coisas nossas e ver o que acontecia, j\u00e1 que hoje existe outra din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A gente come\u00e7ou num grupo maior e foi reduzindo, mas algu\u00e9m sempre jogava essa ideia de fazer algo nosso. E quando a gente estava mais ativo, l\u00e1 por 2022, a gente come\u00e7ou a fazer. Mas a verdade \u00e9 que essas m\u00fasicas do \u00e1lbum surgiram quando a gente j\u00e1 n\u00e3o estava mais se encontrando para tocar. Come\u00e7ou em maio do ano passado. O Luis estava com algumas ins\u00f4nias\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: O Luis apareceu com uma can\u00e7\u00e3o que ele fez de madrugada. Uma estrofe, na verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Eu sofro de ins\u00f4nia, e naquele momento elas estavam mais presentes na minha vida. Para n\u00e3o ficar na cama fritando, vou at\u00e9 a sala, fico lendo, fazendo alguma coisa, e por algum motivo, naquele dia, eu peguei o viol\u00e3o, fiquei tocando bem baixinho e pensando em uma letra. Saiu alguma coisa, gravei no celular, mandei para eles no grupo que a gente tinha, e falei, \u201c\u00f3, se algu\u00e9m achar que isso aqui rende alguma coisa\u2026\u201d E era \u201cRather Be Better\u201d, que \u00e9 a primeira m\u00fasica do \u00e1lbum. Eles gostaram, o Rodrigo pediu para eu gravar a voz de novo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A melodia era muito legal, eu a peguei, mudei a harmonia, mandei de volta pro Luis e ele fez uma estrofe inteira. Da\u00ed fizemos a harmonia e a melodia do refr\u00e3o, montei o esqueleto da can\u00e7\u00e3o, o Caio fez o baixo, e eu toquei o restante dos instrumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: A partir da\u00ed, foi mais ou menos isso: partia de uma ideia que eu tinha e que eu fazia no piano ou no viol\u00e3o, e mandava para eles; ou ent\u00e3o eles tinham uma ideia e mandavam para eu colocar uma melodia, uma letra. A gente nunca se encontrou, mesmo podendo se encontrar! J\u00e1 n\u00e3o havia mais pandemia, mas a gente fazia isso sempre pelo celular. A gente recebia os resultados do Rodrigo pelo celular, ouvia, e todas as vozes eu gravei no celular \u2013 bem baixinho, porque era de madrugada e n\u00e3o queria acordar as crian\u00e7as (risos). E essa necessidade de cantar muito baixo, por ser no celular, acabou definindo um pouco o estilo vocal do Smoko.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: O Lu\u00eds fala que agora ele \u00e9 s\u00f3 escritor, mas ele \u00e9 um grande cantor e um grande melodista. As melodias ele realmente encaixava nas m\u00fasicas do Rodrigo, nas ideias do Rodrigo. Eu participei mais na composi\u00e7\u00e3o de duas can\u00e7\u00f5es, o resto eu ficava criando baixo. Eu n\u00e3o sou baixista, mas eu tinha comprado um baixo para tocar naquelas reuni\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis (surpreso): Voc\u00ea comprou esse baixo para tocar naquelas reuni\u00f5es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: Foi! Eu estava com muita vontade de tocar baixo (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando o Rodrigo me apresentou as m\u00fasicas pela primeira vez, ele me falou que elas tamb\u00e9m tinham sido influenciadas por aquelas m\u00fasicas que voc\u00eas tocavam, no sentido de que voc\u00eas tinham se dado conta de que as bandas que voc\u00eas gostavam faziam grandes can\u00e7\u00f5es com muito pouco, em termos de notas e acordes. Voc\u00eas se deram conta dessa simplicidade presente nas coisas que voc\u00eas estavam gostando de ouvir, e que isso foi algo que voc\u00eas conscientemente levaram para o Smoko.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Tem uma coisa que eu acho que acontece n\u00e3o s\u00f3 com a gente, mas com v\u00e1rias pessoas, que \u00e9\u2026 Bom, o Gente Boa de Melhor Qualidade surgiu em um momento em que o Woyzeck ia fazer um show ac\u00fastico e a gente achou que nossas m\u00fasicas soavam uma merda nesse formato. Era uma merda, pavoroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: O Woyzeck era muito complicado: era muito dif\u00edcil fazer, \u00e9 muito dif\u00edcil tocar. Se algu\u00e9m quisesse um dia fazer um cover da gente, estaria fodido (risos). A gente se dedicou \u00e0quilo, mas era uma maluquice total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: J\u00e1 com o show ac\u00fastico agendado, e vendo que nada estava ficando bom, decidimos tocar samba. Pegamos uns sambas cl\u00e1ssicos, que a gente gostava, e tamb\u00e9m uns dois forr\u00f3s. E foi um grande sucesso! (risos). A gente gostou bastante de tocar, tamb\u00e9m, e se tornou um projeto aut\u00f4nomo. Eu sa\u00ed, o Caio e o Luis seguiram. Depois a gente fez uns shows com o Woyzeck onde a gente tocava uns covers. E sempre depois desses projetos, a gente voltava com ideias diferentes, abastecidos. Parecia que reacendia, que a gente se desprendia de v\u00edcios, dava um tes\u00e3o novo. O nosso terceiro disco sai depois de uma s\u00e9rie de shows onde toc\u00e1vamos esses covers, e ele j\u00e1 era mais arejado. A m\u00fasica pop \u00e9 legal porque voc\u00ea v\u00ea que um Elton John, como ele toca o piano, parece muito complexo, mas \u00e9 harmonicamente simples. Soa complexo pelo jeito que a melodia \u00e9 constru\u00edda. Ent\u00e3o esses covers que a gente tocou depois da pandemia deu essa arejada, nos ajudou a compor sem quebrar a cabe\u00e7a. Muitas vezes est\u00e1 muito na cara que voc\u00ea tem uma coisa legal, mas n\u00e3o percebe, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Nenhum de n\u00f3s tr\u00eas \u00e9 uma pessoa religiosa, mas n\u00f3s, claro, somos seres humanos e temos toda uma carga, uma cultura atr\u00e1s de n\u00f3s, e a m\u00fasica tem muito a ver com religiosidade. Esses momentos em que a gente se reuniu na vida e tocou m\u00fasica dos outros, considero que a gente estava rezando. Na passagem dos anos 80 para os 90, Curitiba era tomada por bandas covers, e a gente, que nasceu como m\u00fasicos nesse ambiente da m\u00fasica independente, tinha muito presente a premissa, a \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d de fazer m\u00fasica pr\u00f3pria. A gente entrou nessa pilha de fazer o nosso, mas quando a gente se re\u00fane para fazer m\u00fasica dos outros, \u00e9 como se a gente rezasse. Essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho. Quando a gente toca e canta, parece que a gente reza, e esse \u00e9 um movimento para cima, que substitui essa mola religiosa que leva a gente pra frente. Isso nos alivia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Complementando isso que o Luis falou, me ocorreu agora que a gente n\u00e3o tem aquele lance de \u201ctocar os cl\u00e1ssicos\u201d. P\u00f4, tocamos Boygenius, Sharon Van Etten, Lana Del Rey, Big Thief\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: Mas teve um momento quando j\u00e1 est\u00e1vamos s\u00f3 n\u00f3s tr\u00eas em que a gente decidiu fazer s\u00f3 m\u00fasicas de bandas com mulheres (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Sim, sair do ambiente masculino e ir para outro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: Esse encontro em que a gente tocou s\u00f3 coisas de meninas \u2013 e meninas que estavam arrebentando. Vamos combinar que Boygenius arrebentou, os dois discos s\u00e3o incr\u00edveis, pra mim parece um Crosby, Stills, Nash &amp; Young dos anos 2000. \u00c9 um tro\u00e7o de alt\u00edssimo n\u00edvel. E a\u00ed a gente viu que a m\u00fasica delas \u00e9 uma coisa simples e bonita, que (ri) at\u00e9 a gente consegue cantar. Eu acho que elas foram uma grande influ\u00eancia pra gente optar por esse caminho de menos acordes, mais diretas, mais simples, mas bonitas. Busc\u00e1vamos uma beleza que n\u00e3o estivesse somente na harmonia dif\u00edcil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u201cDon\u2019t Forgive Me\u201d, Smoko (Selo Scream &amp; Yell)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QCgpfD0JFuw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado voc\u00eas citarem esses artistas a\u00ed como catalisadores, porque n\u00e3o se escuta a influ\u00eancia direta deles no resultado final. Escuta-se mais algumas refer\u00eancias mais antigas de voc\u00eas, como a fase p\u00f3s-Mick Harvey do Nick Cave and The Bad Seeds, um pouco de Talking Heads, de Massive Attack. Ent\u00e3o foi mais uma influ\u00eancia espiritual, como o Luis falou.<\/strong><br \/>\nLuis: A gente sempre escuta m\u00fasica de agora. N\u00e3o temos essa coisa de \u201cah, porque antigamente\u2026\u201d Na verdade, a gente escuta m\u00fasica todas as \u00e9pocas. O que a gente fez foi talvez vampirizar um pouco a energia desses novos artistas sem necessariamente fazer o que eles fazem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio: Mesmo porque n\u00e3o conseguir\u00edamos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas eu acho que tem uma coisa interessante, que \u00e9 assim: est\u00e1 evidente que as meninas do Boygenius ouviram muito Nick Cave, muito The Cure.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: A St. Vincent tamb\u00e9m. Ela tem esse nome por causa de uma m\u00fasica do Nick Cave, voc\u00ea v\u00ea que ela tamb\u00e9m ouviu Talking Heads.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Ent\u00e3o, acho que essas pessoas n\u00e3o foram as refer\u00eancias est\u00e9ticas, mas os pontos de partida que tivemos foram os mesmos, ainda que sejamos de gera\u00e7\u00f5es diferentes. Mas o que o Luis falou sobre esse lado mais sacro da m\u00fasica: a gente \u00e9 amigo desde os 13, 15 anos, e m\u00fasica sempre foi algo comum a todos, sempre foi uma \u201ccola\u201d. Literatura meio que anda de m\u00e3o dada, cinema um pouco menos, mas a m\u00fasica esteve e est\u00e1 sempre ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00fasica est\u00e1 sempre a\u00ed, mas n\u00e3o vai para os palcos dessa vez, porque voc\u00eas t\u00eam bem claro para si que n\u00e3o v\u00e3o fazer nenhum show (risos). Que n\u00e3o h\u00e1 interesse em tocar s\u00f3 voc\u00eas tr\u00eas com v\u00e1rias pistas pr\u00e9-gravadas, nem chamar outros m\u00fasicos. De onde vem essa decis\u00e3o de n\u00e3o tocar ao vivo? Imagino que exista um certo fastio com a precariedade do circuito de shows autorais, mas tamb\u00e9m dessa falta de vontade de fazer uma reprodu\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, inanimada, do que voc\u00eas criaram.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Hoje em dia, eu vejo o pessoal da nova gera\u00e7\u00e3o com um cuidado t\u00e9cnico, de estudo de instrumento, que nossa gera\u00e7\u00e3o e mesmo outras de pouco tempo atr\u00e1s n\u00e3o tinham. Acho que foi muito frustrante para n\u00f3s, ao longo dos anos, ficar tentando fazer shows bons, no sentido de clareza musical, de n\u00e3o soar uma ma\u00e7aroca cheia de microfonia. At\u00e9 na MTV foi frustrante, fomos gravar um programa l\u00e1 e foi uma bosta, a gente n\u00e3o se ouvia. O Brasll teve um acesso a uma melhoria t\u00e9cnica muito grande nos \u00faltimos 10 anos. Eu montei um est\u00fadio, o Caio tamb\u00e9m tem um home studio, e a gente percebeu que ali as coisas acontecem, que n\u00e3o tem essa frustra\u00e7\u00e3o (Caio ri). Se a gente vai tocar num bar X, tem que disputar volume com a galera conversando, o PA apita se aumentar um pouco\u2026 Est\u00e1 melhorando, mas \u00e9 uma coisa que a gente fica bolado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Se voc\u00eas me permitem, tem uma coisa que diz respeito a mim, que eu n\u00e3o gostaria de fazer shows porque eu preciso dedicar quase todo o meu tempo ao meu trabalho. Eu preciso ajudar em casa, com crian\u00e7a e um monte de coisas, e eu n\u00e3o posso mais trabalhar de gra\u00e7a. A m\u00fasica que a gente faz n\u00e3o d\u00e1 dinheiro, e eu n\u00e3o poderia me dedicar tanto a ponto de fazer show, viajar, e deixar de fazer outras viagens e outros trabalhos na \u00e1rea de literatura, que \u00e9 a \u00e1rea que me paga por isso. O Brasil n\u00e3o mudou muito nesse sentido. Pode ter melhorado tecnicamente, mas a gente n\u00e3o pode fazer nada em rela\u00e7\u00e3o a isso. Eu tenho um monte de responsabilidades para resolver e n\u00e3o posso simplesmente come\u00e7ar a fazer show para l\u00e1 e para c\u00e1 sem ser pago. E \u00e9 isso. A dedica\u00e7\u00e3o que eu dou \u00e0 m\u00fasica agora \u00e9 totalmente afetiva, emocional. N\u00e3o \u00e9 racional. Quando eu escrevo livros, colunas ou qualquer outro trabalho ligado \u00e0 \u00e1rea editorial, eles s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 extremamente racionais, porque eu tenho que me dedicar muito a quest\u00f5es de linguagem e \u00e0s coisas em volta, mas \u00e9 tamb\u00e9m solit\u00e1rio. O contato com o leitor vem depois. Na m\u00fasica, eu vou suprir essa falta da cria\u00e7\u00e3o coletiva. A op\u00e7\u00e3o pelas letras em ingl\u00eas \u00e9 justamente para eu n\u00e3o pensar tanto. S\u00e3o letras mais simples, n\u00e3o s\u00e3o na minha l\u00edngua nativa, porque tenho que me ater a uma coisa mais direta, mais objetiva, ou at\u00e9 mais flutuante, sem eu ter tanta responsabilidade sobre o que a m\u00fasica diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas querem que esse disco saia. Para quem \u00e9 esse disco?<\/strong><br \/>\nRodrigo: A quem interessar possa? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: No meio liter\u00e1rio, existem muitos autores que dizem que escrevem para um leitor que s\u00e3o eles mesmos, \u201ceu escrevo o que eu gostaria de ler\u201d, dizem. N\u00e3o acredito que seja assim, porque se fosse, a pessoa escreveria, guardaria na gaveta, em casa, e leria quando tivesse vontade. Ela n\u00e3o ficaria enchendo o saco de um editor, pedindo \u201cme publica, por favor\u201d (risos). Quando eu escrevo, \u00e9 para que aquilo encontre uma resson\u00e2ncia naquele momento, \u00e9 para criar uma rede de pessoas cuja sensibilidade possa se comunicar, naquele momento, atrav\u00e9s de algo que para mim foi importante. Quando a gente faz essa reza que \u00e9 a m\u00fasica, \u00e9 pelo desejo de criar essas pontes. Acho que todo mundo, n\u00e3o s\u00f3 artistas, fazem as coisas dessa maneira. Quando a gente vai tomar um caf\u00e9 ali na esquina, \u00e9 em busca de algu\u00e9m com quem a gente se comunique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A gente est\u00e1 muito carente de di\u00e1logos, e essa \u00e9 a nossa maneira de propor um di\u00e1logo com o mundo exterior. A m\u00fasica \u00e9 a nossa principal ferramenta, talvez a coisa mais primal, mais basal, que a gente tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis: Antes de falar, o ser humano cantava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Ela \u00e9 quase um sinal de fuma\u00e7a da nossa necessidade de tentar ressoar. Mesmo que seja em uma bolha. A m\u00fasica que fizemos se comunicou primeiro entre n\u00f3s. Agora vamos jogar no mundo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Midnight Hits\u201d, Smoko (Selo Scream &amp; Yell)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PfmerxjzQwc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A Smoko \u00e9 uma n\u00e3o banda, um grupo gestado na pandemia por tr\u00eas amigos curitibanos que participaram juntos de diversos projetos musicais (Woyzeck, Frutos Madurinhos do Amor, Gente Boa da Melhor Qualidade)&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/28\/entrevista-caio-marques-luis-pellanda-e-rodrigo-stradiotto-apresentam-a-smoko\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":82301,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7257],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82300"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82300"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82309,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82300\/revisions\/82309"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}