{"id":82284,"date":"2024-06-27T00:08:13","date_gmt":"2024-06-27T03:08:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=82284"},"modified":"2024-08-20T01:14:05","modified_gmt":"2024-08-20T04:14:05","slug":"cinema-orlando-minha-biografia-politica-de-paul-b-preciado-e-inventivo-e-repleto-de-sutilezas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/27\/cinema-orlando-minha-biografia-politica-de-paul-b-preciado-e-inventivo-e-repleto-de-sutilezas\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Orlando, Minha Biografia Pol\u00edtica&#8221;, de Paul B. Preciado, \u00e9 inventivo e repleto de sutilezas"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-82286 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/ORLANDO_POSTER-NACIONAL-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/ORLANDO_POSTER-NACIONAL-copiar.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/ORLANDO_POSTER-NACIONAL-copiar-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea ainda n\u00e3o se deparou com o nome de Paul B. Preciado, n\u00e3o se preocupe, muito em breve voc\u00ea ir\u00e1. Os mais atentos j\u00e1 devem ter observado as prateleiras das livrarias mais antenadas (que ainda resistem ao neoliberalismo vigente) povoadas pelos seus livros. Fil\u00f3sofo, curador e pesquisador no \u00e2mbito das pol\u00edticas do corpo, do g\u00eanero e da sexualidade, Preciado teve diversos de seus trabalhos traduzidos para v\u00e1rias l\u00ednguas ao redor do mundo (&#8220;Um Apartamento em Urano&#8221;, &#8220;Pornotopia&#8221; e &#8220;Testo Junkie&#8221; s\u00e3o alguns exemplos). Mais recentemente, o autor espanhol tamb\u00e9m marca forte presen\u00e7a nas salas de cinema com &#8220;Orlando, Minha Biografia Pol\u00edtica&#8221; (2023), document\u00e1rio de partida subjetiva e de pretens\u00f5es coletivas que dirigiu tomando para si o imagin\u00e1rio do romance hist\u00f3rico de Virginia Woolf.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao receber um convite para conceber uma esp\u00e9cie de autobiografia, Paul B. Preciado refutou a ideia afirmando que a sua j\u00e1 havia sido escrita em 1928, justamente por Virginia Woolf. Ele se refere, evidentemente, ao not\u00e1vel &#8220;Orlando: Uma Biografia&#8221;, romance da escritora brit\u00e2nica baseado, em partes, na vida de seu not\u00f3rio affair, a tamb\u00e9m escritora Vita Sackville-West. Portanto, resta a Preciado compor um mosaico cinematogr\u00e1fico que tanto apresenta para o mundo a ousadia vanguardista de Woolf como expande o seu pr\u00f3prio percurso art\u00edstico e acad\u00eamico ao transpor para imagens e sons o que h\u00e1 tempos vem investigando por meio de suas pesquisas e publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No romance, Orlando \u00e9 um nobre ingl\u00eas nascido na Inglaterra durante o reinado de Elizabeth I que, num belo dia, de uma hora para outra acorda mulher. No document\u00e1rio, Orlando s\u00e3o muitos\u2026 tantos que as suas hist\u00f3rias, personalidades e performances se misturam em uma massa densa, repleta de cores e nuances surpreendentes. Se Woolf encara a transgeneridade de sua personagem com in\u00f3cua naturalidade, Preciado demarca muito bem os obst\u00e1culos e as dificuldades que os seus Orlandos precisam enfrentar diariamente para que possam existir de forma plena.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82287\" aria-describedby=\"caption-attachment-82287\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-82287\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Paul-B.-Preciado-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Paul-B.-Preciado-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Paul-B.-Preciado-copiar-300x240.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82287\" class=\"wp-caption-text\">Paul B. Preciado<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com depoimentos ora emotivos e marcantes, por vezes doloridos, ora empoderados e contestadores, Preciado costura um document\u00e1rio inventivo, repleto de sutilezas, que sabe deixar as suas personagens \u00e0 vontade para contar as suas hist\u00f3rias e emprestar as suas vozes para Orlando e, com isso, deixarem-se espelhar na vida e na fic\u00e7\u00e3o do diretor. Formalmente, \u00e9 interessante quando o discurso de Orlando-personagem se mistura com os dos Orlandos-performers: Preciado se utiliza dessa justaposi\u00e7\u00e3o para montar a sua tese, que fica mais interessante na medida em que o texto de Woolf se confunde e se imbrica cada vez mais com o mundo contempor\u00e2neo (os h\u00e1bitos desenvolvidos na internet, a natureza das redes sociais, a consci\u00eancia no que tange \u00e0s quest\u00f5es de representatividade); s\u00e9culo XX e XXI se encontram, sem amarras, e como Woolf, Preciado tamb\u00e9m brinca com o tempo (o hist\u00f3rico e o narrativo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem trans de 15 anos, com uma pot\u00eancia vocal e uma orat\u00f3ria de dar inveja, tem um dos discursos mais fortes do filme. Ele olha para a c\u00e2mera, revela o seu nome e comenta que ir\u00e1 interpretar o personagem Orlando, de Virginia Woolf. Este exato procedimento \u00e9 repetido exaustivamente por todas as pessoas que aparecem diante da c\u00e2mera. Cada ator \/ performer se apresenta e exp\u00f5e o papel que est\u00e1 interpretando (os diversos Orlandos ou os poucos coadjuvantes tamb\u00e9m sa\u00eddos do romance). Apesar de improv\u00e1vel, a quantidade de personagens n\u00e3o prejudica a estrutura do document\u00e1rio porque praticamente todos eles est\u00e3o representando uma \u00fanica figura, resguardadas as suas respectivas subjetividades &#8220;da vida real&#8221;. A encena\u00e7\u00e3o estilizada e minimalista, no entanto, tamb\u00e9m repetitiva, esta sim se desgasta, sobretudo do meio para o final do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que era um tratamento de fic\u00e7\u00e3o para Woolf, Preciado encara como realidade pura. Pessoas trans e n\u00e3o-bin\u00e1rias interpretam os seus Orlandos e representam a si mesmas expondo as suas inseguran\u00e7as, os seus desejos, as suas feridas. Preciado tamb\u00e9m se coloca enquanto sujeito na narrativa, e dosando bem essa interven\u00e7\u00e3o autocentrada apresenta suas ressalvas quanto ao texto de Woolf: como poderia uma pessoa trans sair ilesa de tamanha transforma\u00e7\u00e3o, sem cicatrizes, sem cr\u00edticas? A partir deste questionamento, o filme convoca os seus performers a transgredir a paz e o sossego da aristocracia europ\u00e9ia e tra\u00e7ar, por meio de suas hist\u00f3rias e da resist\u00eancia de seus corpos, um paralelo entre a fantasia da fic\u00e7\u00e3o e as duras batalhas travadas em seus cotidianos, entre o &#8220;primeiro mundo&#8221; e as &#8220;periferias do mundo&#8221; no \u00e2mbito contempor\u00e2neo. Neste sentido, \u00e9 emblem\u00e1tica a cena da distribui\u00e7\u00e3o dos passaportes que fecha o filme, em um gesto que reconhece todos os &#8220;Orlandos&#8221; com as suas identidades e livres para habitar e deslocar-se seja l\u00e1 por onde quiserem. As crian\u00e7as que aparecem em uma das sequ\u00eancias finais tamb\u00e9m representam um gesto poderoso, pois apontam para um futuro de esperan\u00e7a que nem a escritora mais auspiciosa e ut\u00f3pica teria sido capaz de imaginar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Orlando, Minha Biografia Pol\u00edtica | Trailer Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tHJSB1Bhs0g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O que era um tratamento de fic\u00e7\u00e3o para Virginia Woolf, Preciado encara como realidade pura. 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