{"id":821,"date":"2009-02-18T20:52:26","date_gmt":"2009-02-18T23:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=821"},"modified":"2023-07-09T21:31:17","modified_gmt":"2023-07-10T00:31:17","slug":"kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Kid A&#8221;, o Radiohead no topo do mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-823\" title=\"kida\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kida.jpg\" alt=\"\" width=\"455\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kida.jpg 455w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kida-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kida-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 455px) 100vw, 455px\" \/><\/strong><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por Lu\u00eds Henrique Pellanda<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Melancolia sempre esteve clinicamente ligada \u00e0 personalidade art\u00edstica. Doen\u00e7a ou estado de esp\u00edrito, ela pode revelar tanto o g\u00eanio quanto a perversidade. Na hist\u00f3ria, na literatura, nas artes em geral, n\u00e3o foram poucos os melanc\u00f3licos patol\u00f3gicos, fict\u00edcios ou n\u00e3o, que exibiram, com prazer e em p\u00fablico, seu dom maior e mais particular: um senso de humor singular\u00edssimo, irreverente mas fechado para o entendimento m\u00e9dio. Melhor exemplo disso \u00e9 Hamlet, esp\u00e9cie de precursor da melancolia do Ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Radiohead. A\u00ed est\u00e1 uma banda que n\u00e3o ri. Ou raramente ri. A acidez quase infantil de Thom Yorke, em contraste violento com a afeta\u00e7\u00e3o doce de sua voz, sugere aquele mal-estar t\u00edpico dos que parecem estar sofrendo de uma azia constante, ali, bem no est\u00f4mago da alma. O que n\u00e3o impede ningu\u00e9m de achar gra\u00e7a nele e no que ele faz. No bom sentido. Porque Yorke tem declarado \u00e0 imprensa, de forma velada, a sinceridade de suas inten\u00e7\u00f5es c\u00f4micas. Afinal, todo cronista do absurdo \u00e9, por obriga\u00e7\u00e3o, um pouco comediante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a piada da vez \u00e9 fazer pouco caso da import\u00e2ncia que o mundo passou a dar \u00e0s suas queixas. Yorke, hoje, \u00e9 um menino mimado. Objeto de culto incondicional, tornou-se o juggernaut ao qual ele pr\u00f3prio se referia em &#8220;Ok Computer&#8221;, o tal &#8220;carro de Jagren\u00e1&#8221; da m\u00eddia, alvo de devo\u00e7\u00e3o cega e sacrificial. Em outras palavras: uma droga de vaca sagrada. \u00c9 um lun\u00e1tico genial e depressivo; um infeliz t\u00e3o experiente e conhecedor de sua desgra\u00e7a que pressup\u00f5e-se que se use sempre ouvi-lo e consult\u00e1-lo. Mas estejamos atentos: Hamlet tamb\u00e9m fingiu ser louco, e essa sua dem\u00eancia t\u00e1tica era o que tinha de mais original e divertido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Divirtam-se, portanto, e sem culpa: \u00e9 tudo pose, \u00e9 m\u00e1scara e teatro. Ironia marota, projeto de mau humor, tratado leve de niilismo. Thom Yorke, grande artista pop, deve ter lido Voltaire antes de compor as can\u00e7\u00f5es deste excelente &#8220;Kid A&#8221;. Logo na primeira faixa, &#8220;Everything In Its Right Place&#8221;, ele parafraseia o autor de &#8220;C\u00e2ndido&#8221; ou &#8220;O Otimismo&#8221;. No cl\u00e1ssico de Voltaire h\u00e1 um pretenso s\u00e1bio, caolho e sifil\u00edtico, Pangloss, que passa a vida repetindo a m\u00e1xima do pensamento m\u00e1gico e positivo: tudo est\u00e1 o melhor poss\u00edvel neste que \u00e9 o melhor dos mundos poss\u00edveis. Na can\u00e7\u00e3o do Radiohead, Yorke macaqueia os que acreditam na repeti\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica de uma id\u00e9ia como m\u00e9todo para transform\u00e1-la em realidade pr\u00e1tica. Mil vezes seguidas ouve-se o verso: &#8220;Tudo est\u00e1 em seu devido lugar&#8221;. Esta impress\u00e3o de par\u00f3dia \u00e9 ainda mais sens\u00edvel na faixa 6 que, providencialmente, chama-se &#8220;Optimistic&#8221;. E o refr\u00e3o proclama a grande mentira do conformismo moderno: &#8220;Se voc\u00ea faz o melhor que pode, ent\u00e3o o seu melhor poss\u00edvel j\u00e1 \u00e9 bom o bastante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora que est\u00e1 no topo do mundo, o Radiohead brinca com a pr\u00f3pria imagem. Lan\u00e7a um disco em que foge de quase tudo o que o fez popular: n\u00e3o h\u00e1 guitarras sujas nem melodias espa\u00e7osas; a voz de Yorke est\u00e1 camuflada, pequena, escondida sob a produ\u00e7\u00e3o linda e quase gelada de Nigel Godrich, o mesmo de &#8220;Ok Computer&#8221;. O disco todo, ali\u00e1s, \u00e9 frio. E \u00e9 surpreendente como lembra, \u00e0s vezes, Kraftwerk. H\u00e1 pouco de humano (e, estranhamente, muito de alem\u00e3o) em &#8220;Kid A&#8221;. De longe, por controle remoto. Nunca d\u00e1 margem a crescendos emocionais. Em &#8220;How to Disappear Completely&#8221;, Yorke canta: &#8220;N\u00e3o estou aqui. Isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo&#8221;. E \u00e9 a mais pura verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo o disco, n\u00e3o se pronuncia a palavra &#8220;love&#8221;. Como se o amor fosse artigo proibido. C\u00e2ndido, aquele &#8220;otimista&#8221;, j\u00e1 dizia: &#8220;Para cada beijo, vinte pontap\u00e9s por tr\u00e1s&#8221;. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 sexo nem \u00f3dio, n\u00e3o se fala em nada edificante nem desprez\u00edvel. E, paradoxalmente a essa ambi\u00eancia desagrad\u00e1vel de morte dos sentidos\/sentimentos, dentro da armadura blas\u00e9 que veste e protege &#8220;Kid A&#8221;, ainda h\u00e1 espa\u00e7o para refer\u00eancias inesperadas \u00e0 cantigas de roda infantis e bestas, recorda\u00e7\u00f5es de cirandas l\u00fadicas e passadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na faixa-t\u00edtulo, Yorke diz: &#8220;Ratos e crian\u00e7as me seguem para fora da cidade&#8221;. \u00c9 que ele se compara ao vingativo flautista de Hamelim, personagem de Robert Browning, poeta ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX. O flautista do poema, com a do\u00e7ura de sua m\u00fasica, encanta primeiro os ratos daquela cidade. Os bichos se atiram no rio e morrem. Depois, ele enfeiti\u00e7a as crian\u00e7as do lugar, que o seguem dan\u00e7ando at\u00e9 desaparecerem na floresta. O flautista livra, assim, Hamelim de um mal: afoga na corredeira os seus pavores e m\u00e1goas. Mas, levando embora seus filhos, rouba, do povo de Hamelim, toda a inoc\u00eancia e alegria, a f\u00e9 na continuidade de cada vida. E, fora isso, o que resta? Voltar ao primeiro par\u00e1grafo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Faixa a Faixa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8216;Everything In Its Right Place&#8221;: R.E.M. A sonoridade sem data de &#8220;Up&#8221;. Envelhecimento artificial. Yorke segue Stipe. Como se sente? &#8220;Acordei chupando um lim\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Kid A&#8221;: Kraftwerk. A voz rob\u00f3tica \u00e9 quase inaud\u00edvel. Descaracteriza\u00e7\u00e3o intencional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;National Anthem&#8221;: O groove lembra &#8220;Airbag&#8221;. Voz entubada. Uma d\u00fazia de m\u00fasicos de sopro irrompe em sess\u00e3o de jazz inusitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;How to Disappear Completely&#8221;: Balada do velho Radiohead. Suspeita de quem a ouve: quando Yorke diz que desapareceu, acreditar nele parece f\u00e1cil. Um fantasma convincente afirmando que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Treefingers&#8221;: Bowie e Eno fizeram parecido com as pe\u00e7as instrumentais dos discos berlinenses. \u00c9 a Alemanha, de novo. Ningu\u00e9m vai dar a m\u00ednima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Optimistic&#8221;: Convencional e ir\u00f4nica. Parodia uma can\u00e7\u00e3o infantil tradicional: &#8220;Um porquinho foi ao mercado, outro veio do p\u00e2ntano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;In Limbo&#8221;: Um pouco amortecida, de prop\u00f3sito. Em um mundo de fantasias de beleza, prazeres est\u00e9ticos f\u00e1ceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Idioteque&#8221;: Yorke canta com raiva pela primeira vez em meia hora. Contradiz a obra: &#8220;Isto est\u00e1 acontecendo de verdade&#8221;. \u00daltima chance para dizer &#8220;presente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Morning Bell&#8221;: Irrelev\u00e2ncias da separa\u00e7\u00e3o: &#8220;quem vai ficar com a mob\u00edlia?&#8221; Algu\u00e9m quer partir: &#8220;Onde voc\u00ea estacionou o carro?&#8221; O julgamento s\u00e1bio de Salom\u00e3o: &#8220;Corte as crian\u00e7as ao meio&#8221;. Triste, terr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Motion Picture Soundtrack&#8221;: Base de acorde\u00e3o. O abre-e-fecha das palhetas. De repente, um ataque de harpa. Parece Disney. Acaba e voc\u00ea est\u00e1 feliz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kid A\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nZquM-iYg8ppQxrwe-KpcxH3FfcrL8smI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Texto escrito \u00e0 \u00e9poca do lan\u00e7amento do disco por Lu\u00eds Henrique Pellanda e publicada no caderno Fun, do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Lu\u00eds \u00e9 jornalista e participa do site liter\u00e1rio <a href=\"http:\/\/rascunho.rpc.com.br\/\">Rascunho<\/a> al\u00e9m de\u00a0ser vocalista\u00a0da banda\u00a0<a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/woyzeckcwb\">Woyzeck<\/a>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cPablo Honey\u201d, por Eduardo Palandi (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/01\/20\/pablo-honey-obra-prima-do-radiohead\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cThe Bends\u201d, por Renata Honorato (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/04\/the-bends-o-melhor-do-radiohead\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cOk Computer\u201d, por Tiago Agostini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/11\/ok-computer-um-disco-fundamental\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cKid A\u201d, por Lu\u00eds Henrique Pellanda (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAmnesiac\u201d, por Marco Tomazzoni (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/04\/amnesiac-a-vanguarda-do-rock\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cHail To The Thief\u201d, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/09\/hail-to-the-thief-e-a-volta-das-guitarras\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;In Rainbows&#8221;, por Alexandre Matias (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/17\/in-rainbows-o-album-da-decada\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-822\" title=\"kida_blair\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kida_blair.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Leia tamb\u00e9m: &#8220;Kid A e Bruxa de Blair: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 coincid\u00eancia&#8221;, por Eduardo Palandi (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/teoriadopala6.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Lu\u00eds Henrique Pellanda\nA Melancolia sempre esteve clinicamente ligada \u00e0 personalidade art\u00edstica. Doen\u00e7a ou estado de esp\u00edrito, ela pode revelar tanto&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/821"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=821"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/821\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75854,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/821\/revisions\/75854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=821"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=821"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=821"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}