{"id":81749,"date":"2024-05-22T00:25:27","date_gmt":"2024-05-22T03:25:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81749"},"modified":"2024-06-18T00:09:42","modified_gmt":"2024-06-18T03:09:42","slug":"critica-back-to-black-cinebiografia-sobre-amy-winehouse-e-ingenua-preguicosa-e-constrangedora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/22\/critica-back-to-black-cinebiografia-sobre-amy-winehouse-e-ingenua-preguicosa-e-constrangedora\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: &#8220;Back To Black&#8221;, cinebiografia sobre Amy Winehouse, \u00e9 ing\u00eanua, pregui\u00e7osa e constrangedora"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81754\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ineg\u00e1vel que um talento como o de Amy Winehouse surge talvez uma vez a cada gera\u00e7\u00e3o, seja no primor de sua arte, seja na caracter\u00edstica mete\u00f3rica de sua jornada. Afinal, o mundo sucumbiu a uma onda de luto inevit\u00e1vel quando as not\u00edcias de sua morte, em julho de 2011, tomaram de assalto os principais meios de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o que fosse algo totalmente inesperado: seu hist\u00f3rico de abuso de \u00e1lcool e drogas, misturado ao drama de seu relacionamento com o tamb\u00e9m brit\u00e2nico Blake Fielder-Civil, imerso em hist\u00f3rias de viol\u00eancia dom\u00e9stica m\u00fatua e interdepend\u00eancia afetiva t\u00f3xica, j\u00e1 eram fatos conhecidos por todos, fossem f\u00e3s devotos ou leitores \u00e1vidos de tabl\u00f3ides e pol\u00eamicas. Olhando em retrospecto, a trajet\u00f3ria de Amy parece, mais de dez anos ap\u00f3s seu precoce falecimento, algo quase premeditado: \u00e9 como se fosse \u00f3bvio que uma voz como a dela, de tamanha sutileza e beleza \u00edmpares, fosse destinada a queimar ao inv\u00e9s de definhar, como diria Neil Young. Sua entrada no m\u00edtico \u201cClube dos 27\u201d (referente \u00e0 idade da cantora e int\u00e9rprete, curiosamente a mesma de outros \u00edcones, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain e Jim Morrison) \u00e9 quase onipresente em um legado que rendeu dois belos discos \u2013 \u201cFrank\u201d (2003) e \u201cBack to Black\u201d (2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 infeliz, assim, constatar que \u201cBack To Black\u201d (2024), nova cinebiografia dirigida por Sam Taylor-Johnson (que j\u00e1 teve uma experi\u00eancia pr\u00e9via com a dramatiza\u00e7\u00e3o de grandes \u00edcones da m\u00fasica em seu \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/08\/12\/beatlemania-no-cinema-em-seis-tempos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nowhere Boy<\/a>\u201d, de 2009, no qual retratava os anos formativos de John Lennon) passa muito, muito longe de fazer jus a uma das mais marcantes, ainda que breves, trajet\u00f3rias da m\u00fasica popular recente. Sofrendo com um roteiro mal amarrado, de atua\u00e7\u00f5es que variam do med\u00edocre ao p\u00edfio \u2013 especialmente em sua protagonista, vivida por Marisa Abela \u2013 o novo longa \u00e9 not\u00e1vel em seu desservi\u00e7o para com a extensa fanbase da artista, e se destaca por conter, em suas (bem longas) duas horas de dura\u00e7\u00e3o todos os elementos que se fazem presentes nas piores cinebiografias lan\u00e7adas em tempos recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso fica claro principalmente gra\u00e7as \u00e0 natureza da hist\u00f3ria abordada pelo roteiro: a vida de Winehouse, principalmente ap\u00f3s sua morte, \u00e9 de conhecimento p\u00fablico mesmo que n\u00e3o restrito exclusivamente aos ouvintes mais dedicados de seu trabalho. A jovem Amy, oriunda de uma fam\u00edlia judia dos sub\u00farbios de Londres e filha de um taxista (Eddie Marsan) sonha em se tornar uma cantora de jazz capaz de fazer frente \u00e0s suas maiores hero\u00ednas. N\u00e3o demora muito (no filme, s\u00e3o menos de 20 minutos) para que a novata acostumada a tocar acompanhando a si mesma na guitarra em pubs seja contactada pela ag\u00eancia do bem-sucedido produtor musical Simon Fuller, que faz uma proposta para gravar um disco apesar da retic\u00eancia da mesma, que fala com desd\u00e9m sobre como ela n\u00e3o \u00e9 uma Spice Girl. A cena na qual Abela enumera suas maiores refer\u00eancias, de Sarah Vaughan a Lauryn Hill, \u00e9 ris\u00edvel em sua artificialidade. Poucos instantes depois, ela \u00e9 mostrada em Miami, durante as grava\u00e7\u00f5es de \u201cFrank\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe aqui fazer refer\u00eancia a um dos mais latentes problemas no longa: n\u00e3o existe qualquer esfor\u00e7o em situar a jornada de Amy no tempo, de modo que o apressado ritmo com o qual os passos da artista s\u00e3o retratados s\u00e3o ainda mais desorientantes (ou seria desorientados?) e aparentemente desinteressados. \u00c9 quase como se seu sucesso fosse uma obra do acaso, com trechos em que a compositora \u00e9 mostrada escrevendo algumas de suas mais antol\u00f3gicas can\u00e7\u00f5es como se fossem transmiss\u00f5es telep\u00e1ticas do al\u00e9m \u2013 algo no qual \u201cBack To Black\u201d lembra, e muito, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/02\/04\/tres-filmes-bohemian-rhapsody-um-lugar-silencioso-e-nasce-uma-estrela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o igualmente confuso e decepcionante \u201cBohemian Rhapsody\u201d<\/a> (2018).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81756\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/amy2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao inv\u00e9s de mostrar o processo criativo de Winehouse, por vezes a produ\u00e7\u00e3o prefere centrar foco na turbulenta rela\u00e7\u00e3o com Fielder-Civil (vivido por um quase sempre caricato Jack O\u2019 Connell). A presen\u00e7a de Blake, obviamente, seria inevit\u00e1vel tendo em vista a maneira com a qual seu romance \u00e9 referenciado nas can\u00e7\u00f5es de Amy, principalmente a partir de \u201cBack to Black\u201d, o \u00e1lbum. Os problemas entre os dois, tanto em rela\u00e7\u00e3o a infidelidade (no caso dele) quanto no que tange a instabilidade emocional (principalmente no caso dela) s\u00e3o intoxicantes na maneira como tomam tanto do tempo do filme; imagine \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/09\/500-dias-com-ela-de-mark-webb\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">500 Dias com Ela<\/a>\u201d (de Mark Webb, 2009) filtrado atrav\u00e9s de \u201c<a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/requiemforadream.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">R\u00e9quiem Para um Sonho<\/a>\u201d (de Darren Aronofsky, de 2000) para que se entenda o tipo de narrativa adotada aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O roteiro tamb\u00e9m deixa pouco espa\u00e7o para que o elenco possa ser bem trabalhado: tirando o bom potencial dram\u00e1tico de Leslie Manville, no papel da av\u00f3 de Amy, Cynthia, pouco se salva em rela\u00e7\u00e3o aos coadjuvantes. Eddie Marsan \u00e9 intrusivo em suas apari\u00e7\u00f5es como o pai da cantora, conforme passa a dar cada vez mais palpites no que diz respeito \u00e0 maneira como a filha conduz a pr\u00f3pria vida (compreens\u00edvel) e tamb\u00e9m a carreira (de forma bastante for\u00e7ada). Para al\u00e9m da j\u00e1 citada atua\u00e7\u00e3o estereotipada, ainda que carism\u00e1tica, de O\u2019Connell como Blake, \u00e9 \u00f3bvio que todas as aten\u00e7\u00f5es s\u00e3o centradas no desempenho de Abela como a protagonista desta tr\u00e1gica hist\u00f3ria. E sua performance fica, na maioria das vezes, aqu\u00e9m do que se esperaria, ou do que sua personagem demandaria: os trejeitos imitados de Winehouse se mostram quase sempre repletos de maneirismos quase rob\u00f3ticos, resultando em uma impress\u00e3o mal-feita muito mais do que uma real incorpora\u00e7\u00e3o da cantora, dentro ou fora dos palcos. A cena que mostra sua antol\u00f3gica, ainda que um pouco ca\u00f3tica apari\u00e7\u00e3o no (n\u00e3o nomeado, como costumaz neste longa) Festival de Glastonbury de 2008 \u00e9 o perfeito exemplo disto, junto com a ic\u00f4nica apresenta\u00e7\u00e3o remota feita durante a noite do Grammy do mesmo ano. Nesta \u00faltima, ali\u00e1s, todas as aten\u00e7\u00f5es s\u00e3o arrebatadas pelos int\u00e9rpretes dos integrantes dos Dap Kings, a afiada banda que acompanhou Amy em seus momentos mais emblem\u00e1ticos e que n\u00e3o chega a sequer ser referenciada pelo nome aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas palavras poderiam ser utilizadas para definirem, em suma, as ambi\u00e7\u00f5es e o retumbante fracasso de \u201cBack To Black\u201d: ing\u00eanuo, pregui\u00e7oso, mal-conduzido, insosso e vazio s\u00e3o apenas algumas delas. O filme, por fim, carrega consigo todos os piores elementos que v\u00eam assolando o g\u00eanero das cinebiografias dos \u00faltimos tempos \u2013 a tend\u00eancia em enfileirar momentos importantes numerosos demais para serem desenvolvidos com o cuidado apropriado; a caracteriza\u00e7\u00e3o constrangedora de sua figura principal, que denota at\u00e9 certo desrespeito com sua mem\u00f3ria e obra; e um ritmo vertiginoso (no pior sentido), que mostra a pretens\u00e3o de quem almeja alcan\u00e7ar o mesmo n\u00edvel do \u201cThe Doors\u201d de Oliver Stone (de 1991) e acerta mais perto do rid\u00edculo \u201cStardust\u201d (2020) e de sua pat\u00e9tica representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o autorizada de David Bowie. Ningu\u00e9m deveria se sentir culpado por considerar \u201cBack To Black\u201d esquec\u00edvel e descart\u00e1vel \u2013 uma pena, considerando-se o peso do legado que se prop\u00f5e a retratar, e o descaso ao transpor para a tela grande uma hist\u00f3ria de tanta dor, trag\u00e9dia, luta, e boa m\u00fasica, n\u00e3o necessariamente nesta ordem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BACK TO BLACK | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jd8xw47ZPzc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 infeliz constatar que \u201cBack To Black\u201d passa muito, muito longe de fazer jus a uma das mais marcantes, ainda que breves, trajet\u00f3rias da m\u00fasica popular recente.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/22\/critica-back-to-black-cinebiografia-sobre-amy-winehouse-e-ingenua-preguicosa-e-constrangedora\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":81755,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[2884],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81749"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81749"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81749\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81757,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81749\/revisions\/81757"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81755"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}