{"id":81649,"date":"2024-05-17T01:26:26","date_gmt":"2024-05-17T04:26:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81649"},"modified":"2024-06-20T01:19:39","modified_gmt":"2024-06-20T04:19:39","slug":"em-lives-outgrown-beth-gibbons-convida-o-ouvinte-a-explorar-a-tenue-linha-entre-comocao-e-sofrimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/17\/em-lives-outgrown-beth-gibbons-convida-o-ouvinte-a-explorar-a-tenue-linha-entre-comocao-e-sofrimento\/","title":{"rendered":"Em \u201cLives Outgrown\u201d, Beth Gibbons convida o ouvinte a explorar a t\u00eanue linha entre como\u00e7\u00e3o e sofrimento"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto e faixa a faixa por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Yokota<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua \u201cArte Po\u00e9tica\u201d, Arist\u00f3teles p\u00f5e no centro da ideia de catarse a proximidade do espectador com o assunto da pe\u00e7a ao mesmo tempo em que mant\u00e9m certa dist\u00e2ncia: \u00e9 poss\u00edvel ter empatia com o sofrimento dos personagens e ter a consci\u00eancia de que aquilo n\u00e3o est\u00e1 acontecendo com ele. Tratando de temas como tempo, envelhecimento, vida, morte e em especial a despedida, Beth Gibbons nos oferece \u201c<a href=\"https:\/\/bethgibbons.ffm.to\/livesoutgrown\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lives Outgrown<\/a>\u201d (2024), uma cole\u00e7\u00e3o de relatos pessoais que convidam o ouvinte a explorar essa t\u00eanue linha entre a como\u00e7\u00e3o e o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elegante, mas sem a pompa cool do trip hop dos discos do Portishead, \u201cLives Outgrown\u201d n\u00e3o tem jeito de trilha sonora de cora\u00e7\u00e3o partido com whisky on the rocks de \u201cGlory Box\u201d ou \u201cMysterons\u201d e combina mais com uma audi\u00e7\u00e3o ativa, silenciosa e contemplativa de uma alma introspectiva que se olha pela sombra deformada de si desenhada na parede pela luz de uma fogueira. Mais Tori Amos que Portishead e com arranjos que unem a simplicidade dos viol\u00f5es ao refinamento dos arranjos de cordas, \u00e9 um \u00e1lbum cuja maior qualidade \u00e9 ser solene e pessoal ao mesmo tempo. Com exce\u00e7\u00e3o da voz de Gibbons e alguns esparsos momentos, \u201c<a href=\"https:\/\/bethgibbons.ffm.to\/livesoutgrown\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lives Outgrown<\/a>\u201d mant\u00e9m dist\u00e2ncia da obra do grupo bristoliano. Os arranjos, privilegiando timbres mais org\u00e2nicos, d\u00e3o \u00e0s can\u00e7\u00f5es um tom mais s\u00f3brio, amadeirado e despidamente humano, envolvendo a voz da cantora inglesa de uma maneira diferente do que geralmente \u00e9 associada ao Portishead.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem a companhia de Geoff Barrow e Adrian Utley (no Portishead), Paul Webb (como foi em seu \u00e1lbum \u201cOut Of Season\u201d, de 2002) ou de uma orquestra (\u201cHenryk G\u00f3recki: Symphony No. 3\u201d, de 2019), Gibbons tem em \u201cLives Outgrown\u201d seu primeiro full length propriamente solo. Lee Harris (colega de Webb no Talk Talk e n\u00e3o o guitarrista da banda solo de Nick Mason), foi o respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e assina a co-autoria de algumas das faixas do \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201c<a href=\"https:\/\/bethgibbons.ffm.to\/livesoutgrown\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lives Outgrown<\/a>\u201d, Beth Gibbons seduz com o canto da sereia que puxa o ouvinte para dentro de seu mar existencial dedicado ao exame da finitude humana em v\u00e1rias de suas formas. Ao contr\u00e1rio da alegoria do espectador aristot\u00e9lico, pr\u00f3ximo, por\u00e9m distante, aqui a quarta parede \u00e9 quebrada pois o cerne das can\u00e7\u00f5es \u00e9 a pr\u00f3pria exist\u00eancia humana em toda sua finitude. Indiscern\u00edveis, as ang\u00fastias da artista e do ouvinte s\u00e3o as mesmas em \u201cLives Outgrown\u201d, onde como\u00e7\u00e3o e sofrimento s\u00e3o indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, um breve faixa a faixa do \u00e1lbum:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tell Me Who You Are Today\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/noNcHNoWvUM?list=OLAK5uy_l-wP2OoNJqb2P3P3nXbVHevP243FJkiTA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) Tell Me Who You Are Today \u2013<\/strong> A faixa de abertura come\u00e7a revelando a f\u00f3rmula que permear\u00e1 o \u00e1lbum: um viol\u00e3o (aqui, em afina\u00e7\u00e3o grave e o ru\u00eddo da capta\u00e7\u00e3o vazando na mixagem) abre caminho para o arranjo principal de cada can\u00e7\u00e3o. Os versos que come\u00e7am uns por cima dos outros soam como uma conversa de Gibbons com si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) Floating On A Moment \u2013<\/strong> O riff de viol\u00e3o que soa comicamente como um gigante andando numa floresta se alterna com uma estrofe B ornada por backing vocals e um arpeggio &#8220;celestial&#8221; para servir de fundo musical para versos sobre aproveitar o momento. Se \u201cLives Outgrown\u201d fosse uma biografia, \u201cFloating On A Moment\u201d seria o cap\u00edtulo sobre a juventude.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beth Gibbons - Floating On A Moment (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ldrx0eSqV-E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) Burden Of Life \u2013<\/strong> A voz como foco inicial come\u00e7a lembrando Portishead e, em seguida, \u00e9 elevada por vocais de fundo que iluminam o resto do cen\u00e1rio, desvelando o tema da can\u00e7\u00e3o: &#8220;the burden of life just won&#8217;t leave us alone&#8221;. O viol\u00e3o em arpeggio, marcando o tempo, metaforiza o ritmo da vida, ma\u00e7ante e incessante. No \u00faltimo ter\u00e7o, um interl\u00fadio com violinos em destaque, d\u00e3o o tom tr\u00e1gico da vida antes de Gibbons lembrar, uma \u00faltima vez, que o fardo da vida nunca nos abandona at\u00e9 que, finalmente, enfim nos deixa descansar em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) Love Changes \u2013<\/strong> Com o viol\u00e3o de 12 cordas tocando &#8220;acordes de cowboy&#8221; e o &#8220;hey you&#8221; introdut\u00f3rio o ouvinte desavisado pensa em Pink Floyd mas encontra Gibbons flanqueada por loops de oscila\u00e7\u00e3o em feedback acompanhados de cordas no mais \u00e9pico dos temas do \u00e1lbum. O tema da passagem do tempo agora aparece como um amaciador epicurista para o cora\u00e7\u00e3o endurecido do ouvinte. Envelhecer \u00e9 aprender a mudar, o velho ad\u00e1gio de que aprendemos com a passagem do tempo e mudamos para, de certa forma, permanecemos os mesmos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beth Gibbons - Lost Changes (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sXRJWVvSGIs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) Rewind \u2013<\/strong> A voz de Gibbons, envelopada num efeito de modula\u00e7\u00e3o desconfortante, junta-se a (mais uma vez) o viol\u00e3o e cordas com texturas adstringentes para formar um clima tenso. Na segunda estrofe a voz se liberta envolta em eco e as cordas assumem o tom aveludado, mas a percuss\u00e3o mant\u00e9m o tom sinistro de uma jornada da vida no mundo fora de controle. Infelizmente, o que foi j\u00e1 est\u00e1 feito e \u00e9 tarde demais para voltar. Seria um lamento por conta de um mundo que, incapaz de se reinventar e encurralado no ensimesmar do capitalismo predador, caminha a passos largos para ser a n\u00eamese de si pr\u00f3prio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) Reaching Out \u2013<\/strong> O lado B come\u00e7a falando sobre a depend\u00eancia no que parece ser um relacionamento de n\u00e3o muita reciprocidade. Guitarras com tremolo, percuss\u00e3o dram\u00e1tica e metais em abund\u00e2ncia se intercalam com momentos mais calmos. A interpreta\u00e7\u00e3o de Gibbons ao final (&#8220;I need you always, always&#8230;&#8221;) \u00e9 de algu\u00e9m profundamente afundado em psicodepend\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Beth Gibbons - Reaching Out (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JJeCBRhoXek?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) Oceans \u2013<\/strong> A cad\u00eancia de valsa e um viol\u00e3o que soa como uma c\u00edtara t\u00eam o contorno dram\u00e1tico aumentado pelas cordas, que soam como nuvens cinzas sobre um mar revolto no qual navega um cora\u00e7\u00e3o cansado e resignado. Se na discografia do Portishead a palavra &#8220;cinem\u00e1tico&#8221; remete a quartos escuros, fuma\u00e7a de cigarro e cora\u00e7\u00f5es partidos, \u201cOceans\u201d tem o tom grave da sonoriza\u00e7\u00e3o do ep\u00edlogo de uma guerra em que a hero\u00edna, exaurida, luta sua \u00faltima batalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) For Sale \u2013<\/strong> A voz de Gibbons, em v\u00e1rias camadas, costura o glissando hipn\u00f3tico do viol\u00e3o que faz contraponto com o ataque das cordas. No segundo ato, o som de algu\u00e9m caminhando sobre pedras forma o polirritmo com a percuss\u00e3o sugerindo a confus\u00e3o de algu\u00e9m que teme estar indo longe demais com seus sonhos (&#8220;if we don&#8217;t stop now, will we go too far?&#8221;). Na d\u00favida, ensina o mundo, venda a sua alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09) Beyond The Sun \u2013<\/strong> Com percuss\u00e3o tribal e o viol\u00e3o em afina\u00e7\u00e3o grave, \u201cBeyond The Sun\u201d seria a trilha sonora perfeita para uma viagem de ayuhuasca. T\u00e3o desorientantes quanto o arranjo, os versos s\u00e3o uma s\u00e9rie de perguntas de cunho existencial de algu\u00e9m cartesianamente em d\u00favida (&#8220;se eu soubesse de onde eu vim eu saberia para onde eu iria?&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) Whispering Love \u2013<\/strong> O \u00faltimo ato soa como o despertar de um n\u00e1ufrago numa ilha perdida: a melodia angelical e o som de p\u00e1ssaros soam como o al\u00edvio de quem chegou ao fim de uma jornada atribulada. Ap\u00f3s nove can\u00e7\u00f5es calcadas em sofrimento e ansiedade, o ouvinte n\u00e3o precisa mais segurar a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_81653\" aria-describedby=\"caption-attachment-81653\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-81653\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/beth2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"748\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/beth2-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/beth2-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/beth2-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-81653\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Netti Habel<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fernandoyokotafotografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a>\u00a0\u00e9 fot\u00f3grafo de shows e de rua. Conhe\u00e7a seu trabalho:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">instagram.com\/fernandoyokota\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em \u201cLives Outgrown\u201d, Beth Gibbons seduz com o canto da sereia que puxa o ouvinte para dentro de seu mar existencial dedicado ao exame da finitude humana em v\u00e1rias de suas formas.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/17\/em-lives-outgrown-beth-gibbons-convida-o-ouvinte-a-explorar-a-tenue-linha-entre-comocao-e-sofrimento\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":99,"featured_media":81652,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7210],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81649"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/99"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81649"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81654,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81649\/revisions\/81654"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}