{"id":81622,"date":"2024-05-15T00:01:00","date_gmt":"2024-05-15T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81622"},"modified":"2024-06-11T00:24:22","modified_gmt":"2024-06-11T03:24:22","slug":"entrevista-halder-gomes-chico-diaz-e-maria-fernanda-candido-falam-sobre-o-filme-vermelho-monet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/15\/entrevista-halder-gomes-chico-diaz-e-maria-fernanda-candido-falam-sobre-o-filme-vermelho-monet\/","title":{"rendered":"Entrevista: Halder Gomes, Chico Diaz e Maria Fernanda C\u00e2ndido falam sobre o filme &#8220;Vermelho Monet&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome de Halder Gomes est\u00e1 comumente associado a com\u00e9dias em homenagem \u00e0 s\u00e9tima arte, como \u201cCine Holliudy\u201d (2012), bem como sua continua\u00e7\u00e3o de 2018, al\u00e9m do emblem\u00e1tico \u201cO Shaolin do Sert\u00e3o\u201d (2016), filme que paga um tributo hil\u00e1rio \u00e0s pel\u00edculas orientais de artes marciais. Por isso, para o espectador que vai assistir a \u201cVermelho Monet\u201d (2024), seu mais novo longa, \u00e9 com surpresa que vemos o diretor percorrer uma trilha t\u00e3o diversa em tons de estilo. E seu \u00eaxito na constru\u00e7\u00e3o de uma trama de mist\u00e9rio que aborda o mundo das artes em uma moderna Lisboa do s\u00e9culo XXI, com diversas nuances de drama e vingan\u00e7a, se torna evidente ao subir dos cr\u00e9ditos finais. Trazendo uma an\u00e1lise aprofundada deste universo sob um vi\u00e9s cr\u00edtico da frivolidade de um mundo fr\u00e1gil de apar\u00eancias e que \u00e9 movido por dinheiro e egos, \u201cVermelho Monet\u201d acaba por discutir a arte em v\u00e1rios de seus aspectos, chegando a uma quest\u00e3o cerne que permeia sua metragem: o que \u00e9 originalidade e c\u00f3pia nas artes pl\u00e1sticas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao Scream &amp; Yell, o diretor comentou um pouco sobre esse processo de migra\u00e7\u00e3o entre com\u00e9dia e drama, e falou sobre a dificuldade maior na escrita, do que na execu\u00e7\u00e3o do roteiro em imagens. &#8220;\u00c9 um roteiro no qual, qualquer coisa escrita nele, no meu pensamento vinha algo muito complexo de executar. E em camadas muito profundas desses personagens. Ent\u00e3o, por muito tempo, esses personagens ficaram ali. Eu tentava encontrar um equil\u00edbrio de cada um deles para achar esse tom que eu queria apresentar para o filme&#8221;, explica o diretor. Tendo Chico Diaz como um desses personagens, no caso, um atormentado pintor que segue sua vida em um estado progressivo de cegueira, o roteiro de Halder desenha uma rivalidade entre ele e uma marchand das artes vivida por Maria Fernanda C\u00e2ndido. Ambos, por\u00e9m, guardam um segredo comum relacionado \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o de obras de arte com o intuito de enganar ricos colecionadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na constru\u00e7\u00e3o do seu texto e na jun\u00e7\u00e3o entre as imagens no papel e as que vemos na tela, Halder Gomes afirma ter buscado um equil\u00edbrio entre o expressionismo e o barroco. &#8220;Tinham momentos em que eu levava o Johannes (Chico Diaz) para um lugar que eu acho que fui muito, e depois tinha que retornar. Ent\u00e3o, achar a dose desse roteiro foi a parte mais complexa. E transpor pra dentro desse universo foi um outro grande desafio. Porque a execu\u00e7\u00e3o dele como um pensamento de cinema parte de um quadro&#8221;, relembra Halder, aprofundando o processo de constru\u00e7\u00e3o das imagens desde suas inspira\u00e7\u00f5es iniciais nas pesquisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando visito museus, tenho o h\u00e1bito de observar certas pinturas, de escolher algumas delas. Nessas pinturas, dou uma a\u00e7\u00e3o. E nessa a\u00e7\u00e3o, aqueles personagens ganham vida e conto a hist\u00f3ria que eu quiser a partir dali. Num primeiro momento, \u00e9 a imagem que vai estar em primeiro plano. Depois \u00e9 o universo dos personagens&#8221;, pontua Gomes. &#8220;A inten\u00e7\u00e3o era construir um universo onde eu quero apresentar uma pintura barroca. Mas na hora em que eu disser a\u00e7\u00e3o, vou a fundo no existencialismo desses personagens que s\u00e3o expostos ao p\u00fablico em um tom expressionista. Esse \u00e9 o desafio do filme: unir a est\u00e9tica barroca ao expressionismo deles&#8221;, garante o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chico Diaz, interpretando o pintor Johannes Van Almeida, consegue trazer todo o tormento de sua figura tr\u00e1gica \u00e0 tona de modo a tornar aquela condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica de desconforto diante da gradativa perda da vis\u00e3o algo que se reflete em sua presen\u00e7a de maneira dolorosa e org\u00e2nica ao espectador. N\u00e3o \u00e9 somente a capacidade de ver que ele est\u00e1 perdendo, mas sua possibilidade criar. Dentro daquele ambiente que, mesmo moderno, reflete uma atmosfera barroca, citada por Halder acima, o experiente ator encontrou o tom exato, mas, modesto, n\u00e3o abra\u00e7a para si todo o cr\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ultimamente, tenho pensado sobre a responsabilidade do int\u00e9rprete. E n\u00e3o me sinto muito mais respons\u00e1vel por muita coisa n\u00e3o, a n\u00e3o ser a ideia de propor um grande vazio, onde as pessoas todas v\u00eam. Pessoas como o roteirista, o diretor, o iluminador, o cen\u00f3grafo, e, tamb\u00e9m a loca\u00e7\u00e3o. E tudo isso vai preenchendo esse meu c\u00e2ntaro esvaziado para ser preenchido pelos colegas, pela situa\u00e7\u00e3o, pelo contexto de filmagem. Ou seja, nunca est\u00e1 pronto. Vai estar pronto a partir do momento que ele falar: &#8216;A\u00e7\u00e3o!'&#8221;, frisa o ator, e prossegue: &#8220;A responsabilidade de um preparo racional&#8230; (pausa) Claro que a gente leu tudo! Claro que a gente contextualizou, mas acho que tem um abandono necess\u00e1rio para que se torne org\u00e2nico, para me adequar a tudo o que est\u00e1 sendo usado para construir a hist\u00f3ria. N\u00e3o posso dizer que a responsabilidade seja minha, mesmo. \u00c9 tudo mais uma consequ\u00eancia do que uma causa de qualquer resultado art\u00edstico&#8221;, exprime Diaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pele da vaidosa merchand Antoinette, que se v\u00ea encurralada pela sua pr\u00f3pria gan\u00e2ncia, Maria Fernanda C\u00e2ndido aborda essa ideia de um mundo de apar\u00eancias fr\u00e1geis, al\u00e9m do conceito de arte que \u201cVermelho Monet\u201d traz em sua discuss\u00e3o: &#8220;Esse \u00e9 um ponto nevr\u00e1lgico: essa fric\u00e7\u00e3o entre a ess\u00eancia e a apar\u00eancia \u00e9 discutida o tempo todo no filme. Inclusive porque as obras s\u00e3o falsas. Mas o que \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea vai passando por essa quest\u00e3o o tempo inteiro. S\u00e3o as obras. \u00c9 a pr\u00f3pria personagem. Uma personagem contradit\u00f3ria porque ela tem uma grande paix\u00e3o pelas artes, pelo mundo da pintura. Ela tem uma vida, uma experi\u00eancia pregressa em rela\u00e7\u00e3o a isso&#8221;, descreve Fernanda. &#8220;Mas \u00e9 uma personagem que, no ponto em que o filme est\u00e1 acontecendo, que a hist\u00f3ria est\u00e1 acontecendo, ela est\u00e1 absolutamente seduzida pelas frivolidades do mundo. Pelo dinheiro, pelo poder. A vida dela virou um grande tabuleiro de xadrez, com jogos de manipula\u00e7\u00e3o, jogos de poder. Ela \u00e9 essa pessoa que se distanciou dessa paix\u00e3o inicial, dessa ess\u00eancia, para caminhar para esse mundo das apar\u00eancias. Da apar\u00eancia pura, vamos dizer assim. Foi esse desafio que esse roteiro me deu, que Halder me deu a oportunidade de encarar&#8221;, comemora a atriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo abaixo, os tr\u00eas aprofundam esse processo de cria\u00e7\u00e3o. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"VERMELHO MONET | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WIkI82D00O0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Halder, uma das principais surpresas para mim, conhecendo sua carreira como diretor de filmes t\u00e3o marcantes na com\u00e9dia, foi v\u00ea-lo adentrar t\u00e3o bem nesse estilo do drama abordando o universo das artes pl\u00e1sticas. Foi dif\u00edcil para voc\u00ea essa migra\u00e7\u00e3o na escrita do roteiro e na dire\u00e7\u00e3o do filme como um todo?<\/strong><br \/>\nHalder Gomes \u2013 Talvez mais na constru\u00e7\u00e3o do roteiro ao longo dos anos do que na execu\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 um roteiro no qual, qualquer coisa escrita nele, no meu pensamento vinha algo muito complexo de executar. E em camadas muito profundas desses personagens. Ent\u00e3o, por muito tempo, esses personagens ficaram ali. Eu tentava encontrar um equil\u00edbrio de cada um deles para achar esse tom que eu queria apresentar para o filme. Porque tinham momentos em que eu levava o Johannes para um lugar que eu acho que fui muito, e depois tinha que retornar. Ent\u00e3o, achar a dose (certa) desse roteiro foi a parte mais complexa. Transpor pra dentro desse universo foi um outro grande desafio. Porque a execu\u00e7\u00e3o dele como um pensamento de cinema parte de um quadro. Quando visito museus, tenho o h\u00e1bito de observar certas pinturas, de escolher algumas. Nessas pinturas, dou uma a\u00e7\u00e3o. E nessa a\u00e7\u00e3o, aqueles personagens ganham vida e conto a hist\u00f3ria que eu quiser a partir dali. Mas em um primeiro momento, \u00e9 a imagem que vai estar em primeiro plano. Depois \u00e9 o universo dos personagens. Ent\u00e3o, a inten\u00e7\u00e3o era construir um universo onde eu quero apresentar uma pintura barroca. Mas quando eu disser a\u00e7\u00e3o, vou a fundo no existencialismo desses personagens que s\u00e3o expostos ao p\u00fablico em um tom expressionista. Esse \u00e9 o desafio do filme: unir a est\u00e9tica barroca ao expressionismo desses personagens. E, obviamente, isso levou um per\u00edodo muito longo de estudo, de defini\u00e7\u00e3o, de que est\u00e9tica eu vou apresentar. Tem momentos em que voc\u00ea est\u00e1 ali no on\u00edrico, com fragmento de lembran\u00e7as de Adele, onde tem uma est\u00e9tica \u00e0s vezes impressionista, \u00e0s vezes surrealista, \u00e0s vezes pr\u00e9-Rafaelita. E no mundo de Johannes, tem aquele barroco denso, contrastado, aquela luz de Caravaggio, luz de Vermeer e de Rembrandt que corta o ambiente. Ent\u00e3o, s\u00e3o muitas informa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ali dentro dessa est\u00e9tica e aliada, tamb\u00e9m, a toda a parte metaf\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cores como uma met\u00e1fora da vida. A rela\u00e7\u00e3o do vermelho e do azul, essas cores que s\u00e3o complementares, mas, ao mesmo tempo, autodestrutivas. Isso como uma met\u00e1fora da vida desses personagens. No mundo vermelho que Johannes enxerga, ele \u00e9 fr\u00e1gil diante do azul da roupa que Johannes traz. Mas, no fragmento das mem\u00f3rias de Adele, o vermelho e o azul trazem a felicidade, porque eles est\u00e3o complementares, e n\u00e3o sobrepostos. Tem toda uma simbologia que o filme conduz nessa camada mais profunda que conta a hist\u00f3ria da arte atrav\u00e9s do que est\u00e1 exposto l\u00e1 em v\u00e1rios momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Fernanda, sua personagem, a Antoinette, para mim, reflete muito da frivolidade, da artificialidade do mundo moderno, do mundo de apar\u00eancias das redes sociais, em um glamour que \u00e9 belo, mas que esconde algo de podre e falso. Ao assistir ao filme, fiquei refletindo sobre esse contraste da pureza da arte que Johannes produz. Mesmo sendo uma arte clonada, uma arte que \u00e9 um pl\u00e1gio, ainda h\u00e1 uma pureza naquilo que ele faz. E Antoinette representa a perda dessa \u00faltima fagulha de pureza que aquela cria\u00e7\u00e3o possui. Ao ler o roteiro, essa percep\u00e7\u00e3o de plasticidade falsa vs. pureza chegou a voc\u00ea, tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nMaria Fernanda C\u00e2ndido \u2013 Sim, absolutamente. Acho que esse \u00e9 o ponto central do filme. Voc\u00ea tocou no ponto nevr\u00e1lgico: essa fric\u00e7\u00e3o entre a ess\u00eancia e a apar\u00eancia \u00e9 discutida o tempo todo. Inclusive porque as obras s\u00e3o falsas. Mas o que \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o? Ent\u00e3o, assim, voc\u00ea vai passando por essa quest\u00e3o o tempo inteiro. S\u00e3o as obras. \u00c9 a pr\u00f3pria personagem. Uma personagem contradit\u00f3ria porque ela tem uma grande paix\u00e3o pelas artes, pelo mundo da pintura. Ela tem uma vida, uma experi\u00eancia pregressa em rela\u00e7\u00e3o a isso. Mas \u00e9 uma personagem que, nesse ponto, no ponto em que o filme est\u00e1 acontecendo, que a hist\u00f3ria est\u00e1 acontecendo, ela est\u00e1 absolutamente seduzida pelas frivolidades do mundo. Pelo dinheiro, pelo poder. A vida dela virou um grande tabuleiro de xadrez, com jogos de manipula\u00e7\u00e3o, jogos de poder. Ela \u00e9 essa pessoa que se distanciou dessa paix\u00e3o inicial, dessa ess\u00eancia, para caminhar para esse mundo das apar\u00eancias. Da apar\u00eancia pura, vamos dizer assim. Foi esse desafio que esse roteiro me deu, que Halder me deu a oportunidade de encarar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81625\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet3-300x157.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Chico, seu personagem, o Johannes, ainda possui uma pureza. Ele possui um trauma, uma frustra\u00e7\u00e3o pela sua carreira como artista. E junto a isso a cegueira gradativa e precoce que vem colocando-o nessa berlinda. E ele se percebe se como um cara que n\u00e3o tem mais nada a perder em rela\u00e7\u00e3o a isso. Quando voc\u00ea comp\u00f4s a sua atua\u00e7\u00e3o para essa figura tr\u00e1gica, como foi essa busca por uma presen\u00e7a org\u00e2nica de se inserir em um mundo moderno, mas sendo um personagem t\u00e3o calcado na ideia do cl\u00e1ssico na arte, algo que \u00e9 corroborado pelo cen\u00e1rio que Halder criou para ele?<\/strong><br \/>\nChico Diaz \u2013 \u00c9 uma bela quest\u00e3o. Agrade\u00e7o a pergunta, mas eu, ultimamente, tenho pensado sobre a responsabilidade do int\u00e9rprete. E n\u00e3o me sinto muito mais respons\u00e1vel por muita coisa n\u00e3o, a n\u00e3o ser a ideia de propor um grande vazio, onde as pessoas todas v\u00eam. Pessoas como o roteirista, o diretor, o iluminador, o cen\u00f3grafo, e, tamb\u00e9m a loca\u00e7\u00e3o. E tudo isso vai preenchendo esse meu c\u00e2ntaro esvaziado para ser preenchido pelos colegas, pela situa\u00e7\u00e3o, pelo contexto de filmagem. Ou seja, nunca est\u00e1 pronto. Vai estar pronto a partir do momento que ele falar: &#8220;A\u00e7\u00e3o!&#8221; Ent\u00e3o, a responsabilidade de um preparo racional&#8230; (pausa) Claro que a gente leu tudo! Claro que a gente contextualizou, mas acho que tem um abandono necess\u00e1rio para que se torne org\u00e2nico, para usar uma palavra que voc\u00ea usou, para me adequar a tudo o que est\u00e1 sendo usado para construir a hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, a responsabilidade eu n\u00e3o posso dizer que seja minha, mesmo. \u00c9 tudo mais uma consequ\u00eancia do que uma causa de qualquer resultado art\u00edstico ali. Agora, \u00e9 um personagem fascinante. H\u00e1 um abismo humano muito interessante. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o humano da pessoa Johannes, mas, tamb\u00e9m, da quest\u00e3o art\u00edstica que ele leva e gera uma curva de arrefecimento, uma curva de decl\u00ednio. Gosto muito desses personagens que est\u00e3o no embate de tentar entender o significado da exist\u00eancia naquele instante. Acho que isso os humaniza. Muito mais do que estar na gl\u00f3ria, do que estar na vit\u00f3ria, do que estar na luz, se debater entre as sombras de uma procura de significado me parece ter resultados mais potentes. \u00c9 uma leitura mais potente. Mas o Johannes, sim, \u00e9 um presente para o int\u00e9rprete poder entrar nesse ringue a\u00ed que o Halder prop\u00f4s para ele. Fora a literatura exigida, toda a contextualiza\u00e7\u00e3o racional. Assim, as conversas com Halder forma muito saud\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Fernanda C\u00e2ndido \u2013 Um complemento. Voc\u00ea usou uma palavra que eu acho que \u00e9 muito importante dentro de um trabalho como esse, que traz uma est\u00e9tica expressionista. Halder tamb\u00e9m falou disso j\u00e1 em outros momentos. Ent\u00e3o, assim tamb\u00e9m para a gente tem como nos responsabilizarmos absolutamente. Porque estamos mergulhando em um universo expressionista naquelas cenas. Atribuo muito tudo isso ao Halder, \u00e0 assinatura dele, ao que ele escolheu construir e levar para o p\u00fablico. Porque a gente tem isso. A gente tem uma cena que eu tenho esse len\u00e7o preto, dentro de uma luz escura representando a morte, quase fazendo ali uma refer\u00eancia a \u201cO S\u00e9timo Selo\u201d. S\u00e3o v\u00e1rios momentos. Tem aquele em que entro naquela festa que tem o tango. Tem o fado acontecendo ali, sendo cantado pela portuguesa. E uso aquele colar que \u00e9 uma serpente. S\u00e3o elementos absolutamente expressivos. Isso, para o ator, \u00e9 um grande presente. N\u00e3o temos um filme assim para fazer a todo momento. \u00c9 raro. E ainda complementando tamb\u00e9m a quest\u00e3o dessa personagem, desse mundo de frivolidades e tal, acho que o filme traz uma discuss\u00e3o muito importante sobre a mercantiliza\u00e7\u00e3o da arte. N\u00f3s estamos tratando desse assunto. Isso \u00e9 o filme. E a minha personagem \u00e9 essa mulher que faz o com\u00e9rcio da arte. Ela \u00e9 a marchand. Ela \u00e9 essa figura dentro do filme. Por\u00e9m, n\u00f3s podemos pensar na vida como um todo. Porque, hoje, o que a gente vive com esse momento do hiper capitalismo, que \u00e9 o nosso mundo contempor\u00e2neo, \u00e9 o que n\u00f3s todos vivemos, n\u00f3s temos essa mercantiliza\u00e7\u00e3o de praticamente todas as inst\u00e2ncias da vida humana. Ent\u00e3o, essa discuss\u00e3o que o filme traz, que \u00e9 relacionada \u00e0s artes pl\u00e1sticas, \u00e0 pintura, ela pode ser estendida para praticamente todas as \u00e1reas da vida, hoje.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81626\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet4-300x157.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Halder queria lhe perguntar sobre essa de mergulho em um mundo on\u00edrico que o cen\u00e1rio traz. Como foi a experi\u00eancia para encontrar esse equil\u00edbrio entre Dire\u00e7\u00e3o de Arte (trabalho da Juliana Ribeiro), Dire\u00e7\u00e3o de Fotografia (trabalho da Carina Sanginitto) e sua presen\u00e7a como diretor e idealizador? Nesse processo, me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o aquele choque entre a frieza herm\u00e9tica do cen\u00e1rio por onde caminha a Antoinette e o natural do cen\u00e1rio onde o Johannes vive. Al\u00e9m disso, \u201cVermelho Monet\u201d brinca com a ideia pop das artes pl\u00e1sticas, como naquela cena em que h\u00e1 aquela festa com cosplays de artistas e suas obras. Como foi o processo dessa cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nHalder Gomes \u2013 Juliana e Carina s\u00e3o parceiras de praticamente todos os meus trabalhos. E como esse filme andou correndo em paralelo \u00e0s com\u00e9dias, ele sempre foi pauta em tudo que a gente estava filmando. Era assunto nas horas vagas. E nessas horas vagas, muitas vezes fomos para muitos museus discutir obras, observar refer\u00eancias, estudar para poder ir construindo ao longo do tempo essa percep\u00e7\u00e3o do que seria o look desse filme. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o de Arte, por exemplo, n\u00f3s fizemos um recorte de duas Lisboa. N\u00f3s temos a Lisboa hist\u00f3rica, onde se insere o mundo ali de Johannes. E a Lisboa contempor\u00e2nea que est\u00e1 ali, onde foi feita aquela exposi\u00e7\u00e3o universal no ano 2000, \u00e9 onde est\u00e1 o universo de Antoinette. Esses mundos se encontram nesse lugar. Ent\u00e3o, isso era o recorte geogr\u00e1fico da cidade. E, por exemplo, existe uma liga\u00e7\u00e3o muito forte no filme em camadas que est\u00e3o ali atreladas \u00e0 hist\u00f3ria e de uma forma, eu diria, subliminar. Quando voc\u00ea se refere \u00e0quela cena daquela explos\u00e3o de cores com aqueles cosplays de artistas, por exemplo, ali \u00e9 o momento de um arco na virada onde Florence, usando o laborat\u00f3rio da rela\u00e7\u00e3o com Antoinette, ganha confian\u00e7a no texto que ela n\u00e3o conseguia alcan\u00e7ar de Florbela. Ela veste a fantasia de Florbela e vai para aquele mundo. E a m\u00fasica que est\u00e1 tocando l\u00e1 \u00e9 \u201cHot Stuff\u201d, de Donna Summer. N\u00e3o \u00e0 toa. Porque Dona Summer foi uma pintora fabulosa. A obra dela \u00e9 uma coisa espetacular. E ali era o mundo onde ela se encontrava como artista na paz, e n\u00e3o na press\u00e3o que o mercado colocava. A paleta daquela cena espec\u00edfica dialoga um pouco com a paleta do que s\u00e3o os quadros da Donna Summer. Ent\u00e3o, al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, tem tamb\u00e9m toda uma constru\u00e7\u00e3o musical. Essa constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 no filme como movimentos de um concerto musical, onde a trilha tamb\u00e9m se relaciona em outras camadas com o que est\u00e1 posto em cena. A obra de Erik Satie, por exemplo, adaptada \u00e0s cordas portuguesas, \u00e0 guitarra portuguesa, n\u00e3o \u00e9 algo \u00e0 toa. Erik Satie \u00e9 um compositor franc\u00eas que, em seu momento mais lindo de composi\u00e7\u00f5es, quando foi perdidamente apaixonado por Suzanne Valladon, que foi a musa de Edgar Degas, de Monet, de Renoir. E ela se tornou uma grande pintora, inclusive, m\u00e3e de Maurice Utrillo, outro grande pintor. S\u00e3o artes se encontrando e gerando novas cores. O encontro de Suzanne Valladon com Erik Satie gerou outras cores. Ent\u00e3o, tudo o que est\u00e1 no filme est\u00e1 posto, entrela\u00e7ado. A literatura est\u00e1 ligada com a m\u00fasica que est\u00e1 ligada com a pintura que est\u00e1 ligado com o cinema que est\u00e1 ligado com o teatro. Tudo se retroalimenta. Ent\u00e3o, tinha uma quest\u00e3o de como colocar isso tudo em forma de cinematografia e de arte, tamb\u00e9m. E nessa camada musical.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81624\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1096\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/monet2-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. 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