{"id":81573,"date":"2024-05-10T09:44:00","date_gmt":"2024-05-10T12:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81573"},"modified":"2024-06-11T00:24:11","modified_gmt":"2024-06-11T03:24:11","slug":"cinema-guerra-civil-contorna-o-obvio-por-meio-da-distopia-e-as-vezes-acerta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/10\/cinema-guerra-civil-contorna-o-obvio-por-meio-da-distopia-e-as-vezes-acerta\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cGuerra Civil\u201d contorna o \u00f3bvio por meio da distopia \u2013 e, \u00e0s vezes, acerta"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado em 1899, o conto \u201cHearts of Darkness\u201d, escrito pelo brit\u00e2nico Joseph Conrad, narra a hist\u00f3ria de um marinheiro conforme este navega em dire\u00e7\u00e3o aos extremos mais in\u00f3spitos da \u00c1frica, com o objetivo de encontrar um comerciante de marfim chamado Kurtz, que teria se misturado aos nativos e cortado suas rela\u00e7\u00f5es com seu pa\u00eds de origem. Em seu contexto original, a hist\u00f3ria de Conrad serviu, inclusive, como uma cr\u00edtica ao processo de coloniza\u00e7\u00e3o brutal pelo qual a \u00c1frica passou sob a autoridade da Gr\u00e3-Bretanha; muitos anos mais tarde \u2013 como os iniciados j\u00e1 devem saber \u2013 a mesma narrativa serviu como inspira\u00e7\u00e3o direta para que Francis Ford Coppola concebesse seu \u00e9pico \u201cApocalypse Now\u201d, de 1979, com o Willard de Martin Sheen entrando em uma miss\u00e3o quase suicida em busca de um coronel desertor tamb\u00e9m chamado Kurtz, vivido por Marlon Brando, nas profundezas do Camboja. Usando a Guerra do Vietn\u00e3 como pano de fundo, Coppola fez de seu filme uma reflex\u00e3o cada vez mais pungente sobre a bestialidade do conflito armado e da irracionalidade por tr\u00e1s de batalhas nas quais n\u00e3o h\u00e1 vencedores, e fica cada vez mais dif\u00edcil diferenciar o certo do errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Garland, \u00e9 importante mencionar, n\u00e3o \u00e9 Francis Ford Coppola; tampouco \u00e9 cab\u00edvel dizer que seu \u201cGuerra Civil\u201d (\u201cCivil War\u201d, 2024) \u00e9 sequer compar\u00e1vel ao longa de 1979. Mas, mesmo assim, aqueles mais atentos podem perceber o qu\u00e3o pr\u00f3ximo, em esp\u00edrito, a nova produ\u00e7\u00e3o da A24 (tenta) chega(r). O cen\u00e1rio, para come\u00e7ar, n\u00e3o poderia ser mais diferente: em uma dist\u00f3pica realidade na qual um conflito armado (cujas causas n\u00e3o s\u00e3o esclarecidas, em algo que parece proposital) irrompeu entre um governo autorit\u00e1rio presidido por um representante sem nome e em seu terceiro mandato (Nick Offerman) e diversas fac\u00e7\u00f5es armadas, uma dupla de jornalistas \u2013 o rep\u00f3rter Joel (Wagner Moura) e a fot\u00f3grafa de guerra Lee (Kirsten Dunst) \u2013 decidem rumar at\u00e9 Washington com o objetivo de entrevistar o presidente que, eles acreditam, tem seus dias contados. Diferentes circunst\u00e2ncias fazem com que outros dois personagens se unam a eles em sua jornada: o veterano Sammy (Stephen McKinley Henderson) e a fot\u00f3grafa novata Jessie (Cailee Spaeny), que v\u00ea na personagem de Dunst uma esp\u00e9cie de hero\u00edna. Conforme o quarteto cruza os EUA rumo \u00e0 capital, acabam sendo testemunhas da espiral descendente na qual o pa\u00eds acabou se transformando, for\u00e7ados a se deparar com a insanidade da viol\u00eancia de uma guerra que, al\u00e9m de sem explica\u00e7\u00e3o, se mostra cada vez mais sem sentido.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81574\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais direto que um resumo da narrativa de \u201cGuerra Civil\u201d possa ser, o fato \u00e9 que pode ser muito dif\u00edcil traduzir em palavras o quanto o longa de Garland tenta compactar, ainda mais evitando os eventuais spoilers. \u00c9, no entanto, importante salientar que, a n\u00edvel sensorial, \u00e9 uma experi\u00eancia desorientadora \u2013 ao ponto de assistir \u00e0 produ\u00e7\u00e3o no cinema, com um bom sistema de som, ser quase imprescind\u00edvel para entender seu real impacto: transi\u00e7\u00f5es entre ensurdecedores barulhos de tiro e inser\u00e7\u00f5es musicais ajudam a criar um ambiente mais imersivo, costurando um roteiro que, muitos podem dizer, pode indicar para onde a sociedade ocidental atualmente caminha. O mesmo deve ser dito da incr\u00edvel cinematografia, \u00e0 cargo de Rob Hardy, que faz uso de planos abertos para, diversas vezes, contrastar belezas monumentais com batalhas eviscerantes. \u00c9 quase imposs\u00edvel dissociar alguns dos detalhes da trama de acontecimentos reais e contempor\u00e2neos, onde o decl\u00ednio do imp\u00e9rio estadunidense se mostra mais e mais pr\u00f3ximo do abismo de uma incoer\u00eancia cada dia mais dif\u00edcil de ignorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, a vis\u00e3o idealizada da fun\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica ao longo da trama \u00e9 escancarada e, qui\u00e7\u00e1 de prop\u00f3sito, bastante exagerada; \u00e9 um aspecto que fica mais claro quando se analisa os personagens de maneira individual. A Lee de Kirsten Dunst \u00e9 agraciada com um pouco mais de desenvolvimento, e sua rela\u00e7\u00e3o de mentora para com a aprendiz Jessie \u00e9 um dos pontos altos do enredo, num processo circular que se fecha de modo mais sutil conforme a hist\u00f3ria chega perto de seu desfecho. Em compara\u00e7\u00e3o, percebe-se uma rela\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o entre os rep\u00f3rteres interpretados por Moura e McKinley Henderson: enquanto o \u00faltimo, um velho representante do The New York Times, se mostra reticente sobre a longa (e possivelmente infrut\u00edfera) jornada na qual seus colegas decidem embarcar, o primeiro, correspondente da ag\u00eancia Reuters, se apresenta como uma esp\u00e9cie de aventureiro, colocando sua busca por adrenalina em primeiro lugar ao ponto de, poucas vezes, ser mostrado cumprindo seu trabalho e, realmente, entrevistar pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente interpretado por Nick Offerman \u00e9 quase uma n\u00e3o-presen\u00e7a, sua voz reverberando em esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio, apesar de poucos vislumbres ao longo do filme \u2013 quase o completo oposto de Jessie, trazida \u00e0 vida por Cailee Spaeny: al\u00e9m de instrumental para o desenvolvimento da hist\u00f3ria, sua interpreta\u00e7\u00e3o traz a medida certa de ingenuidade e curiosidade, com o deslumbramento em seus olhos dando lugar para o p\u00e2nico e para a conformidade da experi\u00eancia que s\u00f3 os horrores da trag\u00e9dia generalizada podem criar. Tamb\u00e9m digna de men\u00e7\u00e3o \u00e9 a estupenda, ainda que breve, passagem envolvendo um sanguin\u00e1rio e ultra-xen\u00f3fobo militante sem nome vivido por Jesse Plemons, respons\u00e1vel por um dos momentos mais tensos e macabros da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81576\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar3-300x214.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/civilwar3-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito do jornalismo idealizado retratado em \u201cGuerra Civil\u201d pode soar vago, e muitas vezes superficial: algo melhor descrito, em uma passagem dram\u00e1tica, por Jessie, que descreve um dos momentos mais tensos de sua vida dizendo, em contraste, nunca ter se sentido t\u00e3o viva. Essa idealiza\u00e7\u00e3o se mostra mais latente em trechos como o que, mostrando incredulidade, os quatro comunicadores se deparam com pessoas que, voluntariamente, vivem \u00e0 margem do conflito que ocorre a seu redor, ignorando o que acontece em favor de viver uma realidade id\u00edlica. \u201cN\u00f3s viajamos no tempo?\u201d, comenta Joel, bestificado com a ignor\u00e2ncia na qual determinadas pessoas decidem viver. Seria apenas uma triste coincid\u00eancia se n\u00e3o fosse t\u00e3o real \u2013 o problema \u00e9 o roteiro sentir a necessidade de ressaltar o que j\u00e1 ficaria melhor, e ressoaria mais fundo, estando subentendido, em uma das (poucas) falhas do filme. \u201cSubentendido\u201d, ali\u00e1s, tamb\u00e9m serve para falar do cl\u00edmax, que espelha o explosivo in\u00edcio do longa ao mesmo tempo que pode parecer, para muitos, bastante brusco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao paralelo com \u201cApocalypse Now\u201d e a obra que o inspirou, o impacto sentido por Willard ao se deparar com a insanidade de seu destino final \u00e9 mais reverberante tanto por causa daquilo que se v\u00ea quanto por detalhes que permanecem impl\u00edcitos; essa jun\u00e7\u00e3o, equilibrando os dois aspectos, \u00e9 o que faz de seu desfecho t\u00e3o poderoso \u2013 suas consequ\u00eancias soando ainda mais on\u00edricas em sua surrealidade. O filme de Alex Garland carrega, em seu \u00e2mago, um grande paradoxo. Em sua trama, t\u00e3o atual quanto poderia ser (e fortalecida por um elenco mais do que competente), traz, ao mesmo tempo, sua maior qualidade e seu ponto mais fraco: o de retratar o decl\u00ednio de uma supremacia, ainda que de forma idealizada, sob a perspectiva daqueles que costumam ser suas primeiras e mais fatais v\u00edtimas. No entanto, sua dura vis\u00e3o do fracasso civilizat\u00f3rio de um futuro n\u00e3o muito distante pode soar menos impactante num momento onde a ressurg\u00eancia de uma extrema direita cada vez mais reacion\u00e1ria e incoerente, bem como a devo\u00e7\u00e3o cega ao conservadorismo por parte de milh\u00f5es, s\u00e3o elementos tang\u00edveis a cada dia. Parafraseando Caetano Veloso, \u201cGuerra Civil\u201d surpreende a todos (ou, pelo menos, alguns), n\u00e3o por ser dist\u00f3pico, mas por tratar como oculto aquilo que \u00e9, e deve, por muito tempo, continuar sendo o \u00f3bvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/21\/critica-ingenuo-e-superficial-guerra-civil-falha-em-retratar-o-jornalismo-em-conflitos-armados\/\"><em>Leia tamb\u00e9m: Ing\u00eanuo e superficial, \u201cGuerra Civil\u201d falha em retratar o jornalismo em conflitos armados<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"GUERRA CIVIL | Trailer 3 Oficial Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5H0_TLaHN9g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O filme de Alex Garland carrega, em seu \u00e2mago, um grande paradoxo, e sua maior qualidade tamb\u00e9m pode ser seu ponto mais fraco&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/10\/cinema-guerra-civil-contorna-o-obvio-por-meio-da-distopia-e-as-vezes-acerta\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":81575,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7159],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81573"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81573"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81573\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81577,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81573\/revisions\/81577"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81575"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}