{"id":81551,"date":"2024-05-09T00:58:39","date_gmt":"2024-05-09T03:58:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81551"},"modified":"2024-06-19T00:02:14","modified_gmt":"2024-06-19T03:02:14","slug":"st-vincent-da-descanso-aos-alteregos-em-all-born-screaming-mais-um-disco-autobiografico-pessoal-e-vulneravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/09\/st-vincent-da-descanso-aos-alteregos-em-all-born-screaming-mais-um-disco-autobiografico-pessoal-e-vulneravel\/","title":{"rendered":"St. Vincent d\u00e1 descanso aos alteregos em \u201cAll Born Screaming\u201d, mais um disco autobiogr\u00e1fico, pessoal e vulner\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto e faixa a faixa por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Yokota<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois das madeixas platinadas de seu \u00e1lbum autointitulado de 2014, do l\u00e1tex envelopante de \u201cMasseduction\u201d (2017) e o ar novaiorquino emperucado de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/25\/musica-daddys-home-a-versao-setentista-de-st-vincent\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Daddy&#8217;s Home<\/a>\u201d (2021), St. Vincent d\u00e1 descanso aos alteregos e retorna com \u201cAll Born Screaming\u201d (2024) em sua vers\u00e3o mais Annie Clark em mais de dez anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justi\u00e7a seja feita: com exce\u00e7\u00e3o do lan\u00e7amento de 2021 &#8212; um mergulho deliberado na Nova York de 1971 a 1976 &#8211;, a personagem sempre habitou muito mais o visual e a imagina\u00e7\u00e3o dos ouvinte do que as letras e as m\u00fasicas. Os supostos alteregos nunca foram impedimento para que Clark falasse sobre a vida, de como Nova York n\u00e3o \u00e9 a mesma sem a companhia de um velho amigo ou sobre assinar aut\u00f3grafos na pris\u00e3o enquanto visitava o pai, que cumpria pena por crimes financeiros at\u00e9 2019. A persona de St. Vincent, no entanto, criava uma esp\u00e9cie de terceira pessoa atrav\u00e9s da qual ela soava uma ventr\u00edloqua de si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81554\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, \u201cAll Born Screaming\u201d \u00e9 t\u00e3o autobiogr\u00e1fico, pessoal e vulner\u00e1vel quanto seus outros trabalhos, e a aus\u00eancia de uma suposta persona traz o ouvinte mais pr\u00f3ximo \u00e0 artista. A percep\u00e7\u00e3o de um tom mais confessional se d\u00e1 n\u00e3o por uma mudan\u00e7a l\u00edrica ou musical, mas pela simples retirada da figura interlocutora da personagem. A ansiedade (\u201cSo Many Planets\u201d), a sofr\u00eancia (\u201cReckless\u201d) e o cotidiano (\u201cThe Power&#8217;s Out\u201d) continuam todos presentes, por\u00e9m narrados numa primeira pessoa n\u00e3o intermediada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na fartura de estilos de \u201cAll Born Screaming\u201d, Clark se deixa ser Bowie e Byrne, vai de Tool a Madonna passando por Prince e Survive, mas n\u00e3o o faz como mera bricolagem: diferente da cacofonia sensorial de um buffet de churrascaria &#8212; que vai do acaraj\u00e9 ao sushi porque &#8220;por que n\u00e3o?&#8221; &#8211;, o mosaico musical se justifica em cada uma de suas partes na constitui\u00e7\u00e3o de uma din\u00e2mica das diferentes cenas que d\u00e3o movimento ao \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A variedade \u00e9, portanto, reflexo da escolha deliberada para cada arranjo e n\u00e3o um simples esporro estil\u00edstico. Ap\u00f3s uma fase de transi\u00e7\u00e3o em \u201cDaddy&#8217;s Home\u201d, sua cris\u00e1lida criativa desabrocha no decorrer das dez faixas do \u00e1lbum. Contrariando os que alegam que sua discografia se perdeu ap\u00f3s seu disco hom\u00f4nimo, em \u201cAll Born Screaming\u201d Annie Clark ostenta o fio de Ariadne e mostra que nunca se perdeu em seu labirinto criativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir, uma breve visita guiada pelo disco:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"All Born Screaming\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_l9pbHJOCQQUqW0uxSFCW0OwjXvNuh8WkI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) Hell Is Near \u2013<\/strong> A voz praticamente solo d\u00e1 o tom dram\u00e1tico da faixa com a banda entrando ao estilo de \u201cBreathe\u201d em \u201cDark Side of the Moon\u201d. Destaca-se o baixo sinistro &#8212; segundo Clark, uma homenagem ao Tool, uma de suas bandas favoritas &#8212; e o viol\u00e3o de 12 cordas que, sozinho, lembraria um Rush moderno, mas, quando a voz surge em un\u00edssono, magicamente se transforma no System of a Down de \u201cAerials\u201d. O outro, ornado com sintetizadores formando um polirritmo entre si, entregam o ouvinte \u00e0 pr\u00f3xima faixa como numa troca de cen\u00e1rios numa pe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) Reckless \u2013<\/strong> Assim como em \u201cHell Is Near\u201d, a voz de Clark (em sua performance vocal mais not\u00e1vel do disco) carrega a melodia praticamente sozinha em seus dois primeiros ter\u00e7os. O arranjo segue em crescendo at\u00e9 a parte final, uma explos\u00e3o de timbres e coros digna de uma missa conduzida por Giorgio Moroder em clima que se equilibra entre distopia (o arranjo de \u00faltima cena de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos anos 1980) e esperan\u00e7a (o &#8220;calling for me&#8221; repetido v\u00e1rias vezes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) Broken Man \u2013<\/strong> O primeiro single, \u201cBroken Man\u201d tem jump scares como num filme de terror. Os stabs de sintetizador (ou seriam guitarras?) e a bateria distorcida de Dave Grohl entrando atravessada assaltam o ouvido do ouvinte que \u00e9 inicialmente servido com a frigidez da const\u00e2ncia do loop de sintetizador. \u201cBroken Man\u201d \u00e9 como se Madonna tivesse gravado \u201cSupermassive Black Hole\u201d do Muse com o Queens of the Stone Age como banda de apoio. O final, com versos intercalados e sobrepostos, soa como a &#8220;vergonha alheia de si mesmo&#8221; de quem acorda de ressaca &#8212; f\u00edsica e moral &#8212; lembrando da noite passada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) Flea \u2013<\/strong> A faixa, que come\u00e7a remetendo a \u201cSometimes\u201d, do Garbage, tamb\u00e9m conta com Grohl na bateria, com o groove t\u00e3o familiar a quem escutou \u201cIn Bloom\u201d pelo menos uma vez na vida. A bateria, atr\u00e1s da cabe\u00e7a dos compassos e saturada, marca o contraponto ao instrumental quase prog que soa como se Josh Homme resolvesse montar uma banda cover de Yes ou Rush.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81555\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) Big Time Nothing \u2013<\/strong> O riff, na forma de sintetizador modular, \u00e9 a pe\u00e7a mais musicalmente grudenta do \u00e1lbum e se une a uma guitarra que parece ter vindo diretamente de Paisley Park. Somando-se \u00e0 performance vocal reminiscente da discografia noventista de Madonna, \u201cBig Time Nothing\u201d vai ser o momento dos shows com direito a m\u00e3os para o ar e passinhos desenvoltos na pista. Strike a pose!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) Violent Times \u2013<\/strong> Os stabs de metal que remetem a Portishead ornam o que ser\u00e1 o tema perfeito para quando Barbara Broccoli descobrir que Rebecca Ferguson \u00e9 a 007 perfeita em 2024. Ao ouvinte, instiga a imagina\u00e7\u00e3o sugerindo o que aconteceria se Clark estivesse um dia andando por Camden e encontrasse Amy Winehouse para um dirty martini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) Power&#8217;s Out \u2013<\/strong> \u201cPower&#8217;s Out\u201d tem o ritmo, a melodia e a narrativa de algo que poderia estar em \u201cDaddy&#8217;s Home\u201d. O tom de cr\u00f4nica, ainda que pessoal, arma o clima que permeia o trabalho anterior de Clark. O som do fuzz integrado a timbres sintetizados formam o que poderia ser descrito como uma sinfonia de elefantes no momento de destaque da can\u00e7\u00e3o. Ainda assim, funciona mais como um interl\u00fadio para a parte final do \u00e1lbum.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81556\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) Sweetest Fruit \u2013<\/strong> O loop, deliberadamente desafinado, carrega a faixa e \u00e9 uma humaniza\u00e7\u00e3o que choca com o aspecto mec\u00e2nico do sintetizador. A linha vocal de Clarke, navegando pelos registros mais altos de sua tessitura, tamb\u00e9m se posta em contraponto ao loop principal, e junto com a guitarra tirada do livro de truques sujos de The Edge, formam algo que seria facilmente a trilha sonora de uma anima\u00e7\u00e3o da Pixar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09) So Many Planets \u2013<\/strong> Com bateria com trejeitos de reggae, linha vocal que lembra exerc\u00edcios de solfejo do Bona (quem estudou m\u00fasica sabe) e o solo de guitarra mais memor\u00e1vel do disco (que lembra que nem todo mundo que estudou em Berklee acabou numa banda de metal progressivo), \u201cSo Many Planets\u201d talvez seja o \u00fanico momento em que o ouvinte se perca em meio a tanta coisa. O reverb, generoso na mix, ajuda a causar um sentimento de confus\u00e3o e necessita de mais de uma audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) All Born Screaming \u2013<\/strong> Com a guitarra que lembra The Police (ou Paralamas do Sucesso), a bateria sincopada de Stella Mozgawa (Warpaint, Courtney Barnett) e o baixo gravado pela n\u00e3o menos brilhante Cate Le Bon (que assina a coautoria da faixa), a faixa-t\u00edtulo \u00e9 o bom exemplo de que, assim como BB King, Clark \u00e9 guitar hero n\u00e3o s\u00f3 pelas notas que executa como aquelas que deixa de tocar: o sil\u00eancio \u00e9 ouro. A s\u00edncope gera brechas nos compassos que s\u00e3o preenchidas por fragmentos de guitarras &#8212; ora limpas, ora cheias de fuzz &#8212; tendo como elemento de linearidade o discreto sintetizador que corre ao fundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final, a coda \u00e9 uma mistura de mantra com grito primal com o &#8220;all born screaming&#8221; sendo repetido ad infinitum em clima de missa sendo rezada pelo Asian Dub Foundation, o \u00fanico fim poss\u00edvel para o \u00e1lbum.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81557\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/st5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fernandoyokotafotografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a>\u00a0\u00e9 fot\u00f3grafo de shows e de rua. Conhe\u00e7a seu trabalho:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fernandoyokota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">instagram.com\/fernandoyokota\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A percep\u00e7\u00e3o de um tom mais confessional se d\u00e1 n\u00e3o por uma mudan\u00e7a l\u00edrica ou musical, mas pela simples retirada da figura interlocutora da personagem.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/05\/09\/st-vincent-da-descanso-aos-alteregos-em-all-born-screaming-mais-um-disco-autobiografico-pessoal-e-vulneravel\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":99,"featured_media":81553,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3622],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81551"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/99"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81551"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81559,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81551\/revisions\/81559"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81553"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}