{"id":8150,"date":"2011-03-10T20:31:10","date_gmt":"2011-03-10T23:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8150"},"modified":"2019-07-09T10:45:29","modified_gmt":"2019-07-09T13:45:29","slug":"15-anos-sem-caio-fernando-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/03\/10\/15-anos-sem-caio-fernando-abreu\/","title":{"rendered":"15 anos sem Caio Fernando Abreu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-8151\" title=\"caio_fernando_abreu\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/caio_fernando_abreu.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ismael Machado <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o final dos anos 70, quase in\u00edcio dos anos 80. Em correspond\u00eancia a um amigo, Caio Fernando Abreu pergunta, para logo em seguida lan\u00e7ar o desafio: quem est\u00e1 fazendo literatura pop hoje no Brasil? Ningu\u00e9m? Ent\u00e3o fa\u00e7amos n\u00f3s. E Caio fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria simplista demais dizer que o escritor ga\u00facho limitou-se a ser um escritor pop no sentido menor da palavra, se \u00e9 que ser pop signifique ser menor. A escritora Ligia Fagundes Telles definiu-o como uma esp\u00e9cie de &#8220;bi\u00f3grafo das emo\u00e7\u00f5es&#8221;. E se esse termo for considerado num sentido mais amplo, tanto no terreno individualizado do leitor, como no aspecto do compartilhamento de experi\u00eancias geracionais, n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morto no dia 25 de fevereiro de 1996, mesmo ano em que tamb\u00e9m morreu Renato Russo, Caio redefiniu uma \u00e9poca na literatura brasileira. O interesse acad\u00eamico cada vez maior sobre o legado de sua escrita e a procura crescente pelo trabalho dele vinda de jovens que sequer eram nascidos quando Caio lan\u00e7ou obras j\u00e1 consideradas cl\u00e1ssicas como &#8220;Morangos Mofados&#8221;, &#8220;Os Drag\u00f5es n\u00e3o conhecem o para\u00edso&#8221; e &#8220;Onde Andar\u00e1 Dulce Veiga&#8221;, s\u00f3 real\u00e7am a import\u00e2ncia de um autor que fugiu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ser um escritor da moda para enveredar numa literatura cujo estilo se tornou \u00fanico e, portanto, dif\u00edcil de ser copiado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo, no entanto, os primeiros livros lan\u00e7ados, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que ele chegaria a esse patamar. Pode-se dizer que a obra de Caio divide-se em quatro partes. Na primeira, final dos anos 60 e in\u00edcio dos anos 70, h\u00e1 um escritor cheio de id\u00e9ias e ang\u00fastias, mas carente de um estilo pr\u00f3prio. \u201cInvent\u00e1rio do Irremedi\u00e1vel\u201d, de 1968 &#8211; ano t\u00e3o simb\u00f3lico &#8211; e o romance \u201cLimite Branco\u201d, de 1970, s\u00e3o rascunhos de possibilidades, ainda entranhadas numa literatura por demais reverente \u00e0 influ\u00eancias como a de Clarice Lispector, a mais patente. Caio diria que depois de um tempo recusou-se a ler Clarice para n\u00e3o mais ser influenciado. Seus dois primeiros livros s\u00e3o o equivalente ao que foi \u2018Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem\u2019 para a mais misteriosa de nossas autoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O miolo da d\u00e9cada de 70 \u00e9 a segunda fase da escrita de Caio. M\u00edstico e hippie, embrenhou-se na experimenta\u00e7\u00e3o total do corpo como laborat\u00f3rio, seja para o sexo, como para as drogas e a religi\u00e3o, assim como na pr\u00f3pria literatura latino-americana, que vivia o auge do realismo fant\u00e1stico. Essa miscel\u00e2nea de influ\u00eancias externas, t\u00e3o ao feitio do clich\u00ea que se referenciam os anos 70, misturada ao cen\u00e1rio opressor da ditadura militar, resultou em livros experimentais, um tanto confusos, um tanto enigm\u00e1ticos e em busca de uma linguagem pessoal, mas que traduzisse sentimentos comuns a uma gera\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 desigual, mas a busca n\u00e3o deixa de ser intrigante. \u201cPedras de Calcut\u00e1\u201d e \u201cO Ovo Apunhalado\u201d, dois livros de contos, simbolizam o per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o chamado \u2018desbunde\u2019 da contracultura e os horrores da censura e da repress\u00e3o, os anos 60 e 70 passaram e deixaram marcas profundas em seus protagonistas. Caio foi um deles. O jornalista que fez parte da primeira equipe de reda\u00e7\u00e3o de Veja, o jovem autor premiado, o mochileiro que foi lavar pratos na Europa e o dramaturgo censurado, uniram os fragmentos de um quebra-cabe\u00e7a geracional multifacetado e se tornaram, ent\u00e3o, apenas um, o Caio Autor, com \u2018A\u2019 mai\u00fasculo mesmo. Era o in\u00edcio dos anos 80 e o auge da criatividade liter\u00e1ria de Caio Fernando Abreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pode ser considerada a terceira fase dele. A que vai do melhor livro de contos da d\u00e9cada, \u2018Morangos Mofados\u2019, de 1982, ao romance \u201cOnde Andar\u00e1 Dulce Veiga\u201d, de 1990. Dois livros que j\u00e1 assumiram condi\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos recentes da literatura brasileira. Entre eles, h\u00e1 ainda \u201cTri\u00e2ngulo das \u00c1guas\u201d e \u201cOs Drag\u00f5es N\u00e3o Conhecem o Para\u00edso\u201d. Esses quatro livros comp\u00f5em um retrato fiel e exato do que foi a d\u00e9cada de 1980. A urbanidade ca\u00f3tica e solit\u00e1ria das metr\u00f3poles, a realidade crua da Aids, a perda da esperan\u00e7a em grandes revolu\u00e7\u00f5es, a busca por pequenos nichos de carinho e amizade, a fragmenta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, a troca da natureza solar do movimento hippie pelos flashes n\u00e9ons e artificiais das noites urbanas,\u00a0 todo esse cen\u00e1rio caleidosc\u00f3pico encontra em Caio seu melhor tradutor e cronista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio escreveu pe\u00e7as teatrais, foi roteirista de cinema, tradutor de obras estrangeiras, editor de revistas, autor de livros infantis, cronista de jornais. M\u00faltiplo e intenso. Colecionou amigos para todo o sempre e desafetos para a semana seguinte. Encerrou em si mesmo todo um invent\u00e1rio de experi\u00eancias e influ\u00eancias. Profundo e superficial, culto e descart\u00e1vel, dotado de ant\u00edteses, foi um dos primeiros a dar sentido pleno \u00e0 caracter\u00edstica m\u00faltipla do chamado p\u00f3s-modernismo. Exigia dos leitores uma cumplicidade cultural que poderia tornar impenetr\u00e1vel o universo da leitura de seus textos, sem a absor\u00e7\u00e3o dessas refer\u00eancias. E elas podiam trafegar da \u00faltima can\u00e7\u00e3o de Tom Waits a um bolero cafona. Da literatura latina ao novo cinema alem\u00e3o. N\u00e3o era f\u00e1cil. Em compensa\u00e7\u00e3o, a aventura da descoberta se tornava deliciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima fase da literatura de Caio j\u00e1 \u00e9 sob a \u00e9gide total da descoberta da Aids em seu pr\u00f3prio corpo. Disposto a dar sentido \u00e0 pr\u00f3pria obra, resgata textos perdidos e esquecidos, inicia projetos n\u00e3o conclu\u00eddos e ganha colet\u00e2neas. Algumas p\u00f3stumas. Inserem-se a\u00ed, \u201cOvelhas Negras\u201d, \u201cEstranhos Estrangeiros\u201d, \u201cPequenas Epifanias\u201d. O primeiro re\u00fane desde o primeiro conto escrito, como novelas, textos rejeitados e uns dois contos recentes e in\u00e9ditos \u00e0 \u00e9poca. O segundo tenta dar sentido ao sentimento de ex\u00edlio interior que sempre acompanhou o escritor. O terceiro re\u00fane textos de uma coluna semanal no jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, inclusive com as famosas e pungentes \u2018cartas para al\u00e9m do muro\u2019, onde abre o jogo com os leitores a respeito da Aids que consumia seu organismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de morto, Caio ganhou duas pequenas biografias, de Jeanne Calegari e Paula Dip, teve o melhor de sua obra dividida em per\u00edodos e uma reuni\u00e3o de suas correspond\u00eancias publicadas. Nas universidades, passou a ser estudado com mais afinco por jovens acad\u00eamicos, superando o ran\u00e7o de mestres e doutores mais velhos \u2013 de cabe\u00e7a. Por biografar emo\u00e7\u00f5es, mas principalmente por usar uma linguagem \u00fanica e ter um estilo inconfund\u00edvel, Caio sobreviveu ao pr\u00f3prio tempo. Longe de se tornar datado, transformou-se em eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ismael Machado \u00e9 jornalista e mant\u00e9m uma coluna semanal no jornal Diario do Par\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ismael Machado\nPor biografar emo\u00e7\u00f5es, Caio sobreviveu ao pr\u00f3prio tempo. 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