{"id":81051,"date":"2005-08-18T23:47:00","date_gmt":"2005-08-19T02:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81051"},"modified":"2024-04-16T23:51:44","modified_gmt":"2024-04-17T02:51:44","slug":"antipopular-bem-gravado-e-genial-grandes-infieis-do-violins-ja-nasce-classico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/08\/18\/antipopular-bem-gravado-e-genial-grandes-infieis-do-violins-ja-nasce-classico\/","title":{"rendered":"Antipopular, bem gravado e genial, &#8220;Grandes Infieis&#8221;, do Violins, j\u00e1 nasce cl\u00e1ssico"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio independente brasileiro \u00e9 bastante esfor\u00e7ado, mas esfor\u00e7o n\u00e3o significa de forma alguma qualidade. \u00c9 at\u00e9 f\u00e1cil achar grandes discos por ali, mas nada que soe cl\u00e1ssico, instigante, que d\u00ea um n\u00f3 na garganta e fique vagando por dias e dias e dias na mem\u00f3ria. Bem, n\u00e3o era f\u00e1cil achar um disco cl\u00e1ssico, com todas as letras, na cena independente nacional, mas &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221;, terceiro \u00e1lbum dos goianos do Violins, surge para brigar pela honraria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De cara, assumo que nunca fui com a cara do Violins. O primeiro CD, &#8220;Wake Up and Dream&#8221; (2002), totalmente cantado em ingl\u00eas, exibia influ\u00eancias de gente como Radiohead, Muse e Sunny Day Real Estate. Por esse tempo os vi ao vivo, e s\u00f3 me pareceu mais uma banda saqueando o repert\u00f3rio de riffs da turma de Thom Yorke. Deixei pra l\u00e1 e fui beber a minha cerveja. E a banda seguiu em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aurora Prisma&#8221; (2003), o segundo \u00e1lbum, radicalizou na mudan\u00e7a. Saia de cena o ingl\u00eas e o barulho dando lugar a l\u00edngua p\u00e1tria acompanhada de melodias leves. No entanto, apesar da coragem da banda em mudar de rumo, o som que parecia buscar inspira\u00e7\u00e3o em Coldplay e no lado suave do Radiohead lembrava muito Clube da Esquina no resultado final. Nada contra, mas mesmo em baladas rock \u00e9 preciso ter culh\u00e3o para se fazer as coisas valerem a pena. Tem que se mostrar &#8220;a&#8221; alma. A t\u00edtulo de exemplo, \u00e9 isso que diferencia &#8220;The Killing Moon&#8221; de &#8220;In My Place&#8221;: alma. Novamente n\u00e3o dei aten\u00e7\u00e3o ao Violins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221;, o terceiro \u00e1lbum da banda, lan\u00e7ado novamente pela Monstro Discos, no entanto, clama por aten\u00e7\u00e3o. Uma audi\u00e7\u00e3o das doze faixas j\u00e1 deixa o ouvinte confuso, seja ele f\u00e3 da banda ou algu\u00e9m que n\u00e3o dava a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o ao quinteto. O Violins novamente muda de rumo e preenche o CD com doses violentas de guitarradas, bateria pesada marcando o ritmo e fazendo varia\u00e7\u00f5es, baixo forte e, sobre tudo isso, o bom vocal de Beto Cupertino desfilando as melhores letras do rock nacional em muito, muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A influ\u00eancia primordial ainda \u00e9 o Radiohead, mas o Violins consegue construir melodias fortes e empolgantes que conseguem baixar a luz sobre a influ\u00eancia e iluminar o bom repert\u00f3rio de um disco que soa musculoso, violento, bem escrito e extremamente antipopular. Sim, antipopular. Primeiro pela tem\u00e1tica tabu (trai\u00e7\u00f5es, infidelidade, mentiras) e depois pela qualidade das letras, que funcionam mesmo sem a melodia. Num Pa\u00eds em que Paulo Coelho \u00e9 recordista de vendas de livros, ser um bom escritor pode n\u00e3o ser l\u00e1 altamente popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221; est\u00e1 no n\u00edvel de outros \u00e1lbuns antipopulares, como por exemplo &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/11\/ok-computer-um-disco-fundamental\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ok Computer<\/a>&#8221; e &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/05\/01\/faixa-a-faixa-yankee-hotel-foxtrot-do-wilco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Yankee Hotel Foxtrot<\/a>&#8220;, discos dif\u00edcieis demais para a grande massa, acostumada a quem rima &#8220;amor com dor&#8221;, mas pequenas obras primas de um mundo hiper-maxi-pessoal-e-minusculo: o dos grandes discos de rock, pequenas j\u00f3ias musicais. &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221; \u00e9 um trabalho fechado e completo que j\u00e1 se destaca pela bel\u00edssima capa, que traz o desenho de uma gaiola aberta, sem o nome da banda nem foto nem t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas cacetadas abrem o disco: &#8220;Hans&#8221; e &#8220;Il Maledito&#8221;. A primeira \u00e9 explosiva e traz uma parede de guitarras que serve para ambientar o ouvinte pelo que ser\u00e1 ouvido nos pr\u00f3ximos 44 minutos. &#8220;Todos j\u00e1 viram a loucura pura \/ Eu quis beber pra ent\u00e3o sorrir \/ Mas a dose me fez trair&#8221;, canta Beto Cupertino. A bateria de Pierre parece querer disputar destaque com a guitarra de L\u00e9o. &#8220;Il Maledito&#8221; destaca uma das melhores letras do \u00e1lbum e uma levada que parece demonstrar que a banda anda ouvindo muito Queens on The Stone Age. &#8220;O que me mant\u00e9m \u00e9 o contato com o inferno&#8221;, abre a letra. L\u00e1 pelo meio a melodia acelera e empolga: &#8220;Ent\u00e3o um viva \u00e0 insensatez&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boas guitarras abrem &#8220;Gl\u00f3ria&#8221;, que \u00e9 mais leve que as duas anteriores, e traz outra de letra excelente: &#8220;Eu sei que o mundo n\u00e3o comporta mais deuses \/ E sei que o amor n\u00e3o me suporta mais vezes&#8221;. O segundo trecho \u00e9 matador: &#8220;Prefiro morrer sob o sol de cerrado \/ A ter que dizer o que eu tinha pensado \/ Sobre os murros que seus olhos pedem \/ E sobre as rugas que voc\u00ea me tece&#8221;. &#8220;Atriz&#8221; come\u00e7a lenta e explode em barulho. Fala de suic\u00eddio, confian\u00e7a e sinceridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ensaio Sobre Poligamia&#8221; traz bons riffs de guitarra, bateria marcada e letra direta: &#8220;N\u00f3s s\u00f3 viemos pra nos divertir \/ Deus, eu quis ser fiel a voc\u00ea \/ Mas eu tenho tantos cora\u00e7\u00f5es \/ Eu tenho tantos cora\u00e7\u00f5es&#8221;. &#8220;Vendedor de Rins&#8221; traz um dos come\u00e7os mais lentos do \u00e1lbum e uma letra a ser descoberta, enaltecendo o lado bom de um vendedor de rins. &#8220;S.O.S.&#8221; tem bateria quebrada e letra simples: &#8220;\u00c9 bem mais f\u00e1cil se eu mentir \/ Ningu\u00e9m vale o outro mas a culpa \u00e9 igual&#8221;. Bons vocais e muitas guitarras no meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Matusal\u00e9m&#8221; segue na linha das duas faixas de abertura. Guitarras ensurdecedoras, bateria brigando por destaque, vocal enterrado na mixagem. &#8220;Angelus&#8221; \u00e9 a primeira conduzida por teclados, que mais fazem a cama do que conduzem, ao contr\u00e1rio de &#8220;Aurora Prisma&#8221;, o disco anterior. Por\u00e9m, no clima &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221;, a m\u00fasica ganha corpo e emociona. Fala sobre Deus, tem vocais anos 1960, e lembra muito Clube da Esquina. Funciona, e bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nada S\u00e9rio&#8221; \u00e9 constru\u00edda sobre piano e guitarras. Assim como outras no \u00e1lbum, come\u00e7a suave e explode no final. &#8220;Conv\u00eanio&#8221; come\u00e7a com um bom riff de guitarra, mas a bateria insiste em martelar pesada nos dois lados do fone. &#8220;Nos traga inverno ou outono, tanto faz, \u00e9 no ver\u00e3o que chove mais&#8221;, diz a letra. Os viol\u00f5es, acompanhados por uma arranjo de cordas, marcam presen\u00e7a em &#8220;Ok, Ok&#8221;, faixa que encerra &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221; de forma \u00e9pica: &#8220;Sobrou pra mim \/ A felicidade sempre ofende \/ Mas tristeza demais cansa \/ Bem, que se fodam os ofendidos!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antipopular, bem gravado e genial, &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221; exibe uma banda madura, que soube criar um excelente repert\u00f3rio pr\u00f3prio, e n\u00e3o cochila sobre elogios. Quem esperava um &#8220;Aurora Prisma 2&#8221; deve estar se sentindo enganado. Tudo bem. Estamos exatamente diante de um pequeno tratado sobre mentiras (de amigos, de religi\u00f5es, de n\u00f3s mesmos) envolto em 44 minutos de boas guitarras, baterias marcantes e letras excelentes. \u00c9 preciso coragem para perdoar. \u00c9 preciso perdoar para seguir em frente. Sinta-se em casa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hans\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pVUDQffAvq0?list=OLAK5uy_nXOmF51cc83IGjR6J4sY0xLryTSJGB_KQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a Calmantes com Champagne<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Antipopular, bem gravado e genial, &#8220;Grandes Infi\u00e9is&#8221; exibe uma banda madura, que soube criar um excelente repert\u00f3rio pr\u00f3prio, e n\u00e3o cochila sobre elogios.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/08\/18\/antipopular-bem-gravado-e-genial-grandes-infieis-do-violins-ja-nasce-classico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":81054,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3173],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81051"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81051"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81051\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81055,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81051\/revisions\/81055"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}