{"id":81018,"date":"2024-04-15T01:38:11","date_gmt":"2024-04-15T04:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=81018"},"modified":"2024-05-14T09:37:26","modified_gmt":"2024-05-14T12:37:26","slug":"cinema-um-filme-para-beatrice-propoe-um-passeio-sublime-pela-carreira-de-helena-solberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/15\/cinema-um-filme-para-beatrice-propoe-um-passeio-sublime-pela-carreira-de-helena-solberg\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221; prop\u00f5e um passeio sublime pela carreira da cineasta Helena Solberg"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome de Helena Solberg ainda hoje \u00e9 encarado como sin\u00f4nimo de resist\u00eancia e segue associado ao Cinema Novo nos textos de apresenta\u00e7\u00e3o de sua biografia e nas publica\u00e7\u00f5es especiais dedicadas aos c\u00e9lebres anos 1960 e 1970 do cinema brasileiro. O que &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221; (2024) faz perceber \u00e9 que a alcunha de &#8220;\u00fanica cineasta brasileira a ter uma produ\u00e7\u00e3o expressiva neste per\u00edodo&#8221; parece apequenada diante de uma carreira t\u00e3o inspirada e surpreendentemente coesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201csurpresa\u201d n\u00e3o \u00e9 por uma condescend\u00eancia vazia da minha parte, mas porque \u00e9 dif\u00edcil apontar muitos outros cineastas da sua gera\u00e7\u00e3o no Brasil que persistiram trabalhando por tanto tempo e com tanto afinco basicamente em torno de uma \u00fanica grande quest\u00e3o, viajando o mundo para buscar as melhores personagens e as hist\u00f3rias mais excepcionais sem jamais se desconectar com a realidade de seu pa\u00eds. E n\u00e3o pense que perseguir um \u00fanico assunto seja um dem\u00e9rito, sin\u00f4nimo de repeti\u00e7\u00e3o aborrecida. Muito pelo contr\u00e1rio. Grandes cineastas do mundo passam uma vida inteira remoendo as mesmas obsess\u00f5es: Yasujir\u014d Ozu dirigiu filme atr\u00e1s de filme sobre as rela\u00e7\u00f5es familiares e a diferen\u00e7a geracional; Eduardo Coutinho insistiu por mais de 30 anos em filmar o brasileiro comum e as suas contradi\u00e7\u00f5es; Hong Sang-soo prop\u00f5e ano ap\u00f3s ano varia\u00e7\u00f5es (tem\u00e1ticas e de estilo) m\u00ednimas diante de dilemas afetivos do cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Solberg dirigiu, at\u00e9 o momento, 18 filmes, entre curtas, m\u00e9dias e longas-metragens. Filmou nos Estados Unidos e, extensamente, na Am\u00e9rica Latina. Tamb\u00e9m produziu fic\u00e7\u00e3o, mas a sua veia art\u00edstica sempre residiu mesmo no fazer documental. N\u00e3o obstante, em todas essas pequenas partes que formam o todo de sua filmografia, Solberg mergulhou nas dores e nos desafios da mulher de seu tempo. Verdade seja dita, um mergulho que promoveu um deslocamento por oceanos diversos: a an\u00e1lise do comportamento da classe m\u00e9dia em &#8220;A Entrevista&#8221; (1966), o esquadrinhamento das condi\u00e7\u00f5es da m\u00e3o de obra feminina como for\u00e7a de trabalho na Am\u00e9rica Latina em &#8220;A Dupla Jornada&#8221; (1975), a busca pela identidade (da criatura e da criadora) em &#8220;Carmen Miranda: Bananas Is My Business&#8221; (1994), at\u00e9 chegar no revisionismo de &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221;, que estreou na programa\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/etudoverdade.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival \u00c9 Tudo Verdade<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo trabalho de Helena Solberg parte da pergunta \u201cComo v\u00e3o as mulheres no Brasil?&#8221;, feita por uma jornalista italiana, e se refrata em muitas possibilidades. Dentre os caminhos que percorre, a diretora cruza com os pensamentos irradiados por, entre outras pessoas, Helo\u00edsa Teixeira, Helena Vieira e Anielle Franco. Esta \u00faltima tem um papel fundamental. Eu falava da capacidade da Solberg em percorrer o mundo e se manter conectada com as suas ra\u00edzes e com os assuntos caros ao Brasil e, coincidentemente ou n\u00e3o, &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221; tem em seu cerne uma inquietude espantosa que se manifesta de diversas maneiras, entre elas por meio da mem\u00f3ria de Marielle Franco, e a presen\u00e7a de sua irm\u00e3 funciona como um p\u00eandulo para o filme. Toda vez que o debate proposto flerta com a vulgaridade, Solberg coloca a narrativa nos eixos com a ajuda de Anielle Franco. Quando o di\u00e1logo leve e solto entre Solberg e Helo\u00edsa Teixeira, apesar de divertido, periga se perder em devaneios excessivos, \u00e9 ela novamente que d\u00e1 o sinal para que a diretora conduza o olhar do p\u00fablico de volta para as quest\u00f5es mais atuais e pungentes que envolvem a necessidade de uma luta mais coletiva das mulheres hoje.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81021\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conversas entre a diretora e as suas interlocutoras, contudo, est\u00e3o longe de ser a parte mais inventiva e interessante. Na verdade, boa parte desses di\u00e1logos e, por vezes, mon\u00f3logos s\u00e3o mornos e desviam o assunto do que realmente faz vibrar em &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221;. No cat\u00e1logo organizado em virtude de uma retrospectiva de sua obra no CCBB, Helena Solberg, remetendo a uma antiga entrevista sua, escreveu o seguinte: &#8220;A ideia de uma retrospectiva dos meus filmes me d\u00e1 um certo medo. A ideia de remoer o passado, de rever filmes que est\u00e3o h\u00e1 anos guardados e que refletem quem eu era naquela \u00e9poca, pode ser uma experi\u00eancia perturbadora&#8221;. Na sequ\u00eancia do texto, ela reflete: &#8220;Agora percebo como o tempo nos faz mudar nossa percep\u00e7\u00e3o dos fatos. Hoje, com muito mais tranquilidade, vejo uma retrospectiva como um privil\u00e9gio, uma oportunidade de autoconhecimento, com distanciamento cr\u00edtico e, por que n\u00e3o, humor. \u00c9 curioso poder examinar aquela criatura que era eu, com suas idiossincrasias e obsess\u00f5es, inserida em diferentes momentos da realidade que me cercava, e da qual eu queria participar e examinar em busca de respostas&#8221;. \u00c9 com esse estado de esp\u00edrito que Solberg molda o seu novo filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221; prop\u00f5e um passeio sublime pela carreira de Solberg, (re)apresentando filmes empoeirados de sua filmografia, muito pouco assistidos pelas novas gera\u00e7\u00f5es (e pelas velhas tamb\u00e9m, diga-se de passagem). As montadoras Ana Paula Carvalho e Marilia Moraes realizam um bom trabalho ao lado de Solberg juntando peda\u00e7os de filmes e revelando uma unidade incontest\u00e1vel na obra de sua autora. As imagens e os sons de &#8220;Meio-dia&#8221; (1970), por exemplo, explodem de nitidez e pertin\u00eancia hoje, ainda que tenham sido concebidos nos anos de chumbo da ditadura militar. \u00c9 imposs\u00edvel ouvir (bem alto, numa sala de cinema) e n\u00e3o se arrepiar com a voz de Caetano Veloso, acompanhado pel&#8217;Os Mutantes em uma de suas mais marcantes performances no auge da Tropic\u00e1lia, que instaura o clima perfeito para a rebeldia das crian\u00e7as no curta-metragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro momento inspirado, a cineasta escolhe comentar a sua inf\u00e2ncia. Filha de uma m\u00e3e muito cat\u00f3lica e de um pai noruegu\u00eas que, segundo ela, \u201cajudava a equilibrar a carolice materna\u201d, Solberg foi educada em uma escola de freiras e examina a import\u00e2ncia dessa conviv\u00eancia para o desenvolvimento posterior do seu ativismo feminista &#8211; e para o seu cinema, uma vez que logo em seguida somos apresentados a alguns belos planos de &#8220;Vida de Menina&#8221; (2003), longa-metragem ficcional de \u00e9poca baseado no di\u00e1rio de Helena Morley, uma garota de prov\u00edncia que viveu em Minas Gerais no final do s\u00e9culo XIX e que, entre outras \u201cousadias\u201d, questiona o padre do vilarejo a respeito do &#8220;parentesco&#8221; entre o homem e o macaco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada essa rumina\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria carreira, n\u00e3o me parece completamente leviano comparar &#8220;Um Filme Para Beatrice&#8221; com &#8220;As Praias de Agn\u00e8s&#8221; (2008) ou &#8220;Varda por Agn\u00e8s&#8221; (2019), de Agn\u00e8s Varda. Helena Solberg, assim como a cineasta franco-belga, aproveita de sua maturidade para fazer um cinema autorreflexivo, apostando em processos muito livres, sem qualquer pretens\u00e3o de chegar ao fim com todas as respostas prontas. A liberdade que exala do filme n\u00e3o se deve apenas \u00e0s declara\u00e7\u00f5es contestadoras e afirmativas das pessoas convidadas para o di\u00e1logo, mas principalmente da atitude de Solberg, que n\u00e3o se acanha em recorrer a formatos d\u00edspares &#8211; o filme concilia pel\u00edcula com digital, registros de baixa qualidade e fotografia digital de alt\u00edssima resolu\u00e7\u00e3o &#8211; para demonstrar, ainda assim, a harmonia avassaladora de seu cinema. Solberg, historicamente espremida entre os homens do Cinema Novo, com este filme confirma que a sua carreira seguiu um trilho muito particular e independente, sempre respirando curiosidade e a mais fina rebeldia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-81019\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/beatrice1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Solberg, historicamente espremida entre os homens do Cinema Novo, confirma que a sua carreira seguiu um trilho muito particular e independente, sempre respirando curiosidade e a mais fina rebeldia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/15\/cinema-um-filme-para-beatrice-propoe-um-passeio-sublime-pela-carreira-de-helena-solberg\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":81020,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7148,7147],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81018"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81018"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":81023,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81018\/revisions\/81023"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}