{"id":80899,"date":"2024-04-12T01:23:00","date_gmt":"2024-04-12T04:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80899"},"modified":"2024-05-09T00:59:47","modified_gmt":"2024-05-09T03:59:47","slug":"diego_xavier_trio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/12\/diego_xavier_trio\/","title":{"rendered":"Diego Xavier fala do \u00e1lbum &#8220;Trio&#8221; em uma entrevista t\u00e3o direta e confessional quanto seu disco"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCabe\u00e7a Quente\u201d \u00e9 apenas o nome da faixa de abertura <a href=\"https:\/\/diegoxaviertrio.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do terceiro disco de Diego Xavier<\/a>, mas poderia dar t\u00edtulo ao \u00e1lbum, de t\u00e3o bem que resume o estado de esp\u00edrito das suas oito faixas. \u00c9 um disco sem meias palavras, em estado de tens\u00e3o permanente, com momentos para explos\u00e3o. O \u00e1lbum, na verdade, se chama \u201cTrio\u201d, o que gera uma certa confus\u00e3o, j\u00e1 que o trabalho em quest\u00e3o pode tanto ser entendido como um projeto solista ou uma banda chamada Diego Xavier Trio (ou simplesmente DX). Tendo o nome do guitarrista, vocalista e compositor \u00e0 frente, seria f\u00e1cil optar pelo primeiro caso, mas o pr\u00f3prio Xavier destaca a import\u00e2ncia de Ricardo Garofalo (baixo) e Rodrigo Leal (bateria) nas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, \u201c<a href=\"https:\/\/diegoxaviertrio.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Trio<\/a>\u201d \u00e9 um \u00e1lbum extremamente pessoal, em que Diego Xavier traz \u00e0 tona toda a raiva, frustra\u00e7\u00e3o e desesperan\u00e7a que vieram como consequ\u00eancia de uma turn\u00ea do BIKE pela Europa em 2019 \u2013 para quem n\u00e3o sabe, Xavier \u00e9 um dos vocalistas e guitarristas da banda. Quem olha de fora e s\u00f3 escuta as hist\u00f3rias de decad\u00eancia sexual e festas qu\u00edmicas pode at\u00e9 se deixar enganar pela m\u00edtica do rock\u2019n\u2019roll na estrada, mas qualquer um que j\u00e1 vivenciou uma turn\u00ea sabe que a realidade \u00e9 bem diferente. Falta de sono, de dinheiro e de refei\u00e7\u00f5es decentes se misturam \u00e0 press\u00e3o para que cada show seja \u201cuma experi\u00eancia\u201d, e somados ao consumo desregrado de \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias, resultam numa combina\u00e7\u00e3o cruel \u2013 e nem falamos dos perrengues de estrada, promotores picaretas e caloteiros, f\u00e3s sem no\u00e7\u00e3o, falta de p\u00fablico e outras coisas que costumam dar as caras em empreitadas deste tipo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80902\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/diegoxaviertrio.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/diegoxaviertrio.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/diegoxaviertrio-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/diegoxaviertrio-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema n\u00e3o \u00e9 novo: o Camisa de V\u00eanus fez a bela \u201cChamam Isso Rock\u2019n\u2019Roll\u201d (presente no \u00e1lbum \u201cDuplo Sentido\u201d, de 1987) para falar do desencanto com a estrada; os Tit\u00e3s retrataram o t\u00e9dio e o deslocamento pessoal inerentes a esse tipo de empreitada em \u201cTurn\u00ea\u201d e, mesmo em outros idiomas, n\u00e3o s\u00e3o poucas as bandas que falaram do tema: do Creedence Clearwater Revival (\u201cLodi\u201d) aos uruguaios La Vela Puerca (\u201cSanar\u201d), passando pela antol\u00f3gica \u201cTurn the Page\u201d (Pete Seeger), n\u00e3o foram poucos os que trouxeram \u00e0 tona a realidade que at\u00e9 os f\u00e3s preferem ignorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJ\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas dias quase sem dormir \/ E o saldo ainda no vermelho \/ Esquecer a saudade ou talvez me iludir \/ Espero apenas que d\u00ea certo\u201d, vocifera Diego Xavier em \u201cEstrada\u201d, primeiro single do \u00e1lbum. Na mesma faixa, ele ainda confessa: \u201cEu sei, eu sei, eu sei \/ Sou chato, t\u00f4 velho \/ Tem umas fitas que eu n\u00e3o gosto mais \/ Eu continuo me jogando, mas at\u00e9 quando? \/ S\u00e3o tr\u00eas cabe\u00e7as num colch\u00e3o de ar \/ \u00c0s vezes banho, as vezes tem jantar \/ Em casa me acham o rockstar \/ Acho melhor nem contar\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPra Aprender\u201d, por sua vez, \u00e9 puro \u00f3dio direcionado aos companheiros da banda. Quem passou dias dividindo van ou um carro apertado na companhia de outras pessoas t\u00e3o cansadas ou frustradas quanto ir\u00e1 reconhecer o vitup\u00e9rio no ato. Na j\u00e1 citada \u201cCabe\u00e7a Quente\u201d, a raiva se mistura ao sentimento de deslocamento, com espa\u00e7o para mem\u00f3rias pessoais. \u201cMeu pai me disse uma vez que n\u00e3o tinha amigos \/ E isso nunca foi t\u00e3o triste\u201d, entrega Diego em um canto falado. E em \u201cTempo J\u00e1 Se Foi\u201d, a desilus\u00e3o \u00e9 agravada pela saudade de um parceiro das antigas j\u00e1 falecido: \u201cE j\u00e1 fazem 10 que partiu aos 23 \/V\u00ea se aparece em mais um sonho outra vez\u201d s\u00e3o os versos que encerram a can\u00e7\u00e3o e o \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Musicalmente, o disco acompanha em intensidade. Ao contr\u00e1rio de sua banda mais conhecida, Xavier entrega um som bastante direto, calcado majoritariamente em riffs, e se nem todas as faixas seguem o formato \u201cparte A + refr\u00e3o + parte B+ refr\u00e3o\u201d, ele \u00e9 decididamente menos herm\u00e9tico, repetitivo e et\u00e9reo que o BIKE. Na primeira metade, em especial, os resultados s\u00e3o not\u00e1veis, conseguindo resgatar com frescor e senso mel\u00f3dico as disson\u00e2ncias que caracterizavam o underground paulista do come\u00e7o dos anos 2000. De seu est\u00fadio em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Diego Xavier abriu a c\u00e2mera para dar uma entrevista t\u00e3o direta e confessional quanto seu disco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trio\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_n_MxLoAmDCxWOtu4swG1SFh4KgxjW41KE\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem um est\u00fadio (Wasabi, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos), onde gravou os dois \u00e1lbuns anteriores do DX. Esse \u00faltimo foi gravado El Rocha, em S\u00e3o Paulo, e ao vivo. Por que voc\u00ea optou por mudar n\u00e3o s\u00f3 o est\u00fadio, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria abordagem de produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAh, primeiro sempre foi meio que um sonho gravar no (El) Rocha. Tanto pra mim quanto pro Ricardo e pro Rodrigo, porque a gente veio de banda punk. Antes do BIKE, antes de tudo, a gente veio dessa cena de punk e hardcore, que foi muito forte aqui no Vale do Para\u00edba. O [Fernando] Sanches gravou muita banda que a gente gosta, tem muito disco cl\u00e1ssico desse per\u00edodo que foi ele quem produziu, e tamb\u00e9m fez v\u00e1rios cl\u00e1ssicos do indie nacional depois. O trio sempre ficou um pouco de escanteio por causa do BIKE, os meninos tamb\u00e9m t\u00eam outras bandas, mas a gente sempre teve esse sonho. A\u00ed eu falei, \u201cp\u00f4, bicho, vamos investir no terceiro disco\u201d. Os dois primeiros tinham sido feitos por aqui e eu queria meio que mudar o template (risos). Pensei em a gente chegar com um som mais pronto para poder economizar [em horas de est\u00fadio]. E foi isso: a gente pegou uma di\u00e1ria j\u00e1 desde o come\u00e7o, eu j\u00e1 falei pro Fernando que a gente ia mandar tudo ao vivo. Por isso a gente j\u00e1 estava ensaiando as m\u00fasicas pra caramba aqui no est\u00fadio [Wasabi]. As m\u00fasicas j\u00e1 estavam sendo trabalhadas desde 2019, mas veio a pandemia&#8230; Quando retomamos, a gente continuou malhando aquelas m\u00fasicas, e quando a gente marcou a data do Fernando, a gente entrou numas de ensaiar para tentar arredondar o m\u00e1ximo poss\u00edvel. No fim, a gente viu que o disco estava mastigado, n\u00e3o ia mudar nada. Ent\u00e3o a gente levou nossas refer\u00eancias de som e foi. A gente ama os discos do Hurtmold, em especial o som da bateria do [Mauricio] Takara \u2013 que \u00e9 irm\u00e3o do Sanches \u2013 \u00e9 bem o som da sala, e eu queria trazer isso pro disco do Trio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o ele n\u00e3o \u00e9 um disco pand\u00eamico. Foi feito antes, certo?<\/strong><br \/>\nSim. Mas acabou que a pandemia deixou o neg\u00f3cio mais trasheira, mais pesado l\u00edrica e instrumentalmente. Os dois primeiros discos que eu tinha feito para a DX eram bem mais light.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu j\u00e1 ia perguntar sobre isso, porque o release assume que o disco foi inspirado pela turn\u00ea europeia do BIKE em 2019, que n\u00e3o s\u00f3 causou uma baita fadiga, mas fez voc\u00ea questionar sua pr\u00f3pria vida como m\u00fasico, como produtor. E se passados cinco anos, voc\u00ea est\u00e1 trazendo isso de novo, eu imagino que seja um desconforto grande, e que ainda faz sentido para voc\u00ea falar sobre ele.<\/strong><br \/>\nSim, sim, sim. At\u00e9 porque a gente come\u00e7ou a compor depois dessa turn\u00ea. Tem umas duas m\u00fasicas ali que n\u00e3o tinham sa\u00eddo no \u201cRecortes\u201d (segundo \u00e1lbum, de 2019) e a gente tinha come\u00e7ado a compor algumas bases instrumentais. A\u00ed veio a turn\u00ea, logo depois a pandemia. Eu consegui ficar por seis meses em casa, peguei aux\u00edlio, fiz rifa e escambau. Consegui me virar, mas nesses seis meses eu falei pra mim mesmo que n\u00e3o ia ficar parado, ent\u00e3o decidi tentar resolver o disco. Consegui fazer o blend sozinho em casa, pegando aquelas demos instrumentais gravadas no celular, juntando com as letras que eu tinha feito l\u00e1 na Europa, e pegando o que a gente j\u00e1 tinha tamb\u00e9m. Foi meio que uma tentativa de costurar a parada toda. S\u00f3 que desde o comecinho eu falei pros moleques que eu queria que o terceiro disco fosse mais pesado. S\u00f3 n\u00e3o achei que ia ser t\u00e3o pesado (risos). \u00c9 que a tour do BIKE foi trash, cara. Esse foi um neg\u00f3cio meio depr\u00ea. Na verdade, foi depr\u00ea pra caralho (risos). N\u00e3o sei nem como \u00e9 que o BIKE n\u00e3o acabou: foi um neg\u00f3cio feio, com preju, perrengue, briga interna&#8230; Na pandemia, a gente conseguiu alguns editais, girou um dinheiro pro BIKE, mas mesmo assim foi muito conturbado, a gente estava remoendo muita coisa que aconteceu ainda da turn\u00ea na Europa. E acabou que eu ter feito o disco foi meio terapia, botar para fora coisas que a gente sentiu e viveu. Depois os moleques [do Diego Xavier Trio] ouviram e falaram, \u201ccara, voc\u00ea fez um disco da DX que \u00e9 praticamente sobre o BIKE\u201d (risos). Ent\u00e3o \u00e9 meio que isso, muita coisa foi maturada nesse disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na primeira audi\u00e7\u00e3o, o disco me soou muito puto mesmo. Mas depois, prestando aten\u00e7\u00e3o nas audi\u00e7\u00f5es seguintes, deu pra ver que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 raiva: tem desencanto, uma coisa bem forte numa onda \u201co sonho acabou\u201d.<\/strong><br \/>\nMas foi essa sensa\u00e7\u00e3o mesmo que a gente [BIKE] teve no fim da turn\u00ea. Foi um balde de \u00e1gua fria t\u00e3o grande&#8230; E a\u00ed entrou pandemia, fiquei desanimado pra caralho, velho. E tinha tudo o mais rolando, as coisas todas que estavam acontecendo no Brasil, tanto o cen\u00e1rio pol\u00edtico quanto o musical&#8230; Chegou num ponto que a gente passou a achar que a gente n\u00e3o se enquadrava mais na parada. Parecia que em, sei l\u00e1, tr\u00eas ou quatro anos, o neg\u00f3cio mudou totalmente, virou uma chave brutal no Brasil. Ent\u00e3o foi exatamente isso, uma parada de desilus\u00e3o mesmo. Eu falei, \u201cvou parar\u201d. Todo mundo no BIKE pensou isso, n\u00e3o fui s\u00f3 eu. Mas eu pensei em largar a m\u00fasica mesmo: BIKE, DX, largar m\u00e3o do est\u00fadio e voltar a trabalhar em outra coisa. Foi um processo dif\u00edcil, e acho que s\u00f3 agora que lancei esse disco que superei esse per\u00edodo. Foi uma digest\u00e3o grande. Agora que lan\u00e7ou, tem gente ouvindo e comentando bastante essa coisa das letras. O September Guest tocou no show de lan\u00e7amento do disco, e o Boi (Fernando Lalli, vocalista e guitarrista da referida banda) me disse, \u201cpera a\u00ed, voc\u00ea teve a pachorra de fazer uma disso t\u00e3o sincero? Mas isso \u00e9 muito a sua cara\u201d (risos). T\u00e1 ligado? Era isso, eu queria fazer uma parada muito na cara, muito verdadeira, crua at\u00e9 nas letras. E ficou mais cru com o som gravado ao vivo: n\u00e3o tem edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem afina\u00e7\u00e3o, \u00e9 aquilo que est\u00e1 ali.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diego Xavier - Problemas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VeVBTtt8UyI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas mesmo com a crueza e a raiva, ele \u00e9 bem cancioneiro, n\u00e9? Talvez o disco com mais can\u00e7\u00f5es que voc\u00ea j\u00e1 fez, seja com qual banda for. Isso foi um efeito colateral da raiva (risos) ou j\u00e1 era uma inten\u00e7\u00e3o concreta de descomplicar, de \u201cdespsicodelizar\u201d as faixas?<\/strong><br \/>\nTeve um pouco de inten\u00e7\u00e3o, sim, porque eu lembro que, desde o come\u00e7o do Trio, vinham pessoas que falavam que tal e tal m\u00fasicas lembravam o BIKE. Eu nunca achei isso do Trio. L\u00f3gico que vai ter influ\u00eancia, porque \u00e9 uma refer\u00eancia minha, tem uma coisa ou outra ali que pode lembrar. Mas comecei a reparar que a galera achava mesmo que era m\u00fasica psicod\u00e9lica. Porra, velho, o \u201cRecortes\u201d \u00e9 bem emo, busquei uma parada bem daquele emo velho dos anos 1990. Ele at\u00e9 deu uma cortada nesse papo, mas por causa das jams longas, a galera ainda acha que \u00e9 psicod\u00e9lico. Por isso tamb\u00e9m esse lance do som ter sa\u00eddo pesado, porque falei \u201ccara, n\u00e3o quero nada psicod\u00e9lico\u201d (risos). Eu queria um neg\u00f3cio cru mesmo. Acabou rolando de duas das m\u00fasicas serem mais longas, mas tentei dar uma fugida consciente mesmo. No BIKE, a gente tentou fugir um pouco das can\u00e7\u00f5es para tentar chegar a uma sonoridade mais pr\u00f3pria. S\u00f3 que, quando a gente surgiu, logo veio aquela modinha de Tame Impala, Boogarins, e a gente era associado a esse grupo (de bandas). Depois de um tempo, a gente pegou meio que um ran\u00e7o dessa parada e, a partir do terceiro disco, a gente resolveu mudar, ficar esquisito, buscar uma cara pr\u00f3pria. E no \u201cArte Bruta\u201d acho que a gente chegou nisso, a galera j\u00e1 meio que sabe como \u00e9 o som do BIKE. No DX, pensei em ser \u201ca can\u00e7\u00e3o do Diego\u201d, mesmo porque as minhas m\u00fasicas do BIKE s\u00e3o as mais cancioneiras, as que t\u00eam refr\u00e3o. Para a DX quis deixar isso ainda mais evidente, e o lance de ter muito riff tamb\u00e9m contribui pra isso. O primeiro disco do Trio tinha uns acord\u00f5es, aquele som que vai mais solto, mas esse n\u00e3o, a gente deixou os riffs comandarem a parada. Eu gosto de can\u00e7\u00e3o, p\u00f4, sempre gostei muito de Dinosaur Jr., o J Mascis acabou de lan\u00e7ar o disco dele com viol\u00e3o (\u201cWhat Do We Do Now\u201d). N\u00e3o tem fuzz, mas tem a mesma coisa que ele sempre fez, e est\u00e1 bonito pra caralho! Gosto muito dessa estrutura mais \u201ccatchy\u201d da coisa, ent\u00e3o ao mesmo tempo que eu queria que fosse mais pesado e mais punk, queria tamb\u00e9m que fosse algo que a galera pudesse sacar que \u00e9 essa a minha est\u00e9tica, minha escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/09\/24\/ao-vivo-mesmo-com-suas-falhas-encontro-de-bike-e-tagore-prova-que-existem-muitos-caminhos-para-a-psicodelia-brasileira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antes do show do BIKE com Tagore em S\u00e3o Paulo<\/a>, conversei com J\u00falio [Cavalcante, o outro guitarrista\/vocalista do BIKE] e ele falou que voc\u00eas eram bem conscientes das limita\u00e7\u00f5es que as vozes que cada um t\u00eam. Ele contou que isso inclusive faz com que voc\u00eas j\u00e1 componham pro BIKE pensando em como acomodar as vozes. Mas nesse disco da DX, sua voz tem muitos registros diferentes, e as can\u00e7\u00f5es v\u00e3o para outros caminhos que exigem mais dela. Voc\u00ea decidiu explorar outros jeitos de cantar, outros usos do teu registro?<\/strong><br \/>\nBasicamente foi isso, sim. Foi uma coisa que foi amadurecendo ali na no quebra-cabe\u00e7a da pandemia. Tentei algumas coisas que eu nunca tinha feito com a minha voz. Na pandemia fiquei muito na pira de Nick Cave, Dry Cleaning, que t\u00eam uma coisa meio spoken word. Eu queria fazer uma parada assim, s\u00f3 que \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea fazer esse canto falado tocando guitarra, porque voc\u00ea est\u00e1 ali falando, mas o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo ritmicamente no instrumento, num determinado BPM, \u00e9 outra coisa. Ent\u00e3o foi um neg\u00f3cio que penei para encontrar meu caminho. Mas foi importante, porque esse neg\u00f3cio do berro, das m\u00fasicas mais gritadas, \u00e9 uma parada que tento evitar. Gosto muito, acho legal, mas sinto que a minha voz mudou com a idade. Cara, j\u00e1 n\u00e3o tenho tanta voz. Esse neg\u00f3cio de gritar arrebenta muito a voz, \u00e9 muito desgastante. Ent\u00e3o vi que ia ter que aprender a cantar diferente, de um jeito que eu consiga executar numa boa. Nessa de cantar diferente, as letras tamb\u00e9m foram mudando, porque n\u00e3o dava pra falar certas coisas que eu tinha escrito sem berrar. Ent\u00e3o fui pirando mais na fon\u00e9tica, nos tempos. Como o disco demorou muito pra sair, deu pra me aprofundar nessa parada, ensaiando, testando. A gente come\u00e7ou a compor em 2019, gravou em 2022. E tem coisas que a gente gravou que decidimos n\u00e3o colocar no disco, porque a gente julgava que n\u00e3o eram pesadas, n\u00e3o tinham a ver com o clima do disco. Realmente, elas s\u00e3o mais baladas, uma coisa meio p\u00f3s-\u201cRecortes\u201d, ainda tanto bonitinho e tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que um disco gravado dois anos atr\u00e1s est\u00e1 saindo agora?<\/strong><br \/>\n(risos) BIKE, tudo BIKE. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/07\/03\/faixa-a-faixa-arte-bruta-bike\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veio o \u201cArte Bruta\u201d<\/a>, e a banda era prioridade. Se eu tivesse lan\u00e7ado [o \u201cTrio\u201d], teria passado batido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu vi o BIKE <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/03\/paraiso-do-rock-celebra-rock-latino-e-atesta-que-congadar-e-maciel-salu-merecem-circular-por-outros-festivais-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no festival Para\u00edso do Rock em 2023<\/a> e estava claro que o clima entre a banda n\u00e3o estava bom. Reencontrei voc\u00eas quando abriram pro Los Espiritus em S\u00e3o Paulo, e o [Daniel] Fumega me disse que voc\u00eas iam aproveitar pra dar uma respirada e olhar com calma algumas coisas da banda. Ent\u00e3o parece que as nuvens que se instalaram com a turn\u00ea de 2019 ainda n\u00e3o se dissiparam. Al\u00e9m disso, voc\u00ea falou que chegou a se questionar enquanto m\u00fasico, produtor. Ent\u00e3o, cabe perguntar, j\u00e1 que voc\u00ea t\u00e1 revisitando tudo com esse disco: como voc\u00ea est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica hoje?<\/strong><br \/>\nCara, hoje eu me sinto um pouco mais confort\u00e1vel. Tipo, depois de todas essas DRs a\u00ed, depois do papel\u00e3o que a gente fez no festival (Para\u00edso do Rock), isso tudo foi um motivo enorme pra gente sentar e conversar (nota: a banda fez uma apresenta\u00e7\u00e3o sofr\u00edvel, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/03\/paraiso-do-rock-celebra-rock-latino-e-atesta-que-congadar-e-maciel-salu-merecem-circular-por-outros-festivais-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como contou Bruno Capelas na cobertura para o Scream &amp; Yell<\/a>). Hoje acho que a gente est\u00e1 bem mais alinhado. Foram v\u00e1rias, v\u00e1rias conversas v\u00e1rias DRS, tinha muita coisa para alinhar pra poder come\u00e7ar esse ano de um jeito legal, sem tretar. Realmente, o neg\u00f3cio estava foda, a coisa da expectativa versus realidade&#8230; Cada um estava numa fase da vida, com a sua correria e agora em 2024 a gente conseguiu acertar muitas coisas no termo pessoal de cada um. O Jo\u00e3o [Gouveia, baixista], por exemplo, \u00e9 professor e estava bem enrolado com as aulas dele. Ele tamb\u00e9m acabou abrindo um est\u00fadio aqui em S\u00e3o Jos\u00e9, e o Wasabi, o meu est\u00fadio, estava bem ruim at\u00e9 o ano passado. Eu estava bem desacreditado mesmo, n\u00e3o tinha nem banda ensaiando, mas parece que virou o ano e o neg\u00f3cio deu uma mudada grande. Eu at\u00e9 mandei mensagem para os caras numa semana que vieram duas bandas \u2013 banda de moleque, mesmo, cara que a m\u00e3e vem trazer para ensaiar, t\u00e1 ligado? \u2013coisa que s\u00f3 vi dez anos atr\u00e1s, quando abri o est\u00fadio. Bandas boas. Comecei a sentir que estava dando uma mudada no meu cen\u00e1rio profissional, e isso j\u00e1 me deu um conforto maior. At\u00e9 o ano passado, a gente basicamente estava vivendo de edital, e as bandas tamb\u00e9m estavam dentro de editais, agora eu sinto que que a galera \u2013 pelo menos aqui no Vale do Para\u00edba \u2013 est\u00e1 meio que dando uma reavivada da cena autoral de bandas de rock. Ent\u00e3o comigo me acertando, o Jo\u00e3o tamb\u00e9m se acertando, as coisas come\u00e7am a melhorar. Porque era isso, a gente estava se jogando pra caralho. Uma turn\u00ea nos Estados Unidos \u00e9 muito investimento, e depois que voc\u00ea faz o rol\u00ea, precisa pagar as contas, velho. E como eu ficava nessa? Porque o BIKE vai pagando as contas do pr\u00f3prio BIKE, e a grana demora para chegar na gente. Ent\u00e3o agora chegamos a um ponto em que esse lance melhorou bem, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais aquela postura quase de guerrilha. Era muito tempo fora de casa, muito tempo sem trampo, indo tocar aonde fosse&#8230; Esse ano a gente j\u00e1 decidiu que s\u00f3 vai tocar no que a gente for chamado, n\u00e3o vamos ficar inventando show, correndo atr\u00e1s. Vamos tentar um pouco botar as coisas no lugar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diego Xavier Trio - Estrada\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jdGz60tQraM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diego Xavier Trio - Passado - [TENDA] - 483\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bu9Qc50pRZk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diego Xavier Trio - Alvo Errado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WPvLekOm7IQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.&nbsp; A foto que abre o texto \u00e9 de Ana Karina Zaratin<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De seu est\u00fadio em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Diego Xavier abriu a c\u00e2mera para falar sobre um \u00e1lbum sem meias palavras, em estado de tens\u00e3o permanente, com momentos para explos\u00e3o. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/12\/diego_xavier_trio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":80903,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1771,7129],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80899"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80899"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80908,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80899\/revisions\/80908"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}