{"id":80873,"date":"2024-04-10T00:26:00","date_gmt":"2024-04-10T03:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80873"},"modified":"2024-05-06T16:11:08","modified_gmt":"2024-05-06T19:11:08","slug":"entrevista-jose-eduardo-belmonte-raphael-montes-e-reynaldo-gianecchini-falam-sobre-o-suspense-uma-familia-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/10\/entrevista-jose-eduardo-belmonte-raphael-montes-e-reynaldo-gianecchini-falam-sobre-o-suspense-uma-familia-feliz\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jos\u00e9 Eduardo Belmonte, Raphael Montes e Reynaldo Gianecchini falam sobre o suspense &#8220;Uma Fam\u00edlia Feliz&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roteirizado pelo jovem e prodigiosos escritor Raphael Montes, que j\u00e1 havia tido \u00eaxito como autor do livro que deu origem \u00e0 s\u00e9rie da Netflix \u201cBom Dia Ver\u00f4nica\u201d, e dirigido pelo veterano Jos\u00e9 Eduardo Belmonte, \u201cUma Fam\u00edlia Feliz\u201d (2024) constr\u00f3i \u2013 em seus pouco mais de cem minutos \u2013 uma narrativa de suspense que instiga a audi\u00eancia por nunca deixar muito claro as inten\u00e7\u00f5es e naturezas de seus personagens centrais. Ao abordar a rotina de uma fam\u00edlia aparentemente perfeita (que concretiza a ideia ir\u00f4nica de seu t\u00edtulo), Montes, em seu roteiro, destrincha a plasticidade falsa de uma classe social branca e rica, a famosa &#8220;beautiful people&#8221;, mas que, naquela vida reluzente feito cristal, a mesma fragilidade dessa met\u00e1fora comparativa se destaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bela Eva (Grazzi Massafera, mais uma vez surpreendendo em pap\u00e9is dram\u00e1ticos) \u00e9 uma jovem artes\u00e3 de bonecas hiper-realistas que est\u00e1 gr\u00e1vida do primeiro filho. Casada com Vicente, um jovem e bem-sucedido advogado (Reynaldo Gianecchini, caprichando em manter a real personalidade e motiva\u00e7\u00f5es de seu personagem nas sombras) e madrasta das g\u00eameas filhas oriundas do primeiro casamento de seu esposo, Eva tem em sua vida a aparente perfeita rotina que toda jovem m\u00e3e busca. Dedicada \u00e0 casa luxuosa e aos cuidados dom\u00e9sticos com as enteadas e marido, ela, tamb\u00e9m, encontra tempo para manter sua profiss\u00e3o de artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, nos sorrisos perfeitos e tes\u00e3o em un\u00edssono daquele casal ideal, uma personalidade passivo-agressiva por parte do marido se esconde. Um comportamento t\u00f3xico que encontra vaz\u00e3o no menosprezo para com a profiss\u00e3o de sua esposa. Ap\u00f3s o nascimento do beb\u00ea, o estresse oriundo de todo trabalho que chega junto com o rebento, bem como uma s\u00e9rie de acontecimentos suspeitos de viol\u00eancia dom\u00e9stica com as crian\u00e7as vem \u00e0 tona. Em sua dire\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o apela para sustos f\u00e1ceis, Belmonte se apoia de modo eficiente na dire\u00e7\u00e3o de arte do filme, que utiliza as bonecas fabricadas por Eva para gerar uma an\u00e1lise pl\u00e1stica e herm\u00e9tica daquele ambiente falso onde vive a mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e0 medida que o filme vai desenvolvendo sua trama e os mist\u00e9rios relacionados ao que realmente vem acontecendo de violento com as crian\u00e7as, o p\u00fablico \u00e9 levado a conhecer as nuances psicol\u00f3gicas tanto de Vicente e Eva, quanto do mais surpreendente elo que liga aqueles familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor Belmonte, em entrevista ao Scream &amp; Yell, falou sobre essa jun\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es com Raphael Montes, que, al\u00e9m de roteirizar o filme, trabalhou como diretor-assistente. &#8220;Todo o processo \u00e9 dial\u00e9tico. O cinema \u00e9 um processo dial\u00e9tico na sua pr\u00f3pria origem. Ele \u00e9 l\u00fadico e \u00e9 tecnol\u00f3gico ao mesmo tempo. Parto do pressuposto de que em todo o processo dial\u00e9tico, voc\u00ea tem que estar se ajustando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, \u00e0s circunst\u00e2ncias e \u00e0s pessoas. Venho da escola de document\u00e1rio. Ent\u00e3o, trabalho muito nessa l\u00f3gica. \u00d3bvio, s\u00e3o vis\u00f5es de mundo e jeitos diferentes. \u00d3bvio que a gente \u00e0s vezes discorda, mas somos adultos e profissionais, tamb\u00e9m. E tem uma coisa bacana: estamos preocupados com o resultado. Temos um bem comum nas nossas discord\u00e2ncias (o filme), e acho que ele prevaleceu sempre. Foi um processo muito rico&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80877\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael Montes afirma que, mesmo tendo roteirizado o filme (que se tornou livro em uma expans\u00e3o ap\u00f3s ter tido sua origem como roteiro), esteve no set n\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o de escritor, mas, sim, de diretor-assistente. &#8220;Quando fui para o set, tentei ir n\u00e3o como autor. Tentei ter uma vis\u00e3o de algu\u00e9m que est\u00e1 l\u00e1 como diretor-assistente. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes no set surgia alguma coisa, e eu, em vez de ser o autor e falar &#8216;N\u00e3o, mas no roteiro est\u00e1 assim&#8217;, eu falava \u2018Ficou bom. Vamos nisso, Belmonte. O que voc\u00ea acha?\u2019 Tinha um pouco desse processo. O autor que escreveu o roteiro n\u00e3o foi para o set. Quem foi para o set foi o diretor-assistente&#8221;, confirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Reynaldo Gianecchini, o aspecto amb\u00edguo de seu personagem foi algo que ele utilizou na composi\u00e7\u00e3o de Vicente. &#8220;Como um bom filme de g\u00eanero, thriller, esse elemento foi muito importante. Criar esse mist\u00e9rio e n\u00e3o deixar nada super expl\u00edcito. T\u00ednhamos, claro, que ter esse cuidado, essa preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o revelar nada (antes). A ideia era criar o tempo todo essa ambiguidade para que esse personagem n\u00e3o fosse, em nenhum momento, entendido de cara. Faz parte do thriller isso. Ent\u00e3o, foi um processo interessante de fazer no set&#8221;, relembra o ator.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma Fam\u00edlia Feliz\u201d representa um retorno do ator ao cinema ap\u00f3s uma revisita \u00e0s suas origens, quando come\u00e7ou a se interessar pelo tablado no Teatro Oficina, que tinha o saudoso dramaturgo Z\u00e9 Celso como idealizador e guerreiro \u00e0 frente. Tal revisita aconteceu em \u201cF\u00e9dro\u201d, filme lan\u00e7ado em 2021. Baseado em Plat\u00e3o, o longa traz o pr\u00f3prio Z\u00e9 Celso ao lado de seu pupilo em uma conversa intima dentro de um apartamento. No papo com o Scream &amp; Yell, Gianecchini comentou o impacto de reencontrar e atuar ao lado do seu mentor. &#8220;Essa palavra \u00e9 muito boa. Impacto. \u00c9 o que o Z\u00e9 Celso me causa. Fazer o \u2018F\u00e9dro\u2019, para mim, foi de, uma certa forma, olhar para tanta coisa minha, sabe? Foi muito importante aquele dia que eu passei l\u00e1, fechado com ele, em um apartamento e falando sobre tantas coisas. Acho que abriu muito a minha cabe\u00e7a para um monte de coisas. Porque ele tem uma liberdade que \u00e9 gigante. E isso s\u00f3 faz a gente entender o quanto temos a nossas amarras quando estamos diante de uma pessoa assim, t\u00e3o livre&#8221;, afirma o ator em rela\u00e7\u00e3o ao mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar de Z\u00e9 Celso e da experi\u00eancia em \u201cF\u00e9dro\u201d, Gianecchini relembra com uma introspec\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel sua origem nos palcos. &#8220;Artisticamente, tudo comigo come\u00e7ou ali. Ele foi o que o cara que, de uma certa forma, fez eu entender que eu queria ser ator e, principalmente, ator de teatro. Acho que mudou muito depois de que eu passei aquela tarde com ele. Parece besteira falar isso, mas, algo l\u00e1 dentro mexe com um desafio seu, do artista. Do que \u00e9 ser artista. Do que voc\u00ea quer. E foi num momento muito perfeito de transi\u00e7\u00e3o minha. Quero parar um pouco de fazer novela ap\u00f3s vinte anos. Quero fazer personagens e me desafiar em outras narrativas, em outros jeitos de contar hist\u00f3ria, em outros ve\u00edculos. Tudo isso veio junto para eu repensar o artista que eu quero ser. O ser humano que eu quero ser. Os processos que eu quero viver com artistas que me levam para viver os processo como ser humano. Porque, quando a gente aceita um trabalho, a gente est\u00e1 se propondo tamb\u00e9m a viver umas experi\u00eancias pessoais muito significantes. Z\u00e9 Celso tem muito a ver com isso. Foi lindo de ver a sincronicidade da vida&#8221;, filosofa o ator.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia abaixo na \u00edntegra a entrevista com Jos\u00e9 Eduardo Belmonte, com Raphael Montes e com Reynaldo Gianecchini.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Uma Fam\u00edlia Feliz - Trailer oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/698K_oIxjG0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma vez que no set estava presente o Raphael Montes na fun\u00e7\u00e3o de diretor-assistente, para voc\u00eas foi dif\u00edcil encontrar um un\u00edssono de pensamentos entre roteirista e diretor na execu\u00e7\u00e3o do projeto \u201cUm Fam\u00edlia Feliz\u201d?<\/strong><br \/>\nJos\u00e9 Eduardo Belmonte \u2013 Todo o processo \u00e9 dial\u00e9tico. O cinema \u00e9 um processo dial\u00e9tico na sua pr\u00f3pria origem. Ele \u00e9 l\u00fadico e \u00e9 tecnol\u00f3gico ao mesmo tempo. Ele \u00e9 muito industrial e l\u00fadico ao mesmo tempo. Parto do pressuposto de que em todo o processo dial\u00e9tico voc\u00ea tem que estar se ajustando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, \u00e0s circunst\u00e2ncias e \u00e0s pessoas. Venho da escola de document\u00e1rio. S\u00f3 fiz um document\u00e1rio em minha vida, mas a minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 de documentarista. Ent\u00e3o, trabalho muito nessa l\u00f3gica. \u00d3bvio, s\u00e3o vis\u00f5es de mundo e jeitos diferentes. \u00d3bvio que a gente \u00e0s vezes discorda, mas somos adultos e profissionais. Trabalhamos nessa l\u00f3gica. E tem uma coisa bacana: estamos preocupados com o resultado. Temos um bem comum nas nossas discord\u00e2ncias e eu acho que esse bem comum prevaleceu sempre. Foi muito rico. Quando a gente reflete, podemos pensar: &#8220;De repente, eu faria diferente? Sim&#8221;. E o Rapha, tamb\u00e9m, faria algo diferente. Mas isso \u00e9 bonito. Porque vejo o filme e ele \u00e9, no bom sentido da palavra, um mix entre o universo do Rapha e o meu universo. Se voc\u00ea assiste ao filme e voc\u00ea l\u00ea o livro, ele \u00e9 muita mistura do universo dos meus filmes com o universo do Rafael. Isso \u00e9 muito bacana no cinema: a arte do encontro. \u00c9 uma arte dial\u00e9tica em que voc\u00ea cria a s\u00edntese. E \u00e9 bonito quando a s\u00edntese consegue acontecer. J\u00e1 vivi processos como produtor em filmes com outros produtores no qual essa s\u00edntese n\u00e3o aconteceu. Ficava um tro\u00e7o meio amb\u00edguo, no mau sentido. Algo tipo, &#8220;\u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9 isso&#8221;, sabe? Aqui, conseguimos uma organicidade. Com muita conversa, com muito di\u00e1logo e com muita discord\u00e2ncia, tamb\u00e9m. Isso \u00e9 do processo dos adultos e dos profissionais. \u00c9 uma coisa um pouco de fam\u00edlia e \u00e9 bonito. Tem as tias e os primos da fam\u00edlia. A diretora de fotografia, a diretora de arte, a produtora, o elenco, que teve uma participa\u00e7\u00e3o muito grande na dramaturgia desse processo \u2013 o trabalho do Giane (Reynaldo Gianecchini), o trabalho da Grazi (Massafera). O processo todo \u00e9 colaborativo. E ele s\u00f3 \u00e9 bom assim. A ideia e o conceito de dire\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito superestimados. A ideia do diretor em um grande trono, como um grande autor, isso n\u00e3o existe no cinema. Isso \u00e9 um paradigma que se inventou nos anos 1960 que precisamos repensar. Assim como tamb\u00e9m a ideia da televis\u00e3o, do autor, como o cara que est\u00e1 em um trono respons\u00e1vel pela decis\u00e3o. Isso \u00e9 um paradigma antigo. O paradigma moderno \u00e9 o do processo colaborativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael Montes \u2013 Concordo totalmente com Belmonte. O mais importante nesse processo foi o nosso di\u00e1logo. E, justamente, ainda que tendo eventuais discord\u00e2ncias, que, sendo honesto, nem foram tantas, o que foi muito importante para n\u00f3s, desde o in\u00edcio, foi responder: &#8220;o que a gente quer fazer juntos?&#8221;. A gente falava muito de refer\u00eancias. &#8220;O que a gente quer fazer?&#8221; E concordamos que a gente queria fazer um bom suspense brasileiro. Quer\u00edamos fazer um suspense com elementos brasileiros, em um universo brasileiro que, de algum modo, tem um pouco de melodrama. Tem um pouco do que a gente j\u00e1 tem na nossa cinematografia, vamos dizer. Mas que fosse um suspense que homenageasse as chaves do g\u00eanero e que impactasse o p\u00fablico nesse lugar do g\u00eanero. Ent\u00e3o, tendo isso como premissa, as nossas conversas eram em cima disso. Ou seja, quer\u00edamos fazer o mesmo filme. Claro que \u00e0s vezes enxerg\u00e1vamos diferente a maneira de fazer isso. Mas concordo totalmente com o Belmonte: hoje, ao assistir ao filme, o vejo como sendo muito meu, com a minha assinatura. Mas, tamb\u00e9m, sim, \u00e9 um filme muito do Belmonte. E isso que \u00e9 o bonito do processo, sabe? Se esse filme fosse escrito por mim e dirigido por outro diretor, ele seria um outro filme. Porque \u00e9 isso. Tem a identidade do Belmonte muito ali. E esse encontro foi muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi esse processo entre deixar a fun\u00e7\u00e3o de escritor e passar para a de diretor-assistente no set?<\/strong><br \/>\nRaphael Montes \u2013 O processo do escritor \u00e9 muito solit\u00e1rio. Escrever livro \u00e9 algo muito sozinho. Voc\u00ea decide tudo. N\u00e3o tem problema de or\u00e7amento. N\u00e3o tem um produtor te ligando e falando \u201cisso \u00e9 muito caro\u201d, que tem que repensar. Posso fazer o que eu quiser no livro. Ent\u00e3o, como o processo do escritor \u00e9 muito solit\u00e1rio, o processo do audiovisual tem essa coisa da troca, que gosto de fazer. \u00c9 justamente o que chega do outro. E no set tentei, quando ia, ir muito como diretor-assistente, n\u00e3o como autor. Tentei ter uma vis\u00e3o de algu\u00e9m que est\u00e1 l\u00e1 como diretor-assistente. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes no pr\u00f3prio set, surgia alguma coisa, e eu, em vez de ser o autor e falar &#8220;N\u00e3o, mas no roteiro est\u00e1 assim&#8221;, eu falava &#8220;Mas isso ficou bom. Vamos nisso, Belmonte. O que voc\u00ea acha?&#8221; O autor que escreveu o roteiro n\u00e3o foi para o set. Quem foi para o set foi o diretor-assistente. Como m\u00e9todo, n\u00f3s definimos como \u00e9 que funcionaria no set, que \u00e9 um lugar em que \u00e9 muito importante o diretor ter essa esp\u00e9cie de controle do que est\u00e1 acontecendo. Ent\u00e3o, eventualmente, quando tinha alguma sugest\u00e3o, eu falava com o Belmonte, e ele me dizia: &#8220;Rapha, essa \u00e9 uma boa ideia&#8221;. Ou ent\u00e3o: &#8220;N\u00e3o, Rapha, n\u00e3o \u00e9 preciso&#8221;. Porque o Belmonte monta filmes. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, eu falava: &#8220;Belmonte, vamos fazer um plano assim?&#8221; E ele respondia: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o preciso desse plano porque daqui j\u00e1 corto para l\u00e1&#8221;. Foi um aprendizado para mim. Aprendi muito tamb\u00e9m vendo isso tudo no set com ele.<\/p>\n<figure id=\"attachment_80876\" aria-describedby=\"caption-attachment-80876\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-80876\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"734\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz2-300x294.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-80876\" class=\"wp-caption-text\"><em>O diretor Jos\u00e9 Eduardo Belmonte e o roteirista e diretor-assistente Raphael Montes<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro expande a hist\u00f3ria do roteiro do filme. Imagino que essa liberdade maior na escrita lhe deu mais possibilidades para desenvolvimento dos personagens e da hist\u00f3ria.<\/strong><br \/>\nRaphael Montes \u2013 Sim. E foi prazeroso escrever primeiro o roteiro e, dele, escrever o livro. Do roteiro, pude expandir e fazer o romance. Al\u00e9m de expandir, pois tem alguns acontecimentos que simplesmente n\u00e3o existem no filme porque n\u00e3o cabia, ele \u00e9 da perspectiva da Eva. O romance \u00e9 narrado em primeira pessoa a partir da cabe\u00e7a da protagonista. Ent\u00e3o, eu ainda pude entrar na personagem, que \u00e9 algo muito pr\u00f3prio da literatura, a figura do narrador. No cinema, a c\u00e2mera est\u00e1 l\u00e1 filmando e ela \u00e9 externa. Na literatura, eu consigo entrar na cabe\u00e7a da personagem. E isso \u00e9 muito legal para mim. Ent\u00e3o, foi um prazer e uma alegria, porque pude expandir o universo, fazendo o livro a partir do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reynaldo, seu personagem traz uma personalidade muito d\u00fabia, uma presen\u00e7a amb\u00edgua. Como foi a constru\u00e7\u00e3o do Vicente para que se pudesse transmitir \u00e0 audi\u00eancia essa sensa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nReynaldo Gianecchini \u2013 Como um bom filme de g\u00eanero, thriller, esse elemento foi muito importante. Criar esse mist\u00e9rio e n\u00e3o deixar nada super expl\u00edcito. \u00c9 um personagem que o tempo todo tem que estar amb\u00edguo. Assim como todos. A gente tinha, claro, que ter esse cuidado, essa preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o revelar nada antes. Seria o contr\u00e1rio. A ideia era criar o tempo todo essa ambiguidade para que esse personagem n\u00e3o fosse, em nenhum momento, entendido de cara. Faz parte do thriller isso. Ent\u00e3o, foi um processo interessante de fazer np set. Contei muito com o Belmonte, que criava uma din\u00e2mica para cada cena para que ali tivessem todos os elementos, mas que fossem ocultos, tamb\u00e9m. \u201cUma Fam\u00edlia Feliz\u201d \u00e9 um filme sobre as apar\u00eancias. Ent\u00e3o, na interpreta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, era sobre o que a gente escondia. Tinham que estar l\u00e1 v\u00e1rias emo\u00e7\u00f5es, mas ocultas. O mist\u00e9rio surgia disso. E junto tamb\u00e9m vem a montagem, todo o trabalho de aten\u00e7\u00e3o do Belmonte, que, tamb\u00e9m, \u00e9 o montador do filme. A gente conseguiu uma coisa que, eu assistindo ao filme, eu mesmo fico achando o Vicente muito misterioso. Eu sei tudo o que eu fiz, mas como p\u00fablico, assisti e consegui me desprender, embarcar muito na hist\u00f3ria e ficar completamente intrigado com esse cara. Por exemplo, ele parece muito fofo. E, claro, a gente tinha que ter essa camada relacionada ao pai que, aparentemente, \u00e9 presente ali com as filhas, ajuda na casa. Mas, ao mesmo tempo, o Belmonte usava uma palavra muito boa para defini-lo. Ele \u00e9 o passivo agressivo. Ele parece fofo, mas tamb\u00e9m agride no momento em que ele descredibiliza bastante a mulher. E ele \u00e9 machists quando solta umas frases e a descredibiliza como esposa e m\u00e3e. S\u00e3o v\u00e1rias coisinhas que tinham que estar presentes ali e que a gente ia construindo cena a cena com muito cuidado para deixar sempre essa ambival\u00eancia no ar. Foi um processo dif\u00edcil. \u00c9 dif\u00edcil de fazer. Mas, por isso mesmo, muito instigante e muito prazeroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUma Fam\u00edlia Feliz\u201d \u00e9 o seu primeiro filme ap\u00f3s ter lan\u00e7ado h\u00e1 dois anos o document\u00e1rio \u201cF\u00e9dro\u201d, que trazia voc\u00ea e o Z\u00e9 Celso em cena. Revisitar sua origem no Teatro Oficina, passar aquele per\u00edodo em cena com o seu mentor, gerou um impacto muito forte, imagino. Como foi esse revisitar de sua trajet\u00f3ria, de olhar para tr\u00e1s em sua vida art\u00edstica e pessoal, e voltar ao cinema ap\u00f3s esse processo?<\/strong><br \/>\nReynaldo Gianecchini \u2013 Essa palavra \u00e9 muito boa: impacto. \u00c9 o que Z\u00e9 Celso me causa. Fazer o \u201cF\u00e9dro\u201d foi olhar para tanta coisa minha. Aquele dia que eu passei l\u00e1 fechado com ele em um apartamento e falando sobre tantas coisas foi muito importante. Acho que abriu muito a minha cabe\u00e7a para um monte de coisas. Z\u00e9 Celso tem uma liberdade que \u00e9 gigante. E isso s\u00f3 faz a gente entender o quanto temos as nossas amarras quando estamos diante de uma pessoa assim, t\u00e3o livre. Artisticamente tamb\u00e9m. De certa forma, tudo comigo come\u00e7ou ali. Ele foi o cara que, de certa forma, me fez entender que eu queria ser ator. Principalmente, ator de teatro. Acho que mudei muito depois que passei aquela tarde com ele. Parece besteira falar isso, mas algo l\u00e1 dentro mexe com um desafio seu, do artista. Do que \u00e9 ser artista. Do que voc\u00ea quer. E foi num momento muito perfeito, porque \u00e9 um momento de transi\u00e7\u00e3o minha. Eu tamb\u00e9m quero parar um pouco de fazer novela ap\u00f3s vinte anos. Quero fazer personagens e me desafiar em outras narrativas, em outros jeitos de contar hist\u00f3rias, em outros ve\u00edculos. Tudo isso veio junto para eu repensar o artista que eu quero ser, o ser humano que eu quero ser, os processos que eu quero viver com artistas que me levam para viver os processo como ser humano. Porque, quando a gente aceita um trabalho, a gente est\u00e1 se propondo tamb\u00e9m a viver umas experi\u00eancias pessoais muito significantes. Z\u00e9 Celso tem muito a ver com isso. Foi lindo de ver a sincronicidade da vida. Como isso vai te levando. Sinto que, no cinema, ainda faltava eu fazer personagens que eu pudesse me expressar, talvez, de uma forma maior. Tive boas oportunidades na TV fazendo novela e muitas no teatro. Eu fiz, durante muito tempo, essas duas coisas, menos cinema. Ent\u00e3o, acho que, agora, a minha vontade \u00e9 de fazer muito mais esses mergulhos no cinema, que s\u00e3o narrativas um pouco mais elaboradas de voc\u00ea contar a hist\u00f3ria. Estou tendo a sorte de receber bons personagens como esse de \u201cUma Fam\u00edlia Feliz\u201d, como o de \u201cBom Dia, Ver\u00f4nica\u201d. Acho que tudo vem na hora certa. Estou muito feliz com isso. Quando voc\u00ea repensa a trajet\u00f3ria, gosto muito de olhar para tr\u00e1s e ver como tudo veio na hora certa. E como tudo me encaminhou para um crescimento profissional, pessoal, para eu estar aqui pensando e fazendo o que eu estou fazendo hoje.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80875\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1101\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/familiafeliz1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Filme constr\u00f3i \u2013 em seus pouco mais de cem minutos \u2013 uma narrativa de suspense que instiga a audi\u00eancia por nunca deixar muito claro as inten\u00e7\u00f5es e naturezas de seus personagens centrais.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/10\/entrevista-jose-eduardo-belmonte-raphael-montes-e-reynaldo-gianecchini-falam-sobre-o-suspense-uma-familia-feliz\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":80874,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7124,7125],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80873"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80873"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80881,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80873\/revisions\/80881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80874"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}