{"id":80766,"date":"2024-04-03T01:13:33","date_gmt":"2024-04-03T04:13:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80766"},"modified":"2024-09-04T00:36:20","modified_gmt":"2024-09-04T03:36:20","slug":"tres-livros-em-agosto-nos-vemos-coelho-maldito-e-cupim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/03\/tres-livros-em-agosto-nos-vemos-coelho-maldito-e-cupim\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas livros: &#8220;Em Agosto nos Vemos&#8221;, &#8220;Coelho Maldito&#8221; e &#8220;Cupim&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80774\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/gabo1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/gabo1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/gabo1-300x152.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cEm Agosto nos Vemos\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Editora Record)<\/strong><br \/>\nTodo m\u00eas de agosto, Ana Magdalena Bach pega uma barca em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ilha onde a m\u00e3e est\u00e1 enterrada para visitar o seu t\u00famulo. Ali, deposita um ramo de gladiolos. O ritual se repete, ano ap\u00f3s ano. Ana Magdalena, Gabo nos diz, era, ent\u00e3o, uma mulher de &#8220;quarenta e seis anos de vida e vinte sete de um matrim\u00f4nio bem estabelecido com um homem que amava e que a amava&#8221;. Durante oito anos, o ritual se repetiu. A barca, o t\u00famulo, o ramo de gladiolos. At\u00e9 a chegada deste novo m\u00eas de agosto e um inesperado encontro casual. Pelos pr\u00f3ximos anos, sozinha naquele pequeno vilarejo, cada oitavo m\u00eas do ano se transforma numa possibilidade de reescrever a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mesmo que por apenas um dia. \u201cNo entanto, ela precisou de v\u00e1rios dias para tomar consci\u00eancia de que as mudan\u00e7as n\u00e3o eram no mundo, e sim nela pr\u00f3pria, que sempre andou pela vida sem enxerg\u00e1-la e s\u00f3 naquele ano, ao regressar da ilha, come\u00e7ou a v\u00ea-la com olhos de aprendiz\u201d. Traduzido por Eric Nepomuceno, \u201cEm Agosto nos Vemos&#8221; \u00e9 um livro sobre descobertas. Na figura de Ana Magdalena Bach, Gabo escreve sobre o desejo, o prazer e a liberdade feminina, num interessante desenvolvimento de personagem. A protagonista mergulha de bra\u00e7os abertos numa jornada de autodescoberta bonita, po\u00e9tica e, sobretudo, excitante. Refer\u00eancias liter\u00e1rias e musicais pontuam toda a novela, nos ajudando a construir essa complexa persona de nome inspirado na segunda esposa de Johann Sebastian Bach, Anna Magdalena Bach. A leitura de &#8220;Em Agosto nos Vemos&#8221;, livro p\u00f3stumo de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez lan\u00e7ado agora no Brasil pela Editora Record, tem sabor agridoce. &#8220;Esse livro n\u00e3o presta. Tem que ser destru\u00eddo&#8221;, declarou um dia o pr\u00f3prio escritor, entre as idas e vindas de vers\u00f5es e revis\u00f5es do texto. No fim, confesso, que bom que o desejo de Gabo n\u00e3o foi atendido. Ter\u00edamos perdido a oportunidade de conhecer esta sua \u00faltima libertadora protagonista.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80772\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/coelhomaldito.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/coelhomaldito.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/coelhomaldito-300x152.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCoelho Maldito\u201d, de Bora Chung (Editora Alfaguara)<\/strong><br \/>\n\u201cTodo objeto tem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria\u201d, nos diz o narrador do conto que abre &#8211; e nomeia &#8211; este conjunto de narrativas breves da sul-coreana Bora Chung, \u201cCoelho Maldito\u201d (&#8220;Cursed Bunny&#8221; em ingl\u00eas), traduzido por Hyo Jeong Sung. A partir da\u00ed, o conto apresenta a hist\u00f3ria de um objeto especial, um abajur em formato de coelho. O que seria apenas um item cotidiano, sem muita import\u00e2ncia, guarda uma maldi\u00e7\u00e3o. \u201cTudo que \u00e9 usado em maldi\u00e7\u00e3o deve ser bonito\u201d era o mantra do av\u00f4, artes\u00e3o dedicado na arte dos objetos amaldi\u00e7oados. O coelho, claro, n\u00e3o fugia \u00e0 regra. Sua beleza foi a ru\u00edna daqueles que o manusearam. Cada conto de \u201cCoelho Maldito\u201d parece um objeto amaldi\u00e7oado, belamente esculpido e burilado. Ainda que o belo, aqui, tamb\u00e9m resida no grotesco, como numa narrativa onde uma mulher precisa lidar com os pr\u00f3prios excrementos que, pouco a pouco, ganham forma, tomando contornos &#8211; e espelhamentos &#8211; que ela n\u00e3o gostaria de encarar. Este, ali\u00e1s, \u00e9 o meu favorito do conjunto. De um garoto mantido sob c\u00e1rcere por um estranho e inimagin\u00e1vel ser \u2013 descobrindo que, na t\u00e3o sonhada liberdade, talvez residam pris\u00f5es t\u00e3o ou mais arbitr\u00e1rias \u2013 \u00e0 uma mulher que lida com estranhos acontecimentos em um antigo pr\u00e9dio, num bairro de vizinhan\u00e7a pouco simp\u00e1tica \u00e0 novos moradores, Bora Chung trabalha elementos do terror e do suspense, do gore, do folclore e da fantasia de maneira firme e bastante natural. Talvez a marca do conjunto seja a forma como seus personagens lidam com o estranho como algo que est\u00e1 ali e precisa ser encarado, por vezes, enfrentado e, na maioria das vezes, apenas aceitado como parte da paisagem e do cotidiano. Nesse ponto, algo a aproxima bastante das narrativas voltadas para o realismo m\u00e1gico. No fim, por meio de elementos fant\u00e1sticos &#8211; e tabus como o incesto e o canibalismo, por exemplo &#8211; Chung nos diz de medos, rela\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias puramente humanas, como o patriarcado, a n\u00e3o-autonomia do corpo feminino, a maternidade e o capitalismo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80773\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/cupim2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/cupim2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/cupim2-300x152.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCupim\u201d, de Layla Martinez (Editora Alfaguara)<\/strong><br \/>\nCom suas pequenas, mas potentes mand\u00edbulas, o cupim procura toda e qualquer oportunidade para se alimentar. Corroendo a madeira de dentro pra fora, esses seres diminutos deixam marcas, por vezes, indel\u00e9veis por onde passam. Assim tamb\u00e9m parece ser a narrativa da espanhola Layla Martinez nesta pequena grande j\u00f3ia de terror. Aqui, piores que cupins, s\u00e3o outras coisas (e sentimentos) que a corroem exaustivamente. Corroendo n\u00e3o apenas a casa, mas todos que nela habitam. A corros\u00e3o vem das sombras que ali permanecem junto de suas moradoras, vem de um desejo de vingan\u00e7a que segue de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Um \u00f3dio tanto contra quem habita a casa ao seu lado, quanto contra aqueles que lhe observam de fora, no conforto de seus lares, de seus bens conquistados a partir da mis\u00e9ria de outrem. \u201cCupim\u201d (&#8220;Carcoma&#8221; no original), traduzido por Joana Ang\u00e9lica d&#8217;Avila Melo, remonta h\u00e1 quatro gera\u00e7\u00f5es de mulheres, a partir dos relatos intercalados de duas delas, uma av\u00f3 e uma neta. Layla Martinez escreve com furor, numa esp\u00e9cie de fluxo de consci\u00eancia que rompe a barreira das v\u00edrgulas, num texto onde a fluidez se alia \u00e0 f\u00faria. H\u00e1 momentos em que o texto parece gritar. Um grito entalado na garganta. Adentramos o \u00edntimo de um lar assombrado pelo \u00f3dio, por aqueles que ali permanecem mesmo ap\u00f3s a morte, pelo fantasma da Guerra Civil Espanhola, por desaparecimentos repentinos e sem explica\u00e7\u00e3o. \u201cCupim\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre mulheres e \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre homens que odeiam mulheres. Sobre um suposto desejo que mal disfar\u00e7a o \u00f3dio do masculino pelo feminino. \u00c9 sobre o revide. Ou melhor, sobre a revanche, n\u00e3o um substantivo masculino, mas feminino.<\/p>\n<hr \/>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"En agosto nos vemos. Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PqMSNDu7tMg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bora Chung reads from \u2018Cursed Bunny\u2019\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RngIFjmFsOQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Club de lectura con Layla Martinez\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VGrnlIp3-s4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Livro p\u00f3stumo de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez ltem sabor agridoce; Bora Chung trabalha elementos do terror e do suspense, do gore, do folclore e da fantasia em \u201cCoelho Maldito\u201d; \u201cCupim\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre mulheres e \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre homens que odeiam mulheres.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/03\/tres-livros-em-agosto-nos-vemos-coelho-maldito-e-cupim\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":80785,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[3007,7117,3358,7118,7119,741],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80766"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80766"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80784,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80766\/revisions\/80784"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}