{"id":80622,"date":"2024-03-25T03:31:00","date_gmt":"2024-03-25T06:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80622"},"modified":"2024-04-18T12:22:28","modified_gmt":"2024-04-18T15:22:28","slug":"entrevista-paulo-miklos-e-pedro-serrano-falam-sobre-saudosa-maloca-um-mergulho-poetico-e-comico-na-obra-de-adoniran-barbosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/25\/entrevista-paulo-miklos-e-pedro-serrano-falam-sobre-saudosa-maloca-um-mergulho-poetico-e-comico-na-obra-de-adoniran-barbosa\/","title":{"rendered":"Entrevista: Paulo Miklos e Pedro Serrano falam sobre &#8220;Saudosa Maloca&#8221;,  mergulho po\u00e9tico e c\u00f4mico na obra de Adoniran"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morar longe, l\u00e1 em Ja\u00e7an\u00e3, e se esfor\u00e7ar para n\u00e3o perder o trem que sai agora \u00e0s 11h por dois motivos: a m\u00e3e n\u00e3o dorme enquanto ele n\u00e3o chega e porque, se perd\u00ea-lo, s\u00f3 amanh\u00e3 de manh\u00e3. Marcar um samba l\u00e1 no Br\u00e1s, na casa do coligado Arnesto. Ser alertado de levar uns embutidos e umas biritas. Chegar na hora combinada e dar de cara com a casa vazia, a porta fechada e sem o aviso do amigo colado (o vento levou). A balconista do Black Tie, o boteco do samba, Iracema, com sua beleza, talento para a arte do figurino e tragicidade futura. A derrubada do palacete abandonado, uma saudosa maloca onde viviam Jo\u00e3o, Joca e Mato Grosso, os tr\u00eas amigos com alergia a trabalho e afinidade por duas coisas: cacha\u00e7a e samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os causos e personagens citados acima s\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Rubinato, o comediante e sambista que adotou para si a alcunha lend\u00e1ria de Adoniran Barbosa. Tais cria\u00e7\u00f5es, agora, ilustram uma maneira po\u00e9tica de conhecermos quem foi tal gigante. E o nome da obra cinematogr\u00e1fica que batiza essa visita com liberdade po\u00e9tica \u00e0 sua trajet\u00f3ria n\u00e3o poderia ser mais apropriado que o mesmo que batizava o palacete em ru\u00ednas onde viviam algumas de suas cria\u00e7\u00f5es: \u201cSaudosa Maloca\u201d (2024).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirigido por Pedro Serrano e com Paulo Miklos encarnando Adoniran Barbosa, o filme n\u00e3o somente traz uma dramatiza\u00e7\u00e3o da obra do sambista atrav\u00e9s de seus not\u00f3rios personagens, mas cria para a audi\u00eancia uma reflex\u00e3o sobre a dura lida do compositor popular brasileiro e sua busca por reconhecimento dentro de sua arte. Serrano, que j\u00e1 havia visitado a trajet\u00f3ria do \u00edcone da m\u00fasica brasileira em duas ocasi\u00f5es distintas (atrav\u00e9s do curta metragem de 2015, \u201cD\u00e1 Licen\u00e7a de Contar\u201d; e com o document\u00e1rio \u201cAdoniran &#8211; Meu Nome \u00e9 Jo\u00e3o Rubinato\u201d, de 2018), retorna a uma proposta de narrativa po\u00e9tica da vida de Adoniran e entrega um resultado que prima n\u00e3o somente pelo c\u00f4mico, mas, tamb\u00e9m, por um eficiente drama dentro da reflex\u00e3o atrelada \u00e0s dificuldades da figura do artista e sua vontade de viver do que produz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A minha primeira abordagem com o curta era essa abordagem po\u00e9tica sobre a sua obra&#8221;, explica Pedro Serrano em entrevista ao Scream &amp; Yell. &#8220;Eu me interessava em falar dele atrav\u00e9s da obra criada por ele e n\u00e3o atrav\u00e9s do recorte de uma cinebiografia. Como existiu o projeto do curta como uma viagem no universo criativo dele, foi no document\u00e1rio que eu tive a possibilidade de me entregar para fazer algo biogr\u00e1fico e documental nesse sentido de linguagem para falar de fatos da vida&#8221;, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa licen\u00e7a po\u00e9tica e um foco na qu\u00edmica precisa entre seus tr\u00eas protagonistas, o diretor encontrou uma maneira de homenagear n\u00e3o somente Adoniran, mas toda uma \u00e9poca do samba paulistano. E vai al\u00e9m. A partir da presen\u00e7a de Gero Camilo no papel do folgado e pregui\u00e7oso Mato Grosso, e de Gustavo Machado como o galanteador bon-vivant e n\u00e3o menos pregui\u00e7oso Joca, \u201cSaudosa Maloca\u201d encontra ecos de uma com\u00e9dia cl\u00e1ssica que remete \u00e0 \u201cOs Tr\u00eas Patetas\u201d, Mazzaropi, Buster Keaton e Chaplin.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Saudosa Maloca I Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uF4n9bnn9Tk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Miklos pontua essa qu\u00edmica de seus colegas de cena. &#8220;O Pedro deixou a gente muito \u00e0 vontade. Trabalhamos isso muito detalhadamente nas cenas&#8221;, relembra. &#8220;Criamos e aprofundamos essa cumplicidade \u2013 al\u00e9m de ser de seu privil\u00e9gio trabalhar com o Gero e Gustavo. Esse trio de vagabundos, essa turma de maloqueiros, o trio da maloca, teve a chance de desenvolver essa cumplicidade j\u00e1 nos ensaios do curta. O Pedro trabalhou com a gente cada momento daqueles. E a gente foi buscar essas brincadeiras que remetem muito \u00e0s com\u00e9dias do cinema mudo. \u00c9 um humor f\u00edsico. \u00c9 uma possibilidade de fazer essa coisa interessante da rela\u00e7\u00e3o entre os personagens&#8221;, define Miklos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a genu\u00edna qu\u00edmica n\u00e3o somente entre o trio, mas, sobretudo, entre os personagens de Gero Camilo e Gustavo Machado, Paulo Miklos relembra que, dentro da figura patriarcal de Adoniran, ele, v\u00e1rias vezes, apenas testemunhava a intera\u00e7\u00e3o c\u00f4mica entre seus parceiros de filme. &#8220;Por muitos momentos, eu estava assistindo aos dois. Porque eles t\u00eam uma din\u00e2mica t\u00e3o incr\u00edvel em cena. E o Adoniran dava mais bronca neles. Pareciam dois moleques, dois garotos. E o Adoniran era uma esp\u00e9cie de pai dando bronca. Ent\u00e3o, se criou essa rela\u00e7\u00e3o bacana muito pr\u00f3xima da gente. Isso transparece no filme e \u00e9 um dos pilares da hist\u00f3ria&#8221;, explica o eterno Tit\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A citada reflex\u00e3o que o filme traz relacionada \u00e0 realidade dura da tentativa do compositor popular al\u00e7ar ao sucesso dentro de sua arte, algo que remete ao cl\u00e1ssico \u201cRio, Zona Norte\u201d (1957), de Nelson Pereira do Santos, tamb\u00e9m \u00e9 abordada pelo diretor e por seu protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa luta do compositor foi a luta do Adoniran. Apesar do filme n\u00e3o ser biogr\u00e1fico, \u00e9 uma coisa que est\u00e1 presente na alma, nas cria\u00e7\u00f5es dele. Essa luta do trabalhador para sobreviver, que ele tanto retrata na cr\u00f4nica social, \u00e9 um pouco a luta dele&#8221;, crava Pedro Serrano. &#8220;Adoniran n\u00e3o morreu consagrado, rico, morando numa mans\u00e3o. O cara estava at\u00e9 o fim da vida tendo que se provar, achando que n\u00e3o tinha reconhecimento suficiente. Ele ficou no ostracismo um tempo, depois retornou, depois caiu no esquecimento de novo, depois voltou. Ent\u00e3o, tem tudo a ver com o pr\u00f3prio personagem. Acho que quando a gente vai falar tamb\u00e9m do reconhecimento de arte, do viver da arte, e como \u00e9 um cl\u00e1ssico do clich\u00ea achar que isso \u00e9 vagabundagem perto, justamente, da oposi\u00e7\u00e3o ao progresso que \u00e9 essa coisa cartesiana que vem trazer a l\u00f3gica do capitalismo&#8221;, aprofunda o cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Miklos destaca um momento chave do filme para exemplificar essa luta. &#8220;Fiquei muito feliz com aquela nossa cena do r\u00e1dio. Porque aquilo \u00e9 uma realidade. Inclusive que ele tenta colocar o samba dele, mostrar o samba dele, e a sugest\u00e3o que vem \u00e9: &#8216;Olha, esse seu samba, melhor, n\u00e3o. Melhor se voc\u00ea cantar um samba de verdade&#8217;. E a\u00ed ele vai l\u00e1 e canta um do Noel Rosa (risos). Mesmo assim n\u00e3o funciona. E o sujeito ainda o destrata. E ele volta para casa abatido porque n\u00e3o conseguiu&#8221;, descreve o ator. Ent\u00e3o, tem essa realidade retratada no filme. Mas a gente sabe que Adoniran tem grandes feitos na carreira. Picos de sucesso como compositor, como \u2018Trem das Onze\u2019, por exemplo. Ent\u00e3o, tem as duas coisas: a felicidade, o momento do sucesso, e o drama, tamb\u00e9m. Assim como nas can\u00e7\u00f5es. O filme tem essa coisa essa coisa bacana de emocionar, de trazer o drama das can\u00e7\u00f5es do Adoniran. De nos colocar na pele dos personagens, na pele do compositor, tamb\u00e9m&#8221;, conclui o cantor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste papo com o Scream &amp; Yell, Pedro Serrano e Paulo Miklos refletem sobre o processo de mergulhar na obra de Adoniran Barbosa. Confira!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80625\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/POSTER_SAUDOSA-MALOCA-_ATUALIZADO-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1096\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/POSTER_SAUDOSA-MALOCA-_ATUALIZADO-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/POSTER_SAUDOSA-MALOCA-_ATUALIZADO-copiar-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu mergulho na obra do Adoniran Barbosa passa por tr\u00eas projetos. O curta-metragem de 2015, \u201cD\u00e1 Licen\u00e7a de Contar\u201d; o document\u00e1rio \u201cAdoniran, Meu Nome \u00e9 Jo\u00e3o Rubinato\u201d, de 2020, e, agora, o longa de fic\u00e7\u00e3o \u201cSaudosa Maloca\u201d (2024), que volta a abordar a trajet\u00f3ria de Adoniran de forma po\u00e9tica. Ap\u00f3s o doc, voc\u00ea teve alguma dificuldade em seguir por esse caminho da liberdade l\u00edrica para contar a hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nPedro \u2013 A minha primeira abordagem com o curta era essa abordagem po\u00e9tica sobre a sua obra. Eu me interessava em falar dele atrav\u00e9s da obra criada por ele e n\u00e3o atrav\u00e9s do recorte de uma cinebiografia. Como existiu o projeto do curta, que era uma viagem ao universo criativo dele, foi no document\u00e1rio, sim, que eu tive a possibilidade de me entregar para fazer algo biogr\u00e1fico e documental nesse sentido de linguagem, mas, tamb\u00e9m, de falar de fatos da vida. N\u00e3o necessariamente de forma cronol\u00f3gica, mas contando a hist\u00f3ria da vida dele. Porque a abordagem do outro projeto j\u00e1 era outra. Eles s\u00e3o complementares. O que a gente pode dizer \u00e9 que uma obra complementa a outra. Quem sente falta de di\u00e1logo em uma pode assistir \u00e0 outra. Quem sente falta de algo na outra pode ver a anterior. Nessa cronologia, o curta vem fazendo essa abordagem no universo criativo. J\u00e1 o document\u00e1rio, nesse espa\u00e7o de tempo entre o curta e o longa, faz a biografia dele. O longa, agora, vem aprofundar essa abordagem po\u00e9tica nessa narrativa ficcional sobre os sambas, sobre os personagens que ele cantou e sobre as hist\u00f3rias que ele contou nesses sambas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A qu\u00edmica entre voc\u00ea, Paulo Miklos, o Gero Camilo e o Gustavo Machado \u00e9 palp\u00e1vel nessa com\u00e9dia f\u00edsica que remete a um humor cl\u00e1ssico. Como foi achar essa sintonia que funcionou t\u00e3o bem, Paulo? E Pedro, qual caminho voc\u00ea seguiu como diretor para alcan\u00e7ar essa sintonia entre os tr\u00eas protagonistas?<\/strong><br \/>\nPaulo \u2013 O Pedro deixou a gente muito \u00e0 vontade. Trabalhamos muito detalhadamente isso nas cenas e tudo. A gente criou e aprofundou essa cumplicidade que voc\u00ea est\u00e1 chamando a aten\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de ser de seu privil\u00e9gio trabalhar com Gero, Gustavo e com o elenco, como a Leilah, o Sidney e todos os outros. Mas esse trio de vagabundos, essa turma de maloqueiros, o trio da maloca, tivemos a chance de desenvolver essa cumplicidade j\u00e1 nos ensaios do curta. O Pedro trabalhou com a gente a cada cena, a cada momento daqueles. E a gente foi buscar essas brincadeiras que remetem muito \u00e0s com\u00e9dias do cinema mudo. \u00c9 um humor f\u00edsico. \u00c9 uma possibilidade de fazer essa coisa interessante da rela\u00e7\u00e3o entre os personagens. Isso tudo a gente experimentou no curta. Muitos desses achados a gente trouxe para o longa, agora, e aprofundou essas situa\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma felicidade poder trabalhar com gente t\u00e3o talentosa. E eu, por muitos momentos, estava assistindo aos dois. Porque eles t\u00eam uma din\u00e2mica t\u00e3o incr\u00edvel em cena. E o Adoniran dava mais bronca neles. Pareciam dois moleques, dois garotos. E o Adoniran era uma esp\u00e9cie de pai dando bronca e tal. Ent\u00e3o, se criou essa rela\u00e7\u00e3o bacana muito pr\u00f3xima da gente. Isso transparece no filme e \u00e9 um dos pilares da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro \u2013 Estou de acordo. Acho que al\u00e9m de um roteiro bem trabalhado, talvez a grande for\u00e7a do filme seja essa qu\u00edmica. Claro que sou suspeito, mas eu tamb\u00e9m vejo essa qu\u00edmica desse trio principal. Ela cativa o espectador e o faz ter empatia por eles. Sempre foi isso que eu quis. Independente de fatos acontecendo, primeiro a ideia era desenvolver no espectador uma empatia por esses personagens e por esse estilo de vida deles para, ent\u00e3o, ele poder se sensibilizar em como as coisas que v\u00e3o acontecer. Porque o que vai acontecer muitos j\u00e1 sabem, uma vez que est\u00e1 escrito nas m\u00fasicas. Ent\u00e3o, sempre achei que essa rela\u00e7\u00e3o de empatia com os personagens era fundamental. E isso foi constru\u00eddo, como Paulo disse, em improvisos de ensaio, de t\u00e9cnicas de palha\u00e7aria e de improviso, mesmo, que a gente fez desde o curta at\u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o para o longa. \u00c9 que, sim, quando voc\u00ea fala que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sorrir, esse sentimento que voc\u00ea, como espectador, teve, era exatamente o que eu queria. Era querer que o p\u00fablico olhasse para esses personagens e tivesse esse carinho, esse sorriso de ver algo meio ing\u00eanuo que a gente tem ao ver, por exemplo, Chaplin, Buster Keaton e Mazzaropi. E foram essas refer\u00eancias que eu trouxe para os nossos ensaios, para a gente trabalhar em cima. Porque, inclusive, o filme tem homenagens a n\u00fameros desses grandes comediantes. Isso se justificava para mim porque, primeiro, trazia essa fantasia meio de f\u00e1bula que eu queria dar. Esse tom meio fant\u00e1stico para esse passado que n\u00e3o existe mais. E segundo porque a gente queria falar justamente dessa cidade que n\u00e3o existe. Ent\u00e3o, se \u00e9 para falar do passado, vamos tamb\u00e9m transportar isso para uma linguagem de um cinema do passado, o cinema mudo. E nisso acho o tom de atua\u00e7\u00e3o deles uma das coisas mais especiais do filme. Era um risco, porque poderia ficar totalmente for\u00e7ado&#8230; um pouco um pastel\u00e3o e de mau gosto. Ou pode agradar. E espero que tenha agradado. Acho que funcionou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80628\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_5-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_5-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_5-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme, para al\u00e9m da com\u00e9dia, traz a luta de um compositor, de um artista, para viver de sua arte. Uma luta para fugir do ostracismo. Como foi encontrar esse direcionamento do drama, de um tema mais s\u00e9rio, dentro da com\u00e9dia?<\/strong><br \/>\nPedro \u2013 Acho que o filme faz rir e chorar. A gente v\u00ea as pessoas rindo muito nas sess\u00f5es, mas, na maioria das vezes, saindo com l\u00e1grimas nos olhos ou com os olhos marejados. Porque essa luta do compositor foi a luta do Adoniran. Apesar do filme n\u00e3o ser biogr\u00e1fico, \u00e9 uma coisa que est\u00e1 presente na alma, nas cria\u00e7\u00f5es dele. Essa luta do trabalhador para sobreviver, que ele tanto retrata na cr\u00f4nica social, \u00e9 um pouco a luta dele. Ele n\u00e3o morreu consagrado, rico, morando numa mans\u00e3o. O cara estava at\u00e9 o fim da vida tendo que se provar, achando que n\u00e3o tinha reconhecimento suficiente. Ele ficou no ostracismo um tempo, depois retornou, depois caiu no esquecimento de novo, depois voltou. Ent\u00e3o, tem tudo a ver com o pr\u00f3prio personagem. Acho que quando a gente vai falar tamb\u00e9m do reconhecimento de arte, do viver da arte, e como \u00e9 um cl\u00e1ssico (do clich\u00ea) achar que isso \u00e9 vagabundagem perto, justamente, da oposi\u00e7\u00e3o ao progresso que \u00e9 essa coisa cartesiana que vem trazer a l\u00f3gica do capitalismo. Coisas assim s\u00e3o opostas e fazem um sentido dentro da po\u00e9tica dele, tamb\u00e9m. Esses caras querem viver de m\u00fasica. \u00c9 um conflito universal que todos entendem. Mas t\u00e1 chegando uma for\u00e7a maior que talvez v\u00e1 querer botar eles no batente mais tradicional. E a parte do drama acho que vem, tamb\u00e9m, do drama, dessa coisa do retrato social dele. Tinham cr\u00edticas sociais profundas, apesar dele fazer isso de uma forma engra\u00e7ada. Mas tem temas profundos e s\u00e9rios. Ent\u00e3o, o drama vinha para contar isso, tamb\u00e9m. N\u00e3o era s\u00f3 brincadeira. \u00c9 uma reflex\u00e3o de temas que nos s\u00e3o caros. N\u00e3o sei para voc\u00ea como m\u00fasico&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo \u2013 Sem d\u00favida. Fiquei muito feliz com aquela nossa cena do r\u00e1dio. Porque aquilo \u00e9 uma realidade. Inclusive que ele tenta colocar o samba dele, mostrar o samba dele, e a sugest\u00e3o que vem \u00e9: &#8220;Olha, esse seu samba, melhor, n\u00e3o. Melhor se voc\u00ea cantar um samba de verdade. E a\u00ed ele vai l\u00e1 e canta um do Noel Rosa (risos). Mesmo assim n\u00e3o funciona. E o sujeito ainda o destrata. E ele volta para casa abatido porque n\u00e3o conseguiu. Ent\u00e3o, tem essa realidade retratada no filme. Mas a gente sabe que o Adoniran tem grandes feitos na carreira. Picos de sucesso como compositor, como \u201cTrem das Onze\u201d, por exemplo. Ent\u00e3o, tem as duas coisas. Tem a felicidade, tem o momento do sucesso, e tem o drama, tamb\u00e9m. Assim como nas can\u00e7\u00f5es. O filme tem essa coisa bacana de emocionar, de trazer o drama das can\u00e7\u00f5es do Adoniran. De nos colocar na pele dos personagens e se emocionar. Ent\u00e3o, tem a pele do compositor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro \u2013 Essa passagem da r\u00e1dio que o Paulo citou, por exemplo: sempre insisto em deixa claro que \u201cSaudosa Maloca\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme biogr\u00e1fico. N\u00e3o \u00e9 uma cinebiografia tradicional. A proposta \u00e9 mergulhar no universo criativo das obras, mas quando era pertinente, cabia no roteiro, claro que tem pinceladas biogr\u00e1ficas. Essa cena da r\u00e1dio \u00e9 uma delas. Ele, realmente, como calouro, a primeira vez que foi cantar, cantou \u201cFilosofia\u201d, do Noel Rosa. Isso porque ainda n\u00e3o tinha espa\u00e7o para uma linguagem dele de samba. E ele realmente ouviu do cara que a voz dele era boa pra enterrar defunto. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea fala isso, o gr\u00e1fico dele \u00e9 assim (indicando altos e baixos com a m\u00e3o). Pinga do sucesso, depois fracassa na batalha. \u00c9 isso. \u00c9 um batalhador que estava sempre se reinventando.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80629\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_54-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_54-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_54-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo, uma pergunta um tanto introspectiva. Me recordo de ainda adolescente j\u00e1 ter uma certa rela\u00e7\u00e3o com o teatro e, quando assisti ao \u201cAc\u00fastico MTV\u201d em 1997, j\u00e1 percebi a sua veia para a atua\u00e7\u00e3o. Corta para poucos anos depois, e voc\u00ea faz \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/04\/24\/cinema-o-invasor-de-beto-brant-bate-forte-no-estomago-azeda-a-boca-e-assusta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Invasor<\/a>\u201d (2001). Pouco mais de duas d\u00e9cadas depois, sua carreira como ator se consolida em pap\u00e9is marcantes, como o de \u201cEst\u00f4mago\u201d (2007), como o do recente \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/13\/cinema-o-homem-cordial-de-ibere-carvalho-e-um-mergulho-no-lodo-das-redes-sociais-onde-todos-querem-ser-juizes-juri-e-carrascos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Homem Cordial<\/a>\u201d (2019). Olhando em retrospecto, como voc\u00ea avalia esse peso da mudan\u00e7a de sua carreira que come\u00e7ou como m\u00fasico e enveredou pela atua\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nPaulo \u2013 \u201cO Invasor\u201d veio como uma grande descoberta pra mim. Uma descoberta de realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Foi uma coisa muito intensa. Uma alegria muito grande descobrir que eu era capaz de fazer isso. E a partir de ent\u00e3o topei fazer tudo. Fui correr atr\u00e1s de mais e mais. E aprender mais e mais com os colegas, com os diretores, enfim, com cada papel, cada experi\u00eancia. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem raz\u00e3o. Aquele cara da banda, o roqueiro, j\u00e1 era histri\u00f4nico, j\u00e1 era atirado, j\u00e1 era provocador. Eu j\u00e1 estava transbordando dali. Querendo provocar o p\u00fablico. Brincar e descobrir coisas como int\u00e9rprete, tamb\u00e9m. Como cantor. Por exemplo, algo que os Tit\u00e3s me deram. Que foi a chance de cantar uma m\u00fasica mel\u00f3dica e, ao mesmo tempo, cantar uma m\u00fasica em um urro, com a coisa do berro. Aquilo dos extremos. De tudo isso, eu gosto. \u00c9 uma coisa que me realiza demais. Principalmente, variar. E nada como atuar para poder variar. Estava comentando que cada personagem desses \u00e9 um mergulho numa situa\u00e7\u00e3o completamente diferente, \u00e0s vezes numa \u00e9poca diferente, em um tempo diferente. E eu me que me realizo demais atuando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro \u2013 E v\u00e1rios instrumentos, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo \u2013 Sim, isso faz parte desse variar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro \u2013 Ouso fazer um adendo: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/12\/14\/ao-vivo-em-porto-alegre-formacao-classica-dos-titas-nos-lembra-de-que-a-gente-quer-comida-diversao-e-arte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nessa turn\u00ea de despedida (dos Tit\u00e3s)<\/a>, acho que toda a sua experi\u00eancia com cinema ficou percept\u00edvel. Com um mega show de mil c\u00e2meras e a tua rela\u00e7\u00e3o com elas, voc\u00ea era o cara que, no palco, a gente percebe que estava atento o tempo inteiro a essa rela\u00e7\u00e3o com a c\u00e2mera, com o tel\u00e3o do show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo \u2013 Sim. Inclusive, fiquei atr\u00e1s dos c\u00e2meras dando direcionamentos. &#8220;Pra c\u00e1! Aqui, \u00f3! Pega aqui!&#8221; (risos) A gente jogou junto! Eles estavam no palco. Ent\u00e3o, foi muito divertido. Me diverti demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cogita enveredar pela dire\u00e7\u00e3o um dia, Paulo?<\/strong><br \/>\nPaulo \u2013 N\u00e3o sei. Acho que n\u00e3o. Adoro atuar. Acho que \u00e9 uma coisa na qual me encontrei. Mas fico acompanhando o Pedro, por exemplo, no trabalho dele. Fico admirado em ver o desenvolvimento. Em ver as escolhas que ele faz. A maneira como ele sugere as coisas. Como ele vai colocando e levando os atores para o lado que interessa para o filme. Gosto disso. Mas n\u00e3o sei se eu seria capaz de fazer o que ele faz (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80626\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_2-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_2-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/SAUDOSA-MALOCA_2-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com licen\u00e7a po\u00e9tica e foco na qu\u00edmica entre seus tr\u00eas protagonistas, o diretor  homenageia n\u00e3o somente Adoniran, mas toda uma \u00e9poca do samba paulistano.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/25\/entrevista-paulo-miklos-e-pedro-serrano-falam-sobre-saudosa-maloca-um-mergulho-poetico-e-comico-na-obra-de-adoniran-barbosa\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":80630,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[2348,7105],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80622"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80622"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80633,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80622\/revisions\/80633"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80630"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}