{"id":80581,"date":"2024-03-23T01:07:00","date_gmt":"2024-03-23T04:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80581"},"modified":"2024-04-25T00:08:49","modified_gmt":"2024-04-25T03:08:49","slug":"ao-vivo-entre-a-falta-e-a-abundancia-o-terno-se-reencontra-apos-cinco-anos-longe-dos-palcos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/23\/ao-vivo-entre-a-falta-e-a-abundancia-o-terno-se-reencontra-apos-cinco-anos-longe-dos-palcos\/","title":{"rendered":"O Terno ao vivo em SP: \u00c9 ao lado dos amigos que Tim Bernardes soa melhor, \u00e0s vezes muito melhor do que parece"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><br \/>\nfotos\u00a0<strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/fernandoyokotafotografia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante s\u00e9culos, a humanidade aprendeu a viver com o paradigma da escassez de recursos \u2013 n\u00e3o \u00e0 toa, existe at\u00e9 um ramo da ci\u00eancia (a economia) que se dedica a estudar justamente esse assunto. \u00c9 uma regra que vale at\u00e9 mesmo pros dias de hoje: numa era cultural marcada pela abund\u00e2ncia, a falta pode ser o elemento que mais faz a diferen\u00e7a. Apostar nessa ideia pode ser a f\u00f3rmula para explicar tantas reuni\u00f5es de bandas, tantas turn\u00eas de despedida, tanta nostalgia vendida como novidade para a \u201ctriste gera\u00e7\u00e3o que pode tudo, quando tudo ficou t\u00e3o banal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que ajuda a explicar \u201ca maior reuni\u00e3o de pessoas que gostam da banda O Terno\u201d, como brincou o baixista Guilherme D\u2019Almeida a certa altura do show de abertura da turn\u00ea de encerramento do disco \u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, lan\u00e7ado pelo trio paulistano <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/13\/o-terno-encerra-turne-2019-e-festeja-lulalivre-no-sesc-pompeia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no long\u00ednquo ano de 2019<\/a>. Mas n\u00e3o ajuda a resumir a for\u00e7a do reencontro de Tim Bernardes com os amigos Guilherme e Biel Basile, \u00e0 frente de mais de 4 mil pessoas na primeira sexta-feira fria e chuvosa de um quente 2024 no Espa\u00e7o Unimed, em S\u00e3o Paulo, com direito a ingressos mais que esgotados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um p\u00fablico que chega a surpreender quem acompanhou a carreira do Terno em seus primeiros anos \u2013 \u201cnosso primeiro show tinha espa\u00e7o pra 14 pessoas, incluindo a gente\u201d, lembrou Guilherme a certa altura da apresenta\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o espanta: h\u00e1 cinco anos sem lan\u00e7ar disco ou fazer shows, e sem nem mesmo uma confirma\u00e7\u00e3o de que novos trabalhos vir\u00e3o por a\u00ed, o trio paulistano cresceu sem necessariamente precisar se movimentar demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte disso pode se explicar pela carreira solo de Tim Bernardes. Nesse per\u00edodo, ele n\u00e3o s\u00f3 lan\u00e7ou um disco novo (\u201cMil Coisas Invis\u00edveis\u201d, de 2022), como tamb\u00e9m excursionou pelo mundo tanto solo como ao lado dos Fleet Foxes \u2013 isso pra n\u00e3o falar em shows tributo a Gal Costa ou envio de can\u00e7\u00f5es para toda sorte de artistas, incluindo veteranos como Jards Macal\u00e9 ou Ala\u00edde Costa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80585\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8484-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8484-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8484-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo que come\u00e7ou como um projeto paralelo hoje parece ter se tornado protagonista de uma carreira. Vale lembrar que o pr\u00f3prio cantor j\u00e1 havia fechado uma noite no mesmo palco na Barra Funda em 2023, sem contar as m\u00faltiplas bilheterias esgotadas no majestoso Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo em duas temporadas seguidas. N\u00e3o seria um exagero dizer que o vetor mudou, a ponto de que \u201co Tim do Terno\u201d tenha virado \u201co Terno \u00e9 a banda do Tim\u201d &#8211; fen\u00f4meno parecido aconteceu na fam\u00edlia: antes, Tim era \u201co filho do Maur\u00edcio Pereira\u201d, mas agora \u201co Maur\u00edcio \u00e9 o pai do Tim\u201d, como o pr\u00f3prio patriarca brincou <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/10\/mauricio-pereira-micro-entrevista-imperdivel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em entrevista recente ao Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 algo nesse crescimento que tamb\u00e9m tem a ver com o que vivemos nos \u00faltimos cinco anos e que se relaciona intrinsecamente com a obra do Terno \u2013 em especial, com o disco \u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, de 2019. \u201c\u00c9 um disco sobre ritos de passagem, sobre a fronteira do mist\u00e9rio, sobre se entender internamente na nossa gera\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma doideira\u201d, disse Tim a certa altura do show sobre o \u00e1lbum executado na \u00edntegra ao longo da noite. \u201cA gente viveu o atr\u00e1s e agora, depois disso tudo, chegou no al\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa perspectiva, \u00e9 f\u00e1cil compreender como um disco reflexivo bateu fundo no cora\u00e7\u00e3o das pessoas durante um per\u00edodo de recolhimento \u2013 em especial, de um p\u00fablico abaixo dos 35 anos, majorit\u00e1rio na lota\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Unimed. \u00c9 um grupo que j\u00e1 teve a chance de viver um bocado, mas ainda est\u00e1 longe do fim, e se deparou com aquele velho dilema j\u00e1 exibido por Neil Young em \u201cTell Me Why\u201d: \u201cwhen you are old enough to repay, but young enough to sell\u201d. S\u00e3o dores e del\u00edcias que ecoaram na cabe\u00e7a de muita gente durante a pandemia, gente que encontrou no Terno a verbaliza\u00e7\u00e3o para sentimentos que n\u00e3o tinha ou n\u00e3o sabia que tinha antes \u2013 por isso, n\u00e3o chega a espantar o fato de que, quando o vocalista perguntou quem estava em seu primeiro show do Terno, parte consider\u00e1vel do p\u00fablico levantou as m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m compreens\u00edvel que esse per\u00edodo tenha levado muita gente a desenvolver certa ojeriza pelo Terno e por Tim Bernardes. Ambos parecem padecer de um sintoma que tamb\u00e9m j\u00e1 acometeu outra banda de vulto do Brasil que se disp\u00f4s a fazer a passagem do independente para o mainstream de forma singular: os Los Hermanos. Mais dif\u00edcil \u00e9 entender o porqu\u00ea, mas talvez uma pista esteja no fato de que tanto os barbudos como Bernardes partam de experi\u00eancias extremamente individuais para compor suas m\u00fasicas, mesmo quando se disp\u00f5em (mais Tim do que Camelo ou Amarante) a falar em prol de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80586\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8461-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"725\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8461-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8461-copiar-300x290.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando essa realidade se torna coletiva \u2013 e multiplicada pela caixa de resson\u00e2ncia da internet, independentemente da plataforma utilizada \u2013, por\u00e9m, pode gerar certo estranhamento ver uma multid\u00e3o de gente jovem dizendo que \u201cj\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim muito de ganhar\u201d ou que est\u00e1 \u201cpegando leve\u201d. Estranhamento esse que pode se tornar ainda maior tanto no afastamento (do tempo), na superexposi\u00e7\u00e3o (de um cantor) ou quando tenta se tomar essa experi\u00eancia muito particular e transform\u00e1-la no retrato monol\u00edtico de uma gera\u00e7\u00e3o \u2013 algo que nunca existiu, mas que se torna um exerc\u00edcio ainda mais complexo em tempos de nichos, bolhas e do elogio da diversidade. \u00c9 um emaranhado de ideias que pode virar perigosa teia, imobilizando muitos artistas numa armadilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ao subir ao palco do Espa\u00e7o Unimed \u00e0s 22h20 do \u00faltimo dia 22 de mar\u00e7o, com protocolares vinte minutos de atraso para o hor\u00e1rio previsto, Tim Bernardes e seus companheiros parecem dizer \u201csem essa, aranha\u201d para a cilada do \u00faltimo par\u00e1grafo. Mais que isso: ao sair de um casulo tanto autoimposto quanto movido pelas circunst\u00e2ncias globais, o trio se coloca em plena vista com suas cores prim\u00e1rias, sem truques ou jogo de espelhos \u2013 no m\u00e1ximo, um quarteto de metais para enriquecer os arranjos e levar o Terno para al\u00e9m do formato guitarra-baixo-bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aparece em cena ali \u00e9 m\u00fasica, bela m\u00fasica, cheia de poesia e recursos apurados. Mesmo o cr\u00edtico mais resistente e cheio de ideias na cabe\u00e7a ao come\u00e7o do espet\u00e1culo deve se render com o desenrolar da noite \u2013 a come\u00e7ar pelo un\u00edssono de quatro mil vozes cantando a melodia de \u201cA Hist\u00f3ria Mais Velha do Mundo\u201d, t\u00e3o delicada quanto uma caixinha de m\u00fasica. Quem n\u00e3o \u00e9 pego pelo cora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, tem uma chance de entrar na onda logo na sequ\u00eancia com a energia de \u201cN\u00e3o Espero Mais\u201d, em que Bernardes mostra bem o resultado das li\u00e7\u00f5es aprendidas com Mutantes e Roberto Carlos, enquanto Biel Basile espanca a bateria com uma classe rara em sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80588\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8445-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1074\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8445-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8445-copiar-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ver o Terno no palco \u00e9 lembrar que, antes de todo o discurso em torno de Tim Bernardes, o que existe \u00e9 a obra de Tim Bernardes, um dos artistas mais cheios de recursos de sua gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 recordar que ele n\u00e3o s\u00f3 comp\u00f5e muito bem, tradi\u00e7\u00e3o que vem de ber\u00e7o, como \u00e9 grande guitarrista (algo que se esconde em sua carreira solo) e capaz de estabelecer arranjos intrincados para evidenciar belas melodias, seja nas cordas ou ao piano. Nem sempre o p\u00fablico \u00e9 capaz de apreciar: em momentos mais silenciosos, como na cinematogr\u00e1fica \u201cO Bilhete\u201d, um delicioso lado-B de \u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, a conversa dos presentes encobria facilmente a voz do cantor, a despeito do excelente trabalho de som de Gui Jesus Toledo numa casa conhecida por dar trabalho aos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistir ao trio, sob as belas luzes de Olivia Munhoz, \u00e9 tamb\u00e9m presenciar o trabalho de uma banda que foi capaz de absorver m\u00faltiplas influ\u00eancias da can\u00e7\u00e3o brasileira e transform\u00e1-la numa am\u00e1lgama em que os ingredientes s\u00e3o reconhec\u00edveis, mas o resultado \u00e9 muito pr\u00f3prio. Que o diga \u201cO Orgulho e o Perd\u00e3o\u201d, um transsamba com o DNA de Caetano Veloso, a raulsseixiana \u201cLua Cheia\u201d ou, claro, a id\u00edlica \u201cMinas Gerais\u201d, eco do Clube da Esquina que foi a \u00fanica aus\u00eancia no repert\u00f3rio do show entre as can\u00e7\u00f5es do disco \u201cMelhor Do Que Parece\u201d, executado quase \u00e0 \u00edntegra pelo Terno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em compensa\u00e7\u00e3o, foram poucas as m\u00fasicas dos dois primeiros discos do grupo que surgiram no repert\u00f3rio de quase trinta can\u00e7\u00f5es executadas ao longo de duas horas e meia de show. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/08\/18\/cds-o-terno-andre-mendes-trupe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Da estreia \u201c66\u201d<\/a>, apareceram apenas a faixa-t\u00edtulo e \u201cMorto\u201d, que ganhou arranjo matador com o aux\u00edlio luxuoso do quarteto de metais. J\u00e1 do \u201cdisco da casinha\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/09\/o-que-ha-de-magico-no-terno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o auto-intitulado \u201cO Terno\u201d, de 2014<\/a>), foram apenas tr\u00eas, todas em momentos marcantes da apresenta\u00e7\u00e3o \u2013 a come\u00e7ar pela balada\u00e7a \u201cEu Vou Ter Saudades\u201d, uma daquelas can\u00e7\u00f5es que Roberto Carlos deveria gravar se um raio johnnycashiano ca\u00edsse em sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80582\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8453-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8453-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8453-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulistan\u00edssima at\u00e9 a \u00faltima gota, \u201cO Cinza\u201d surgiu num momento power trio do show, quando o grupo deu folga para o quarteto de metais e enveredou por uma rota h\u00e1 muito n\u00e3o explorada. Com sete minutos de longos solos e belos efeitos de luzes, a can\u00e7\u00e3o serviu para lembrar que, quando quer, O Terno \u00e9 uma das melhores bandas de rock (lembra dele?) do pa\u00eds, num improviso que ecoava tardes adolescentes ouvindo King Crimson e Black Sabbath. Na abund\u00e2ncia de melodias delicadas que o grupo comp\u00f4s na sequ\u00eancia, para retomar o in\u00edcio do texto, esta faceta psicod\u00e9lica e intensa do grupo faz e fez falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 \u201cAi Ai Como Eu Me Iludo\u201d, al\u00e9m de mais um coral em un\u00edssono, trouxe \u00e0 tona a percep\u00e7\u00e3o de que a banda est\u00e1 bem consciente de seu status e sabe rir de si mesma: l\u00e1 pelo meio da m\u00fasica, Tim Bernardes para de tocar e pergunta \u201cu\u00e9, cad\u00ea os fogos? eu s\u00f3 ia voltar com o Terno se tivesse fogos, que nem no show do Paul!\u201d, enquanto os companheiros respondem \u201cp\u00f4 Tim, voc\u00ea n\u00e3o viu no grupo que isso caiu? Todos os fogos foram pro Lollapalooza\u2026\u201d. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma esquete de humor engra\u00e7adinha no meio do show ou um lembrete que todo mundo tem que lidar com um grupo de WhatsApp: \u00e9 tamb\u00e9m uma piscadela r\u00e1pida para bons entendedores, sa\u00edda da mesma pena de quem j\u00e1 comp\u00f4s uma can\u00e7\u00e3o como \u201cEu Confesso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intera\u00e7\u00e3o entre Tim, Biel e Guilherme ao longo do show tamb\u00e9m ajuda a explicar por que essa turn\u00ea existe. Durante muito tempo, muita gente duvidou que o Terno pudesse voltar enquanto a carreira solo de Tim andasse de vento em popa. Essa ideia (olha a\u00ed, mais uma!) volta \u00e0 cabe\u00e7a quando se presta aten\u00e7\u00e3o na disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos no palco: \u00e9 Tim quem est\u00e1 \u00e0 frente e quem conversa com a plateia durante boa parte do show, enquanto Biel e Guilherme por vezes se recolhem no segundo plano. Conforme o show se desenrola, por\u00e9m, os tr\u00eas v\u00e3o ficando cada vez mais unidos \u2013 como se ainda tocassem grudados uns nos outros no palco de um inferninho. Seus olhares brilham n\u00e3o s\u00f3 de ver \u201co maior show da hist\u00f3ria do Terno\u201d, mas tamb\u00e9m que foram capazes de fazer juntar tanta gente juntos, o que at\u00e9 outro dia poderia parecer um sonho megaloman\u00edaco de juventude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode at\u00e9 soar piegas ouvir Tim apresentar Biel como \u201co cara mais gente boa que existe\u201d ou Guilherme como \u201co maior cora\u00e7\u00e3o do mundo\u201d, enquanto o baixista diz um sonoro \u201cte amo\u201d para Bernardes, seu amigo h\u00e1 22 anos. Mas talvez esteja justamente na for\u00e7a da amizade a explica\u00e7\u00e3o para que o Terno ainda exista: \u00e9 ao lado dos amigos que Tim Bernardes soa melhor, \u00e0s vezes muito melhor do que parece, como se mostra no balan\u00e7o delicioso de \u201cBielzinho\u201d, no hino de turma \u201cNada \/ Tudo\u201d ou em uma das mais indefect\u00edveis lovesongs do Terno, outro momento de isqueirinho\/celular na m\u00e3o: \u201cVolta\u201d, \u00faltimo hit do set inicial, encerrado com a dobradinha \u201cPassado \/ Futuro\u201d e \u201cE No Final\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80583\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8469-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8469-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8469-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o Terno vai de fato voltar a ser uma banda em atividade, ainda \u00e9 cedo para saber \u2013 em entrevistas pr\u00e9-turn\u00ea, o trio foi no m\u00ednimo cr\u00edptico quando chamado a encarar a quest\u00e3o. Mas \u00e9 interessante perceber como a aus\u00eancia do grupo foi sentida ao longo de duas horas e meia de show \u2013 at\u00e9 mesmo quando o trio retorna ao palco para o bis em um n\u00famero j\u00e1 t\u00edpico de seu repert\u00f3rio, a releitura de \u201cUm Sonhador\u201d, famosa na voz da dupla sertaneja Leandro &amp; Leonardo. Na sequ\u00eancia, foi a vez de \u201cMelhor Do Que Parece\u201d, uma pepita do repert\u00f3rio da banda que parece t\u00e3o bem representar n\u00e3o s\u00f3 a dualidade da gera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m um sintoma dos tempos \u2013 e cabe ao leitor decidir qual verso do refr\u00e3o prefere: \u201ceu olho e vejo tudo errado\u201d ou \u201cfaz tempo que est\u00e1 tudo certo\u201d. Podia ser o fim, mas ainda faltava algo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer ir\u00f4nico ou contradit\u00f3rio ver um grupo crescer justamente na aus\u00eancia. Ou no fato de se tornar, depois de muito tempo, uma banda \u201cvelha\u201d \u2013 ainda que seus integrantes tenham acabado de chegar \u00e0 terceira d\u00e9cada de vida. Mas quem est\u00e1 rindo aqui \u00e9 o pr\u00f3prio Terno: para fechar o maior show de suas vidas, o trio voltou justamente onde tudo come\u00e7ou. Em deliciosa vers\u00e3o \u00e0 la Broadway, Tim largou a guitarra e encarnou um cantor de cabar\u00e9 para dar voz \u00e0 excelente piada de \u201c66\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em 2012, a can\u00e7\u00e3o falava que \u201ctudo que \u00e9 novo hoje em dia falam mal\u201d e brincava que \u201cse eu fizer muita loucura, v\u00e3o dizer que eu t\u00f4 maluco e \u2018desse jeito voc\u00ea nunca vai ser muito popular\u201d, agora os garotos do Terno riem ao som dos seus embalos quentes e loucos enquanto colocavam milhares de pessoas pra dan\u00e7ar. S\u00f3 faltou a \u201cdodecafonia para voc\u00ea\u201d, mas talvez nem precisasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando tudo acabou, a madrugada j\u00e1 corria solta em S\u00e3o Paulo \u2013 a ponto dos guarda-chuvas n\u00e3o poderem se esconder no metr\u00f4 dado o avan\u00e7ado da hora, pequeno descuido da organiza\u00e7\u00e3o num espet\u00e1culo que poderia ter come\u00e7ado mais cedo. Quem foi pra casa num \u00f4nibus noturno ou Uber superfaturado, por\u00e9m, saiu com um sorriso no rosto e algumas certezas na cabe\u00e7a. A primeira \u00e9 de ter visto um grande show, numa turn\u00ea que tem tudo pra marcar o calend\u00e1rio deste ano no Brasil. A outra \u00e9 que, a despeito da incerteza sobre um retorno em definitivo do Terno, esta \u00e9 uma banda que fez falta e que merece espa\u00e7o em abund\u00e2ncia \u2013 mesmo que um emaranhado de ideias tente dizer o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80587\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8446-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8446-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2024-03-22-O-Terno-2048px-0F7A8446-copiar-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SETLIST<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">COM QUARTETO DE METAIS<br \/>\nAtr\u00e1s\/Al\u00e9m (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nTudo O Que Eu N\u00e3o Fiz (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nPegando Leve (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nA Hist\u00f3ria Mais Velha do Mundo \/\/ N\u00e3o Espero Mais (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nN\u00f3 (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nNada\/Tudo (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nDepois Que A Dor Passar (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nO Bilhete (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nDeixa Fugir (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nLua Cheia (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nO Orgulho e o Perd\u00e3o (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00d3 O TRIO<br \/>\nPra Sempre Ser\u00e1 (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nEu Vou (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nO Cinza (\u201cO Terno\u201d, 2014)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">VOLTA O QUARTETO DE METAIS<br \/>\nVolta e Meia (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nAi Ai Como Eu Me Iludo (\u201cO Terno\u201d, 2014)<br \/>\nVamos Assumir (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nEu Vou Ter Saudades (\u201cO Terno\u201d, 2014)<br \/>\nMorto (\u201c66\u201d, 2012)<br \/>\nProfundo \/ Superficial (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nCulpa (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nBielzinho \/ Bielzinho (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nVolta (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\nPassado \/ Futuro (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<br \/>\nE No Final (\u201cAtr\u00e1s\/Al\u00e9m\u201d, 2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">BIS<br \/>\nUm Sonhador (cover de Leandro &amp; Leonardo)<br \/>\nMelhor do Que Parece (\u201cMelhor do Que Parece\u201d, 2016)<br \/>\n66 (\u201c66\u201d, 2012)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Terno - Ai Ai Como Eu Me Iludo @ Espa\u00e7o Unimed, S\u00e3o Paulo - 22\/03\/2024\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0-W90QbEOTE?list=PL6gBQKY5zwa3Pf3UFSjq6tUQqeOKUJkxZ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie <\/a>e escreve a newsletter <a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><br \/>\n<em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fernandoyokotafotografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a>\u00a0\u00e9 fot\u00f3grafo de shows e de rua. Conhe\u00e7a seu trabalho:\u00a0<a href=\"http:\/\/fernandoyokota.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/fernandoyokota.com.br\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Se o Terno vai de fato voltar a ser uma banda em atividade, ainda \u00e9 cedo para saber. 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