{"id":80511,"date":"2024-03-20T00:01:00","date_gmt":"2024-03-20T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80511"},"modified":"2024-04-21T11:12:02","modified_gmt":"2024-04-21T14:12:02","slug":"vou-tirar-voce-desse-lugar-o-disco-que-colocou-odair-jose-em-seu-devido-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/20\/vou-tirar-voce-desse-lugar-o-disco-que-colocou-odair-jose-em-seu-devido-lugar\/","title":{"rendered":"\u201cVou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\u201d, o disco que colocou Odair Jos\u00e9 em seu devido lugar"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a>, especial para o Scream &amp; Yell<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2006, um pequeno selo de Goi\u00e1s lan\u00e7ou um \u00e1lbum em homenagem a um cantor que, embora tivesse sido um dos maiores vendedores de discos do Brasil d\u00e9cadas antes, ent\u00e3o encontrava-se relegado a uma estranha e injusta \u201cnostalgia do brega\u201d. O disco, por\u00e9m, conseguiu aquele que \u00e9 o objetivo declarado de quase toda iniciativa desse tipo: chamar aten\u00e7\u00e3o para o valor da obra do homenageado, ao mesmo tempo que destaca os artistas participantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum se chamava \u201cVou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\u201d, o selo era a Allegro Discos, e o homenageado n\u00e3o era outro sen\u00e3o Odair Jos\u00e9. Entre os participantes, havia nomes j\u00e1 consagrados (Zeca Baleiro, Pato Fu, Paulo Miklos) e veteranos do underground (Picassos Falsos, mundo livre s\/a), mas o grosso do projeto contava com nomes at\u00e9 ent\u00e3o pouco conhecidos fora do circuito indie, como Suzana Flag (PA), Terminal Guadalupe (PR), Volver (PE), Columbia (RJ), e outros. Eram 18 faixas &#8211; duas ficaram de fora por terem chegado ap\u00f3s a master ter sido mandada para a f\u00e1brica \u2013 e o resultado foi um dos melhores discos-tributo j\u00e1 feitos no pa\u00eds.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80513\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair2-300x148.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bem da verdade, a \u201creabilita\u00e7\u00e3o\u201d da obra de Odair Jos\u00e9 j\u00e1 havia se iniciado a partir da publica\u00e7\u00e3o de \u201cEu N\u00e3o Sou Cachorro, N\u00e3o\u201d, livro poderoso de Paulo Cesar de Araujo lan\u00e7ado em 2002. A obra do historiador baiano procurava entender porque alguns dos cantores mais populares do Brasil foram varridos para fora da historiografia \u201coficial\u201d da MPB em detrimento de nomes menos populares do per\u00edodo (Gil, Caetano, Chico\u2026 voc\u00ea sabe de quem estamos falando). Mostrava, ainda, que esses cantores haviam sido t\u00e3o perseguidos pela Censura e pela ditadura quanto outros medalh\u00f5es. Embora falasse ainda de outros grandes cantores, como Paulo S\u00e9rgio, Fernando Mendes, Agnaldo Tim\u00f3teo e outros, era a obra de Odair que sobressa\u00eda no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Ara\u00fajo (que, inclusive, assina o texto do encarte de \u201cVou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\u201d) e o disco da Allegro ajudaram n\u00e3o apenas o p\u00fablico a rever a obra de Odair Jos\u00e9 sob outra luz, mas tamb\u00e9m fizeram o mesmo para o pr\u00f3prio Odair. E o Scream &amp; Yell foi conversar com v\u00e1rios dos personagens envolvidos nesse projeto para contar sua hist\u00f3ria. E melhor de tudo: lan\u00e7ar, com exclusividade, as duas faixas que ficaram de fora do \u00e1lbum original. Mas vamos por partes. Antes de chegar l\u00e1, vamos entender como tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80514\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"723\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair3-300x289.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO (fundador da Allegro Discos, diretor geral e produtor executivo do tributo): Coleciono vinil desde os anos 1980, e a ideia que eu tinha originalmente era reproduzir o que se faz l\u00e1 fora, com muitos selos pequenos fazendo um garimpo no cat\u00e1logo das grandes gravadoras e relan\u00e7ando bons discos para nichos espec\u00edficos. Porque tinha muita coisa no Brasil que podia ser relan\u00e7ada, e sa\u00eda muita coisa de MPB, de bossa nova, mas da m\u00fasica que as pessoas chamavam de \u201cbrega\u201d sa\u00eda muito pouco. Eu pensei em relan\u00e7ar coisas desse nicho, que prefiro chamar de cafona, e tamb\u00e9m coisas menos conhecidas de samba, rock, bossa nova&#8230;. Mas quando eu vou bater nas portas da Universal, da Som Livre e de n\u00e3o sei quem mais, era tudo muito burocr\u00e1tico. Al\u00e9m disso, eu n\u00e3o era uma pessoa do meio: sou economista, e n\u00e3o tinha as conex\u00f5es que um jornalista ou algu\u00e9m do meio j\u00e1 tem. Quando me dei conta, estava com uma empresa aberta, toda a documenta\u00e7\u00e3o certa, mas que ainda n\u00e3o tinha conseguido nenhum relan\u00e7amento. Eu queria come\u00e7ar pelo \u00e1lbum do Odair de 1973 (nota: chamado apenas \u201cOdair Jos\u00e9\u201d, \u00e9 o \u00e1lbum de maior sucesso comercial do cantor). Mas como n\u00e3o estava rolando, pensei: \u201cvamos lan\u00e7ar um tributo!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de Belo era destacar o car\u00e1ter roqueiro e popular de Odair Jos\u00e9. Ele via a m\u00fasica do compositor como cheia de camadas, e gostaria de destacar isso, sem que em momento algum as vers\u00f5es descambassem para um lado caricato, ou descaracterizassem demais as originais. Para isso, ele tomou algumas precau\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO: Eu tinha um questionariozinho para os artistas convidados. Quem respondia com uma abordagem meio, \u201cAh, \u00e9 legalzinho, uma coisa meio exc\u00eantrica\u201d, eu descartava. S\u00f3 chamei quem gostava de verdade, que tivesse pelo menos um pouco de influ\u00eancia dele no trabalho. Tamb\u00e9m havia a ideia de ser o mais diverso poss\u00edvel, ou seja, trazer artistas do pa\u00eds todo. N\u00e3o fazia sentido ter quem levasse as coisas na brincadeira, como foi o caso daquela vers\u00e3o do Los Hermanos pra \u201cVou Tirar Voc\u00ea desse Lugar\u201d \u2013 que, v\u00e1 l\u00e1, foi feita para uma com\u00e9dia (nota: a vers\u00e3o consta na trilha de \u201cCasseta &amp; Planeta? A Ta\u00e7a do Mundo \u00c9 Nossa\u201d, de 2003), mas eu n\u00e3o gosto daquilo. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha sentido ter uma vers\u00e3o heavy metal, por exemplo. O ideal era que os artistas respeitassem o original, mas tamb\u00e9m deixassem a assinatura deles. E praticamente todo mundo fez isso. Pega o Leela, por exemplo: eles pegaram uma m\u00fasica bonita (\u201cE Ningu\u00e9m Liga pra Mim\u201d), botaram mais peso, mas a melodia, a ess\u00eancia, est\u00e1 tudo l\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/voutirarvoce.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As bandas foram escolhidas por Belo e por Geraldo Alves dos Santos J\u00fanior, que tamb\u00e9m exerceu a coordena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do projeto). Houve escolhas certeiras, recusas e surpresas de \u00faltima hora. Entre esses nomes, alguns pareciam perfeitos para a empreitada, como o Pato Fu. Outros vieram do garimpo e da aten\u00e7\u00e3o que os curadores dispensavam para toda a cena independente nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>FERNANDA TAKAI (vocalista, Pato Fu): Acho que algum amigo em comum passou nosso contato pro Sandro, da Allegro, e de imediato achamos a ideia muito boa! A gente tinha liberdade pra escolher a m\u00fasica e produzir em nosso est\u00fadio em Belo Horizonte. Fomos ouvir o primeiro disco do Odair, pois geralmente as pessoas acabam buscando can\u00e7\u00f5es muito conhecidas e deixam passar algumas can\u00e7\u00f5es singelas. \u201cUma L\u00e1grima\u201d foi a primeira m\u00fasica que ele fez, n\u00e9? Soubemos que Odair ficou emocionado ao ouvi-la na vers\u00e3o do Pato Fu, acho que ele n\u00e3o esperava que algu\u00e9m a escolhesse. Eu gosto da simplicidade pop, quase ing\u00eanua dela.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>TAT\u00c1 AEROPLANO (Jumbo Elektro, vocalista): Desde garoto eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o com a obra do Odair. Eu passei a inf\u00e2ncia em Tuiuti (SP), um munic\u00edpio que na \u00e9poca pertencia \u00e0 Bragan\u00e7a Paulista, e meu pai sempre foi de escutar som. Em casa tinha Raul Seixas, Odair Jos\u00e9, Novos Baianos\u2026 Ent\u00e3o o convite foi super bem-vindo! O Sandro apresentou pra gente \u201cA Noite Mais Linda do Mundo\u201d, e aceitamos na hora. Pra fazer a vers\u00e3o, eu a tirei no viol\u00e3o, mas peguei uma harmonia um pouco diferente. Mexemos um pouco na melodia, fizemos uma pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o e fomos pro est\u00fadio gravar com o Artur Joly, que tinha produzido nosso primeiro disco (\u201cFreak to Meet You\u201d, de 2004).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ELDER FERNANDES (Suzana Flag, guitarrista e vocalista): Em 2006, a gente estava num momento muito bom do rock paraense. A cena era forte no Brasil, e pegou com for\u00e7a no Norte tamb\u00e9m. O Brasil estava um pouco mais aberto para ver que tinha coisa acontecendo por aqui, e o Suzana Flag estava inserido nisso. O convite veio disso, dessa vontade de olhar para o que estava acontecendo no Norte, A Secretaria de Cultura daqui tamb\u00e9m investia bastante, tinha o trabalho que a Funtelpa (Funda\u00e7\u00e3o Paraense de Radiodifus\u00e3o), que era a TV e r\u00e1dio estatal. Essa gera\u00e7\u00e3o dos anos 2000 trazia um lance radiof\u00f4nico muito forte, meio que in\u00e9dito por aqui, de certa forma. E a\u00ed essa coisa da m\u00fasica brega, que tem muito por aqui, tamb\u00e9m pesou, apesar de eu achar que o Odair Jos\u00e9 \u00e9 um artista de rock tomado como brega. Foi esse momento expressivo da cena daqui que nos ajudou a estar nessa colet\u00e2nea. Eu queria que tiv\u00e9ssemos feito \u201cEu Queria Ser John Lennon\u201d. Mas ela j\u00e1 tinha sido escolhida [pelo Columbia], ent\u00e3o preferimos \u201cVida que N\u00e3o P\u00e1ra\u201d. Eu adoro essa m\u00fasica, cara! Mantivemos a base do arranjo, a linha de baixo \u00e9 a mesma.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ARTHUR DE FARIA (Arthur de Faria e seu Conjunto, pianista e vocalista): N\u00e3o fomos convidados (risos). Mas quando eu soube que estava rolando esse tributo, eu escrevi pro Sandro e disse: \u201cn\u00e3o tem nenhuma possibilidade de voc\u00ea fazer esse disco sem eu e minha banda, pois n\u00f3s todos somos muito f\u00e3s do Odair\u201d. E \u00e9 uma coisa curiosa, porque eu venho de um universo muito cabe\u00e7a, de m\u00fasica de concerto, os mineiros \u2013 Milton Nascimento, Clube da Esquina \u2013 Arrigo Barnab\u00e9, essas coisas. Mas sempre vi uma for\u00e7a no Odair, acho ele muito diferente dos outros que s\u00e3o rotulados de \u201cbregas\u201d. Pra mim, ele sempre foi muito mais o Bob Dylan da Central do Brasil do que o terror das empregadas. E curiosamente, com essa banda que eu tinha na \u00e9poca, Arthur de Faria e seu Conjunto, era tudo ainda mais cabe\u00e7a que eu: um at\u00e9 era roqueir\u00e3o, mas os outros eram m\u00fasicos de orquestra, gente do jazz, ningu\u00e9m gostava de m\u00fasica pop. Mas todo mundo gostava do Odair. As \u00fanicas coisas que a gente tinha em comum no gosto eram Bjork e Odair Jos\u00e9 (risos). E a\u00ed o Sandro disse: \u201cfaz uma demo a\u00ed e manda. Se eu curtir, entra\u201d. E foi o que a gente fez (com \u201cUma Vida S\u00f3 (Para de Tomar a Pilula\u201d), e ele aprovou.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>HUMBERTO EFFE (Picassos Falsos, vocalista): Eu n\u00e3o lembro bem como pintou o convite, mas acho que foi o Sandro que entrou em contato com o [Luiz Henrique] Romagnoli, que era o baixista na \u00e9poca. Veio bem a calhar, porque a gente estava lan\u00e7ando nosso terceiro disco naquela \u00e9poca, j\u00e1 meio que cristalizando aquilo que tinha sido \u201cSupercarioca\u201d (nota: segundo disco da banda, lan\u00e7ado em 1988). Esse terceiro (\u201cNovo Mundo\u201d, de 2004) era mais voltado para a m\u00fasica brasileira, era menos \u201cde banda\u201d, com v\u00e1rias m\u00fasicas que eu tinha levado prontas ou feito para outros parceiros, tinha outras linguagens musicais. E era tamb\u00e9m o momento em que est\u00e1vamos nos colocando no mercado independente, era um outro momento da nossa hist\u00f3ria. Ent\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o no tributo foi importante, e abriu um caminho, n\u00e3o s\u00f3 pro Picassos como para mim, para come\u00e7ar a pensar em fazer releituras.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO: A participa\u00e7\u00e3o do Picassos Falsos \u00e9 um tributo dentro do tributo. Queriam que eu colocasse a vers\u00e3o do Los Hermanos, da qual particularmente n\u00e3o gosto, mas os Picassos Falsos eram uma das grandes refer\u00eancias do som do Los Hermanos, embora eu n\u00e3o saiba se eles reconhecem isso ou n\u00e3o. Mas enfim, os Picassos estavam retomando a carreira, s\u00e3o uma grande banda, e achei por bem cham\u00e1-los. E a vers\u00e3o deles (para \u201cEssa Noite Voc\u00ea Vai Ter que Ser Minha\u201d), ficou bacan\u00edssima.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ARTHUR DE FARIA: Eu adorava \u201cUma Vida S\u00f3 (Pare de Tomar a P\u00edlula)\u201d, porque \u00e9 a minha preferida, junto com \u201cRevista Proibida\u201d e \u201cVou Tirar Voc\u00ea desse Lugar\u201d. A ideia do arranjo era fazer uma coisa muito chique, mas muito falada, com a coisa do sax bar\u00edtono, e tal, mas ao mesmo tempo ir mudando o tempo todo, que era uma coisa que a banda fazia muito e eu gosto de fazer at\u00e9 hoje. Por isso a m\u00fasica vai pesando at\u00e9 o final. N\u00e3o me lembro de quem teve a ideia de misturar com \u201cHey Jude\u201d, e ficou uma coisa meio polirr\u00edtimica, em que a harmonia n\u00e3o fecha exatamente, d\u00e1 umas estranhezas propositais. Coloquei tamb\u00e9m uns acordes estranhos onde achava que eles tinham que entrar, e foi isso. A repercuss\u00e3o foi incr\u00edvel. Gosto de pensar que somos 1\/18 de colocar o Odair na roda de novo, que ajudamos a recoloc\u00e1-lo no lugar em que ele sempre deveria ter estado, que \u00e9 o de um g\u00eanio em seu g\u00eanero. Assim como Tom Jobim \u00e9 um g\u00eanio da m\u00fasica sofisticada e o Paul McCartney \u00e9 um g\u00eanio do pop, o Odair \u00e9 um g\u00eanio dessa m\u00fasica super popular. Em alguma entrevista, o Sandro falou que essa \u00e9 a faixa da qual ele mais gostou, e eu fiquei muito emocionado com isso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>HUMBERTO EFFE: A ideia era fazer uma experi\u00eancia, a gente se colocar ali e dar a nossa vis\u00e3o. E foi uma coisa muito especial. Comecei a fazer esse arranjo no est\u00fadio do Dado Villa-Lobos e ficou muito interessante. A gente tentou fazer uma coisa com uma bateria rodando, com a voz alta, puxar pela sensualidade da m\u00fasica, pelo er\u00f3tico que ela tem, e ficou uma leitura muito particular. Isso nos incentivou a buscar mais coisas assim, tanto a banda como eu solo. T\u00ednhamos um projeto chamado Hipercariocas, em que a gente tocava ao vivo durante v\u00e1rias noites num lugar chamado Melt, no Leblon. Ali a gente tocava Jo\u00e3o Bosco, Jo\u00e3o Nogueira, Martinho da Vila, S\u00e9rgio Sampaio \u2013 de quem eu fa\u00e7o um tributo atualmente. Tinha tamb\u00e9m Luiz Melodia, Ismael Silva, era uma \u00e9poca em que a gente estava entrando nessa experi\u00eancia de releituras de artistas que tinham a ver com a gente. Foi uma coisa muito casada [com o momento da banda], por isso at\u00e9 que est\u00e1 t\u00e3o sincera a nossa grava\u00e7\u00e3o do Odair Jos\u00e9.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDOVAL SHAKERMAN (vocalista, Shakemakers): Na \u00e9poca, o Shakemakers estava em ascens\u00e3o em Goi\u00e2nia, mas ainda n\u00e3o tinha nada gravado. Nem gravadora (risos). Quando o Sandro foi colocar esse disco na rua, disse pra gente que nossa participa\u00e7\u00e3o estava certa, s\u00f3 tinha que escolher a m\u00fasica. A banda tinha uma pegada de hard rock, bem rhythm &amp; blues, e a gente queria dar essa pegada em \u201cE Ningu\u00e9m Liga pra Mim\u201d. Ia dar uma pegada meio Aerosmith: (canta, \u00e0 Steven Tyler) \u201ceu n\u00e3o sei o que fazer da minha vida\u2026\u201d, saca? Mas o Leela j\u00e1 tinha pegado. E a\u00ed eu vi que ningu\u00e9m da lista tinha pegado m\u00fasica d\u2019\u201dO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d. At\u00e9 estranhei: tinha banda ali com uma pegada mais psicod\u00e9lica, mais alternativa, tinham tudo pra pegar m\u00fasicas desse disco, mas n\u00e3o pegaram. Falei: \u201cp\u00f4, vai ter que ser eu, n\u00e9?\u201d (risos) Peguei a m\u00fasica de abertura porque ela tem uma cara mais hard rock. Ela n\u00e3o \u00e9 a melhor m\u00fasica do \u00e1lbum \u2013 essa, pra mim, seria \u201cO Casamento\u201d \u2013 mas eu senti que ela tinha a ver com a proposta da nossa banda da \u00e9poca. Foi minha primeira grava\u00e7\u00e3o profissional, n\u00e3o foi minha melhor performance vocal (risos), mas ela ficou boa. A primeira vers\u00e3o que fizemos tinha um solo de guitarra que imitava c\u00edtara, mas a\u00ed esse guitarrista saiu, e o Luiz Maldonado fez o solo, e ele tem uma influ\u00eancia de sax, ele pensa a guitarra como se fosse metais, e isso deu uma cara meio fusion.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>RODRIGO BRAND\u00c3O (guitarrista, Leela): Elaboramos uma parte instrumental para iniciar a m\u00fasica, de modo que ficasse com nossa cara, e nela inclu\u00edmos um arranjo de theremin. Essa parte deu uma varia\u00e7\u00e3o de din\u00e2mica e impacto mais intensa na grava\u00e7\u00e3o. Experimentamos e usamos efeitos e modula\u00e7\u00f5es nas guitarras e vocais dos refr\u00f5es para contrastar com o vocal doce e melodioso da Bianca nos versos. No final, brincando com a letra do refr\u00e3o, terminamos meio que largando os instrumentos e suas notas j\u00e1 que &#8220;ningu\u00e9m liga pra mim&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80517\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"589\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair6-300x236.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros participantes do disco inclu\u00edram Momboj\u00f3 (\u201cEla Voltou Diferente\u201d), Pol\u00e9xia (\u201cA Ma\u00e7\u00e3 e a Serpente\u201d), Terminal Guadalupe (numa \u00f3tima recria\u00e7\u00e3o ramonesca de \u201cQue Saudade Voc\u00ea\u201d) e Zeca Baleiro (\u201cEu, Voc\u00ea e a Pra\u00e7a\u201d), que depois viria a produzir discos de Odair e lan\u00e7\u00e1-los pelo seu selo Sarav\u00e1 Discos, entre eles \u201cDia 16\u201d (2015), que marcaria a guinada do compositor goiano rumo a uma sonoridade mais guitarreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o \u00ednicio, havia a inten\u00e7\u00e3o de usar \u201cVou Tirar Voc\u00ea desse Lugar\u201d como t\u00edtulo do \u00e1lbum, e a escolha do int\u00e9rprete dessa faixa demandava um cuidado especial. Sandro Belo lembra que foi Geraldo Alves dos Santos J\u00fanior quem prop\u00f4s o nome de Paulo Miklos, levando em considera\u00e7\u00e3o principalmente seu timbre de voz. Miklos ainda estava nos Tit\u00e3s, mas j\u00e1 tinha sua carreira solo. Ele recrutou o produtor Rick Bonadio (que tr\u00eas anos depois produziria o infame \u201cSacos Pl\u00e1sticos\u201d, frequentemente apontado como o pior \u00e1lbum dos Tit\u00e3s), e juntos fizeram o arranjo. O resultado foi excelente, e a faixa chegou at\u00e9 mesmo a soar em algumas r\u00e1dios de perfil mais pop\/rock da \u00e9poca<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se argumentar, em discos desse tipo, se um artista foi mais ou menos feliz que outros. A repercuss\u00e3o geral, por\u00e9m, foi a de que, guardadas as prefer\u00eancias individuais, o disco mantinha um n\u00edvel alto, honrando o homenageado e despertando a curiosidade pelas bandas participantes. Havia, por\u00e9m, uma unanimidade em apontar a p\u00edfia vers\u00e3o eletr\u00f4nica do mundo livre s\/a para \u201cDeixe Essa Vergonha de Lado\u201d como a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade geral do \u00e1lbum. Como ficou provado na maior parte das empreitadas em que participaram, Fred 04 e sua turma n\u00e3o costumam acertar muito a m\u00e3o quando reinterpretam can\u00e7\u00f5es alheias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os que trouxeram mudan\u00e7as, Sandro Belo gosta de destacar o trabalho de Columbia (\u201cEu Queria Ser John Lennon\u201d), Jumbo Elektro (\u201cA Noite Mais Linda do Mundo\u201d) e Los Pirata (\u201cCotidiano no 3\u201d). \u201cEles mudaram, deixaram com a cara deles, mas continuaram sendo muito respeitosos\u201d, diz. Os dois primeiros chegaram a acrescentar versos nas letras, de modo muito pertinente, enquanto os \u00faltimos trouxeram, l\u00edrica e musicalmente, a composi\u00e7\u00e3o de Odair Jos\u00e9 para seu universo em portunhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Odair, ali\u00e1s, sempre se mostrou extremamente feliz e honrado com o tributo, e disse em mais de uma ocasi\u00e3o que algumas das melhores vers\u00f5es de suas can\u00e7\u00f5es est\u00e3o ali. Quando fala sobre o \u00e1lbum, ele costuma apontar as vers\u00f5es de Pato Fu, Momboj\u00f3 e Leela como suas preferidas &#8211; para a surpresa de alguns deles.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80518\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair7.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"372\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair7.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair7-300x149.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>RODRIGO BRAND\u00c3O: Que demais!!! N\u00e3o sab\u00edamos disso, soubemos agora pela sua pergunta e ficamos ainda mais gratos e orgulhosos! Realmente ficamos bem satisfeitos com nosso trabalho nessa grava\u00e7\u00e3o. Foi muito legal tamb\u00e9m porque, depois, para promover o lan\u00e7amento do \u00e1lbum, a Bianca foi convidada para ir ao Altas Horas se apresentar junto com o Odair. Eles se conheceram pessoalmente, rolou uma vibe muito boa, e fizeram essa apresenta\u00e7\u00e3o juntos para uma enorme audi\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>JOHN ULH\u00d4A (guitarrista e vocalista, Pato Fu): Acho que esse tributo nos aproximou mais [do Odair], e acabamos tendo a chance de nos encontrar, tocamos juntos em festivais&#8230; Eu sempre gostei muito dele, mas v\u00ea-lo em a\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumentou mais minha admira\u00e7\u00e3o. \u00c9 um cara muito verdadeiro, \u00e9 algo especial quando se conhece algu\u00e9m assim e as expectativas s\u00e3o superadas. A gente se sente diante de uma figura lend\u00e1ria, mas que ao mesmo tempo, \u00e9 super amig\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ELDER FERNANDES: A repercuss\u00e3o do tributo foi muito boa para n\u00f3s. Deu um destaque pro que a gente estava fazendo, sa\u00edram muitas mat\u00e9rias. Deu para agradar dos nossos f\u00e3s aos nossos pais e nossos av\u00f3s, porque todo mundo \u00e9 f\u00e3 do Odair Jos\u00e9 (risos). Mas o mais emocionante pra mim foi quando vi o Odair falando do tributo e ele destacou essa m\u00fasica (\u201cVida que N\u00e3o P\u00e1ra\u201d). Ela ficou numa posi\u00e7\u00e3o muito boa, \u00e9 a segunda faixa, os caras gostaram mesmo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>TAT\u00c1 AEROPLANO: Foi um barato! A gente botou a m\u00fasica em shows na \u00e9poca, e a repercuss\u00e3o foi muito legal. Eu me aprofundei mais ainda na obra do Odair Jos\u00e9, comecei a ir atr\u00e1s de discos que eu n\u00e3o tinha. Pra mim foi \u00f3timo, pra galera da banda tamb\u00e9m. V\u00e1rios amigos tinham participado do tributo tamb\u00e9m, ent\u00e3o foi uma grande celebra\u00e7\u00e3o em torno da obra do Odair, que \u00e9 maravilhosa.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80519\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair8.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair8.jpg 740w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair8-300x203.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capa foi outro ponto elogiado do disco, e certamente ajudou a chamar aten\u00e7\u00e3o para o projeto. Lembre-se que o \u00e1lbum f\u00edsico ainda tinha grande for\u00e7a na \u00e9poca, mesmo com a circula\u00e7\u00e3o crescente da m\u00fasica em MP3. Era muit\u00edssimo bem-produzida, com elementos vintage e apelo sensual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO: Como a capa foi feita no Rio de Janeiro, eu fiz a dire\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia (risos). Eu convidei a Tita Nigri pra fazer o projeto do encarte e a foto da capa, porque ela tinha feito o design do livro do Paulo C\u00e9sar de Ara\u00fajo (\u201cEu N\u00e3o Sou Cachorro, N\u00e3o\u201d). Eu n\u00e3o queria nada t\u00e3o datado, nem que fosse pra modernidade artificial. Mas a grande influ\u00eancia da capa \u00e9 o cartaz de \u201cPulp Fiction\u201d (risos).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>RODRIGO BRAND\u00c3O: O Sandro prop\u00f4s para a Bianca [Jordh\u00e3o, guitarrista e vocalista do Leela] ser a modelo da capa. Mas como o Leela j\u00e1 estaria presente em uma das faixas, ela prop\u00f4s ao Sandro que a modelo fosse sua prima, Carlota Portugal. A Bianca acabou colaborando ajudando na produ\u00e7\u00e3o com a fot\u00f3grafa, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria (nota: o encarte n\u00e3o credita a participa\u00e7\u00e3o de Bianca, atribuindo a produ\u00e7\u00e3o \u00e0 Fl\u00e1via Oliveira. Por\u00e9m, Sandro Belo se lembra de Bianca ter efetivamente colaborado na produ\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO: O conceito \u00e9 um quarto de prost\u00edbulo. A menina \u00e9<\/em> um<em> f\u00e3 do Odair, provavelmente est\u00e1 aguardando um cliente, ouvindo o Odair enquanto espera. E a\u00ed, na contracapa, ela j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1. Ela foi tirada desse lugar, entende?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os artistas entrevistados para essa reportagem disseram que a repercuss\u00e3o do disco foi a melhor poss\u00edvel para eles, destacando n\u00e3o s\u00f3 a exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que o \u00e1lbum obteve, mas tamb\u00e9m o sucesso de cr\u00edtica e a aten\u00e7\u00e3o que ele trouxe para seus pr\u00f3prios trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco foi eleito \u00e1lbum do ano pela APCA, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/03\/22\/faixa-a-faixa-vou-tirar-voce-desse-lugar-tributo-a-odair-jose\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Andr\u00e9 Fiori comentou o \u00e1lbum faixa a faixa aqui no Scream &amp; Yell<\/a>, esteve presente em v\u00e1rias retrospectivas, e \u00e9 recordado carinhosamente at\u00e9 hoje \u2013 raz\u00e3o pela qual Sandro Belo vai lan\u00e7ar uma campanha de crowdfunding para relaxar o disco em CD, com a inclus\u00e3o de duas faixas que ficaram de fora da edi\u00e7\u00e3o original, devido a terem sido finalizadas ap\u00f3s a entrega das masters para a f\u00e1brica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Selo Scream &amp; Yell - Compacto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL3M6mGqCRZBPgdltgm-KdSz8bRQD1q5cM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas faixas, por\u00e9m, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/20\/selo-scream-yell-ouca-e-baixe-o-compacto-com-cidadao-instigado-e-plastico-lunar-tocando-cancoes-de-odair-jose\/\">est\u00e3o disponibilizadas pela primeira vez ao p\u00fablico para download exclusivo do selo Scream &amp; Yell<\/a>. S\u00e3o elas \u201cMundo Feito de Saudade\u201d, pelos cearenses do Cidad\u00e3o Instigado (\u201cFernando Catatau \u00e9 um filho musical do Odair\u201c, diz Sandro Belo), e \u201cViagem\u201d, pelos sergipanos da Pl\u00e1stico Lunar. A primeira foi gravada por Odair em seu \u00e1lbum hom\u00f4nimo de 1970, mas n\u00e3o \u00e9 de sua autoria, e sim de sua ent\u00e3o companheira Diana. J\u00e1 \u201cViagem\u201d faz parte do \u00e1lbum \u201cOdair\u201d, de 1975, e chegou a ser incorporada em apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo como parte da \u00f3pera rock \u201cO Filho de Jos\u00e9 e Maria\u201d. Por coincid\u00eancia, ambas s\u00e3o releituras bastante psicod\u00e9licas, ainda que a primeira preserve uma aura de can\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica \u00e0 brasileira (\u201camor lis\u00e9rgico?\u201d).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80515\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/lojamonstro.com.br\/produtos\/lp-varios-tributo-a-odair-jose-vou-tirar-voce-desse-lugar-novo-lacrado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma edi\u00e7\u00e3o em vinil foi lan\u00e7ada em 2023<\/a>, agora pelo selo goiano American Music. Essa edi\u00e7\u00e3o tem apenas 10 faixas, enquanto o CD tem 18 (e, se concretizada, a reedi\u00e7\u00e3o pelo financiamento coletivo ter\u00e1 20). \u201cDecidir quem ia entrar e quem ia sair foi bem \u2018escolha de Sofia\u2019. Por exemplo, eu queria que entrasse \u2018Uma Vida S\u00f3\u2019, mas foi um relan\u00e7amento em parceria, e o selo parceiro achava que outras teriam que entrar\u2026 O Jamilson [Barros, propriet\u00e1rio da American Music] tinha a vis\u00e3o dele do vinil, de quais deveriam entrar. Debatemos muito, e decidimos deixar essa de fora. Outras n\u00e3o foram inclu\u00eddas por causa da dura\u00e7\u00e3o mesmo. Pensei em fazer como vinil duplo, mas ia ficar caro demais, ia ser invi\u00e1vel. Mas tenho alguns planos para viabilizar o lan\u00e7amento em edi\u00e7\u00e3o integral, quem sabe em 2025\u201d, conta Sandro Belo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80516\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/odair5-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u2013 o mais importante de tudo \u2013 o \u00e1lbum foi um passo a trazer um novo olhar para a obra de Odair Jos\u00e9, que ganhou novos admiradores ao passo em que foi perdido boa parte do ran\u00e7o e do preconceito que as pessoas, em especial os cr\u00edticos e os f\u00e3s de rock, pareciam destinar \u00e0 sua m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>JOHN ULH\u00d4A: Acho que Odair \u00e9 um dos grandes de sua gera\u00e7\u00e3o, refer\u00eancia obrigat\u00f3ria. Ele teve em seu auge o reconhecimento popular, que \u00e9 o mais importante. Talvez a cr\u00edtica e a &#8220;elite cultural&#8221; em seu tempo tenham falhado em perceber seu valor, numa esp\u00e9cie de reducionismo que ocorreu a toda uma gera\u00e7\u00e3o de artistas atrelados a um g\u00eanero considerado &#8220;inferior&#8221;&#8230; Vejo agora uma nova gera\u00e7\u00e3o interessada genuinamente nesses sons, sem \u00eanfase no ex\u00f3tico ou sat\u00edrico, como aconteceu com a minha. Fico feliz com isso, acho que Odair merece sim mais reconhecimento. \u00c9 uma alegria v\u00ea-lo dividindo palco com artistas muito mais jovens que ele, e a rever\u00eancia com que se referem a ele. Mas acho que ainda precisamos reaprender a ouvir Odair Jos\u00e9.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ARTHUR DE FARIA: Eu dou aula de hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira desde os anos 1990 \u2013 n\u00e3o s\u00f3 no Rio Grande do Sul, mas tamb\u00e9m na Argentina e no Uruguai. O Odair sempre foi um cara do qual eu falei nas aulas, \u00e9 um ep\u00edgono, il miglior fabro do seu universo. Ele est\u00e1 muitos passos \u00e0 frente de um Reginaldo Rossi, um Fernando Mendes, de qualquer um que voc\u00ea possa analisar. E aqueles primeiros discos dele t\u00eam uma sofistica\u00e7\u00e3o que s\u00f3 depois de conhec\u00ea-lo eu fui entender porqu\u00ea. Ele mirava no Cat Stevens, a banda que o acompanhava era o Cat Stevens. Quando ele estava no auge, ganhando rios de dinheiro, ele viajava pra Inglaterra pra ver shows, ele foi nos shows de todas as bandas que tocavam ali no come\u00e7o dos anos 1970. Outra coisa que eu acho brilhante \u00e9 que ele sempre se indignava do sequestro que caras como Carlinhos Lyra queriam fazer da bossa nova. Ele (Lyra) dizia que a bossa nova era uma m\u00fasica feita pela classe m\u00e9dia e para a classe m\u00e9dia. E o Odair diz que n\u00e3o, porque o Jo\u00e3o Gilberto n\u00e3o era classe m\u00e9dia, o Tom Jobim tamb\u00e9m n\u00e3o era no come\u00e7o. A segunda gera\u00e7\u00e3o, da qual o Lyra faz parte, essa sim era classe m\u00e9dia. E o Odair n\u00e3o era um cara rico l\u00e1 no Goi\u00e1s, mas gostava de bossa nova, foi tocado por ela. Ele \u00e9 um artista muito complexo, que esteve sempre do lado certo da hist\u00f3ria, falando do cidad\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>RODRIGO BRAND\u00c3O: Odair segue no inconsciente coletivo do brasileiro, porque ele foi muito popular na sua \u00e9poca e, com o passar do tempo, passou a ser bem cultuado, at\u00e9 mais respeitado. Temos a impress\u00e3o que o reconhecimento \u00e0 obra dele aumentou, fazendo mais justi\u00e7a \u00e0 qualidade do seu trabalho. E achamos que esse \u00e1lbum pode ter colaborado um pouco nesse reconhecimento mais tardio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ELDER FERNANDES: Acho que o Odair Jos\u00e9 hoje representa uma vit\u00f3ria. Tem muito etarismo na m\u00fasica, principalmente pra quem n\u00e3o \u00e9 extremamente famoso. Deve ser bacana pra ele ser reconhecido como esse contador de hist\u00f3rias urbanas, populares. Isso \u00e9 muito bonito! Mesmo tu n\u00e3o fazendo um baita sucesso, o mais importante \u00e9 te manter produtivo e ter um sucesso criativo. Esse tipo de sucesso te deixa numa posi\u00e7\u00e3o de autoestima bem saud\u00e1vel, e eu espero que ele esteja feliz com isso, e que ele esteja com uma vida financeira digna e continue produzindo. Porque \u00e9 sempre uma inspira\u00e7\u00e3o ver algu\u00e9m que tem muita coisa feita se renovando e produzindo cada vez mais.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>SANDRO BELO: Esse disco me d\u00e1 muita satisfa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje. N\u00e3o \u00e9 um disco hiperconhecido, mas de nicho: para quem ouve m\u00fasica com aten\u00e7\u00e3o, l\u00ea sobre m\u00fasica, enfim, quem acompanha de verdade. E para o p\u00fablico mais jovem, que gosta de acompanhar revis\u00f5es e velhas novidades. O disco serviu e muito: a obra do Odair foi redescoberta com respeito. Ningu\u00e9m mais chama o Odair para \u201cfesta brega\u201d ou coisas do tipo. O Odair tem uma agenda bem intensa, e o p\u00fablico dele \u00e9 bem diverso: tem o pai, tem o av\u00f4, mas tem o p\u00fablico mais jovem. O disco cumpriu a miss\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/odair.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que tem o homenageado a dizer sobre isso tudo? Bem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ODAIR JOS\u00c9: O tributo abriu essa porta do meu olhar para outros m\u00fasicos, e ao mesmo tempo, eles \u00e9 que me levaram a olhar de forma diferente pro meu trabalho, que n\u00e3o era a forma que vejo hoje. Quando eu ouvi, fiquei encantado: \u201cp\u00f4, o neg\u00f3cio \u00e9 bom\u201d. Eu n\u00e3o esperava uma coisa t\u00e3o boa! Tem uma coisa ou outra que a gente questiona, mas poxa, isso \u00e9 normal. Pra mim, foi uma homenagem sensacional pela qualidade e pelo resultado final. A cada dia eu me surpreendo pela rela\u00e7\u00e3o que m\u00fasicos t\u00eam com meu trabalho. L\u00e1 atr\u00e1s tinha os Tit\u00e3s, hoje tem os rappers\u2026 \u00c9 um respeito e um carinho t\u00e3o grandes que me deixam muito \u00e0 vontade, sejam eles da \u00e9poca que forem. Eu posso estar cantando com o Jorge DuPeixe, com as Bahias e A Cozinha Mineira, fiz uma m\u00fasica com o Gog\u2026 Me sinto muito \u00e0 vontade ao ver que eles me respeitam muito mais do que acho que mere\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tributo a Odair Jos\u00e9: Vou Tirar Voc\u00ea Desse Lugar\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_m0bIQxHVL827ONFbkVHli_kJPamzU1uC4\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 2006, um pequeno selo de Goi\u00e1s lan\u00e7ou um \u00e1lbum em homenagem a um cantor que, embora tivesse sido um dos maiores vendedores de discos do Brasil d\u00e9cadas antes, ent\u00e3o encontrava-se relegado a uma estranha e injusta \u201cnostalgia do brega\u201d.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/20\/vou-tirar-voce-desse-lugar-o-disco-que-colocou-odair-jose-em-seu-devido-lugar\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":80512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1273,1181,1816,1039,207,5157,5151,2276],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80511"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80511"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80511\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80536,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80511\/revisions\/80536"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80512"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80511"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80511"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80511"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}