{"id":8027,"date":"2011-02-14T16:51:28","date_gmt":"2011-02-14T18:51:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8027"},"modified":"2023-03-29T00:17:06","modified_gmt":"2023-03-29T03:17:06","slug":"o-jornalismo-e-a-musica-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/14\/o-jornalismo-e-a-musica-pop\/","title":{"rendered":"O jornalismo e a m\u00fasica pop"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-8030\" title=\"quase_famosos5\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/quase_famosos5.jpg\" alt=\"\" width=\"465\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/quase_famosos5.jpg 465w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/quase_famosos5-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 465px) 100vw, 465px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quando uma amizade pode interferir num trabalho<br \/>\npor <a href=\"http:\/\/twitter.com\/juliano06\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Juliano Costa<\/a><br \/>\nTexto publicado originalmente em 30\/03\/2001 na vers\u00e3o 1.0 do Scream &amp; Yell<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nota do editor: apesar do texto abaixo ter sido publicado 10 anos atr\u00e1s, na\u00a0 primeira vers\u00e3o do site, e v\u00e1rios dos profissionais entrevistados terem mudado de reda\u00e7\u00f5es, a discuss\u00e3o ainda \u00e9 oportuna. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme \u201cQuase Famosos\u201d, de Cameron Crowe, um garoto, William Miller, aspirante a jornalista, se v\u00ea numa esp\u00e9cie de &#8220;trabalho de seus sonhos&#8221;: acompanhar a turn\u00ea de sua banda predileta, ao lado dos m\u00fasicos, e escrever uma mat\u00e9ria (de capa, inclusive) sobre essa banda para uma grande revista de rock \u2013 e ainda ser pago pra isso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o, \u00e9 tudo alegria para o garoto. Mas o conv\u00edvio com seus \u00eddolos, at\u00e9 ent\u00e3o inating\u00edveis, fascina-o de tal maneira que seu trabalho, o motivo original da viagem, acaba passando a um segundo plano, ofuscado pela crescente amizade gerada por essa conviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eis que, tanto o editor de Miller, j\u00e1 suspeitando da intimidade do jornalista-mirim com a banda, e os pr\u00f3prios m\u00fasicos, c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como ser\u00e3o retratados na revista, perdem a credibilidade pelo trabalho do garoto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso acaba levantando uma quest\u00e3o: quando se \u00e9 amigo dos integrantes de uma banda, \u00e9 poss\u00edvel que um jornalista fa\u00e7a uma cr\u00edtica ou uma resenha imparcial e honesta sobre essa banda, sem que a amizade exer\u00e7a algum tipo de interfer\u00eancia no texto? \u00c9 correto ser amigo de uma banda e fazer uma cr\u00edtica sobre ela em um grande ve\u00edculo de imprensa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor Cameron Crowe, com seu filme praticamente autobiogr\u00e1fico (William Miller, o garoto, seria ele pr\u00f3prio, que tamb\u00e9m come\u00e7ou sua carreira como cr\u00edtico musical) deixa claro que dificilmente se pode fazer uma cr\u00edtica \u201chonesta e impiedosa&#8221;, como aconselhava seu guru, o lend\u00e1rio Lester Bangs. Miller, maravilhado com o mundo-roque, \u00e9 apenas honesto em seu texto, mas nada impiedoso. Pelo contr\u00e1rio: a amizade com os integrantes da banda &#8220;amolece seu cora\u00e7\u00e3o&#8221;, e o impede de julgar o trabalho da banda com uma cabe\u00e7a de cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre esse assunto, falamos com alguns dos principais jornalistas que escrevem sobre m\u00fasica no Brasil. Leia suas opini\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00facio Ribeiro, rep\u00f3rter de m\u00fasica e cinema do caderno Ilustrada da Folha de S\u00e3o Paulo e da se\u00e7\u00e3o Pensata, do site Folha On Line (<em>nota do editor: atualizando para 2011: colunista do IG e colaborador de O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>) credita que o jornalista profissional precisa ter discernimento sobre o assunto: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 problemas em escrever sobre uma banda de amigos desde que o jornalista acredite mesmo que o tal grupo mere\u00e7a esse espa\u00e7o&#8221;. L\u00facio diz que nunca se deparou com o problema, pois suas cr\u00edticas s\u00e3o, na maioria, sobre bandas estrangeiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colega de L\u00facio na Ilustrada, Marcelo Valletta pensa de forma diferente. &#8220;Acho incorreto fazer mat\u00e9rias com amigos. Se voc\u00ea for designado para a tarefa, conv\u00e9m explicar a situa\u00e7\u00e3o ao seu superior e pedir que ele indique outra pessoa&#8221;, declara o jornalista. &#8220;Mas caso voc\u00ea seja mesmo obrigado a escrever a tal resenha, deve utilizar o rigor cr\u00edtico de costume&#8221;, completa Valletta. &#8220;Se a amizade vai interferir no texto, isso vai depender da pessoa. \u00c9 preciso frieza e profissionalismo nessa hora&#8221;, conclui o jornalista, que confessa nunca ter passado por uma situa\u00e7\u00e3o parecida com essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Opini\u00e3o semelhante tem Jos\u00e9 Fl\u00e1vio J\u00fanior, editor-adjunto da revista Bizz (<em>nota do editor: atualmente na Oi FM e na revista Bravo!<\/em>): &#8220;N\u00e3o \u00e9 correto para um cr\u00edtico musical ser amigo de banda, mas \u00e9 inevit\u00e1vel ser colega e ter conhecidos, que acabam virando at\u00e9 fontes&#8221;, diz Jos\u00e9 Fl\u00e1vio, que acredita que usar os colegas m\u00fasicos como fonte \u00e9 um outro problema \u00e9tico do jornalista. &#8220;Eu n\u00e3o queria dizer essa obviedade, mas tudo depende. Se o cara consegue discernir seu contato com o m\u00fasico da resenha que vai fazer, \u00f3timo&#8221;, atesta Jos\u00e9 Fl\u00e1vio, que conclui: &#8220;A resenha \u00e9 do disco, n\u00e3o da amizade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Barcinski, um dos apresentadores do programa Garagem, da r\u00e1dio Brasil 2000, de S\u00e3o Paulo (<em>nota do editor: atualmente colunista da Ilustrada Online e colaborador da Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>), \u00e9 ainda mais radical: &#8220;\u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o (\u00e9 poss\u00edvel fazer um texto imparcial), pois jornalista que se preza n\u00e3o fica amigo de artista. Essa \u00e9 a regra n\u00famero um do jornalismo cultural&#8221;, declarou o jornalista, que lamenta que, &#8220;no Brasil, infelizmente \u00e9 normal ver nome de jornalista na lista de agradecimentos de discos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Barcinski acredita que o dever de entrevistar e ter contato mais direto com os artistas cabe ao jornalista, e n\u00e3o ao cr\u00edtico. &#8220;Nos EUA, pelo menos nos \u00f3rg\u00e3os mais s\u00e9rios, os cr\u00edticos trabalham na reda\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o entrevistam artistas, est\u00e3o l\u00e1 apenas para resenhar obras\u201d, disse o jornalista. \u201cJ\u00e1 no Brasil, n\u00e3o h\u00e1 uma divis\u00e3o clara entre jornalistas e cr\u00edticos de m\u00fasica&#8221;, concluiu Barcinski, que confessa ser amigo dos integrantes da banda Sepultura, mas que j\u00e1 os conhecia antes de come\u00e7ar a escrever sobre m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Correspondente da Tv Globo e do jornal Folha de S. Paulo em San Francisco, EUA, o jornalista \u00c1lvaro Pereira J\u00fanior (<em>nota do editor: atualmente editor do programa Fant\u00e1stico<\/em>) tamb\u00e9m entende que seja errado escrever cr\u00edtica sobre amigos. &#8220;A n\u00e3o ser que voc\u00ea tenha uma liberdade tamanha de texto que lhe permita escrever algo do tipo \u2018sou suspeito para falar desses caras, porque eles s\u00e3o meus amigos\u2019\u201d, contrap\u00f4s o jornalista, que assina uma coluna sobre m\u00fasica no suplemento Folhateen, da Folha de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro alerta tamb\u00e9m para o fato da exist\u00eancia de muitos jornalistas que prestam servi\u00e7os a gravadoras. &#8220;Tem muito cr\u00edtico de m\u00fasica, principalmente no Rio (de Janeiro), que escreve release usando pseud\u00f4nimo para gravadoras\u201d, afirma o jornalista. \u201cE depois ainda vai criticar discos dessa mesma gravadora!&#8221;, exclamou \u00c1lvaro, que preferiu, por motivos \u00e9ticos, n\u00e3o revelar o nome desses jornalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma coluna antiga no caderno Folhateen, Ondas Curtas, o jornalista Andr\u00e9 Forastieri alertava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complicado assim trabalhar na imprensa musical. O que voc\u00ea ganha com isso? N\u00e3o muito. Voc\u00ea entra em show sem pagar e ganha montes de CDs. Viaja a trabalho para entrevistar uns e outros. \u00c9 convidado para festas de lan\u00e7amentos de discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, claro, conhece um monte de artistas. \u00c0s vezes, at\u00e9 fica amigo de um monte de artistas. Se isso acontecer, est\u00e1 na hora de pedir demiss\u00e3o e mudar de carreira. Ningu\u00e9m tem coragem de falar mal dos amigos. Ou, invertendo, n\u00e3o tem carreira que valha a perda de um amigo de verdade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que voc\u00ea acha, caro leitor?<\/p>\n<p>********<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cQuase Famosos\u201d, um filme de amor, amizade e rock and roll, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/14\/dvd-quase-famosos-por-marcelo-costa\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Lester Bangs foi provavelmente quem mais escreveu com alma, por Marcelo Orozco (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/14\/dvd-quase-famosos-por-marcelo-costa\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAstral Weeks\u201d, de Van Morrison, resenhado por Lester Bangs (em ingl\u00eas <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/astral.html\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cHow to be a Rock Critic\u201d, texto de Lester Bangs (em ingl\u00eas <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/critic.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cJerry Maguire\u201d, uma rara com\u00e9dia rom\u00e2ntica para homens, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/15filmes.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cVanilla Sky\u201d ou filminhos bons s\u00e3o s\u00f3 passatempo esquec\u00edvel, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/vanillasky.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cTudo Acontece em Elizabethtown\u201d, um recorte de v\u00e1rias id\u00e9ias, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/elizabetown.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Introdu\u00e7\u00e3o ao livro \u201cNot fade Away\u201d, de Ben Fong-Torres, por Cameron Crowe (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/cameroncrowe.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Teoria de Alison e Reflex\u00f5es Alis\u00f4nicas, dois textos do Miguel F. Luna (<a href=\"..\/..\/blog\/2009\/03\/29\/remexendo-textos-antigos\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Juliano Costa\n\u00c9 correto ser amigo de uma banda e fazer uma cr\u00edtica sobre ela em um grande ve\u00edculo? 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