{"id":80240,"date":"2024-03-04T14:59:56","date_gmt":"2024-03-04T17:59:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=80240"},"modified":"2024-09-23T15:35:43","modified_gmt":"2024-09-23T18:35:43","slug":"entrevista-barbi-recanati-fala-sobre-seu-livro-deusas-do-rock-apagamento-historico-patriarcado-e-opressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/04\/entrevista-barbi-recanati-fala-sobre-seu-livro-deusas-do-rock-apagamento-historico-patriarcado-e-opressao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Barbi Recanati fala sobre seu livro \u201cDeusas do Rock\u201d, apagamento hist\u00f3rico, patriarcado e opress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richards, Buddy Holly, Johnny Cash, Beatles, Rolling Stones\u2026 as proezas masculinas na hist\u00f3ria do rock s\u00e3o consideravelmente contadas fazendo com que nomes de homens figurem no imagin\u00e1rio popular como precursores. Pais do rock, como dizem. E as mulheres no meio musical, algumas delas l\u00e9sbicas e\/ou afrodescendentes, n\u00e3o existiram? Claro que sim, por\u00e9m n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es igualit\u00e1ria para disputar espa\u00e7o dentro da narrativa cronol\u00f3gica do estilo contada por gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Figuras femininas foram e s\u00e3o seminais para o rock\u2019n\u2019roll, mesmo antes de ele ter esse nome. Contudo, tiveram suas exist\u00eancias apagadas ou esquecidas com o passar dos anos, ao passo que os homens ganharam cada vez mais holofotes. Ironicamente vendido como a trilha de quem est\u00e1 \u00e0 margem, a ind\u00fastria cultural tamb\u00e9m fez do g\u00eanero que popularizou a guitarra el\u00e9trica um instrumento de opress\u00e3o. Dentro de um mercado sexista e racista, o showbusiness escondia as cores da diversidade que compunham aquela que foi apontada por Frank Sinatra como \u201ca m\u00fasica marcial para todo delinquente de costeletas na face da Terra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dar visibilidade \u00e0s que foram renegadas ou tiveram seus talentos suprimidos, a escritora e musicista argentina <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/barbirecanati\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Barbi Recanati<\/a> lan\u00e7ou o livro \u201cDeusas do Rock\u201d, <a href=\"https:\/\/hipotetica.com.br\/editora\/publicacao\/deusas-do-rock\/#:~:text=Resultado%20da%20busca%20de%20Barbi,cena%20independente%20dos%20anos%201990.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">editado no Brasil pela Hipot\u00e9tica<\/a>. Com ilustra\u00e7\u00f5es de PowerPaola, a obra revisita, com bastante informa\u00e7\u00e3o e didatismo, a biografia de mulheres fundamentais para o surgimento e a consolida\u00e7\u00e3o do rock na ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, desde as pioneiras do blues at\u00e9 a cena independente dos anos 1990. Sister Rosetta Tharpe, Patti Smith, Debbie Harry, Siouxsie Sioux e Kathleen Hanna s\u00e3o algumas das personagens. A publica\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de muita pesquisa e da inten\u00e7\u00e3o de encontrar o pr\u00f3prio DNA sonoro de sua autora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo seu in\u00edcio, o rock n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fazia parte do capitalismo, mas vivia como forma de express\u00e3o nos esgotos do sistema. Apropriar-se daquele g\u00eanero para ser consumido pelas classes m\u00e9dias, pela televis\u00e3o, pelo r\u00e1dio, nos anos 50, significou dar-lhe uma cara nova de acordo com os tempos. Uma lavagem racista, sexista, classista e hegem\u00f4nica. E o rock foi quem tomou conta dos palcos e das massas\u201d, pontua Barbi, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Recanati\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que tem lan\u00e7ado discos elogiados<\/a> nos \u00faltimos anos e abriu o show das Bikini Kill em Buenos Aires.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, a artista hermana fala sobre sua pesquisa para o livro, impress\u00f5es sobre hist\u00f3ria cultural e como v\u00ea o cen\u00e1rio onde est\u00e1 inserida. Mesmo dizendo n\u00e3o saber o que outros podem fazer para tornar o meio musical mais receptivo para mulheres e outros grupos que sofrem com preconceito, ela sugere que iniciar as mudan\u00e7as, de maneira concreta, \u00e9 um passo fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa Argentina, nos anos pr\u00e9-pandemia, vivemos um boom discursivo sobre a cota. Estava come\u00e7ando a acontecer que muitas bandas inclu\u00edam mulheres em suas forma\u00e7\u00f5es para preencher a cota do festival, e muitos festivais contratavam mulheres para preencher essa cota. Naquele momento algo cheirava mal, mas depois veio a pandemia, e quando sa\u00edmos das nossas cavernas apareceram muitas bandas novas de gente muito jovem, que na pandemia eram menores ou tinham 18 anos, e viram aquelas mudan\u00e7as que a gente viu como for\u00e7ado como algo que era assim. O resultado \u00e9 que hoje se tornou incomum ver uma banda jovem que n\u00e3o seja mista. (&#8230;). Ent\u00e3o, acho que \u00e0s vezes \u00e9 preciso passar pelos processos de inclus\u00e3o e equidade, por mais for\u00e7ados que pare\u00e7am, porque o que vem depois \u00e9 sempre superior.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80248\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Deusas-do-rock_1aCapa_1080n-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1089\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Deusas-do-rock_1aCapa_1080n-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Deusas-do-rock_1aCapa_1080n-copiar-207x300.jpg 207w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro \u201cDeusas do Rock\u201d n\u00e3o s\u00f3 lan\u00e7a luz sobre importantes produ\u00e7\u00f5es musicais realizadas por figuras femininas, mas tamb\u00e9m contextualiza hist\u00f3rica e cronologicamente a import\u00e2ncia desses materiais e suas autoras. J\u00e1 na primeira personagem, Mamie Smith, temos uma boa dose de informa\u00e7\u00e3o, situando a cantora como pioneira do R&amp;B e colocando-a no cen\u00e1rio de sua \u00e9poca (d\u00e9cada de 1920), abordando p\u00f3s-guerra e ind\u00fastria cultural. Como foi o processo de pesquisa do livro e quanto tempo durou?<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria do rock e da m\u00fasica popular marcou minha vida. Sempre fui uma grande amante da m\u00fasica e meu assunto favorito para falar sempre foi \u201cm\u00fasicos\u201d. Ent\u00e3o, quando decidi escrever o livro, fiz isso como uma resposta a meu eu adolescente. \u00c9 por isso que o filtro de quem \u00e9 quem \u00e9 muito arbitr\u00e1rio e pessoal. Centra-se na cria\u00e7\u00e3o do rock, porque estava convencida de que o primeiro bluesman gravado foi Robert Johnson, mas descobri que havia uma hist\u00f3ria de d\u00e9cadas, protagonizada por mulheres, afro-americanos, l\u00e9sbicas, pessoas pobres que abriram caminho para ele. Isso destruiu o meu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80251\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas23.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas23.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas23-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais foram os crit\u00e9rios utilizados para a escolha das mulheres citadas na publica\u00e7\u00e3o, considerando que ainda existem muitas outras esquecidas ou subestimadas nos \u00faltimos cem anos do showbusiness musical? Existe material, por exemplo, para um segundo volume com mais personagens?<\/strong><br \/>\nCom a pesquisa, descobri quem abriu o caminho para Elvis, no punk, no rock cl\u00e1ssico, no folk. Mas tem a ver com a hist\u00f3ria do rock que constru\u00ed ao longo da minha vida. Acredito que \u00e9 um exerc\u00edcio que pode ser feito com cada hist\u00f3ria e DNA musical de cada pessoa. Porque a forma meticulosa e persistente de apagar as mulheres e as diversidades dessas hist\u00f3rias certamente se repete em quase todas as hist\u00f3rias. Existem amostras para mais 400 volumes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O t\u00edtulo chama pelo g\u00eanero que popularizou a guitarra el\u00e9trica, mas tra\u00e7a a g\u00eanese desse estilo que derivou do soul, do jazz, do gospel e do R&amp;B. Por que a import\u00e2ncia de fazer esse resgate at\u00e9 o ber\u00e7o do rock? Muito se fala em pais do rock, seria a inten\u00e7\u00e3o mostrar as m\u00e3es do tipo musical em quest\u00e3o?<\/strong><br \/>\nO que \u00e9 rock? \u00c9 uma pergunta que tem tantas respostas quanto pessoas no mundo. No entanto, \u00e9 muito claro que o rock, tal como foi capitalizado e conhecido, foi uma apropria\u00e7\u00e3o cultural muito violenta e n\u00e3o muito gradual num contexto terr\u00edvel de racismo e segrega\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. O conceito R&amp;B \u00e9 inventado pelas mesmas gravadoras e r\u00e1dios para fazer o mercado acreditar que o rock \u00e9 algo para brancos e o R&amp;B \u00e9 para a comunidade afro-americana. Antes disso, com o surgimento daquele som de guitarras el\u00e9tricas, aquelas vozes com gritos, aquelas letras rebeldes e contestat\u00f3rias, a imagem no palco anti-establishment e os movimentos sexuais, todas essas caracter\u00edsticas essenciais do rock, foram criadas por mulheres. Mulheres sem emprego, sem direitos civis b\u00e1sicos, que n\u00e3o s\u00f3 sofreram as consequ\u00eancias e a viol\u00eancia da segrega\u00e7\u00e3o racial da \u00e9poca, mas tamb\u00e9m sofreram o sexismo nas suas pr\u00f3prias comunidades. Eles ocupavam o lugar mais baixo da pir\u00e2mide. Com t\u00e3o pouco a perder havia muito a tentar, e assim nasceu o rock de verdade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80249\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas20.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas20.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas20-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das mais conhecidas-desconhecidas quando se fala em hist\u00f3ria do rock \u00e9 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/08\/as-verdadeiras-rainhas-do-rock-n-roll\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sister Rosetta Tharpe<\/a>. Chuck Berry disse que a pr\u00f3pria carreira era \u201cuma grande personifica\u00e7\u00e3o de Roseta\u201d e Little Richard resolveu seguir na m\u00fasica porque abriu um show de Rosetta e foi elogiado por ela (infos que constam no seu livro, inclusive). Acredita que situa\u00e7\u00f5es assim \u2014 em que mulheres artistas foram colocadas em segundo plano \u2014 ainda s\u00e3o pouco conhecidas do grande p\u00fablico? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nAcho que as hist\u00f3rias que foram replicadas durante 70 anos, em filmes, cartazes, camisetas, livros, hist\u00f3rias, capas, podem levar mais 70 anos para serem substitu\u00eddas. N\u00e3o havia Internet e a mesma hist\u00f3ria n\u00e3o verificada poderia ser replicada e tornar-se parte da nossa mem\u00f3ria. Mas al\u00e9m da parte da hist\u00f3ria e da cultura geral constru\u00edda, devemos tamb\u00e9m compreender que essas hist\u00f3rias e essas decis\u00f5es foram tomadas conscientemente. No seu in\u00edcio, o rock n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fazia parte do capitalismo, mas vivia como forma de express\u00e3o nos esgotos do sistema. Apropriar-se daquele g\u00eanero para ser consumido pelas classes m\u00e9dias, pela televis\u00e3o, pelo r\u00e1dio, nos anos 50, significou dar-lhe uma cara nova de acordo com os tempos. Uma lavagem racista, sexista, classista e hegem\u00f4nica. E o rock foi quem tomou conta dos palcos e das massas. Ent\u00e3o esses se tornaram os aspectos dos palcos massivos. Aspectos contra os quais lutamos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que maneira selecionou as informa\u00e7\u00f5es sobre cada artista mencionada na obra? O que foi levado em considera\u00e7\u00e3o para ser usado nos textos, que s\u00e3o objetivos e did\u00e1ticos? Al\u00e9m da misoginia, outros preconceitos colaboraram para minimizar o trabalho de grandes artistas: racismo, sexismo, etarismo\u2026 Como percebe que as pessoas de hoje lidam com o fato de que existiam muitos talentos que foram apagados da hist\u00f3ria por conta dessas persegui\u00e7\u00f5es intolerantes?<\/strong><br \/>\nAchei que estava escrevendo sobre o que j\u00e1 existia. Ent\u00e3o, enquanto eu verificava informa\u00e7\u00f5es sobre uma artista, encontrava outra artista antes dela que n\u00e3o conhecia. Tinha muito disso nas informa\u00e7\u00f5es, mulheres falando de outras mulheres. Eu acho que como lidar com isso\u2026 hoje o feminismo \u00e9 um espa\u00e7o que se preocupa muito em reescrever e divulgar, porque acho que nos \u00faltimos anos um dos maiores ecos do feminismo \u00e9 o questionamento dos pr\u00f3prios privil\u00e9gios. E para aceitar o que h\u00e1 de ruim na hist\u00f3ria e reescrev\u00ea-la, a primeira coisa \u00e9 falar dos nossos privil\u00e9gios. A m\u00fasica hoje \u00e9 resultado de muitas fus\u00f5es e mudan\u00e7as. Por\u00e9m, se um rastafari questionar um garoto branco de classe m\u00e9dia do Brooklyn por fazer reggae, o garoto certamente ficar\u00e1 bravo e n\u00e3o poder\u00e1 questionar seu privil\u00e9gio musical nem por mais um segundo. Afinal, ele \u00e9 capaz de tocar qualquer estilo de m\u00fasica sem ser questionado. N\u00e3o tem nada a ver com deixar de fazer as coisas, mas pelo menos assumir os privil\u00e9gios que cada pessoa tem devido \u00e0 opress\u00e3o sistem\u00e1tica das minorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na parte sobre a Kim Gordon consta: \u201cO Sonic Youth foi um dos grupos que fizeram com que a gera\u00e7\u00e3o roqueira dos anos 1990 considerasse importante <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/12\/girl-in-a-band-a-memoir-kim-gordon\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u2018ter uma garota\u2019 na banda<\/a>.\u201d O qu\u00e3o isso foi v\u00e1lido \u2014 considerando que muitos jovens dessa \u00e9poca noventista seguem fazendo som hoje? Acredita que ainda existe rejei\u00e7\u00e3o para mulheres em bandas? Ser\u00e1 que considerar meninas na forma\u00e7\u00e3o de grupos musicais como algo imperativo (uma esp\u00e9cie de cota) seria boa ideia?<\/strong><br \/>\nNa Argentina, nos anos pr\u00e9-pandemia, vivemos um boom discursivo sobre a cota. Estava come\u00e7ando a acontecer que muitas bandas inclu\u00edam mulheres em suas forma\u00e7\u00f5es para preencher a cota do festival, e muitos festivais contratavam mulheres para preencher essa cota. Naquele momento algo cheirava mal, mas depois veio a pandemia, e quando sa\u00edmos das nossas cavernas apareceram muitas bandas novas de gente muito jovem, que na pandemia eram menores ou tinham 18 anos, e viram aquelas mudan\u00e7as que a gente viu como for\u00e7ado como algo que era assim. O resultado \u00e9 que hoje se tornou incomum ver uma banda jovem que n\u00e3o seja mista. Fa\u00e7o m\u00fasica h\u00e1 mais de 20 anos e nunca experimentei nada semelhante. As meninas est\u00e3o por toda parte, incluindo m\u00fasicos n\u00e3o-bin\u00e1rios, artistas trans, bandas queer. E a qualidade e a sensibilidade da m\u00fasica argentina est\u00e3o num grande momento, que n\u00e3o pass\u00e1vamos h\u00e1 d\u00e9cadas. Ent\u00e3o eu acho que \u00e0s vezes \u00e9 preciso passar pelos processos de inclus\u00e3o e equidade, por mais for\u00e7ados que pare\u00e7am, porque o que vem depois \u00e9 sempre superior.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-80250\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas21.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas21.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/deusas21-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 algum tempo envolvida com m\u00fasica no cen\u00e1rio independente. Acha esse espa\u00e7o acolhedor para mulheres e\/ou pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias e n\u00e3o brancas? J\u00e1 sofreu algum tipo de desqualifica\u00e7\u00e3o por ser menina?<\/strong><br \/>\nSe uma mulher disser que n\u00e3o sofreu desqualifica\u00e7\u00e3o por ser mulher, talvez seja melhor ela fingir dem\u00eancia. Mas a menos que voc\u00ea more na ilha de Lesbos, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ser desqualificada por ser mulher. Porque vivemos num mundo capitalista e o capitalismo deve ser sexista, racista e classista para funcionar. Faz parte do seu motor. Por\u00e9m, desde o in\u00edcio, a arte engana o sistema. Quando Bessie Smith se transforma, sendo afro, bissexual e pobre, em objeto de consumo dos brancos e das classes altas, ela acessa um lugar de poder e reconhecimento proibido. Mas ela nunca deixa de ser tratada com sexismo e racismo. Essa desqualifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 desaparece quando n\u00e3o se depara com pessoas e espa\u00e7os de opress\u00e3o. E nesse sentido a internet ajuda, a autogest\u00e3o e a arte independente s\u00e3o fundamentais, porque com o tempo voc\u00ea pode construir espa\u00e7os pequenos e m\u00e9dios, com pessoas que se consideram seus pares, n\u00e3o superiores. Ent\u00e3o, quando seu p\u00fablico \u00e9 transfeminista e antirracista, voc\u00ea come\u00e7a a sentir muito pouco a desqualifica\u00e7\u00e3o e as diferen\u00e7as. Acho que se melhorarmos na arte, n\u00e3o ser\u00e1 mais necess\u00e1rio ser massivo e mainstream para viver da m\u00fasica. A massividade \u00e9 sempre classista, racista e sexista. Ser um grande artista \u00e9 sofrer tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que maneira homens podem ajudar a criar um espa\u00e7o seguro para mulheres na m\u00fasica e tamb\u00e9m dar visibilidade a figuras do passado historicamente invisibilizadas pelo machismo, racismo, xenofobia outros preconceitos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. Eu s\u00f3 sei o que eu posso fazer. Um dia descobri que portas continuavam se abrindo no meu caminho, mas que muitas dessas portas n\u00e3o eram por causa do meu talento e sim por causa dos meus privil\u00e9gios. Comecei a escolher com muito cuidado quais portas abrir e quais deixar fechadas para que quem chegasse atr\u00e1s pudesse abri-las, diferenciar as oportunidades de ambi\u00e7\u00e3o excessiva. Tomar consci\u00eancia das coisas, pensar nelas com consci\u00eancia de classe, com consci\u00eancia de g\u00eanero, penso que \u00e9 disso que precisamos. E aceitar que n\u00e3o entendemos nada e que podemos estar errados em tudo. Entender que ter mais nem sempre \u00e9 melhor. Minha maior felicidade art\u00edstica \u00e9 saber que minha arte \u00e9 apreciada por pessoas alinhadas com minhas convic\u00e7\u00f5es. Isso me ajudou. Mas n\u00e3o sei o que um homem deve fazer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Barbi Recanati - Full Performance (Live on KEXP)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/afPYMYSzJgw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Homero Pivotto Jr.<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, vocalista da\u00a0<a href=\"https:\/\/diokane.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diokane<\/a>\u00a0e respons\u00e1vel pelo videocast\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCY71eKJzuBUXpyDV2IFeP8Q\/videos?view_as=subscriber\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Ben Para Todo Mal<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Eme Romero<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O capitalismo deve ser sexista, racista e classista para funcionar. A massividade \u00e9 sempre classista, racista e sexista. Ser um grande artista \u00e9 sofrer tudo isso&#8221;, diz Barbi Recanati\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/03\/04\/entrevista-barbi-recanati-fala-sobre-seu-livro-deusas-do-rock-apagamento-historico-patriarcado-e-opressao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":52,"featured_media":80243,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7065,6754,4817],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80240"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/52"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80240"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83887,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80240\/revisions\/83887"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80243"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}