{"id":801,"date":"2009-02-15T19:49:48","date_gmt":"2009-02-15T22:49:48","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=801"},"modified":"2020-01-30T02:16:03","modified_gmt":"2020-01-30T05:16:03","slug":"foi-apenas-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/15\/foi-apenas-um-sonho\/","title":{"rendered":"Cinema: Foi Apenas um Sonho"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual o motivo de estarmos vivos? Qual o sentido em acordarmos todos os dias? Duas perguntas profundas que existem desde sempre e seguem sem resposta definitiva, afinal o m\u00e1ximo que conseguimos em milhares de anos foram um belo punhado de teses filos\u00f3ficas e uma centena de religi\u00f5es que, no fundo (bem l\u00e1 no fundo), dizem a mesma coisa. Continuamos tateando em busca de alguma raz\u00e3o que de algum sentido a essa coisa toda que alguns chamam viver (e outros apelidam de inferno). N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua a qual somos submetidos diariamente tendo algumas suspeitas n\u00e3o provadas cientificamente (o que mais complica que explica) do motivo das coisas serem assim, e n\u00e3o assado, e de agirmos de modo x e n\u00e3o y. Da\u00ed escolhemos de que lado vamos ficar, agir, pensar e viver. E sentados sobre nosso pr\u00f3prio ju\u00edzo julgamos todo o resto. \u00c9 um trabalho sujo, mas algu\u00e9m tem que faze-l\u00f4, afinal n\u00e3o estamos rodeados apenas por coisas belas (ainda bem) e o para\u00edso, como muitos desenham, deva ser um lugar pra l\u00e1 de insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor anglo-portugu\u00eas Sam Mendes parece interessado nessa fun\u00e7\u00e3o de juiz, e j\u00e1 havia mostrado que tem jeito pra coisa no brilhante &#8220;Beleza Americana&#8221;, uma dura cr\u00edtica a sociedade norte-americana agraciada com cinco Oscars (incluindo os cortejados Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Original). Com &#8220;Foi Apenas Um Sonho&#8221;, o diretor retorna ao tema, por\u00e9m (quase) deixa de lado o cinismo apoiando-se na simplicidade de uma hist\u00f3ria que diz mais sobre o espectador do que sobre o pr\u00f3prio filme em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo na primeira cena do longa temos um encontro: April (Kate Winslet em grande atua\u00e7\u00e3o) conhece Frank (um Leonardo DiCaprio bastante correto). Ela tem sonhos de ser atriz. Ele \u00e9 estivador, mas est\u00e1 pronto para subir na escala social, pois vai assumir um emprego de caixa em uma loja. Antes do beijo inevit\u00e1vel temos o corte e nos vemos alguns anos depois. April est\u00e1 no palco de uma pe\u00e7a ruim, e Frank parece n\u00e3o saber lidar com o fracasso da mulher, e o resultado \u00e9 uma longa briga que coloca o mundo em seu devido lugar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-54684 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/road1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"890\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/road1.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/road1-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pe\u00e7as come\u00e7am a se encaixar no tabuleiro (dois filhos n\u00e3o planejados, uma casa bonitinha atolada em meio a um &#8220;cemit\u00e9rio social&#8221; de mortos-vivos, um emprego que n\u00e3o preenche os anseios da alma, uma vida que deveria ter seguido numa estrada, mas estacionou em um lugar qualquer entre o vazio e a falta de esperan\u00e7a) e conforme se juntam exibem o desenho cruel de uma classe m\u00e9dia norte-americana atolada na monotonia, na apatia e no conformismo, uma s\u00e9rie de adjetivos que ainda freq\u00fcentam a ordem do dia (seja nos Estados Unidos, seja no Congo, seja no Brasil).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">April percebe que est\u00e1 sendo consumida pelo mal-estar da vida sem sentido, e inventa \u2013 e se agarra a \u2013 uma viagem para tentar sacudir a vida do casal. Frank reluta em um primeiro momento, aceita no segundo, e acaba por fim escolhendo o caminho mais simples na terceira parte. O casal se enfrenta vorazmente em todas essas passagens, mas n\u00e3o consegue se entender. Di\u00e1logos s\u00e3o travados, sil\u00eancios s\u00e3o ouvidos, mas o \u00fanico som que persiste \u00e9 o do desespero da vida que segue sem sentido em dire\u00e7\u00e3o a vala do esquecimento. J\u00e1 cantava Neil Young: &#8220;melhor queimar do que apagar aos poucos&#8221;, mas quem impede algu\u00e9m de sonhar al\u00e9m de si mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 nenhuma alegria verdadeira em &#8220;Foi Apenas Um Sonho&#8221;, e por isso o filme tem verniz redentor (ou revolucion\u00e1rio, como queira) e requintes de obrigat\u00f3rio. Apesar da hist\u00f3ria se passar nos anos 50 (o livro de Richard Yates, que deu origem ao roteiro, \u00e9 de 1961) \u00e9 f\u00e1cil perceber que a sedu\u00e7\u00e3o do dinheiro (que troca sonhos por papel moeda), a falta de planejamento familiar e o desconhecimento que os pr\u00f3prios casais t\u00eam de si pr\u00f3prios s\u00e3o temas t\u00e3o atuais e universais quanto na \u00e9poca em que foram escritos. Vale tanto quanto uma sess\u00e3o de terapia e meia d\u00fazia de cervejas e desabafos com o melhor amigo (a) no bar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Academia ignorou solenemente o filme (apesar do pr\u00eamio para Kate no Globo de Ouro), e n\u00e3o que ele seja sensacional, s\u00f3 brilha timidamente em um per\u00edodo de franca decad\u00eancia da s\u00e9tima arte. Foram tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es ao Oscar nas categorias Melhor Figurino, Melhor Dire\u00e7\u00e3o de Arte e Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon, que interpreta (com generosas doses de cinismo) um louco que enxerga mais coisas que a m\u00e9dia comum observa (quem disse que em terra de cego, quem tem um olho \u00e9 rei, precisa ver o outro lado do ditado popular). Pena que o Oscar de coadjuvante j\u00e1 tenha dono, que a idiota tradu\u00e7\u00e3o nacional do t\u00edtulo mate boa parte do drama do roteiro e que Winslet tenha sido indicada apenas por &#8220;O Leitor&#8221;, e n\u00e3o por sua bel\u00edssima atua\u00e7\u00e3o aqui. &#8220;Foi Apenas Um Sonho&#8221; merecia melhor sorte&#8230; como todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. A tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo original, &#8220;Revolutionary Road&#8221;, \u00e9 a pior (no sentido de entregar a hist\u00f3ria) desde&#8230; &#8220;Cidade dos Sonhos&#8221;, casualmente outro filme com nome de rua.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Revolutionary Road - Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qADM67ZgYxM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" style=\"width: 480px; height: 320px;\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/revolucionary_road.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"320\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A Academia ignorou solenemente o filme (apesar do pr\u00eamio para Kate no Globo de Ouro), e n\u00e3o que ele seja sensacional, s\u00f3 brilha timidamente em um per\u00edodo de franca decad\u00eancia da s\u00e9tima arte.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/15\/foi-apenas-um-sonho\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":54683,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/801"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=801"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/801\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54686,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/801\/revisions\/54686"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}