{"id":8006,"date":"2011-02-13T11:40:17","date_gmt":"2011-02-13T13:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8006"},"modified":"2023-03-29T00:29:24","modified_gmt":"2023-03-29T03:29:24","slug":"entrevista-wander-wildner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/13\/entrevista-wander-wildner\/","title":{"rendered":"Entrevista: Wander Wildner"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/eduardo_gabriel\/5347273979\/in\/set-72157624336465398\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-8005\" title=\"wander1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><br \/>\n<strong> texto por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/murilo_basso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Murilo Basso<\/a><br \/>\nfotos por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/edu_gabriel_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo Gabriel<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fanfarr\u00e3o por natureza, Wander Wildner passou por uma das bandas mais geniais do pa\u00eds, usando ironia e sarcasmo para demonstrar sua insatisfa\u00e7\u00e3o, deu vida ao &#8220;punk brega&#8221; em uma \u00e9poca em que se produziam apenas sambinhas e corrup\u00e7\u00e3o, e hoje, mesmo ainda sem saber se \u00e9 hippie, punk ou rajneesh, est\u00e1 em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cerca de dois meses atr\u00e1s, tranquilo, com sua guitarra e mochila nas costas, Wander passou por Curitiba para divulgar seu \u00faltimo trabalho, \u201cCaminando Y Cantando\u201d. A brincadeira, como j\u00e1 era esperada, contemplou todos os momentos da carreira do m\u00fasico ga\u00facho e nos mostrou um artista ainda mais maduro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda influ\u00eancia da d\u00e9cada de 70 marca presen\u00e7a em \u201cA Palo Seco\u201d, de Belchior, \u201cViajei de Trem\u201d, de S\u00e9rgio Sampaio, e \u201cClo\u201d, gravada pelos Alm\u00f4ndegas. O apaixonado incorrig\u00edvel est\u00e1 em \u201cDani\u201d, do amigo Jimi Joe, fundamental para a constru\u00e7\u00e3o do disco. A inquietude de \u201cAs Coisas Mudam\u201d contrasta com a esperan\u00e7a de \u201cBoas Not\u00edcias\u201d. E as andan\u00e7as aparecem em \u201cPra Ti Juana\u201d e \u201cCalles de Buenos Aires\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que do momento em que come\u00e7ou a ser idealizado at\u00e9 seu lan\u00e7amento, \u201cCaminando Y Cantando\u201d consumiu alguns quil\u00f4metros da vida do m\u00fasico. Para conseguir seu objetivo, Wander rodou o mundo e voltou com o que ele pr\u00f3prio classifica como \u201capenas um disco folk\u201d. Mas voc\u00ea pode enxergar al\u00e9m e perceber um artista em constante evolu\u00e7\u00e3o, com uma esp\u00e9cie de \u201ccarta de inten\u00e7\u00f5es\u201d, capaz de escancarar todos os fantasmas que o acompanharam durante sua carreira, para ent\u00e3o chegarmos o mais pr\u00f3ximo do que Wander Wildner \u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma feijoada, bebendo vinho e, claro, tirando onda, Wander conversou com o Scream &amp; Yell. Ao final do bate-papo, o mesmo cara capaz de produzir cl\u00e1ssicos como \u201cEu N\u00e3o Consigo ser Alegre o Tempo Inteiro\u201d e \u201cBebendo Vinho\u201d, deixa uma d\u00favida no ar: Wanderley Luiz Wildner se leva a s\u00e9rio ou n\u00e3o? Leia a entrevista e decida. Ele segue caminhando. E cantando.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Hj3RszvFgAw?fs=1&amp;hl=pt_BR\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Hj3RszvFgAw?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi sua estadia em Berlim?<\/strong><br \/>\nFoi \u00f3tima. Quando fui para l\u00e1 ainda n\u00e3o sabia o que iria fazer. N\u00e3o sabia quanto tempo iria ficar. Na verdade, n\u00e3o sabia nada. Quando cheguei, o lugar onde fiquei era aquele quarto que tinham os v\u00eddeos. Era um lugar muito legal, um apartamento. L\u00e1 eles fazem muito isso, alugam o apartamento e cada quarto \u00e9 de cada pessoa. O quarto \u00e9 a casa de cada um, o banheiro e a cozinha s\u00e3o coletivos. Isso \u00e9 muito comum na Europa. Tinha uma amiga minha de Porto Alegre morando em um quarto, um ga\u00facho que eu n\u00e3o conhecia no outro e o quarto do meio estava sobrando. Era de um m\u00fasico brasileiro que morava l\u00e1. O apartamento era alugado por ele, mas ele estava no Brasil. Ele deixava as coisas dele guardadas, algumas ainda estavam l\u00e1, as outras mandou para outro lugar e alugou o quarto. E o lugar tinha um astral muito bom, ao lado de um parque, tinha um janel\u00e3o. Tudo muito calmo, silencioso e legal para caramba. Ent\u00e3o me veio \u00e0 ideia de fazer o disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea n\u00e3o foi para l\u00e1 com a ideia de fazer o disco?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Na verdade, no final de 2009, a minha ideia era trabalhar em uma f\u00e1brica de galvaniza\u00e7\u00e3o na Sui\u00e7a. Um amigo meu trabalhou l\u00e1 e a irm\u00e3 da antiga namorada dele era casada com o filho do dono da f\u00e1brica. Antes e depois da segunda turn\u00ea dos Replicantes fiquei na casa dele. Eu estava querendo trabalhar l\u00e1, n\u00e3o estava gostando do Brasil, n\u00e3o tinha m\u00fasica nova e queria dar um tempo. Mas acabou n\u00e3o rolando o emprego. Ent\u00e3o em mar\u00e7o fui para Buenos Aires, depois, em Abril fui para Montevid\u00e9u. E ali come\u00e7aram a surgir algumas m\u00fasicas, algumas melodias e letras. Em Buenos Aires surgiu \u201cCalles de Buenos Aires\u201d e depois em Montevid\u00e9u comecei a fazer \u201cPuertas y Puertos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para nos situarmos melhor: voc\u00ea foi para Buenos Aires em mar\u00e7o, Montevid\u00e9u em Abril e Berlim em maio, certo?<\/strong><br \/>\nIsso. Mas eu n\u00e3o sabia quanto tempo iria ficar. Acabei indo porque estava cansado e Berlim \u00e9 uma cidade legal para caramba, muito alternativa e muito barata. \u00c9 muito louco. S\u00f3 indo para saber. \u00c9 diferente de todas as outras cidades do mundo. Eu j\u00e1 tinha ido para l\u00e1 duas vezes, em duas turn\u00eas com os Replicantes. Resolvi ir para l\u00e1, tinha essa amiga e outros amigos estavam morando l\u00e1. Mas eu n\u00e3o sabia o que ia fazer. Levei um viol\u00e3o e uma mochila com roupas, s\u00f3 isso. E acabei tendo a ideia de fazer o disco. Fui procurar algumas musicas, comecei a pensar em quais poderia gravar e chegando l\u00e1 terminei \u201cAs Coisas Mudam\u201d, que era uma musica que eu j\u00e1 tinha come\u00e7ado. Depois comecei a trabalhar em outras duas que eu tamb\u00e9m j\u00e1 havia come\u00e7ado, mas resolvi fazer parceria. Resolvi passar o que tinha escrito (de \u201cCalles de Buenos Aires\u201d) para o Arthur de Faria. Ele \u00e9 de Porto Alegre, mas ia passar duas semanas em Buenos Aires e me falou: \u201cBah, tu tem que ir para l\u00e1\u201d. Acabei indo junto, no mesmo per\u00edodo. Decidi dar para ele e para o Jimi terminarem a m\u00fasica. A outra, \u201cPuertas Y Puertos\u201d, perguntei para o Santiago Guidotti, que \u00e9 um m\u00fasico do Uruguai, se ele queria terminar. Gravei, mandei para ele, ele gravava, mandava de volta e assim fomos fazendo. As demais eu falei para uns amigos que queria fazer o tal disco folk. O Marcelo Guimar\u00e3es, que \u00e9 da Rob\u00f4 Gigante, me mandou \u201cPra ti Juana\u201d. O Kaly, que \u00e9 da banda Stuart, de Blumenau, estava de f\u00e9rias e me visitou em Berlim. Ele cantou \u201cBoas Not\u00edcias\u201d e eu falei: \u201cE aquela m\u00fasica que tu tocou ontem estava a neg\u00f3cio?\u201d. \u201c\u00c9 tua Wander, pode gravar!\u201d. Outro amigo, o S\u00e9rgio, j\u00e1 tinha me dado \u201cA Raz\u00e3o do meu Viver\u201d. Assim fui montando o repert\u00f3rio, escolhi uma m\u00fasica do Jimi, escolhi as outras e fui pensando: \u201cVou fazer um disco de folk com as minhas influ\u00eancias\u201d. Deu nisso a\u00ed. Foi bem simples (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acabou fugindo completamente da linha caracter\u00edstica de bateria\/ baixo\/ guitarra de seus trabalhos anteriores.<\/strong><br \/>\nEra pra ser. Esse disco tem algo conceitual. Busquei o conceito de ser um disco folk. Essa era a ideia. At\u00e9 ent\u00e3o nem um disco meu tinha sido dessa maneira. Os outros discos eu pegava as m\u00fasicas que tinha e gravava. E nesse n\u00e3o. Nesse fiquei pensando que m\u00fasicas colocar. Tanto que tem (apenas) uma composi\u00e7\u00e3o minha e duas parcerias. As outras oito n\u00e3o s\u00e3o minhas. Em \u201cCaminando Y Cantando\u201d eu sou int\u00e9rprete. \u00c9 um disco em que interpreto o folk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Tu n\u00e3o acha arriscado mudar dessa maneira?  N\u00e3o tem medo do teu p\u00fablico n\u00e3o sacar essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/span><br \/>\nN\u00e3o (risos). N\u00e3o fa\u00e7o musica pensando no p\u00fablico. Fa\u00e7o isso para mim. Na verdade sempre foi assim. Desde Os Replicantes, em todos os meus discos. Fa\u00e7o m\u00fasica porque gosto de fazer m\u00fasica. E algumas pessoas gostam das m\u00fasicas. Os meus shows acabam sendo todos diferentes. Hoje vou tocar sozinho, em p\u00e9, em um bar em que o p\u00fablico vai estar em p\u00e9. Quarta-feira toquei no Opini\u00e3o (Porto Alegre), que \u00e9 um lugar enorme, com um puta som. Comecei sozinho, sentado, depois veio o Jimi, o baixo, a guitarra, tocamos mais algumas m\u00fasicas, veio um viol\u00e3o, dois viol\u00f5es. Depois tiramos as cadeiras, largamos os viol\u00f5es, pegamos guitarras e fomos tocando. No final larguei a guitarra, entrou um baixista, o baixista pegou a outra guitarra e eu s\u00f3 cantei. Tem show que \u00e9 em teatro, voc\u00ea toca sentado o tempo inteiro. Ent\u00e3o, em cada um a sonoridade \u00e9 diferente e algumas m\u00fasicas mudam. Em um show sentado d\u00e1 para tocar mais m\u00fasicas folks. Em um show em p\u00e9 toco mais rock, mas o repert\u00f3rio \u00e9 basicamente o mesmo em todos: as m\u00fasicas novas mais as antigas.<\/p>\n<p><strong>O disco j\u00e1 abre com \u201cAs Coisas Mudam\u201d. E o primeiro verso (\u201cE o bravo fico s\u00f4 \/ O mundo tornara-se rid\u00edculo \/ Para se viver\u201d) me pareceu muito forte&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 um trecho de filme, um di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De \u201cO Pequeno Grande Homem\u201d, do Arthur Penn, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><br \/>\nIsso. Eu anotei aquela frase h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu terminou ela em Berlim?<\/strong><br \/>\nIsso. J\u00e1 tinha come\u00e7ado umas partes da letra, mas ainda n\u00e3o estava pronto. Em Berlim vieram mais ideias. Faltava uma parte da melodia. Na verdade eu tinha duas partes separadas e ainda n\u00e3o as tinha juntado. Tinha o refr\u00e3o e a outra parte, mas elas n\u00e3o estavam juntas. E eu n\u00e3o tinha todos os versos.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iBwSJ7DZJvI?fs=1&amp;hl=pt_BR\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iBwSJ7DZJvI?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Achei que ele representa bem o disco. Come\u00e7ando com sua narrativa.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um disco muito pol\u00edtico, que tem muito da minha vis\u00e3o sobre o mundo. Ele tem varias dire\u00e7\u00f5es. No come\u00e7o do disco a pessoa est\u00e1 desiludida, mas ela tem que fazer algo, porque fazendo algo as coisas mudam. Ent\u00e3o o disco come\u00e7a totalmente desiludido e esse cara vai lembrando-se da sua vida. Depois o amor, em &#8220;Dani&#8221;. Ele fica pensando sobre o que vai ser no futuro. S\u00e3o v\u00e1rias hist\u00f3rias, como se fosse um longa-metragem, composto de v\u00e1rios curtas, como na verdade s\u00e3o todos os meus discos. Nessa concep\u00e7\u00e3o ele \u00e9 igual aos outros. S\u00e3o historinhas que tem liga\u00e7\u00f5es assim. Ele fala muito de viagens, de aventuras, que \u00e9 o que venho falando desde o \u201cLa Cancion Inesperada\u201d. N\u00e3o \u00e9 um disco brega. Tem \u201cA Raz\u00e3o do meu Viver\u201d que \u00e9 uma m\u00fasica rom\u00e2ntica. At\u00e9 fiquei na d\u00favida sobre colocar ela ou n\u00e3o no disco. Porque n\u00e3o \u00e9 um disco rom\u00e2ntico. Pode at\u00e9 falar de amor em \u201cClo\u201d, em \u201cDani\u201d e \u201cPra ti Juana\u201d, mas fala de um jeito diferente do que eu sempre falei. \u201cA Raz\u00e3o do Meu Viver\u201d eu ganhei e ela era muito boa \u2013 \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o perfeita. E eu j\u00e1 estava para gravar ela no disco anterior. S\u00f3 que o S\u00e9rgio Luffing, que a comp\u00f4s, fez h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s para sua mulher, pensando no Reginaldo Rossi cantando. Ele me mostrou, sei l\u00e1, cinco, seis anos atr\u00e1s. No disco anterior, em 2008, eu falei \u201cBah S\u00e9rgio, e aquela m\u00fasica e tal&#8230;\u201d, mas ele nunca sabia ela inteira. \u201cBah, eu n\u00e3o me lembro da letra\u201d. E ficou me enrolando. Ele \u00e9 um luthier, tem uma oficina de guitarras, uma loja l\u00e1 em Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele \u00e9 m\u00fasico tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nSim. Constr\u00f3i instrumentos e \u00e9 m\u00fasico. Mas ele n\u00e3o toca, s\u00f3 comp\u00f5e. Essa m\u00fasica ele comp\u00f4s h\u00e1 sei l\u00e1, 20, 30 anos. E para o \u201cLa Canci\u00f3n Inesperada\u201d ele n\u00e3o me deu ela. N\u00e3o conseguiu lembrar a letra! (risos). Fiquei pensando: \u201cEssa musica \u00e9 muito boa, vou gravar ela\u201d. Porque no fundo tamb\u00e9m sou rom\u00e2ntico. N\u00e3o sou tanto quanto eu era, mas ainda sou um pouco. Como me criei como rom\u00e2ntico ainda sou um pouco, mas n\u00e3o um doente como sempre fui (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas querendo ou n\u00e3o, o disco ainda tem v\u00e1rios resqu\u00edcios de romantismo.<\/strong><br \/>\n\u00c9. O disco \u00e9 uma hist\u00f3ria de um cara que vai atr\u00e1s, procurando arrumar a vida dele. Que \u00e9 o que eu fa\u00e7o. Procuro tornar minha vida melhor, fazendo o que acho legal fazer. Por isso estou sempre procurando uma aventura nova, inventando uma hist\u00f3ria nova. Pensei em parar de fazer m\u00fasica porque fazia cinco anos que n\u00e3o compunha nada. Como vou continuar cantando se n\u00e3o componho? N\u00e3o posso. Agora consegui fazer esse disco. \u00c9 um disco de int\u00e9rprete, diferente. Ele me deu uma sobrevida, mas continuo sempre tendo que fazer algo novo. Como sou muito int\u00e9rprete me coloquei interpretando muito mais do que nos outros. \u00c9 um disco mais ou menos como na \u00e9poca dos Replicantes, que eu n\u00e3o fazia nenhuma m\u00fasica. Eles faziam e eu interpretava. Nele compus duas musicas novas, de um jeito novo, fazendo parceria. Nunca tinha feito parceria dessa forma, fazendo a m\u00fasica junto. J\u00e1 tinha feito letra em cima de uma m\u00fasica ou m\u00fasica em cima de uma letra, mas compor a m\u00fasica junto, trabalhando em conjunto, nunca. Ok, consegui fazer isso, ent\u00e3o acho que tenho mais um tempo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu curtiu esse lance de fazer m\u00fasica junto?<\/strong><br \/>\nClaro! Foi muito bacana. E \u00e9 uma surpresa. O cara faz alguma coisa e \u201cBah, olha o que o cara fez! Ele fez um refr\u00e3o aqui\u201d. Nossa, \u00e9 muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco tamb\u00e9m percebo muito dos anos 70.<\/strong><br \/>\nTotalmente inspirado. Dei uma volta ao mundo e no tempo. Em Porto Alegre, nos anos 70, tinha uma r\u00e1dio chamada Continental, que tocava os grupos da cidade. E tinha muito grupo folk, sem bateria. Eram viol\u00f5es, percuss\u00e3o, gaita e violino. Eram dois grupos que tinham violino. O Almondegas e o Utopia. O Saracura tinha gaita e, na verdade, at\u00e9 tinha bateria, mas eram can\u00e7\u00f5es. N\u00e3o era rock. Na \u00e9poca eu tamb\u00e9m ouvia o que tocava no Brasil. Z\u00e9 Ramalho, Belchior&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cPuertas y Puertos\u201d me lembrou o \u201cDelib\u00e1b\u201d, do Vitor Ramil.<\/strong><br \/>\nEu vi o show dele em Buenos Aires, quando estava por l\u00e1. Foi \u00f3timo. \u00c9 um disco que tem tr\u00eas m\u00fasicas em espanhol. Eu conheci Montevid\u00e9u. Buenos Aires j\u00e1 conhecia, mas Montevid\u00e9u n\u00e3o. O nome do disco \u00e9 \u201cCaminando Y Cantando\u201d, tamb\u00e9m em espanhol. Tem rela\u00e7\u00e3o com \u201cCaminhando e Cantando\u201d, do Geraldo Vandr\u00e9, a parte pol\u00edtica. O nome do disco e a primeira m\u00fasica s\u00e3o o lado pol\u00edtico. O lado rom\u00e2ntico est\u00e1 nas m\u00fasicas de amor. O lado da aventura nas viagens. E \u00e9 isso que coloco: a minha vida. Estou na estrada desde fevereiro, quando larguei meu apartamento, coloquei as coisas em um dep\u00f3sito e fui viajar. Em mar\u00e7o fui para Buenos Aires, depois tinha v\u00e1rios shows em Porto Alegre. Fui uma semana para Montevid\u00e9u. Tinha mais shows pelo Brasil. Eu estava fazendo v\u00e1rios shows, boa parte no Rio Grande Sul, mas mesmo assim continuei viajando. Fiquei em casa de amigos, em hotel. Quando voltei da Europa, no final de Julho, me hospedei na casa do Jimi Joe, porque resolvi que esse disco tinha que ser gravado em Porto Alegre, que tinha que ter o Jimi, porque o Jimi tamb\u00e9m viveu essa \u00e9poca folk de Porto Alegre. Ele tem essa experi\u00eancia. E um disco folk \u00e9 um disco de viol\u00f5es, ent\u00e3o tinha que ter o viol\u00e3o dele. O meu viol\u00e3o \u00e9 muito simples, o dele \u00e9 que \u00e9 trabalhado. Esse disco \u00e9 o mais pr\u00f3ximo do que sou agora, como eu estou vivendo hoje, o que eu quero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo com certo tempo de carreira, tu ainda continua circulando. Como tu avalia o cen\u00e1rio atual da m\u00fasica independente nacional?<\/strong><br \/>\n\u00c9 legal. Tem mais bandas viajando, in\u00fameros festivais&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E musicalmente?<\/strong><br \/>\nAh, \u00e9 uma merda! (risos) Porque o Brasil \u00e9 uma merda e a m\u00fasica \u00e9 o reflexo do Pa\u00eds. Por isso que a pol\u00edtica \u00e9 assim. As pessoas entregaram o Pa\u00eds, n\u00e3o est\u00e3o fazendo esse Pa\u00eds. Elas aceitaram ser capitalistas em uma sociedade de consumo e est\u00e3o vivendo os problemas desse tipo de sociedade. Muitos carros, muita viol\u00eancia e os artistas fazendo tudo por dinheiro. A qualidade acaba caindo porque a arte \u00e9 algo que tu faz porque aquilo ali \u00e9 tua vida. Isso \u00e9 a verdadeira arte. Mas, nos \u00faltimos 25 anos, tudo come\u00e7ou a ser s\u00f3 entretenimento, ent\u00e3o as pessoas fazem teatro para ganhar dinheiro, fazem cinema para ganhar dinheiro. Para manter seu estilo de vida consumista. E o jovem, o que ele ouve? Voltando no tempo, de agora para tr\u00e1s: Restart, Nx Zero, CPM 22&#8230; (risos) Capital Inicial, Tit\u00e3s, Paralamas (risos). S\u00f3 vamos encontrar algo bacana no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. O come\u00e7o das bandas grandes \u00e9 legal, mas depois eles est\u00e3o em um esquema de empres\u00e1rios, de jab\u00e1. E fazem m\u00fasica pensando nisso. Isso n\u00e3o \u00e9 arte. Arte \u00e9 tu n\u00e3o saber o que tu vai fazer. \u201cPuta merda! Como \u00e9 que vai ser essa m\u00fasica?\u201d. Tu quebra tua cabe\u00e7a para saber que tipo de som vai fazer. E n\u00e3o dessa forma: \u201cNossa, tenho que fazer uma m\u00fasica para tocar no r\u00e1dio\u201d. Por isso que o hoje \u00e9 sempre o reflexo da gera\u00e7\u00e3o antiga. Sempre as gera\u00e7\u00f5es mais velhas s\u00e3o as respons\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/hYyoY7vEgJA?fs=1&amp;hl=pt_BR\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/hYyoY7vEgJA?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O mainstream nunca te interessou?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Nunca fiz parte dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas ele j\u00e1 se interessou por voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nNormalmente no mainstream \u00e9 tu quem se encaixa. E as pessoas conhecem a minha posi\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o v\u00eam at\u00e9 mim porque sabem a forma como penso. Trabalho assim desde antes dos Replicantes. Fiz cinema, televis\u00e3o e teatro antes de fazer m\u00fasica, antes dos Replicantes. E sempre era alternativo, sempre era de uma forma que n\u00e3o era mainstream. Sempre fiz desse jeito. Me criei fazendo arte dessa forma, buscando outras alternativas. N\u00e3o vou pagar jab\u00e1 para r\u00e1dio porque \u00e9 um crime. Porque as r\u00e1dios s\u00e3o concess\u00f5es p\u00fablicas. As r\u00e1dios e as televis\u00f5es. Elas t\u00eam que servir a comunidade. S\u00f3 que o governo n\u00e3o fiscaliza isso. \u00c9 o Brasil, o Pa\u00eds do \u201cn\u00e3o d\u00e1 nada\u201d. \u00c9 assim que as pessoas levam e por isso n\u00e3o gosto daqui. Por isso sa\u00ed ano passado. N\u00e3o tenho a ver com esse Pa\u00eds. A cerveja \u00e9 muito ruim, o carro \u00e9 ruim, o m\u00f3vel \u00e9 ruim e o fog\u00e3o \u00e9 ruim. Tudo \u00e9 feito para durar pouco tempo. Prefiro a Europa, onde tudo dura mais. As pessoas t\u00eam prazer no que elas fazem. Sempre trabalhei desse jeito e procuro sempre fazer o que \u00e9 melhor. Porque estou usando isso. Mas aqui \u00e9 uma merda. Por isso n\u00e3o me sinto bem, n\u00e3o consigo me relacionar com as pessoas. Aqui tem carro, na Europa tem bicicleta (risos). E aqui j\u00e1 vivi em uma \u00e9poca em que as pessoas tinham uma consci\u00eancia pol\u00edtica muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Tu ainda ouve r\u00e1dio?<\/strong><\/span><br \/>\nN\u00e3o. Hoje a TV \u00e9 a minha r\u00e1dio. Ela fica ligada e a uso como usava o r\u00e1dio antigamente. Mas cada vez tem menos coisa boa. Quando a TV a cabo surgiu tinha um monte de coisa boa. Eu n\u00e3o aguentava mais a TV comum. Hoje j\u00e1 n\u00e3o aguento mais a TV a cabo. Os filmes s\u00e3o muito ruins, os programas s\u00e3o muito ruins. Est\u00e1 ficando igual \u00e0 TV aberta. Mas s\u00f3 deixo ligada, vejo a TV mais como companhia. Estou trabalhando no computador e ela est\u00e1 ligada. Vejo algumas coisas que sei que gosto. Com aquele monte de canal j\u00e1 sei mais ou menos o hor\u00e1rio do que me interessa. A \u00fanica r\u00e1dio que escuto \u00e9 um r\u00e1dio de reggae e ska, a \u201cSkaFreaks\u201d. \u00c9 uma r\u00e1dio da internet muito interessante. A variedade de ska \u00e9 muito grande: tem umas coisas meio reggae, meio roots, mais rock. \u00c9 uma r\u00e1dio muito boa de escutar porque varia muito e acaba surpreendendo. E esse \u00e9 o grande barato da r\u00e1dio. Mas, em geral, as r\u00e1dios hoje s\u00e3o muito ruins. Porque as m\u00fasicas s\u00e3o ruins (risos). Tamb\u00e9m baixo algumas coisas, os amigos me passam outras e acabo ouvindo muito no computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E disso que teus amigos t\u00eam te passado, algo novo que tenha te chamado a aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nL\u00e1 fora t\u00eam algumas coisas boas. A m\u00fasica nacional \u00e9 que \u00e9 muito ruim. Do que surgiu recentemente gosto bastante da Superguidis. Adoro eles como banda. S\u00e3o muito legais, j\u00e1 tocamos algumas vezes juntos. O Andrio escreve letras muito boas. Tamb\u00e9m gosto do Walverdes, mas \u00e9 uma banda que toca muito pouco, e faz tempo que eles n\u00e3o comp\u00f5em. O Mini trabalha em uma ag\u00eancia de publicidade, cuida da fam\u00edlia, ent\u00e3o ele trabalha muito e acaba n\u00e3o tendo tempo para compor. Agora que eles est\u00e3o fazendo alguns shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saiu o novo deles, o \u201cBreakdance\u201d. Tu chegou a ouvir?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, esse eu n\u00e3o conhe\u00e7o! Eles s\u00e3o t\u00e3o alternativos que nem ouvi falar (risos). Mas s\u00e3o poucas bandas nacionais que gosto. At\u00e9 porque \u00e9 dif\u00edcil eu ir a shows. Ah, gosto da Pata de Elefante. Fui ao show novo deles. Acabo falando mais de Porto Alegre porque h\u00e1 tr\u00eas meses que estou por l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu t\u00e1 morando em Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Eu estava gravando o disco, mas n\u00e3o moro l\u00e1. Fiquei na casa de um amigo, gravei o disco l\u00e1 e agora tenho uma s\u00e9rie de shows. Fico l\u00e1 at\u00e9 o final de dezembro (2010), depois n\u00e3o sei o que vou fazer. Porque n\u00e3o consigo pensar em montar uma turn\u00ea. Esse foi o primeiro disco que n\u00e3o tenho uma turn\u00ea. Todos os outros discos eu lan\u00e7ava e tinha tr\u00eas meses de show. Esse n\u00e3o. Marquei o show de lan\u00e7amento em Porto Alegre, tenho quatro shows em um barzinho pequeno, o Zelig, que vou fazer s\u00f3 com o Jimi Joe. P\u00fablico sentando, um show mais intimista. Mas depois n\u00e3o sei o que vou fazer. Porque n\u00e3o fiz uma turn\u00ea. Cansa fazer as mesmas coisas. Eu n\u00e3o consigo. Agora nesse disco tenho que levar o Jimi. Nos outros eu podia tocar em trio. Nesse eu j\u00e1 sei: s\u00f3 vou poder fazer o show dele em um Sesc ou em um teatro. E tem que levar o Jimi Joe. E o p\u00fablico tem que estar sentado. Tudo bem, n\u00e3o tenho essa obriga\u00e7\u00e3o, posso apresentar as m\u00fasicas em vers\u00f5es mais rock, em p\u00e9 com guitarra. Estamos ensaiando e conseguimos fazer umas vers\u00f5es legais. \u201cViajei de Trem\u201d ficou \u00f3tima com guitarra distorcida. Ent\u00e3o n\u00e3o sei ao certo o que vou fazer. Estou esperando as ideias chegarem.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5HlEphwB1Bc?fs=1&amp;hl=pt_BR\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5HlEphwB1Bc?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Viajar de novo?<\/strong><br \/>\nTalvez eu viaje sozinho. \u00c9 mais f\u00e1cil marcar shows sozinho. Talvez volte para S\u00e3o Paulo, fa\u00e7a uma base l\u00e1 e quando puder marcar shows fora, marco. Sempre tenho uma banda em S\u00e3o Paulo e uma banda em Porto Alegre. E uma banda em Recife, que me acompanha l\u00e1. E toco em algumas cidades com uma banda me acompanhando. Fa\u00e7o uma parte do show sozinho, a outra parte a banda ensaiou algumas m\u00fasicas e toco com eles. Mas \u00e9 a primeira vez que lan\u00e7o um disco sem turn\u00ea. E n\u00e3o vou fazer turn\u00ea, n\u00e3o vou. Vou fazer os shows que pintarem. O cara vai ligar, vou dizer show com banda \u00e9 tanto. \u201cAh, n\u00e3o tenho\u201d. Ent\u00e3o vou sozinho. N\u00e3o vou fazer turn\u00ea, n\u00e3o tenho mais saco. Fiz um show em Porto Alegre, lancei o disco l\u00e1, teve 236 pagantes. O show do Paul McCartney consumiu o dinheiro da galera uma semana antes (risos). Vai ver seja por isso. Pessoal comprou os ingressos car\u00edssimos no cart\u00e3o e depois do show do Paul todos os outros shows tiveram pouco p\u00fablico (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu foi no show do Paul?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Nunca ouvi muito Beatles (risos). Eu era Stones! L\u00e1 em Porto Alegre tinha muito disso. F\u00e3s de Beatles e f\u00e3s de Stones. E eu n\u00e3o era f\u00e3 de Beatles. Ouvia, sabia as m\u00fasicas, mas nunca tive disco. Mas dos Stones tinha os discos e gravava os outros em fita K7. At\u00e9 porque tinha muita gente f\u00e3 dos Beatles e eu achava aquilo muito over. Pra mim, o grande beatle \u00e9 o George Martin. Os Beatles s\u00f3 existiram por causa dele. Os caras iam embora e ele botava os malucos na obriga\u00e7\u00e3o de gravar, de tocar. Ele \u00e9 o cara mais importante dos Beatles. Ningu\u00e9m vai concordar com isso (risos). Mas o primeiro beatle \u00e9 ele, depois vem os outros quatro. Ele \u00e9 um g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas estava em Porto Alegre na semana do show?<\/strong><br \/>\nSim, sim. Estava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que achou de todo o circo que se fez em torno da ida dele para Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nAs pessoas ficaram todas emocionadas. Depois at\u00e9 vi uns peda\u00e7os do show e peguei o final do show de S\u00e3o Paulo, na Globo. \u00c9 um cara tocando as m\u00fasicas velhas (risos). Tudo bem \u00e9 legal. P\u00f4, 68 anos e n\u00e3o tomou um gole de \u00e1gua durante o show. Duas horas&#8230; Isso \u00e9 incr\u00edvel! T\u00e1, legal. E ok, t\u00e3o legal quanto qualquer outra banda que eu ache legal, n\u00e3o mais do que isso. Como as pessoas n\u00e3o est\u00e3o fazendo o que gostam, quando vem algu\u00e9m fazendo alguma coisa legal elas acabam gostando muito daquela pessoa. J\u00e1 notou que as pessoas falam muito da pessoa em si? \u201cAh, Wander, tu \u00e9 do caralho!\u201d. N\u00e3o! A m\u00fasica pode ser legal, mas eu sou uma pessoa qualquer, igual a todo mundo. O trabalho que fa\u00e7o, resultante de um monte de amigos que trabalham comigo, \u00e9 legal. S\u00f3 isso. Por isso n\u00e3o gosto de f\u00e3. Fanatismo \u00e9 uma doen\u00e7a, t\u00e1 l\u00e1 no dicion\u00e1rio. F\u00e3 vem de fan\u00e1tico. Come\u00e7a com a religi\u00e3o. Cat\u00f3licos s\u00e3o fan\u00e1ticos por Cristo. Claro, os crist\u00e3os s\u00e3o uma coisa e a igreja Cat\u00f3lica \u00e9 outra. At\u00e9 250 d.C n\u00e3o tinha igreja. Eram s\u00f3 pessoas que falavam em Cristo. Um cara. E em 250 o Imperador Constantino se d\u00e1 conta. \u201cCara, eles est\u00e3o falando de um cara que morreu h\u00e1 250 anos\u201d. Louco, n\u00e3o? E transforma isso em uma religi\u00e3o, o catolicismo. Na m\u00fasica isso come\u00e7a com os Beatles. E eles param de tocar por causa disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No show, teve aquele lance de vaiarem a guria que era de Florian\u00f3polis.<\/strong><br \/>\nMas \u00e9 que as pessoas s\u00e3o assim. Mas isso \u00e9 uma coisa muito grande, que tem no Brasil todo&#8230; L\u00e1 no Rio Grande do Sul tem muito isso. \u00c9 burrice. L\u00e1 a burrice deve ser maior (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu estava em um jogo do Inter no final de semana que comemora a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. E confesso que achei bacana ver 30 mil pessoas ali, cantando o hino do estado. Mas cantar o hino em um show de rock beira o extremismo.<\/strong><br \/>\nAntigamente tinha uma hist\u00f3ria de quando o Papa visitou Porto Alegre. Vinte anos atr\u00e1s, sei l\u00e1 quanto tempo. E nasceu o grito \u201cUcho, ucho, ucho. O Papa \u00e9 ga\u00facho!\u201d. As pessoas vivem no mundo delas. A sociedade faz isso e elas vivem uma loucura. Eu cansei, n\u00e3o tenho nada a dizer sobre isso. N\u00e3o sou ga\u00facho, n\u00e3o sou nacionalista. N\u00e3o me considero ga\u00facho, nem gremista, nem porra nenhuma. Sou apenas um homem a p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aceitando esses \u201cr\u00f3tulos\u201d tu acabaria se limitando?<\/strong><br \/>\nClaro! Isso \u00e9 uma delimita\u00e7\u00e3o social. \u00c9 \u00f3bvio. Porra, tu nasceu no Rio Grande do Sul, ent\u00e3o tu tem que viver a vida inteira l\u00e1? Vai ficar em Porto Alegre porque \u00e9 porto-alegrense? Vai ficar em Curitiba porque \u00e9 curitibano? N\u00e3o, porra! V\u00e1 conhecer o mundo. Voc\u00ea s\u00f3 nasce em determinado lugar, mas n\u00e3o pertence a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual a solu\u00e7\u00e3o? 25 anos depois o futuro ainda \u00e9 Vortex?<\/strong><br \/>\nCada vez mais! (risos) Sem d\u00favida, cada vez mais perto de Vortex!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/eduardo_gabriel\/5347876716\/in\/set-72157624336465398\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8008 aligncenter\" title=\"wander2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/wander2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Veja mais fotos de Eduardo Gabriel: <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/eduardo_gabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.flickr.com\/photos\/eduardo_gabriel\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Quatro v\u00eddeos de Wander Wildner ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2011 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/01\/09\/quatro-videos-de-wander-wildner-em-sp\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cCaminando e Cantando\u201d, trilha sonora para o livro &#8220;On The Road&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/07\/replicantes-wander-wildner-e-walverdes\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevistas com Wander: 2001 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/replicantes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>), 2004 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/entrevista_wander_wildner.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>), 2006 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/wander_entrevista2006.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>), por Marcelo Costa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Murilo Basso\n&#8220;O Brasil \u00e9 uma merda e a m\u00fasica \u00e9 o reflexo do Pa\u00eds&#8221;, dispara Wander em conversa franca e imperd\u00edvel em Curitiba\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/02\/13\/entrevista-wander-wildner\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":121,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[213],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8006"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/121"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8006"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71884,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8006\/revisions\/71884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}