{"id":79451,"date":"2024-02-15T00:16:00","date_gmt":"2024-02-15T03:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79451"},"modified":"2024-05-16T00:27:34","modified_gmt":"2024-05-16T03:27:34","slug":"entrevistao-loreta-colucci-aprofunda-o-olhar-sobre-sua-estreia-solo-e-o-disco-do-gole-seco-os-dois-presentes-na-lista-da-apca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/15\/entrevistao-loreta-colucci-aprofunda-o-olhar-sobre-sua-estreia-solo-e-o-disco-do-gole-seco-os-dois-presentes-na-lista-da-apca\/","title":{"rendered":"Entrevista: Loreta Colucci aprofunda o olhar sobre sua estreia solo e o disco do Gole Seco, os dois presentes na lista da APCA"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um artista iniciante, lan\u00e7ar um primeiro disco pode ser um trabalho herc\u00faleo, tentando aprender a lidar com est\u00fadios, sele\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio, produ\u00e7\u00e3o e uma s\u00e9rie de processos burocr\u00e1ticos no meio do caminho. Que dizer, ent\u00e3o, de uma cantora novata que decidiu, de uma vez s\u00f3, lan\u00e7ar dois discos no mesmo ano \u2013 um solo e outro com um grupo vocal? Essa \u00e9 uma forma de resumir o 2023 de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/loretacolucci\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Loreta Colucci<\/a>, uma das principais revela\u00e7\u00f5es da cena paulistana no ano passado, tanto pelo disco \u201c<a href=\"https:\/\/onerpm.link\/741391884849\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antes Que Eu Caia<\/a>\u201d, que saiu em setembro com produ\u00e7\u00e3o esmerada de Maria Beraldo, quanto pela composi\u00e7\u00e3o de vozes do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/goleseco_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gole Seco<\/a>, cujo <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/goleseco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e1lbum hom\u00f4nimo<\/a> chegou \u00e0s plataformas de streaming em outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos financiados pelo edital do Programa de A\u00e7\u00e3o Cultural do Estado de S\u00e3o Paulo (ProAC) e indicados entre <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/19\/os-50-discos-nacionais-de-2023-para-a-apca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">os 50 melhores discos do ano<\/a> pela Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte (APCA), os discos n\u00e3o s\u00e3o, contudo, um trabalho rel\u00e2mpago. Pelo contr\u00e1rio: s\u00e3o o resultado de um longo processo de gesta\u00e7\u00e3o da artista, que comp\u00f5e desde a adolesc\u00eancia e se formou em canto popular em 2018 pela Faculdade Santa Marcelina. \u201cEu sempre tive essa certeza de que queria gravar esse disco e\u2026 sempre fiquei pensando \u2018n\u00e3o \u00e9 a hora, n\u00e3o estou pronta, n\u00e3o sei o que eu quero\u2019. Essa vontade come\u00e7ou com 15 anos, quando comecei a compor e fazer aula de canto. Hoje tenho 27\u201d, diz Loreta, em entrevista ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feita no final de dezembro de 2023, acompanhada de caf\u00e9 coado e bolo de chocolate na casa da artista, a entrevista passa n\u00e3o s\u00f3 pela concep\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos discos, mas tamb\u00e9m busca rastrear como nasce uma artista. \u201cN\u00e3o sei o que rolou na primeira inf\u00e2ncia que me fez gostar de cantar. Tenho fortes mem\u00f3rias de momentos em que recebia feedback positivo dos meus pais quando era perform\u00e1tica, tipo ficar fazendo dancinha pra entrada de novela. E esse feedback positivo pode ter me alimentado nessa quest\u00e3o perform\u00e1tica\u201d, comenta Loreta, em uma conversa fluida que por vezes pode parecer sa\u00edda de uma sess\u00e3o de terapia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se essa for a primeira impress\u00e3o de quem l\u00ea, n\u00e3o estar\u00e1 totalmente errada: talvez seja a marca de uma cantora-compositora que n\u00e3o se importa em abrir as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele, ao mesmo tempo em que busca preservar algo da sua privacidade no meio da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que fica claro para quem escuta can\u00e7\u00f5es como \u201cP\u00f3\u201d (a primeira escrita por Loreta, aos 18 anos, nos escombros de um relacionamento abusivo) ou \u201cBom Dia, M\u00e3e\u201d, que perpassa a rela\u00e7\u00e3o da artista com seus pais em quest\u00f5es como pol\u00edtica e sexualidade. \u201c\u00c9 fazer essa quebra: n\u00e3o vou ser perfeita para eles, eles n\u00e3o v\u00e3o ser perfeitos para mim e \u2018\u00e9 n\u00f3is\u2019. \u00c9 saber que vou decepcion\u00e1-los e eles v\u00e3o me decepcionar\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista, Loreta conta mais sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o dos dois discos, fala sobre as influ\u00eancias que nortearam seu trabalho e como foi o convite para colaborar com Maria Beraldo. Ela tamb\u00e9m divaga sobre o seu momento de carreira, projeta um 2024 de shows para conhecer de perto seu p\u00fablico e discute a baixa popularidade de grupos vocais e o status quo do mercado independente. \u201cAntes do \u00faltimo show, eu estava passando roupa e pensando: \u2018cara, vou pagar do meu bolso pra fazer esse show\u2019. \u00c9 um papo rom\u00e2ntico, mas \u00e9 verdade: n\u00e3o quero fazer outra coisa, enquanto conseguir comer e viver. Mas hoje, \u00e9 um investimento, n\u00e3o \u00e9 pelo dinheiro, nem fodendo. E todo mundo que eu vejo que \u00e9 grande tem que trabalhar com outras coisas, n\u00e3o s\u00f3 fazer show\u201d, desabafa a artista, entre um gole de caf\u00e9 e outro. Sirva-se de uma boa caneca, leitor, e mergulhe nessa conversa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Album - Antes Que Eu Caia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lYjjm5djmSeLINAPeWowlMQ2b54vIwR9k\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos come\u00e7ar pelo \u201cAntes Que Eu Caia\u201d. De onde vem esse primeiro disco?<\/strong><br \/>\nEle vem de muito tempo, na verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 comum para o primeiro disco de um artista.<\/strong><br \/>\n\u00c9? Isso \u00e9 comum? Sempre saber que queria gravar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o sei, mas normalmente o primeiro disco junta as m\u00fasicas que as pessoas escreveram durante a vida inteira at\u00e9 ali\u2026<\/strong><br \/>\nAh, sim! Mas eu sempre tive essa certeza de que queria gravar esse disco e\u2026 sempre fiquei pensando \u201cn\u00e3o \u00e9 a hora, n\u00e3o estou pronta, n\u00e3o sei o que eu quero\u201d. Essa vontade come\u00e7ou com 15 anos, quando comecei a compor e fazer aula de canto. Hoje tenho 27. Mas foi uma vontade que foi seguindo durante a faculdade. Fiz Canto Popular na Santa Marcelina e me formei em 2018. Na faculdade, pude fazer um recital de formatura e aproveitei pra esbo\u00e7ar o que seria esse projeto autoral, com as minhas m\u00fasicas. O recital acabou sendo o embri\u00e3o de dois projetos: o meu, desse disco, \u201cAntes Que Eu Caia\u201d, e o Gole Seco, que \u00e9 um quarteto vocal. Inicialmente, o projeto chamava Loreta Colucci e o Gole Seco, comigo, duas cantoras e um sax-bar\u00edtono. Depois, o sax saiu e foi substitu\u00eddo pelo clarone da Joana Queiroz, do Quartab\u00ea \u2013 o que j\u00e1 faz um link com a Maria [Beraldo]. Depois do recital, a gente continuou esse projeto em 2019 e 2020, estava tudo indo bem, nosso plano era rodar bastante em 2020 para amadurecer o som, e a\u00ed gravar um disco. Mas veio a pandemia, a Joana foi viajar e me afastei desse som. Falei com as meninas e decidimos transformar o projeto em outra coisa, que acabou se tornando o Gole Seco. No meio disso tudo, fiquei sem saber o que fazer comigo. Eu j\u00e1 tinha as m\u00fasicas, mas estava num burac\u00e3o imenso de sonoridade. Sempre cantei muito samba, sempre cantei muito forr\u00f3, j\u00e1 cantei muita m\u00fasica latina com o Mano \u00danica, mas tenho tamb\u00e9m essa pesquisa da m\u00fasica autoral que tende a cair para uma sonoridade um pouquinho mais experimental, assim\u2026 E a\u00ed eu falei: que porra vai ser \u201ceu\u201d? Nesse caldeir\u00e3o de um zilh\u00e3o de d\u00favidas, percebi que precisava de algu\u00e9m que eu confiasse para me tirar do buraco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 a\u00ed que voc\u00ea chega na Maria Beraldo para produzir o disco?<\/strong><br \/>\nNum primeiro momento, chamei a Mari\u00e1 Portugal, mas quando me liberei de todo mundo, ela tinha ido para a Alemanha. Pensei no Kiko Dinucci, mas ele n\u00e3o podia. E a\u00ed um cara que eu namorava na \u00e9poca perguntou: \u201ce a Maria Beraldo?\u201d. Eu: \u201cmas ela n\u00e3o produz n\u00e3o. Ele: \u201cProduz sim, porra!\u201d. E eu sou muito f\u00e3 da Quartab\u00ea, sou muito f\u00e3 do disco dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco dela \u00e9 foda.<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/05\/entrevista-maria-beraldo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ouvi pra caralho o \u201cCavala\u201d<\/a>, passei muito tempo ouvindo Quartab\u00ea, a Maria \u00e9 uma super refer\u00eancia. Quando a Joana foi tocar comigo, j\u00e1 fiquei muito entusiasmada. E com a Maria foi a mesma coisa: n\u00f3s t\u00ednhamos uns papinhos de Instagram, eu tinha algum tipo de abertura e fui l\u00e1 sondar ela, ali entre o final de 2020 e o come\u00e7o de 2021. Ela me falou um valor, eu agradeci e segui. Depois ela abriu o valor camarada, porque eu era uma cantora independente. A\u00ed a gente chegou num valor OK e decidimos produzir a primeira m\u00fasica, que foi \u201cP\u00f3\u201d, para ver o que acontecia. Foi mais ou menos na mesma \u00e9poca que eu estava me inscrevendo pela primeira vez no edital do ProAC (Programa de A\u00e7\u00e3o Cultural do Estado de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea precisava ter uma m\u00fasica pronta para inscrever o projeto?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. S\u00f3 precisava mostrar como eu cantava. Eu podia mandar uma demo de voz e viol\u00e3o, mas tinha que explicar que se ganhasse o projeto, teria verba para pagar produtora e fazer um arranjo. Nem faria sentido ter que mandar uma m\u00fasica pronta: \u00e9 imposs\u00edvel ter R$ 5 mil para pagar algu\u00e9m para produzir uma m\u00fasica e a\u00ed tentar o ProAC. Mas eu tinha decidido que ia investir uma grana com a Maria antes mesmo do edital, independentemente de conseguir ter ela produzindo o disco todo, porque eu precisava sair do buraco est\u00e9tico que estava. Sabia que ela ia conseguir me dar uns bons tapas na cara, conseguir me dar um norte. N\u00e3o passei no ProAC, fizemos a primeira m\u00fasica num processo lento, de pensar na grava\u00e7\u00e3o\u2026 e acabou que chegamos na \u00e9poca de escrita do segundo ProAC, de 2022 para 2023. Passamos e a\u00ed fomos pras cabe\u00e7as para terminar mais sete m\u00fasicas. Mas eu estava buscando uma sonoridade. O que eu tinha certeza \u00e9 que queria que a parada nascesse de uma forma\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel, como era a primeira forma\u00e7\u00e3o do Gole Seco. \u00c9 um desafio, mas o que vinha a partir dali tendia a ser muito interessante \u2013 \u00e0s vezes bom, \u00e0s vezes uma bosta, mas sempre longe do lugar comum, o que tende a me interessar. Pensei em naipe de sopros e voz, ou bateria-baixo-sopro-voz, umas coisas assim. Como as minhas principais refer\u00eancias eram a Silvia Perez Cruz, e o disco dela \u201cVestida de Nit\u201d (2018), a Natalia Lafourcade e a Silvana Estrada, pensando nas cantoras hispanohablantes, a Maria falou pra gente fazer com um quarteto de cordas. Eu perguntei: \u201cmas voc\u00ea escreve pra quarteto de cordas?\u201d N\u00e3o lembro o que ela disse, mas a resposta era \u201cn\u00e3o\u201d no final das contas \u2013 ela estava fazendo aula de orquestra\u00e7\u00e3o na EMESP (Escola de M\u00fasica do Estado de S\u00e3o Paulo). Deu muito mais trabalho para ela escrever tudo, mas tamb\u00e9m foi interessante porque ela foi aprendendo e aplicando tudo ao mesmo tempo. Os arranjos foram todos \u201ccanetados\u201d: n\u00e3o tinha tempo de ensaiar, testar, tentar, ent\u00e3o a Maria fazia tudo em programa\u00e7\u00e3o de MIDI. E eu odeio ouvir arranjo de MIDI, descobri isso nesse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que \u00e9 basicamente ficar ouvindo som eletr\u00f4nico\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9 pi-pi-pi, ti-ti-ti\u2026 \u00e9 muito ruim, v\u00e9i. O que vai definir se um arranjo \u00e9 bom envolve um zilh\u00e3o de coisas, inclusive timbre, din\u00e2mica, respira\u00e7\u00e3o, a organicidade da parada. \u00c9 dif\u00edcil ouvir uma parada quadrada e pensar se funciona. Foi um processo muito de confiar na Maria. E al\u00e9m das cantoras hispanohablantes e os quartetos de cordas, a sonoridade tinha ainda dois pilares espec\u00edficos: o estilo de composi\u00e7\u00e3o do Dominguinhos, na simplicidade, no sentido mais encantador da palavra; e as vozes da Elza [Soares] e da Alcione no in\u00edcio de carreira. Eu sabia que a cabe\u00e7a da Maria ia ser ideal para dar um di\u00e1logo massa entre o lugar do tradicional \u2013 forr\u00f3, samba, pagode \u2013, ao lado dessa textura das cantoras hispanohablantes com uma pegada mais moderna, que dialoga com o experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando ouvi o \u201cAntes Que Eu Caia\u201d, o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele \u00e9 um disco de cantora, mas que n\u00e3o parece um disco de cantora de m\u00fasica brasileira.<\/strong><br \/>\nO que \u00e9 um disco de cantora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um r\u00f3tulo que eu estou inventando aqui, mas\u2026 disco de cantora, nos \u00faltimos 15 anos, tem um pouco de can\u00e7\u00e3o popular, um pouco de samba, um pouco de can\u00e7\u00f5es regionais\u2026 e a voz est\u00e1 sempre em primeiro lugar, mas os arranjos s\u00e3o muito convencionais, bem quadrad\u00f5es. N\u00e3o consigo citar nomes agora, mas d\u00e1 pra entender o conceito: a voz \u00e9 t\u00e3o exuberante que at\u00e9 se parece que d\u00e1 pra esquecer do resto.<\/strong><br \/>\n\u00c9 engra\u00e7ado que voc\u00ea falou isso, e entendo o que voc\u00ea quer dizer, mas estou s\u00f3 pensando nas pessoas que eu ou\u00e7o, em quem est\u00e1 ao meu redor\u2026 e s\u00f3 penso em gente que tem sonoridade muito foda, como a Ava Rocha, a Jadsa, a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/08\/15\/ao-vivo-luiza-lian-encara-o-passado-recente-buscando-respostas-para-o-futuro-num-show-arrebatador-e-inesquecivel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luiza Lian<\/a>\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(interrompe) Mas esses discos s\u00e3o experimentais!<\/strong><br \/>\nAcho que voc\u00ea est\u00e1 olhando mais para um recorte de brasilidades\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso. Tem muita cantora que olha para brasilidade e fica ali sem ousar, sendo que talvez a gra\u00e7a da m\u00fasica brasileira \u00e9 que ela sempre foi ousada.<\/strong><br \/>\nSim\u2026 pra caralho. Sabe quem \u00e9 foda nisso? A <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/canta.anna\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ann\u00e1<\/a>. Ela \u00e9 uma safada, sou muito amiga dela, mas eu primeiro fui f\u00e3. F\u00e3 \u00e9 uma palavra ruim, voc\u00ea acha que a gente consegue outra?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Admiradora? Ouvinte?<\/strong><br \/>\nAdmiradora \u00e9 bom. Odeio \u201cf\u00e3\u201d. Mas voltando para o que voc\u00ea comentou, lembro que falei para a Maria: quero que as cordas tenham um protagonismo tanto quanto a minha voz. Isso foi conversado \u2013 e que bom que aparece no disco. Tenho essa impress\u00e3o: gosto do que fiz cantando e gosto das composi\u00e7\u00f5es, mas acho que se a gente for analisar pot\u00eancias, o disco tem pot\u00eancias completamente equilibradas. S\u00e3o arranjos legais com um trabalho de voz. N\u00e3o queria cair nisso que voc\u00ea comentou de \u201cdeixa comigo, faz um arranjo legal a\u00ed e eu seguro no gog\u00f3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou voltar l\u00e1 atr\u00e1s\u2026 voc\u00ea disse que o disco nasce quando voc\u00ea tinha 15 anos e come\u00e7a a fazer aula de canto, come\u00e7a a compor. O que te leva a querer compor e fazer aula de canto, l\u00e1 atr\u00e1s, ainda adolescente?<\/strong><br \/>\nL\u00e1 atr\u00e1s? Nossa Senhora\u2026 eu cantava nas festas de fam\u00edlia, com os primos, a brincadeira era sempre cantar e imitar as cantoras. N\u00e3o sei o que rolou na primeira inf\u00e2ncia que me fez gostar de cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00d4 Freud\u2026<\/strong><br \/>\n(risos) N\u00e3o cheguei nessa etapa na terapia ainda, mas\u2026 (pensa). \u00c9 claro que se for para cavocar isso, tenho fortes mem\u00f3rias de momentos em que recebia feedback positivo dos meus pais quando era perform\u00e1tica, tipo ficar fazendo dancinha pra entrada de novela. E esse feedback positivo pode ter me alimentado nessa quest\u00e3o perform\u00e1tica. Ao mesmo tempo, fui uma crian\u00e7a muito t\u00edmida e tinha muita dificuldade de ficar longe da minha m\u00e3e, ent\u00e3o ela me colocou no teatro. Da\u00ed, j\u00e1 come\u00e7a o trabalho de voz e express\u00e3o, de identidade, querendo ou n\u00e3o. Mas nessas brincadeiras de cantar, duas amigas minhas foram gravar um v\u00eddeo pro YouTube cantando \u201cRolling in the Deep\u201d, da Adele, e elas me puxaram para cantar junto. Ao assistir, minha m\u00e3e e meu pai se surpreenderam: \u201cnossa, mas voc\u00ea canta bem!\u201d. E a\u00ed comecei a fazer aula de canto, fiz um ano de canto erudito primeiro, junto com viol\u00e3o. Depois, tive que escolher entre viol\u00e3o e canto porque n\u00e3o dava para pagar os dois, a\u00ed resolvi fazer s\u00f3 canto. Mas eu queria cantar Maria Gad\u00fa e Legi\u00e3o e na minha escola s\u00f3 queriam saber de rock. Foi nessa \u00e9poca que comecei a compor, que \u00e9 um processo de me compreender. Quando eu componho, acontece muito de eu ficar por um tempo digerindo uma parada, um assunto, uma pessoa, at\u00e9 que uma hora isso sai como m\u00fasica. Depois, continuo digerindo isso, mas agora no espa\u00e7o-som-tempo. E quando a m\u00fasica est\u00e1 pronta, tem outro passo, que \u00e9 eu ficar reouvindo essa m\u00fasica, sendo a terceira pessoa da minha mente, me ajudando a superar aquela porra. Entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 terap\u00eautico.<\/strong><br \/>\n\u00c9 terap\u00eautico pra caralho. \u00c9 muito importante ouvir o que voc\u00ea fala, inclusive em quest\u00e3o de estudo, saber o que voc\u00ea achou\u2026 mas eu vi o quanto isso me fazia bem. Por um tempo, achei que era uma parada de ego, de gostar de me ouvir cantar. Eu gosto, mas \u00e9 diferente: \u00e9 importante para mim ouvir o que eu tinha dito e me lembrar daquelas coisas, conseguir passar por aquele assunto, ressignificar e seguir adiante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LORETA - P\u00f3 (visualizer)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5C3TIuQzYIA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem m\u00fasica dessa \u00e9poca, desse come\u00e7o, no disco?<\/strong><br \/>\nA mais antiga eu fiz quando eu tinha 18 anos, que \u00e9 \u201cP\u00f3\u201d. Eu gravei com 26, passou oito anos. \u00c9 m\u00f3 tempo, velho\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 um tempo bem importante.<\/strong><br \/>\nQue bizarro, como as coisas demoram. E \u201cP\u00f3\u201d foi exatamente esse processo\u2026 voc\u00ea quer saber isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por favor! Voc\u00ea est\u00e1 matando v\u00e1rias perguntas da minha lista de uma vez.<\/strong><br \/>\n(risos). Vamos l\u00e1: \u201cP\u00f3\u201d \u00e9 a hist\u00f3ria famosa da menininha que se relaciona com caras e tem um relacionamento abusivo. Num per\u00edodo ali entre os 17 e os 18 anos, eu vivi isso. E a\u00ed dos 18 para os 19, em algum momento eu estava pensando nessa rela\u00e7\u00e3o que j\u00e1 tinha acabado e nos rastros que uma rela\u00e7\u00e3o abusiva deixa. S\u00e3o rastros que permanecem durante muito tempo, especialmente quando a primeira rela\u00e7\u00e3o que a gente tem \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o t\u00f3xica. Eu tinha sa\u00eddo dessa rela\u00e7\u00e3o naquele pensamento cl\u00e1ssico de achar que eu era uma bosta, que eu era um lix\u00e3o, que tinha feito tudo errado, uma confus\u00e3o absoluta. Pessoas que manipulam conseguem fazer voc\u00ea entrar num labirinto mental muito cruel. Mas ao mesmo tempo, comecei a fazer terapia nessa \u00e9poca, comecei a ouvir a palavra do feminismo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E bate bem com o momento que o feminismo est\u00e1 batendo mais forte, bem na quarta onda\u2026<\/strong><br \/>\nExatamente. Foi quando eu comecei a juntar as pecinhas do quebra-cabe\u00e7a, fui pegando no tranco. Comecei a escrever justamente pelo primeiro verso: \u201cantes que eu caia no lugar comum de te odiar, me farei p\u00f3\u201d. Achei bom. Fez sentido essa frase para mim. Comecei essa frase no lugar de \u201cn\u00e3o vou me envenenar com o \u00f3dio, com a raiva, vou sumir, vou me desfazer\u201d. Mas foda-se essa reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c0s vezes as frases aparecem sem reflex\u00e3o.<\/strong><br \/>\nE a\u00ed continuei escrevendo no computador, num brainstorm, e escrevi a letra inteira direto. (declama a letra).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que engra\u00e7ado escrever uma letra de m\u00fasica no teclado do computador.<\/strong><br \/>\n\u00c9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do pouco que escrevi na vida, nunca consegui escrever poesia no teclado, tinha que ser na m\u00e3o.<\/strong><br \/>\nEntendo pra caralho, sempre me senti traindo a pureza da composi\u00e7\u00e3o. Brainstorm no teclado? \u201cQue fajutinha, hein!\u201d Vem um pouco esse pensamento, mas depois de dois segundos voc\u00ea pensa: \u201cfoda-se, \u00e9 o meu processo mais f\u00e1cil\u201d. Escrevo no papel, mas lembro que estava num lugar t\u00e3o travado de autocr\u00edtica e queria me ajudar. Busquei o lugar onde eu escrevia mais r\u00e1pido e sem pensar, e para isso o brainstorm no teclado funciona bem. Escrevi a letra inteira, resolvi ler, botei a melodia nesse rol\u00ea meio falado. Gostei da m\u00fasica, mas sempre fiquei olhando para ela e pensando no porqu\u00ea eu tinha escrito aquilo. Se voc\u00ea olha assim, parece que \u00e9 uma m\u00fasica falando de reconcilia\u00e7\u00e3o com a pessoa. Se voc\u00ea quiser, posso lembrar a letra. (canta \u201cP\u00f3\u201d, de maneira acelerada)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que engra\u00e7ado, n\u00e3o vejo isso. Vejo essa figura da dissolu\u00e7\u00e3o do relacionamento, mas n\u00e3o vejo a reconcilia\u00e7\u00e3o com relacionamento \u2013 e sim uma reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesma.<\/strong><br \/>\nExatamente, mas demorei anos pra entender isso. Eu n\u00e3o me reconhecia nessa m\u00fasica. Mas, depois de muito conversar com as pessoas, pensar na terapia, me caiu essa ficha: eu estava falando da minha rela\u00e7\u00e3o comigo, de ressignificar essa hist\u00f3ria para mim, de me perdoar ou n\u00e3o de ter vivido essa rela\u00e7\u00e3o, de me perdoar por ter ficado um pouco mais nela e, depois, mais um pouquinho. Uma rela\u00e7\u00e3o que durou um ano e meio, mas que foi dif\u00edcil desde o in\u00edcio, na qual eu fui me agarrando em pequenezas de afeto. Compor uma m\u00fasica foi muito importante nesse processo terap\u00eautico, e n\u00e3o com rapidez, sempre lentamente. Sou uma pessoa de processos bem lentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 o salto de compor uma m\u00fasica com 18, 19 anos e\u2026 resolver que voc\u00ea quer fazer uma faculdade de canto popular?<\/strong><br \/>\nMano, n\u00e3o tenho a menor ideia! Tenho uma coisa muito boa: os meus pais sempre me apoiaram muito a cantar, tanto que foram eles que me colocaram no teatro e na aula de canto. Mas eles s\u00e3o super de direita, t\u00e1? Eles n\u00e3o s\u00e3o esquerdinha\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 public\u00e1vel?<\/strong><br \/>\nPode falar que ele \u00e9 de direita. A minha m\u00e3e \u00e9 em cima do muro. Temos uma \u00f3tima rela\u00e7\u00e3o, mas tem esse lugar muito comum no Brasil: da gente ter pensamentos muito diferentes de quem cuidou da gente e ter esse embate de rela\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, as rela\u00e7\u00f5es t\u00eam que ser cortadas, porque esse embate fere muito. Quest\u00f5es pol\u00edticas nos atravessam, querendo ou n\u00e3o. Mas tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, \u00e9 poss\u00edvel optar por manter uma rela\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo e o amor, contornando e inclusive confiando\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2026(interrompe) \u201cBom Dia M\u00e3e\u201d \u00e9 sobre isso? \u00c9 sobre pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\n\u00c9 sobre isso. Na verdade, \u00e9 sobre sexualidade. \u00c9 muito mais que isso, na verdade! Tem esse recorte paterno, de matar o pai e a m\u00e3e\u2026 \u00c9 fazer essa quebra: n\u00e3o vou ser perfeita para eles, eles n\u00e3o v\u00e3o ser perfeitos para mim e \u201c\u00e9 n\u00f3is\u201d. \u00c9 saber que vou decepcion\u00e1-los e eles v\u00e3o me decepcionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma das quest\u00f5es mais cl\u00e1ssicas da \u201cnossa\u201d gera\u00e7\u00e3o fazendo terapia.<\/strong><br \/>\nExatamente, estive na terapia por esse processo. E o \u201cBom Dia M\u00e3e\u201d virou um lugar\u2026 (pensa) Ser bissexual sempre foi uma quest\u00e3o muito suave para mim. Sempre foi muito tranquilo, mas na rela\u00e7\u00e3o com eles foi completamente uma quest\u00e3o. Minha m\u00e3e acha que bissexualidade n\u00e3o existe. J\u00e1 o meu pai? Nem sei o que ele acha. Nunca conversamos sobre isso, nunca tive coragem de falar com ele sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas ele sabe?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se ele sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo a entrevista ele vai saber.<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 falei sobre isso na internet, mas \u00e9 aquilo: n\u00e3o sei nem se meu pai tem Instagram. \u00c9 a nuvem da d\u00favida mesmo. Ent\u00e3o \u201cBom Dia, M\u00e3e\u201d passa por isso, mas \u00e9 muito sobre uma parada <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/27\/ao-vivo-loreta-colucci-responsavel-por-um-dos-grandes-discos-de-estreia-do-ano-entrega-um-belo-show-a-altura-do-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que eu falei no show do Bona<\/a>, de ser uma das m\u00fasicas que a gente come\u00e7a escrevendo para outra pessoa \u2013 e depois percebe que \u00e9 para voc\u00ea mesmo. O que mais importa \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o consigo mesmo. Vivi isso com \u201cP\u00f3\u201d e vivi com \u201cBom Dia M\u00e3e\u201d. No final, essas m\u00fasicas s\u00e3o para me acalmar na minha expectativa de alcan\u00e7ar o agrado deles, a aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas isso te joga na armadilha: de um lado voc\u00ea diz que \u00e9 tranquilo lidar com a sua bissexualidade, mas do outro\u2026 voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 compondo a m\u00fasica para voc\u00ea. \u00c9 um n\u00f3 que voc\u00ea se deu.<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 isso. Que no fim das contas\u2026 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o tranquilo assim para mim. \u00c9 por eles? N\u00e3o \u00e9 por eles? N\u00e3o sei, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como diria Renato Russo, \u201cmentir pra si mesmo \u00e9 sempre a pior mentira\u201d.<\/strong><br \/>\n(risos) \u00c9. Acho que n\u00e3o tem uma resposta certa, mas ao mesmo tempo \u00e9 um assunto que percorre muito da minha rela\u00e7\u00e3o com eles, tem muitas coisas em aberto. Mas, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, mas necessitar dessa aprova\u00e7\u00e3o deles \u00e9 um sinal. Mesmo que eu fale que n\u00e3o importa, \u00e0s vezes chego na hora de viver as coisas e j\u00e1 vem um freio de m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 engra\u00e7ado que voc\u00ea come\u00e7a a entrevista falando que teve um feedback positivo dos seus pais para cantar.<\/strong><br \/>\nTop! (risos) Mas\u2026 cara, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o muito boa, eles me apoiam pra caralho, eles s\u00e3o meus maiores f\u00e3s, v\u00e3o em todos os shows. E n\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o de dinheiro tamb\u00e9m: n\u00e3o \u00e9 que eles est\u00e3o comigo porque eles me bancam, n\u00e3o tem isso. Eles n\u00e3o me bancam em nada, mas tem esse lugar de afeto muito forte. Mas por que estou falando disso? Do nada, Bruno, virou terapia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez. Mas volta para a faculdade: como \u00e9 que voc\u00ea decide fazer uma faculdade de canto popular?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho a menor ideia. Cheguei a pensar em Psicologia ou Ci\u00eancias Sociais, e n\u00e3o sei porque fui para a M\u00fasica. Tenho essa d\u00favida sobre o que me deu tanta seguran\u00e7a de ir para a M\u00fasica. \u00c9 a minha maior certeza do mundo: quero continuar cantando e fazendo m\u00fasica, e nunca foi uma d\u00favida. Segui uma intui\u00e7\u00e3o e deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 um curso de canto popular? Como \u00e9 diferente de uma aula de canto?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea tem uma grade curricular, tem diversas aulas. Voc\u00ea tem uma aula semanal do seu instrumento \u2013 que no caso \u00e9 a voz, no curso de canto popular. E voc\u00ea tem mais trocentas aulas: harmonia, percep\u00e7\u00e3o, aulas de outros instrumentos, pr\u00e1tica de banda, an\u00e1lise musical. Tinha algumas coisas que iam para o lado de sociologia, mas era meio cruel, porque era uma faculdade de freiras, super enviesada\u2026 No geral, tem base te\u00f3rica e pr\u00e1tica, que vai bem al\u00e9m do que se d\u00e1 numa aula de canto. Aulas de harmonia, por exemplo, eram feitas com os outros instrumentistas. N\u00f3s s\u00f3 nos separ\u00e1vamos individualmente na aula de instrumento. Mas na hora das aulas de outros assuntos, teoria musical, etc, a gente se encontrava na sala de aula para essas aulas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como fazer faculdade muda sua percep\u00e7\u00e3o de m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nPercep\u00e7\u00e3o de ouvir? N\u00e3o acho que \u00e9 a faculdade, mas acho que o que a faculdade me proporcionou ajuda e atrapalha. Para mim, foi maravilhoso conseguir focar s\u00f3 em m\u00fasica, ficar quatro anos falando s\u00f3 de m\u00fasica. Acho muito foda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o cansa?<\/strong><br \/>\nCansa, mas \u00e9 bom. E a Santa Marcelina nem \u00e9 das faculdades mais interessantes para isso, porque ela tem uma din\u00e2mica meio escolinha de ingl\u00eas, tem pouco conv\u00edvio pros estudantes, o ambiente do pr\u00e9dio tem muitas regras de vestimenta e de sil\u00eancio. Por mais que fosse um lugar engessado, por\u00e9m, poder pensar em m\u00fasica 24 horas foi muito da hora. Claro, eu era uma estudante que n\u00e3o precisava trabalhar para bancar a faculdade, \u00e9 bom fazer esse recorte. E d\u00e1 para fazer isso em outros cen\u00e1rios, como na EMESP, por exemplo. Eu fiz EMESP tamb\u00e9m. Voc\u00ea enfrenta, no ambiente da faculdade, a quest\u00e3o de analisar as coisas criticamente e ter opini\u00e3o sobre elas, entender os efeitos que cada m\u00fasica tem, como isso \u00e9 produzido, ou seja racionalizar e teorizar tudo. Depois, fora da faculdade, voc\u00ea tem que tirar as coisas da cabe\u00e7a: n\u00e3o importa o porqu\u00ea, o encadeamento, etc, pelo menos na minha forma que eu vejo a m\u00fasica. Busco trazer mais pra emo\u00e7\u00e3o, para a express\u00e3o, para o corpo, tento que a express\u00e3o venha antes de uma racionaliza\u00e7\u00e3o. Se eu cantar uma nota aguda com tal pot\u00eancia e tal estrid\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra mostrar que eu estudei pra fazer isso. \u00c9 para mostrar que aqui nesse momento estou falando de \u00eaxtase ou raiva. Em outro recorte, essa voz mais leve que estou usando com voc\u00ea pode ser perfeita para mostrar raiva. N\u00e3o tem regra, mas tem que mostrar que a express\u00e3o vem antes. Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma ode \u00e0 faculdade de jeito nenhum: conhe\u00e7o muita gente que se engessou real com a \u201cfacul\u201d, de sair de l\u00e1 querendo largar o instrumento, de professor que fala mal. Isso \u00e9 bem comum no mundo das artes, gente que n\u00e3o entendeu nada e fica entristecendo quem quer aprender. \u00c9 uma cr\u00edtica bem antiga, batida, mas que ainda \u00e9 v\u00e1lida. E \u00e9 claro: existe um zilh\u00e3o de pessoas que n\u00e3o fizeram faculdade e s\u00e3o surreais, pessoas que admiro muito. Indico faculdade pros meus alunos de canto, mas \u00e9 um recorte bem pessoal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sal\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0qHHZy5hFFs?list=OLAK5uy_li8OJSy1_ZxtZjLbJjcyjhdaQHd4-Cr9o\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No come\u00e7o da entrevista, voc\u00ea contou que o Gole Seco era um projeto s\u00f3 teu com duas vozes e um clarone. Como esse projeto se transforma no que ele \u00e9 hoje?<\/strong><br \/>\n\u00c9\u2026 (pensa bastante). No come\u00e7o, quando eu estava pensando na forma\u00e7\u00e3o, eu queria fazer uma coisa com vozes e sopros. Queria conseguir ter mais controle sobre os arranjos. Fazer um arranjo de bateria \u00e9 mais dif\u00edcil para mim, porque n\u00e3o toco o instrumento. Por esse motivo, ca\u00ed nesse lugar de trabalhar com vozes, porque sabia arranjar para voz. Passei a construir os arranjos com duas vozes e sopro. Na \u00e9poca eu namorava o Jo\u00e3o Barisbe, que toca no Grand Bazaar, \u00e9 um super m\u00fasico. Namoramos por tr\u00eas anos e eu comecei a experimentar coisas com ele. Ele era super disposto, curtia minhas coisas, e nessa primeira forma\u00e7\u00e3o ele estava com o sax bar\u00edtono, fazendo os arranjos comigo e com as meninas. As linhas de sax ele criava todas. A primeira forma\u00e7\u00e3o veio desses desejos, dessa conveni\u00eancia, dessa rela\u00e7\u00e3o, mas era para ser meu recital de faculdade e eu me formar. Queria acabar tudo em quatro anos e n\u00e3o precisar mais pagar mensalidade. E o recital de formatura rolou e a gente se animou a continuar o projeto a partir disso. E a\u00ed\u2026 era essa a pergunta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As duas cantoras que estavam nessa \u00e9poca s\u00e3o as cantoras que est\u00e3o hoje?<\/strong><br \/>\nSim, a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/nathaliealvim\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nathalie Alvim<\/a> e a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/niwa.musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Niwa<\/a>. A Nat tem um EP que ela lan\u00e7ou na pandemia, e a Niwa acabou de lan\u00e7ar um disco fudido, \u201cAraponga\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas j\u00e1 eram amigas na faculdade?<\/strong><br \/>\nDa Claudia, que \u00e9 a Niwa, eu j\u00e1 era mais pr\u00f3xima na faculdade, t\u00ednhamos feito sarau feminista juntas, mas n\u00e3o \u00e9ramos amigas. J\u00e1 com a Nathalie eu tinha quase nada de rela\u00e7\u00e3o. Mas eu precisava de duas vozes: uma que tivesse notas m\u00e9dio-agudas e outra que tivesse notas graves \u2013 e a Nathalie, da faculdade, era a voz mais grave. Ela topou fazer, porque todo mundo sabe que fazer o recital de faculdade \u00e9 um BO, mas todo mundo se ajuda, porque voc\u00ea precisa de mais gente pra complementar. N\u00e3o \u00e9 um esquema de grana, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de troca muito bem resolvida. A gente come\u00e7ou a se aproximar. Sa\u00edmos da faculdade, continuamos juntas, mas terminei a rela\u00e7\u00e3o com o Jo\u00e3o e ele saiu do projeto. Comecei a buscar algu\u00e9m e entrou a Jojo [Joana Clarone]. E a\u00ed veio a pandemia. Nesse lance da pandemia, a Joana mudou de cidade, casou e ficou dif\u00edcil para ela continuar. Na sequ\u00eancia, abriu a seletiva para um festival de grupos vocais paulistanos, criado pelo Seis Canta, que \u00e9 um sexteto vocal super incr\u00edvel, para unir a cena de grupos vocais, que \u00e9 bem capenga aqui em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado: grupo vocal \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira, mas hoje \u00e9 algo super esparso.<\/strong><br \/>\nSuper. E quando voc\u00ea pensa, tende a se ter um imagin\u00e1rio de grupo vocal fechado, \u00e0s vezes, \u00f3bvio, careta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que muita gente remete \u00e0 coral, que vai cantar as coisas \u00f3bvias de MPB.<\/strong><br \/>\nSim, que \u00e9 uma coisa que n\u00e3o instiga muito, n\u00e9? Conversando com as pessoas, parece que grupo vocal entrou num imagin\u00e1rio pouco instigante \u2013 o que \u00e9 uma mentira absoluta. O que d\u00e1 para fazer com a voz \u00e9 super interessante, tem uma infinidade de caminhos. Mesmo que o repert\u00f3rio possa n\u00e3o ser o preferido, tem uma coisa muito impressionante ao assistir v\u00e1rias pessoas cantando uma parada ao mesmo tempo, tem uma coisa de d\u00favida e tudo fazer sentido do nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Percebo isso nos v\u00eddeos que o Gole Seco faz nas redes sociais, em que \u00e0s vezes tr\u00eas cantam e uma d\u00e1 um recado. D\u00e1 um choque na cabe\u00e7a.<\/strong><br \/>\nExatamente: um grupo vocal ao vivo tem uma parada super encantadora, mas \u00e9 algo pouco buscado, infelizmente. Mas bem: abriu esse festival, e no nosso repert\u00f3rio a gente tinha duas m\u00fasicas que tinham apenas voz, sem sax. Inscrevemos as duas e passamos no festival. E a\u00ed para esse projeto, a gente j\u00e1 tinha chamado a quarta integrante, que \u00e9 a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/giu.decastro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Giu de Castro<\/a>, mas meio num lugar de \u201cvamos se juntar e fazer o festival acontecer\u201d, botando uma pilha nisso. E nessa \u00e9poca o grupo ainda chamava Loreta Colucci e Gole Seco, tinha uma coisa de ser um projeto meio meu, com as minhas composi\u00e7\u00f5es, era meio autocentrado. No festival, havia uma din\u00e2mica de feedbacks com os membros do grupo, e eles perguntaram porque n\u00e3o tiramos o Loreta Colucci, deixando s\u00f3 Gole Seco. Foi um processo lento, mas achamos que fazia sentido. O festival em si foi super legal, a din\u00e2mica ali, o nosso entrosamento\u2026 e sa\u00edmos de l\u00e1 querendo continuar o projeto. Isso foi no final de 2021, e a\u00ed a gente se inscreveu pro ProAC e passamos para fazer o disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De repente voc\u00ea tinha dois discos para fazer pro ProAC no mesmo ano?<\/strong><br \/>\nNo mesmo ano. Foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e uma loucura absoluta, ao mesmo tempo, em quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando vi que voc\u00ea tinha lan\u00e7ado seu disco e tinha o do Gole Seco, achei estranho. Em termos de gest\u00e3o de carreira, marketing\u2026 parecia muito estranho.<\/strong><br \/>\n\u00c9 claro que isso \u00e9 ruim, e de fato \u00e9 ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas foi ruim mesmo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se poderia ter sido melhor, mas \u00e9 dif\u00edcil falar que foi bom. \u00c9 claro que rolou um quebra-quebra de bate\u00e7\u00e3o de datas. Todo mundo tinha o mesmo per\u00edodo para fazer o projeto, entre gravar, lan\u00e7ar e tudo mais. Conseguimos organizar para n\u00e3o lan\u00e7ar os dois discos na mesma semana, mas tive que entregar meu disco antes, tive que correr atr\u00e1s. Se n\u00e3o fosse isso, poderia ter feito as coisas com mais calma, numa rela\u00e7\u00e3o mais tranquila com toda a equipe. A divulga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m perde um pouco de peso: numa hora, voc\u00ea est\u00e1 ali falando do seu disco, e de repente, passa duas semanas, voc\u00ea aparece com outro disco. \u00c9 muita coisa para falar, \u00e9 tudo urgente, tudo para ontem, show de lan\u00e7amento\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_79461\" aria-describedby=\"caption-attachment-79461\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-79461\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto-por-sofiacolucci-3-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto-por-sofiacolucci-3-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto-por-sofiacolucci-3-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79461\" class=\"wp-caption-text\"><em>Da esq para dir: Niwa, Loreta Colluci, Nathalie Alvim e Giu de Castro (foto de Sofia Colluci)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto que voc\u00ea fez show no Bona e cinco dias depois estava lan\u00e7ando o disco do Gole Seco na Galeria Olido.<\/strong><br \/>\nPois \u00e9. Mas assim\u2026 acho que pode ter uma coisa boa nisso tamb\u00e9m, pensando em marketing, talvez. Pode existir uma for\u00e7a de chegar com dois projetos legais ao mesmo tempo, eles se retroalimentam nesse sentido. Algu\u00e9m pode conhecer o Gole Seco e me conhecer, ou vice-versa, fazendo meu nome come\u00e7ando a ter um pouco mais de tamanho e isso ser junto com o Gole. Acho que \u00e9 legal. E tamb\u00e9m s\u00e3o dois ProACs, n\u00e3o d\u00e1 para reclamar disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gole Seco era para ter sido o nome do seu disco. Como voc\u00ea decide por \u201cAntes Que Eu Caia\u201d?<\/strong><br \/>\nComo voc\u00ea sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu li em alguma entrevista. Pode parecer que n\u00e3o, mas jornalistas leem as entrevistas dos outros.<\/strong><br \/>\nAaaah! Mas era super para ser Gole Seco mesmo o nome do meu disco. S\u00f3 que ao decidir que ia ser um quarteto vocal, a gente precisava de um nome. Na \u00e9poca, a \u00fanica certeza que eu tinha \u00e9 que o nome do meu disco ia ser \u201cGole Seco\u201d, ent\u00e3o levantei a m\u00e3o pra sugerir que a gente tinha que pensar outro nome pro grupo. Separamos dois ensaios de tr\u00eas horas para pensar em nomes, e a\u00ed era um tal de nome em latim, nome de p\u00e1ssaro, de flor, n\u00e3o sei o qu\u00ea. At\u00e9 que uma hora falei \u201cfoda-se\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Escolher nome de banda \u00e9 uma das tarefas mais ingratas do mundo.<\/strong><br \/>\nEspecialmente quando \u00e9 assim, que voc\u00ea precisa escolher. Mas nesse foda-se, abri m\u00e3o e a gente ficou com Gole Seco como nome da banda. \u00c9 muito mais importante ter um bom nome pra um grupo do que um bom nome pra um disco. Da\u00ed, o nome do meu disco demorou para vir e tamb\u00e9m foi uma dessas escolhas que primeiro escolhi e depois entendi. Nessa pira de parar de teorizar as coisas, de emburacar e ser perfeccionista pra caralho, primeiro fazer e depois entender \u00e9 uma \u00f3tima dica. Fiz muito isso nesse disco, principalmente por n\u00e3o ter tempo. Conversei com a Maria as coisas que eu queria, as refer\u00eancias, e ela entregou os arranjos. Eu queria construir tudo junto e percebi que n\u00e3o ia dar, simplesmente porque n\u00e3o tinha tempo e n\u00e3o tinha dinheiro. \u201cAh, junta todo mundo e vamos testar? P\u00f4, tem que pagar.\u201d Mas n\u00e3o tinha tempo tamb\u00e9m, eu nem cheguei a pensar no dinheiro que seria porque a gente n\u00e3o tinha tempo. E isso fez o disco ser um trabalho de confian\u00e7a. A Maria entregava o arranjo pra mim e o ensaio ia ser em dois dias, e j\u00e1 tinha que gravar dois dias depois disso. N\u00e3o teve teste de arranjo, foi a Maria trazer o que a gente j\u00e1 tinha conversado e eu falar: \u201cbeleza\u201d ou \u201cmuda s\u00f3 isso aqui\u201d, mas era tudo no MIDI. E a\u00ed pass\u00e1vamos a m\u00fasica uma ou duas vezes juntas, n\u00e3o mais que isso. \u201cN\u00e3o Me Chama Pra Trampar\u201d foi uma m\u00fasica que era mais dif\u00edcil, a gente fez duas, e a\u00ed j\u00e1 estava gravando. Esse exerc\u00edcio de soltar a m\u00e3o foi bem interessante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gole Seco - Me Chamou de Feia (feat. NIWA, Loreta Colucci, Nathalie Alvim, Giu de Castro) - [clipe]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3R4HNCqBu0E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de \u201cN\u00e3o Me Chama Pra Trampar\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica que salta aos olhos no teu disco. O mesmo vale para \u201cMe Chamou de Feia\u201d, no disco do Gole Seco. S\u00e3o duas m\u00fasicas que discutem experi\u00eancias complicadas de ser uma mulher no mundo, mas fazem isso pelo humor. Como \u00e9 usar humor, pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 uma v\u00e1lvula de escape, de tens\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 uma ferramenta de alcance. N\u00e3o \u00e9 racional, mas agora analisando, \u00e9 sobre isso. Conseguir falar sobre coisas muito densas de uma forma mais leve. Primeiro voc\u00ea ri, depois voc\u00ea pensa \u201ccaralho\u2026\u201d. Mas nunca conversei com os caras sobre o que eles achavam dessas m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rio?<\/strong><br \/>\nSim. Que bobagem, n\u00e9? O que voc\u00ea achou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cN\u00e3o Me Chama Pra Trampar\u201d, em espec\u00edfico, \u00e9 uma m\u00fasica que eu acho muito bacana porque ela parte de um lugar de poder. \u201cAh \u00e9, vai me sacanear? Eu vou sacanear de volta!\u201d. \u00c9 muito poderoso esse lugar. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/27\/ao-vivo-loreta-colucci-responsavel-por-um-dos-grandes-discos-de-estreia-do-ano-entrega-um-belo-show-a-altura-do-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando escrevi sobre o teu show no Bona<\/a>, essa m\u00fasica me fez pensar muito no humor que a Elis Regina tinha \u2013 e das coisas todas que voc\u00ea citou como refer\u00eancia, ela n\u00e3o aparece.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o falei da Elis em nenhum momento? \u00c9 verdade. Ouvi muito Elis, pra caralho, com certeza tem. N\u00e3o sei como eu n\u00e3o coloco a Elis como uma refer\u00eancia de fato.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LORETA - N\u00e3o Me Chama pra Trampar (visualizer)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sGqPV73v8LU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que ningu\u00e9m tem colocado a Elis como refer\u00eancia nos \u00faltimos anos.<\/strong><br \/>\nS\u00e9rio? Ser\u00e1 que \u00e9 um medo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vejo a cena discutindo muito mais outras figuras, como a Elza, como a Gal, e sinto que a Elis t\u00e1 ficando um pouco pra tr\u00e1s.<\/strong><br \/>\nQue interessante\u2026 Ouvi pra caralho a Elis, ouvi muito o \u201cSamba Eu Canto Assim\u201d. \u00c9 o primeiro, que \u00e9 um disco fu-dido!, ouvi que nem uma desgra\u00e7ada. \u00c9 um disco de humor e de acidez, eu gosto bastante de acidez. Lembro muito da m\u00fasica \u201cDeixa\u201d, t\u00e1 ligado? \u201cDeixa, fale o que quiser falar, deixa, deixa o cora\u00e7\u00e3o falar tamb\u00e9m, porque ele tem, raz\u00e3o demais\u2026\u201d S\u00f3 que tem um v\u00eddeo dela cantando, muito safada, que \u00e9 muito inspirador nesse sentido, porque ela \u00e9 muito debochada. Muito! \u00c9 uma cena dela que me marca muito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Elis Regina - Deixa (Swedish TV, 1969)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GJ_CrA-SqRk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E acho que \u00e9 essa coisa do deboche que eu percebi no teu show. A Elza tem esse deboche, mas ele \u00e9 muito mais expl\u00edcito; a Gal n\u00e3o tem deboche, tem outras figuras de humor. E a Elis tem uma ironia espec\u00edfica: \u00e9 quase como se voc\u00ea tivesse que olhar pra cara dela para sacar. Enfim, t\u00f4 viajando aqui\u2026<\/strong><br \/>\nE a Alcione, e a Elza\u2026 a Elza tem, tamb\u00e9m. A Alcione \u00e9 um recorte mais dram\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas a Elza tem menos a piscadela, o humor t\u00e1 mais evidente.<\/strong><br \/>\nDa Elza eu ouvi muito o \u201cBossa Negra\u201d. \u00c9, sim, pensando\u2026 a Elza tem a gracinha, n\u00e9? Ela n\u00e3o tem tanto a acidez da Elis, de dizer uma coisa e na verdade estar dizendo outra. A Elza \u00e9 mais sagaz. Voc\u00ea pode esperar um canto ou uma interpreta\u00e7\u00e3o mais quadrada de amor, de paix\u00e3o, mas ela vai falar de desejo, de querer dar, de puxar o tapete. N\u00e3o sei\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 pra ficar horas nesse papo, n\u00e9? Queria te perguntar tamb\u00e9m das participa\u00e7\u00f5es do teu disco, que tem a Ann\u00e1 (\u201cArte de Me Enganar\u201d) e a Jadsa (\u201cGole Seco\u201d). Por que ter outras vozes cantando contigo num disco que te lan\u00e7a como cantora?<\/strong><br \/>\nAs duas t\u00eam vozes pelas quais eu me apaixonei pela voz antes de me apaixonar pela pessoa. A Ann\u00e1, quando ouvi pela primeira vez, fiquei de cara. E a Jadsa tamb\u00e9m, vi ela cantando \u201cJ\u00e1 Ri, J\u00e1 Chorei\u201d num rol\u00ea, uma m\u00fasica muito da hora. Ela cantando s\u00f3 voz e viol\u00e3o, antes de gravar, tinha acabado de chegar em S\u00e3o Paulo. Isso faz seis, sete anos. Foram rela\u00e7\u00f5es que fui construindo na base de tocar, de fazer coisas juntas, de amizade. Mas s\u00e3o duas pessoas cujo trabalho me inspira muito. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/31\/musica-jadsa-fala-sobre-seu-disco-de-estreia-olho-de-vidro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amo o \u201cOlho de Vidro\u201d<\/a>, da Jadsa, amo os dois discos da Ann\u00e1 \u2013 no \u201cBrasileira\u201d eu estou em uma das faixas, cantando \u201cVolver\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica dela. S\u00e3o pessoas pr\u00f3ximas e eu queria ter pessoas pr\u00f3ximas no meu disco, fosse uma coisa mais do que s\u00f3 algu\u00e9m que toca bem, ou trazer algum tipo de visibilidade. Eu tinha um pagode, que tinha que ter a Ann\u00e1, e \u201cGole Seco\u201d, \u00e9 uma m\u00fasica com a Jadsa, ela me acompanhou nesse processo de algum jeito, eu diria. Ela me inspira com essa sonoridade. Ela n\u00e3o \u00e9 uma refer\u00eancia direta, mas com certeza ela \u00e9 uma refer\u00eancia musical. E as duas s\u00e3o super vozes, vozes diferentes, baita compositoras, super amigas, ent\u00e3o \u00e9 bem importante t\u00ea-las comigo, me dando for\u00e7a mesmo. E tamb\u00e9m celebrar, s\u00f3 a coisa de estar no est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o com as suas amigas? Isso \u00e9 muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma coisa de comunidade, de gente ao redor, de uma m\u00e3o puxa a outra.<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 uma coisa que o Gole Seco tamb\u00e9m tem muito. \u00c9 um quarteto vocal de quatro solistas. Ningu\u00e9m ali no quarteto vem de uma pesquisa de grupo vocal, todo mundo tem seus trabalhos, suas composi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o voc\u00ea junta quatro solistas e \u00e9 muito f\u00e1cil cair numa expectativa de rivalidade, disputa de ego. \u00c9 o que se esperaria desse encontro. E a gente n\u00e3o passa por isso, definitivamente. N\u00f3s quatro somos muito amigas, todo mundo se admira e tem de uma forma muit\u00edssimo org\u00e2nica a busca por dar destaque para todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As quatro comp\u00f5em e as quatro solam?<\/strong><br \/>\nE todos os arranjos do grupo s\u00e3o nossos, feitos por uma ou outra. Ainda n\u00e3o rolou das quatro sentarem e arranjarem juntas, mas espero que role.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 dif\u00edcil manter essa democracia\u2026<\/strong><br \/>\nClaro que tiveram atritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 comunidade hippie.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o! Mas n\u00e3o passa por esse lugar de algu\u00e9m querer brilhar mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tem algo que me pega aqui. Antes, a gente tinha uma resposta mais difusa do que d\u00e1 certo \u2013 o disco saiu e as pessoas compram, ouvem, ok. Hoje, quando voc\u00ea abre o Spotify, tem l\u00e1 o total de ouvintes, quanto cada m\u00fasica foi ouvida. D\u00e1 para saber na hora o que as pessoas est\u00e3o ouvindo mais ou menos \u2013 e da\u00ed \u00e9 um pulo para algu\u00e9m pensar que as m\u00fasicas da Niwa ou da Giu est\u00e3o dando mais certo, ent\u00e3o vamos gravar mais m\u00fasicas delas?<\/strong><br \/>\nNossa! Eu nunca tinha pensado nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea est\u00e1 surpresa, \u00e9 porque isso nunca passou pela cabe\u00e7a de voc\u00eas. Vamos manter assim.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, nunca rolou isso. E nem no show, n\u00e3o tem uma coisa de que as m\u00fasicas funcionam mais ou menos, n\u00e3o tem isso. Acho que a gente tem composi\u00e7\u00f5es diferentes que d\u00e3o um balan\u00e7o legal no show, justamente por esse encontro dos diferentes pontos de vista. Estou muito grata de como as coisas t\u00eam acontecido com o Gole Seco, sabe? A gente tinha v\u00e1rios receios de como um projeto vocal ia ser aceito, \u00e9 uma sonoridade dif\u00edcil, a gente n\u00e3o estava querendo copiar um tamborim ou um agog\u00f4. N\u00e3o \u00e9 pop, n\u00e3o \u00e9 suave, mas pode ser novo, e o novo \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como est\u00e1 sendo circular, seja com o teu projeto solo ou com o Gole Seco? E pergunto isso pensando que S\u00e3o Paulo tem uma quantidade limitada de casas, se for fazer show todo m\u00eas, v\u00e3o sempre as mesmas pessoas\u2026<\/strong><br \/>\nEstou bem no come\u00e7o disso. At\u00e9 agora, tanto com o Gole Seco quanto com o meu solo, eu estava no processo de entregar datas. No ProAC, tem que entregar o disco, fazer o show de lan\u00e7amento e, como contrapartida para a sociedade, \u00e9 muito comum fazer show. De contrapartida, fiz dois shows: um na Casa Laudelina, no Canind\u00e9, e outro em Tatu\u00ed. E \u00e9 agora que est\u00e1 come\u00e7ando esse processo de ir atr\u00e1s de shows, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/27\/ao-vivo-loreta-colucci-responsavel-por-um-dos-grandes-discos-de-estreia-do-ano-entrega-um-belo-show-a-altura-do-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a\u00ed consegui um Bona<\/a>, consegui a Casa Odette, estou organizando as coisas para 2024. Mas sabe uma coisa que me dei conta agora? A gente esqueceu de falar de uma coisa muito importante: nesse processo todo do disco, l\u00e1 em 2021, eu comecei uma parceria com a Fatec de Tatu\u00ed, que tem um curso de Produ\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque Tatu\u00ed tem conservat\u00f3rio\u2026<\/strong><br \/>\nExatamente, tem essa coisa de ser cidade da m\u00fasica. E eles come\u00e7aram um projeto l\u00e1, no curso de Produ\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica, de querer trocar experi\u00eancia profissional dos alunos com equipe para novos artistas. Eles me acharam no Instagram, num v\u00eddeo meu cantando \u201cN\u00e3o Me Chama Pra Trampar\u201d, e me chamaram para tocar esse projeto com eles. Era de gra\u00e7a e eu ia ter uma equipe junto comigo pensando marketing, pensando comunica\u00e7\u00e3o\u2026 e a gente come\u00e7ou o processo. Eu podia gravar l\u00e1 o disco se eu quisesse, de gra\u00e7a. Mas quando rolou o ProAC, me dei conta de que seria imposs\u00edvel pelo custo de levar as pessoas pra Tatu\u00ed \u2013 at\u00e9 porque eu tinha colocado o Est\u00fadio T\u00f3 na planilha financeira do ProAC e, como ele estava na ficha t\u00e9cnica, eu teria que \u201clevar o est\u00fadio para Tatu\u00ed\u201d. Invi\u00e1vel. Mas a galera da Fatec me ajudou muito com o ProAC. No primeiro ano, a gente fez o projeto em grupo e n\u00e3o deu certo. No segundo, fiz com dois alunos que eu conheci l\u00e1, a Marjorie Maximiano, minha produtora executiva, e o Victor Baccili, meu diretor art\u00edstico. E eles escreveram comigo o projeto que passou pro ProAC. A Fatec foi essencial nesse processo inteiro, de me manter nos trilhos, criar essa parceria, conseguir o ProAC. E al\u00e9m do show na Fatec de Tatu\u00ed, tamb\u00e9m fiz outras contrapartidas l\u00e1: fui dar duas aulas de canto l\u00e1 para a galera, de aux\u00edlio de grava\u00e7\u00e3o para cantores. O professor l\u00e1 que trabalhou comigo foi o Lucas Meneguetti, que fez a masteriza\u00e7\u00e3o de duas m\u00fasicas do meu disco, foi uma galera que botou muita f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente estava falando de circula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um tema muito ligado a outro tema importante: grana. O que voc\u00ea faz al\u00e9m de cantar pra poder cantar?<\/strong><br \/>\nO meu trabalho hoje \u00e9 s\u00f3 investimento. Tudo que entra dos shows vai direto para os m\u00fasicos, e eles recebem o m\u00ednimo. \u00c9 uma banda de cinco pessoas, eu sou a sexta, com cinco m\u00fasicos. Fa\u00e7o show para investir na parada, rodar, mas n\u00e3o \u00e9 isso que d\u00e1 dinheiro. O que eu consigo fazer para me bancar \u00e9 dar aulas de canto, que dou h\u00e1 muitos anos. Adoro dar aula de canto, e agora estou dando s\u00f3 online. N\u00e3o consegui um lugar para dar aulas presenciais, tenho muitos alunos de fora de S\u00e3o Paulo, gente que mora no M\u00e9xico, nos EUA, na Fran\u00e7a. Tem gente que mora em outros estados, no Rio de Janeiro, mas quero come\u00e7ar a dar aulas presenciais em 2024. Tenho vontade de perguntar para outros nomes que est\u00e3o grandes, na cena, sobre como eles vivem de m\u00fasica. Porque \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 muito louco se manter, querendo. Antes do \u00faltimo show, eu estava passando roupa e pensando: \u201ccara, vou pagar do meu bolso pra fazer esse show\u201d. \u00c9 um papo rom\u00e2ntico, mas \u00e9 verdade: n\u00e3o quero fazer outra coisa, enquanto conseguir comer e viver. Mas \u00e9 isso: atualmente \u00e9 uma parada que n\u00e3o \u00e9 pelo dinheiro, nem fodendo. \u00c9 um investimento, quero muito que eu consiga, no futuro, ganhar por isso. Mas todo mundo que eu vejo grande tem que trabalhar com outras coisas, n\u00e3o s\u00f3 de fazer show. A n\u00e3o ser que seja uma coisa mais estourada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei se eu quero ficar muito famosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a\u00ed voc\u00ea perderia o espa\u00e7o do experimental?<\/strong><br \/>\n\u00c9, exato. A gente tem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para a gente n\u00e3o acabar a entrevista nesse tom triste, queria saber um pouco dos teus planos para 2024. J\u00e1 inscreveu em outro ProAC?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o! N\u00e3o inscrevi em nenhum edital, mas acho que em 2024 eu me inscrevo de novo. Os planos para o ano que vem s\u00e3o rodar e conseguir estrat\u00e9gias para ter uma base de f\u00e3s, fidelizar, conseguir uma troca mais constante e mais real com as pessoas que me ouvem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea chama de troca real?<\/strong><br \/>\nTenho muito prazer em conhecer as pessoas que me ouvem, gosto de dar ingresso pra quem me acompanha, que vem e comenta sempre no que eu fa\u00e7o. Tenho muita vontade de falar obrigado para as pessoas que me ouvem e perguntar o que eu posso fazer em troca. Talvez isso diminua meu trabalho, mas tenho muito esse lugar de agradecer as pessoas por ouvirem, \u00e9 realmente muito importante. Ouvir algo novo e gostar hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil. Mas \u00e9 isso: ano que vem, a ideia \u00e9 fazer show, e n\u00e3o s\u00f3 me aproximar, mas tamb\u00e9m conhecer e conquistar um p\u00fablico. Ainda n\u00e3o tenho um p\u00fablico meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tem um segundo disco composto?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Acho que eu vou querer ir para outra brisa. Estou muito focada no que eu acabei de lan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que bom, porque jornalista \u00e9 chato e insiste em perguntar do futuro.<\/strong><br \/>\n\u00c9 claro que eu j\u00e1 comecei a pensar coisinhas, mas ainda muito inicial. Eu estou muito focada nesse disco, em conhecer o \u201cAntes Que Eu Caia\u201d. As m\u00fasicas do disco eu conhe\u00e7o h\u00e1 muito tempo, mas a sonoridade dele eu conhe\u00e7o h\u00e1 pouco tempo, quase tanto quanto voc\u00ea, desde quando lancei. \u00c9 pouco tempo. N\u00e3o fiquei curtindo as m\u00fasicas antes de lan\u00e7ar. A master do disco ficou realmente pronta \u00e0s 11h59 do \u00faltimo dia que eu tinha pra mandar para a OneRPM. Quando lan\u00e7ou, eu estava ouvindo pela primeira vez, quase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 um disco em que arranjos, mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o contam muito.<\/strong><br \/>\nSim! Foi fundamental, bem como a capta\u00e7\u00e3o. Ter captado no T\u00f3 foi fundamental, e as mixes tamb\u00e9m. Foram nomes que a Maria trouxe pro disco e foi perfeito, como produtora e como resultado final. \u00c9 um trabalho dif\u00edcil de fazer, captar isso e imprimir o que a gente queria de est\u00e9tica, num lugar mais moderno. A Maria foi essencial de fazer esse recorte, n\u00e3o s\u00f3 dos profissionais, mas de como ela queria as coisas, norteando todos os processos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra fechar de verdade, dado que essa conversa falou de muitos temas de terapia: qual \u00e9 a quest\u00e3o que voc\u00ea vai levar para a sua pr\u00f3xima sess\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que eu vou levar essa reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, sobre que tipo de rela\u00e7\u00e3o eu quero construir com quem me ouve. \u00c9 um lugar muito truqueiro da rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. De um lado, precisar do p\u00fablico pelo lado profissional; do outro tem afeto, mas \u00e9 um afeto por necessidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem outras din\u00e2micas a\u00ed: voc\u00ea vai ser uma pessoa acess\u00edvel ou distante? Tem que gerar desejo? Quantas pessoas sabem da sua vida?<\/strong><br \/>\n\u00c9. \u00c9 dif\u00edcil isso, n\u00e3o sei o que espero disso. Sei que n\u00e3o gosto em absoluto desse lugar distante, de diva, endeusado, nem fodendo. E n\u00e3o acredito que eu me coloque nesse lugar, nem no show, nem pessoalmente. Mas n\u00e3o sei o quanto isso passa por outras expectativas, outros olhares, s\u00e3o coisas que tem que viver para saber. N\u00e3o falo muito da minha vida pessoal nas redes e n\u00e3o sei se isso afasta as pessoas. Prezo muito por intimidade. Mas \u00e9 isso: como se fideliza essa rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico? Tem essa coisa do f\u00e3 dizer \u201cte amo\u201d. Isso me faz pensar: \u201cte amo\u201d? Te amo tem um peso t\u00e3o espec\u00edfico para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c0s vezes voc\u00ea reluta para falar isso pra uma pessoa com quem voc\u00ea se relaciona.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Ao mesmo tempo, \u00e9 interessante como o \u201ceu te amo\u201d tem v\u00e1rias formas. Mas eu tenho muito que viver nessa rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico ainda. Acho que \u00e9 isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"P\u00f3 | Gole Seco | Artistas de Rua 2022\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vf64nAwkckY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gole Seco - Me Chamou de Feia | Sala de Estar\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hxtfneLLL0E?list=PL3M6mGqCRZBNRDJifFl1ETsGHYNCt64Gp\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Loreta Colucci - Derramou (Alessandra Le\u00e3o)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cs-iM9oRj5I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Loreta Colucci e Gole Seco - Medo (Obinrin Trio)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h0R5m19hnvg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Loreta Colucci e Gole Seco - Sal @ Bona Casa de M\u00fasica, S\u00e3o Paulo - 25\/10\/2023\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Kj9PTnciqhI?list=PL6gBQKY5zwa2iKcpHQIyFMRAUGRY1UGbG\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Loreta conta mais sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o dos dois discos, fala sobre as influ\u00eancias que nortearam seu trabalho e como foi o convite para colaborar com Maria Beraldo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/15\/entrevistao-loreta-colucci-aprofunda-o-olhar-sobre-sua-estreia-solo-e-o-disco-do-gole-seco-os-dois-presentes-na-lista-da-apca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":79460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6878,6877],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79451"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79451"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79451\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79464,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79451\/revisions\/79464"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}