{"id":79443,"date":"2024-02-14T09:52:44","date_gmt":"2024-02-14T12:52:44","guid":{"rendered":"http:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79443"},"modified":"2024-03-26T12:52:22","modified_gmt":"2024-03-26T15:52:22","slug":"critica-a-noite-que-mudou-o-pop-um-dos-mais-surreais-e-impressionantes-momentos-da-historia-cultural-recente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/14\/critica-a-noite-que-mudou-o-pop-um-dos-mais-surreais-e-impressionantes-momentos-da-historia-cultural-recente\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cA Noite que Mudou o Pop\u201d, um dos mais surreais e impressionantes momentos da hist\u00f3ria cultural recente"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-79448 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"557\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop4-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas can\u00e7\u00f5es, por mais inescap\u00e1veis e inesquec\u00edveis que sejam, possuem um legado t\u00e3o inescap\u00e1vel, inesquec\u00edvel, e complexo quanto \u201cWe Are The World\u201d. A composi\u00e7\u00e3o de 1985, de autoria de Michael Jackson e Lionel Richie \u2013 ent\u00e3o em seus respectivos auges de popularidade global \u2013 foi o elemento chave do projeto USA For Africa, que visava gerar empatia, consci\u00eancia e generosas doa\u00e7\u00f5es em prol das v\u00edtimas da fome na Eti\u00f3pia. Seja pela melodia grudenta, pela letra repleta de sacarose, ou pelo elenco estelar convocado para a grava\u00e7\u00e3o beneficente (conduzido pelo maestro e g\u00eanio Quincy Jones), dois fatos s\u00e3o ineg\u00e1veis: \u201cWe Are The World\u201d \u00e9, sem d\u00favida, um sucesso integeracional, conhecida mesmo por gera\u00e7\u00f5es pouco familiares com o trabalho de seus autores ou participantes mais ilustres; e tal popularidade, ou familiaridade, pode esconder o fato de que, dadas as possibilidades, se trata de uma can\u00e7\u00e3o bastante aqu\u00e9m do potencial de qualquer um dos envolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante rememorar estes dois pontos antes de apertar o play em \u201cA Noite que Mudou o Pop\u201d (\u201cThe Greatest Night In Pop\u201d, 2024), document\u00e1rio dirigido por Bao Nguyen e dispon\u00edvel via Netflix. Os cr\u00e9ditos iniciais j\u00e1 garantem certo tom de credibilidade ao listarem um dos compositores por tr\u00e1s da can\u00e7\u00e3o-tema como produtor: al\u00e9m de garantir (at\u00e9 certo ponto) a veracidade e precis\u00e3o dos fatos recontados, Lionel Richie serve como um narrador n\u00e3o-oficial da hist\u00f3ria que se inicia com um telefonema do m\u00fasico e ativista Harry Belafonte, no fim de 1984, e termina com os cat\u00e1rticos milh\u00f5es de c\u00f3pias vendidas do compacto com a can\u00e7\u00e3o resultante, assim como a antol\u00f3gica realiza\u00e7\u00e3o intercontinental do Live Aid, no meio do ano seguinte. Carism\u00e1tico como sempre, transbordando honestidade e passando longe de cantar as pr\u00f3prias vit\u00f3rias, o ex-Commodore detalha a disposi\u00e7\u00e3o com a qual recebeu a liga\u00e7\u00e3o de Belafonte, o alertando para a situa\u00e7\u00e3o desesperadora pela qual fam\u00edlias inteiras passavam em solo africano, e ressaltando a import\u00e2ncia de um chamado global para que o amparo chegasse aos mais necessitados. Com o ent\u00e3o-recente \u00eaxito do single colaborativo \u201cDo They Know It\u2019s Christmas?\u201d, encabe\u00e7ado pelo frontman dos Boomtown Rats, Bob Geldof, e englobando a nata do pop brit\u00e2nico da \u00e9poca, a dupla via possibilidades reais de repetir o feito contando apenas com artistas americanos, e recrutou o filantropo e empres\u00e1rio Ken Kragen para possibilitar aquilo que parecia apenas um sonho distante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79445\" aria-describedby=\"caption-attachment-79445\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-79445 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lionekl.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lionekl.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lionekl-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79445\" class=\"wp-caption-text\"><em>Lionel Ritchie<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O envolvimento de Michael Jackson (ent\u00e3o num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o no qual seu \u201cThriller\u201d, de 1982, j\u00e1 come\u00e7ava a ganhar status de lend\u00e1rio) se mostra ter sido um processo bastante espont\u00e2neo, tendo em vista a rela\u00e7\u00e3o de longa data entre ele e Lionel. O mesmo pode ser dito da n\u00e3o-presen\u00e7a, \u00e0 princ\u00edpio, de outro ilustre e muito esperado colaborador: apesar de contactado no in\u00edcio dos preparativos, Stevie Wonder n\u00e3o respondeu ao chamado para auxiliar na composi\u00e7\u00e3o da faixa, muito embora sua presen\u00e7a tenha se tornado fundamental no resultado final. Assim, os dois artistas iniciados pela gravadora Motown se puseram a trabalhar na composi\u00e7\u00e3o, que seria gravada pouco mais de 20 dias depois, por ocasi\u00e3o dos American Music Awards (AMAs), nos quais Lionel serviria como mestre de cerim\u00f4nias. O evento, que traria dezenas de artistas para Los Angeles, se mostrou proveitoso para garantir a presen\u00e7a de muitos dos envolvidos na eventual grava\u00e7\u00e3o do compacto, mantida em sigilo absoluto e marcada para acontecer nos est\u00fadios da A&amp;M Records. Entre artistas j\u00e1 escalados para participarem da premia\u00e7\u00e3o (como Cyndi Lauper, Hall &amp; Oates, Prince, Sheila E. e Huey Lewis) ou n\u00e3o (caso de Dionne Warwick, ent\u00e3o no meio de uma s\u00e9rie de apresenta\u00e7\u00f5es em Las Vegas; ou de Bruce Springsteen, rec\u00e9m-sa\u00eddo da gigantesca turn\u00ea de \u201cBorn In The USA\u201d, de 1984), figurariam lendas da m\u00fasica norte-americana \u2013 como Diana Ross, Bob Dylan e Willie Nelson \u2013, nomes mais modernos \u2013 como Kenny Loggins, James Ingram e Steve Perry, do Journey \u2013 e inclusive personalidades p\u00fablicas, como o Ca\u00e7a-Fantasmas Dan Aykroyd. Al\u00e9m, claro, do quarteto Michael Jackson, Lionel Richie, Stevie Wonder e Quincy Jones.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esfor\u00e7o her\u00f3ico de Lionel em se dividir nas posi\u00e7\u00f5es de apresentador de um dos principais eventos da m\u00fasica estadunidense da \u00e9poca e colaborador em uma ocasi\u00e3o deste calibre n\u00e3o passam despercebidos para o espectador, que vai acompanhando a contagem regressiva para o fat\u00eddico dia 22 de Janeiro de 1985 \u00e0 medida que a m\u00fasica toma forma \u2013 em grande parte gra\u00e7as a Michael, que faz \u00f3timo uso das melodias concebidas por Richie para elaborar uma mensagem devidamente clara e concisa \u2013 e novos colaboradores, como Ray Charles e Smokey Robinson tamb\u00e9m tomam parte no projeto. A noite de grava\u00e7\u00e3o, mesmo planejada com anteced\u00eancia proporcional ao renome dos envolvidos, n\u00e3o passou sem seus percal\u00e7os. Quincy Jones, de modo quase premonit\u00f3rio, salientou sua busca por realizar um bom trabalho dentro do pouqu\u00edssimo tempo dispon\u00edvel de forma sucinta: fixou um aviso com os dizeres \u201cDeixe seu ego na porta\u201d na entrada do est\u00fadio, para que os artistas, j\u00e1 desprovidos da rede de seguran\u00e7a de seus acessores ou guarda-costas, evitassem choques de estrelismo e competitividade aflorada. E, apesar das expectativas, deu certo: Huey Lewis se lembra, em seu depoimento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, da experi\u00eancia surreal de ver Diana Ross pedindo aut\u00f3grafos \u00e0 Daryl Hall; operadores de c\u00e2mera se recordam de Al Jarreau, num misto de empolga\u00e7\u00e3o e descontra\u00e7\u00e3o alc\u00f3olica, tendo dificuldades em acertar suas linhas vocais solo. Aqui est\u00e1 um outro acerto da produ\u00e7\u00e3o: ao contar com imagens outrora n\u00e3o dispon\u00edveis para o p\u00fablico, \u00e9 poss\u00edvel ver e ouvir os takes que antecederam \u00e0queles famosos mundialmente, no que pode se tornar um exerc\u00edcio de curiosidade aos mais familiarizados com \u201cWe Are The World\u201d como produto final.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Autograph Signing Session | The Greatest Night in Pop | Exclusive Clip | Netflix\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LihZHAOoyf8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael Jackson n\u00e3o consegue escapar de certo n\u00edvel de protagonismo, mas sua performance faz por merecer: escutar sua grava\u00e7\u00e3o isolada \u00e9 capaz de trazer calafrios, tamanha a maturidade e perfei\u00e7\u00e3o cristalina transmitidas em sua voz, ainda t\u00e3o jovem. Feito similar pode ser atribu\u00eddo ao eterno l\u00edder (ou \u201cchefe\u201d) da E Street Band: mesmo tendo sido al\u00e7ado a um novo patamar de estrelato ap\u00f3s o lan\u00e7amento do compacto, Bruce Springsteen admite n\u00e3o estar na sua melhor vocal no dia do registro das vozes, muito devido \u00e0 alta demanda de sua jornada mundial encerrada h\u00e1 pouco. S\u00e3o apenas algumas das muitas lendas sobre as quais o document\u00e1rio joga luz, clareando suposi\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios que h\u00e1 tempos cercam a ocasi\u00e3o: a presen\u00e7a disruptiva de Cyndi Lauper, cujos braceletes e badulaques interferiam na qualidade da grava\u00e7\u00e3o de seus versos; a solicita\u00e7\u00e3o de Prince em participar realizando um solo de guitarra, definido como desnecess\u00e1rio pelo produtor e condutor e causa de sua n\u00e3o-participa\u00e7\u00e3o (que resultou em seu vocal sendo redesignado para Huey Lewis); o subsequente desconforto causado a Sheila E., que se viu sendo usada para atrair seu relutante colaborador e n\u00e3o poupa palavras, ainda que educadas, para demonstrar seu descontentamento; e a j\u00e1 infame sugest\u00e3o de Stevie Wonder em incorporar versos cantados em Swahili, numa homenagem \u00e0s pessoas que a can\u00e7\u00e3o visava ajudar \u2013 apenas para ser rebatido por Bob Geldof, presente no est\u00fadio, de que o povo da Eti\u00f3pia n\u00e3o falava o idioma (num debate que tamb\u00e9m levou ao s\u00fabito abandono do projeto pelo astro country Waylon Jennings, j\u00e1 em meio \u00e0s grava\u00e7\u00f5es). Momentos de maior tens\u00e3o, como o aparente mau-humor de Paul Simon frente \u00e0 dificuldade de Kenny Rogers em acertar seu vocal, se alternam com passagens bastante bem humoradas, como os relatos de como Stevie Wonder teria \u201cmostrado\u201d a um brincalh\u00e3o Ray Charles onde ficava o banheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre momentos que arrancam risos ou provocam leve desconforto, o document\u00e1rio acerta ao, mesmo que sem querer, destacar a presen\u00e7a de quatro performers em particular: Diana Ross, uma das mais renomadas e respeitadas figuras a participarem do projeto, n\u00e3o apenas se mostra \u00e0 vontade com artistas com os quais n\u00e3o possu\u00eda tanta familiaridade, como tamb\u00e9m \u00e9 lembrada como bastante sentida ao final das opera\u00e7\u00f5es, que se estenderam at\u00e9 as primeiras horas do dia 23 de Janeiro: depoentes relatam a cantora das Supremes \u00e0s l\u00e1grimas, emocionada e j\u00e1 saudosa dos momentos de riso e descontra\u00e7\u00e3o que passou ao lado de colegas novos e amigos de longa data. Descontra\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 algo percept\u00edvel em Quincy Jones, aqui mostrado como um profissional com nervos de a\u00e7o que, embora nunca rude, n\u00e3o tinha medo de chamar a aten\u00e7\u00e3o daqueles que regeria com dureza, independente de sua experi\u00eancia ou import\u00e2ncia \u2013 ao final, n\u00e3o restam d\u00favidas sobre a import\u00e2ncia de sua condu\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o, bem como de seus coment\u00e1rios e direcionamentos \u00e0 respeito da melodia e da estrutura vocal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79446\" aria-describedby=\"caption-attachment-79446\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-79446 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79446\" class=\"wp-caption-text\"><em>Willie Nelson, Quincy Jones e Bruce Springsteen<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme acerta mais uma vez ao dar a devida aten\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia ao papel desempenhado por Harry Belafonte junto aos outros cantores mais famosos do line up. Qualquer um que se disponha a assistir o mega-popular v\u00eddeo para \u201cWe Are The World\u201d teria que fazer bastante esfor\u00e7o para perceber o idealizador principal do projeto, deslocado por\u00e9m entusiasmado ao lado da tamb\u00e9m injusti\u00e7ada Bette Midler e do estranh\u00edssimo corte de cabelo \u00e0-la-Beakman de Lindsay Buckingham (ent\u00e3o do Fleetwood Mac) nas fileiras mais altas do coro. \u00c9 Al Jarreau, por\u00e9m, quem promove um dos mais ic\u00f4nicos \u2013 e outrora in\u00e9ditos \u2013 momentos do evento: ap\u00f3s Quincy chamar a aten\u00e7\u00e3o e pedir aplausos a Belafonte, Jarreau come\u00e7a a entoar &#8220;Banana Boat (Day-O)&#8221;, grande sucesso pr\u00e9-Billboard de Harry, com o restante dos presentes se juntando na homenagem e comovendo o int\u00e9rprete original, como que para lembr\u00e1-lo da import\u00e2ncia de sua presen\u00e7a e de seu legado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este, conforme mostrado no document\u00e1rio, era um ponto sens\u00edvel na carreira de outro dos grandes nomes presentes nos est\u00fadios da A&amp;M: os anos 1980 passaram longe de serem generosos para Bob Dylan, que havia passado por momentos de pura transi\u00e7\u00e3o na virada da d\u00e9cada anterior a n\u00edvel pessoal, art\u00edstico e religioso. A meses de lan\u00e7ar seu malfadado \u201cEmpire Burlesque\u201d, Zimmerman se mostra inadequado junto aos outros cantores envolvidos \u2013 tal sensa\u00e7\u00e3o transpira, como n\u00e3o poderia deixar de ser, nas primeiras tentativas de registro de sua parte solo. Mesmo os menos familiarizados sabem que n\u00e3o \u00e9 comum ver Dylan inseguro, e este \u00e9 o fator que faz desta uma das mais singulares passagens do filme inteiro. Ver o bardo de Minnesota sorridente ap\u00f3s ser reconfortado e, porque n\u00e3o, guiado por Stevie Wonder (que, ao piano, entoa sua pr\u00f3pria vers\u00e3o do que percebe como o estilo vocal de Bob) ajuda a clarificar o conflito inerente n\u00e3o apenas ao m\u00edtico compositor, ent\u00e3o lutando conta a percep\u00e7\u00e3o de si mesmo como \u201cultrapassado\u201d, como tamb\u00e9m \u00e0 toda a sua gera\u00e7\u00e3o, que se desdobrava para entender sua pr\u00f3pria import\u00e2ncia num cen\u00e1rio onde os objetivos, e o ferramental, j\u00e1 eram outros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79447\" aria-describedby=\"caption-attachment-79447\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-79447\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/pop3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79447\" class=\"wp-caption-text\"><em>Michael Jackson e Bob Dylan<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os registros em v\u00eddeo da \u00e9poca, entre filmagens j\u00e1 bem conhecidas e outras completamente in\u00e9ditas, s\u00e3o magistralmente bem aproveitadas pelo diretor Nguyen, que sabe contextualizar a import\u00e2ncia do momento documentado intercalando muito bem com as bem conduzidas e pontuais entrevistas recentes. Lauper, em especial, se mostra c\u00e2ndida e esclarecida a respeito do momento em que vivia ent\u00e3o, e Huey Lewis ainda parece estar deslumbrado com ter sido parte de tamanha uni\u00e3o estelar. Os m\u00fasicos participantes na constru\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o \u2013 entre os quais estiveram membros (ent\u00e3o) presentes da banda Toto, como David Paich e Steve Porcaro, bem como o brilhante percussionista brasileiro Paulinho da Costa \u2013 mereciam pelo menos men\u00e7\u00f5es, num ponto no qual a produ\u00e7\u00e3o fica seriamente devendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo que, cultural e artisticamente, os envolvidos tenham sido capazes de al\u00e7ar novos, e mais altos, voos em popularidade, a iniciativa USA For Africa acabou sendo o estopim para uma s\u00e9rie de campanhas beneficentes semelhantes ao redor do mundo (indo desde o grupo Artists United Against Apartheid, encabe\u00e7ado pelo guitarrista Steven Van Zandt, e do projeto Hear N\u2019 Aid, englobando vocalistas e m\u00fasicos da cena heavy metal, at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do disco \u201cNordeste J\u00e1\u201d, que reuniu, em 1985, alguns dos maiores nomes da m\u00fasica brasileira e se desembocaria, muitos anos depois, no projeto Crian\u00e7a Esperan\u00e7a). Muitos questionamentos seriam levantados mais al\u00e9m do simples m\u00e9rito art\u00edstico da can\u00e7\u00e3o-hino, e o impacto humanit\u00e1rio efetivo do projeto, bem como do subsequente Live Aid, j\u00e1 foi analisado e colocado em cheque \u2013 <a href=\"https:\/\/www.spin.com\/2015\/07\/live-aid-the-terrible-truth-ethiopia-bob-geldof-feature\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma mat\u00e9ria de 1986 publicada pela revista Spin<\/a> expunha as in\u00fameras dificuldades encontradas para que os recursos angariados pudessem, de fato, chegar \u00e0s m\u00e3os dos mais necessitados. Claro que n\u00e3o se trata do maior interesse aqui: \u201cA Noite que Mudou o Pop\u201d centra seu foco na improv\u00e1vel, desafiadora e triunfal tarefa de reunir alguns dos maiores nomes da m\u00fasica popular em todos os tempos, com o objetivo de gerar empatia e consci\u00eancia para com popula\u00e7\u00f5es historicamente desfavorecidas. Neste aspecto, o filme alcan\u00e7a seu objetivo com louvor, com o resultado final fazendo jus ao renome dos envolvidos, quer estejam estes presentes ou n\u00e3o (Harry Belafonte, inclusive, faleceu em Abril de 2023, e \u00e9 homenageado nos cr\u00e9ditos finais ao lado de Jackson e Jarreau, entre outros). Cada hist\u00f3ria tem v\u00e1rios lados, e abordar todos pode ser uma tarefa conflitante e infrut\u00edfera \u2013 mesmo assim, trata-se de um documento mais do que digno de um dos mais surreais e impressionantes momentos da hist\u00f3ria cultural recente, onde, mais do que caminhar entre reles mortais, pretensos deuses da m\u00fasica tiveram que aprender a caminhar uns entre os outros em nome de um bem maior.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Greatest Night in Pop | Official Trailer | Netflix\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MD3oU1gowu4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"USA For Africa - We Are The World (HQ official Video)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/s3wNuru4U0I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os registros em v\u00eddeo da \u00e9poca, entre filmagens j\u00e1 bem conhecidas e outras completamente in\u00e9ditas, s\u00e3o magistralmente bem aproveitadas pelo diretor Nguyen&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/14\/critica-a-noite-que-mudou-o-pop-um-dos-mais-surreais-e-impressionantes-momentos-da-historia-cultural-recente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":79444,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[154],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79443"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79443"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79443\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79450,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79443\/revisions\/79450"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79444"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}