{"id":79315,"date":"2024-02-02T11:58:56","date_gmt":"2024-02-02T14:58:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79315"},"modified":"2024-03-01T02:44:51","modified_gmt":"2024-03-01T05:44:51","slug":"literatura-selton-mello-faz-balanco-de-seu-passado-de-forma-honesta-tocante-e-sim-hilaria-em-eu-me-lembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/02\/literatura-selton-mello-faz-balanco-de-seu-passado-de-forma-honesta-tocante-e-sim-hilaria-em-eu-me-lembro\/","title":{"rendered":"Literatura: Selton Mello faz balan\u00e7o de seu passado de forma honesta, tocante e, sim, hil\u00e1ria em \u201cEu Me Lembro\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selton Figueiredo Melo (sim, com um L s\u00f3) j\u00e1 representou muitas coisas: malandro, burocrata, traficante, lhama, caixeiro viajante, empres\u00e1rio, detetive \u2013 a lista surpreende. Pouqu\u00edssimas vezes, no entanto, Selton Mello p\u00f4de se mostrar como si mesmo. Colecionou obras memor\u00e1veis e sempre dignas de nota ao longo de uma carreira onde procurou dizer apenas o necess\u00e1rio sobre si, ao menos na medida do poss\u00edvel para algu\u00e9m que cresceu aos olhos do p\u00fablico e construiu, assim como o irm\u00e3o, Danton, uma trajet\u00f3ria invej\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cinquenta anos de idade, pareados com os quarenta de carreira, ent\u00e3o, se mostram a perfeita oportunidade de passar a limpo as muitas experi\u00eancias, positivas ou negativas, que pontuaram tanto tempo de bons servi\u00e7os prestados \u00e0 teledramaturgia, ao teatro e ao cinema brasileiro, fosse frente \u00e0s c\u00e2meras ou atr\u00e1s delas. \u201cEu Me Lembro\u201d (2023),\u00a0 livro de mem\u00f3rias lan\u00e7ado no fim do ano passado pela editora Jamb\u00f4, \u00e9 o acerto de contas de um dos mais talentosos atores e diretores de toda uma gera\u00e7\u00e3o com seu passado, ao mesmo tempo que funciona como uma pondera\u00e7\u00e3o de seu presente e indica fascinantes rumos em dire\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201clivro de mem\u00f3rias\u201d, aqui, funciona melhor do que o ep\u00edteto de \u201cbiografia\u201d, por\u00e9m tamb\u00e9m parece pouco para abarcar a abordagem utilizada pelo autor: talvez num reflexo de sua criativa verve diretorial, Mello passou longe de procurar construir uma narrativa previs\u00edvel, linear, sobre sua vida e obra; numa decis\u00e3o esperta e reveladora, o autor convocou um time de quarenta \u201ccolaboradores\u201d ilustres para que, enviando perguntas ou reflex\u00f5es sobre sua obra e experi\u00eancias, tornassem poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria que muitos podem pensar conhecer a fundo, mas que guarda uma boa dose de surpresas e revela\u00e7\u00f5es (quase sempre) bem humoradas e (muitas vezes) tocantes. Entre os convidados, se encontram co-geracionais do ator (Wagner Moura, L\u00e1zaro Ramos, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro), inspira\u00e7\u00f5es e \u00eddolos de d\u00e9cadas passadas (tais como Fernanda Montenegro, Zez\u00e9 Motta, Moacyr Franco &#8211; incluindo depoimentos p\u00f3stumos, como os de Rolando Boldrin e Aracy Balabanian), e personalidades que abrangem jornalistas, (Pedro Bial e Arthur Dapieve, por exemplo), escritores (Zuenir Ventura e Ana Paula Maia) e muitos outros, que acompanharam de perto, ou nem tanto, a jornada do menino nascido em Passos, MG, que superou percal\u00e7os her\u00f3icos para se firmar como um dos maiores artistas que o Brasil viu surgir nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do come\u00e7o modesto, por\u00e9m cheio de vida de sua cidade natal at\u00e9 o in\u00edcio da realiza\u00e7\u00e3o de um sonho como ator mirim, Selton guarda lembran\u00e7as de aprendizado e deslumbramento ao se ver diante de grandes nomes da telecomunica\u00e7\u00e3o nacional. Suas respostas a perguntas feitas por atores e atrizes mais velhos v\u00eam munida deste verniz de m\u00e1ximo respeito e admira\u00e7\u00e3o, e seu \u201cdi\u00e1logo\u201d com o saudoso Paulo Jos\u00e9 (com quem Selton trabalhou no consagrado e bel\u00edssimo \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/08\/cinema-o-palhaco-selton-mello\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Palha\u00e7o<\/a>\u201d, de 2010) comove em sua simplicidade e no n\u00edvel de sentimento destilado na escrita: direta, concisa e completamente fiel ao tipo de linguagem que Mello sempre utilizou de forma t\u00e3o espont\u00e2nea, sem firulas ou abusos de linguajar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta espontaneidade fica ainda mais clara quando o ator responde a perguntas que mais se assemelham a reflex\u00f5es: a contribui\u00e7\u00e3o de Matheus Nachtergaele (o eterno Jo\u00e3o Grilo, com o qual Selton contracenou no antol\u00f3gico \u201cO Auto da Compadecida\u201d, de 2000) \u00e9 de uma sensibilidade po\u00e9tica desconcertante, e seu alinhamento com o entrevistado \u00e9 um dos momentos chave do livro; igualmente ricas s\u00e3o as belas palavras oferecidas pela tamb\u00e9m atriz (e escritora) Fernanda Torres, cujo in\u00edcio precoce de carreira espelha aquele de Mello, e que ajuda a trazer mais luz para o per\u00edodo no qual, vendo as oportunidades como ator minguarem, o ent\u00e3o adolescente passou a se dedicar a extensos trabalhos como dublador (incluindo, claro, seu marcante papel como Kuzco na anima\u00e7\u00e3o \u201cA Nova Onda do Imperador\u201d, tamb\u00e9m de 2000). O retorno \u00e0 frente das c\u00e2meras na pele do sens\u00edvel Chic\u00f3, j\u00e1 no fim da d\u00e9cada de 1990, tamb\u00e9m \u00e9 bem abordado atrav\u00e9s da presen\u00e7a do diretor Guel Arraes, que ajuda a elucidar a transi\u00e7\u00e3o gradual e bem sucedida de Selton da atua\u00e7\u00e3o para a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o t\u00edtulo, o tema a permear todas as entrevistas registradas em \u201cEu Me Lembro\u201d \u00e9 o da mem\u00f3ria: lembran\u00e7as de per\u00edodos desafiadores e nunca antes abordados a fundo (como as experi\u00eancias com inibidores de apetite, que o protagonista aponta terem sido fundamentais para sua desestabiliza\u00e7\u00e3o f\u00edsica e psicol\u00f3gica) se revezam com retrospectivas minuciosas de alguns de seus trabalhos mais consagrados \u2013 como o pungente \u201cMeu Nome N\u00e3o \u00c9 Johnny\u201d de 2008 \u2013 e alguns nem tanto \u2013 o subestimado \u201cFeliz Natal\u201d, estr\u00e9ia de Selton na dire\u00e7\u00e3o, do mesmo ano. Mais do que um passeio por uma hist\u00f3ria acompanhada por muitos, o livro tamb\u00e9m ajuda a dissecar o processo criativo de uma mente hiperativa por natureza, e os trechos que abordam suas obras mais recentes (como a excelente s\u00e9rie \u201cSess\u00e3o de Terapia\u201d, dirigida e, atualmente, tamb\u00e9m protagonizada por Mello) s\u00e3o demonstra\u00e7\u00f5es n\u00edtidas do esfor\u00e7o do autor em preservar suas lembran\u00e7as e as reconhecer como pe\u00e7as fundamentais do caminho que trilhou, assim como dos \u00eaxitos que colecionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse subtexto tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para se entender um dos mais delicados momentos abordados aqui: o diagn\u00f3stico da m\u00e3e de Selton, Selva, como portadora do Alzheimer. De maneira tenra, ele aborda o tema em diferentes momentos, ressaltando a import\u00e2ncia que o sacrif\u00edcio dos pais em se mudarem para o Rio de Janeiro gra\u00e7as ao sonho de ator televisivo de um menino fascinado com as possibilidades que via de sua tela em casa. Ao relatar a progress\u00e3o da doen\u00e7a de sua m\u00e3e, Mello se exp\u00f5e com um n\u00edvel de fragilidade poucas vezes visto em obras recentes do tipo, ainda mais em se tratando de uma personalidade t\u00e3o aparentemente onipresente atrav\u00e9s de tantas obras, e ao mesmo tempo t\u00e3o privada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As reflex\u00f5es sobre as coisas que viu, viveu e sentiu s\u00e3o postas em palavras carregadas ora de muito bom humor (como sua auto-proclama\u00e7\u00e3o de \u201cmaior choc\u00f3latra do Brasil\u201d, conforme dito aqui \u00e0 D\u00e9bora Falabella \u2013 seu par rom\u00e2ntico em \u201cLisbela e o Prisioneiro\u201d, de 2003), ora de dicas valiosas entregues em forma de di\u00e1logo franco (especialmente em sua conversa com Larissa Manoela, que esteve em \u201cO Palha\u00e7o\u201d), e sempre de admira\u00e7\u00e3o genu\u00edna pela presen\u00e7a daqueles que o questionam em sua vida e sua hist\u00f3ria (como o \u00eddolo tricolor Ra\u00ed, uma das maiores lendas do time que Selton escolheu para si). A carinhosa troca de recorda\u00e7\u00f5es com o irm\u00e3o, na admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua e respeito m\u00e1ximo demonstrados, \u00e9 de levar \u00e0s l\u00e1grimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a ideia de Selton Mello \u00e9 preservar suas recorda\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o viver delas, e os momentos nos quais fala de seus projetos futuros deixam claro seu entusiasmo em se desafiar, tra\u00e7ando um paralelo com o momento em que se colocou na posi\u00e7\u00e3o de diretor pela primeira vez, v\u00e1rios anos atr\u00e1s. Ap\u00f3s um excelente trabalho como protagonista de um dos melhores podcasts de 2023 \u2013 \u201cFran\u00e7a e o Labirinto\u201d, um audiodrama produzido em parceria entre Spotify e Jovem Nerd \u2013 o ator inicia 2024 com pelo menos dois grandes projetos no horizonte. O primeiro \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de \u201cAinda Estou Aqui\u201d, livro escrito por Marcelo Rubens Paiva, no qual Mello interpreta o pai do autor, Rubens Paiva, que \u201cdesapareceu\u201d durante a Ditadura Militar ap\u00f3s ser levado para prestar esclarecimentos pelas autoridades (no qual contracena com a j\u00e1 citada Fernanda Torres, sob a dire\u00e7\u00e3o de Walter Salles). O segundo, claro \u00e9 \u201cO Auto da Compadecida 2\u201d, no qual retorna ao memor\u00e1vel papel de Chic\u00f3 ao lado n\u00e3o apenas de Matheus Nachtergaele, mas tamb\u00e9m dos diretores Guel Arraes e Fl\u00e1via Lacerda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final, \u201cEu Me Lembro\u201d \u00e9 mais do que uma nost\u00e1lgica volta ao passado: ao colocar sua hist\u00f3ria de vida em palavras (e em perspectiva), Selton se abre para um p\u00fablico que o viu crescer e amadurecer por tr\u00e1s de muitas facetas, ao mesmo tempo que se mostra entusiasmado com as muitas hist\u00f3rias que ainda tem para contar, e a hist\u00f3ria que escreve e continuar\u00e1 escrevendo \u2013 uma daquelas hist\u00f3rias que o Brasil tem mesmo \u00e9 que admirar. Sim, ele se lembra, e todos v\u00e3o continuar lembrando, por muitos outros anos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79317\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/selton2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/selton2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/selton2-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cEu Me Lembro\u201d \u00e9 mais do que uma nost\u00e1lgica volta ao passado: ao colocar sua hist\u00f3ria de vida em palavras, Selton se abre para um p\u00fablico que o viu crescer e amadurecer por tr\u00e1s de muitas facetas&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/02\/literatura-selton-mello-faz-balanco-de-seu-passado-de-forma-honesta-tocante-e-sim-hilaria-em-eu-me-lembro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":79316,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79315"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79315"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79318,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79315\/revisions\/79318"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}