{"id":79298,"date":"2024-02-01T01:12:37","date_gmt":"2024-02-01T04:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79298"},"modified":"2024-03-22T17:47:38","modified_gmt":"2024-03-22T20:47:38","slug":"27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-a-grandiosa-exibicao-ao-ar-livre-de-mais-um-dia-zona-norte-de-allan-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/01\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-a-grandiosa-exibicao-ao-ar-livre-de-mais-um-dia-zona-norte-de-allan-ribeiro\/","title":{"rendered":"27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes:\u00a0A grandiosa exibi\u00e7\u00e3o ao ar livre de &#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221;, de Allan Ribeiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221; (2023) foi o grande vencedor do 56\u00ba Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro em 2023, levando sete pr\u00eamios, incluindo o Trof\u00e9u Candango de melhor longa-metragem pelo J\u00fari Oficial da Mostra Competitiva Nacional. Na 27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes, o filme ganhou uma grandiosa exibi\u00e7\u00e3o ao ar livre na pra\u00e7a e contou com a presen\u00e7a do diretor e da equipe para um debate ap\u00f3s a sess\u00e3o, que foi recheada com os sons e os aromas da rua que insistiram em interferir na frui\u00e7\u00e3o. Uma maravilha! &#8211; a experi\u00eancia e o filme de Allan Ribeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos quatro trabalhadores perif\u00e9ricos da cidade do Rio de Janeiro, moradores da Zona Norte (Ilha do Governador, Maria da Gra\u00e7a, Cachambi e Iraj\u00e1, ainda que a geografia do Rio tenha sido muito bem aproveitada para al\u00e9m desses bairros). Lara \u00e9 uma bailarina, passista da escola de samba Acad\u00eamicos do Engenho da Rainha. Circula pela cidade com o seu namorado, que \u00e9 persuadido a gravar v\u00eddeos para que ela possa postar em suas redes sociais. Os dois vivem um amor leve e tentam equilibrar as obriga\u00e7\u00f5es do dia a dia com os hobbies favoritos. Na feira de antiguidades da Pra\u00e7a XV ela tenta se decidir entre um colar colorido e outro de prata. &#8220;Este \u00e9 bonito para sair \u00e0 noite&#8221;, defende Silvio, outro protagonista. Ele trabalha na feira aos s\u00e1bados vendendo discos de vinil, CD&#8217;s e bugigangas mil. No decorrer da trama, descobrimos que ele \u00e9 casado com outro homem e que faz espet\u00e1culos de transformista no Seven Bar, uma mistura de boteco e boate literalmente embaixo do viaduto de Cascadura. L\u00e1 para o final do filme, Silvio nos presenteia com uma performance bel\u00edssima que Ribeiro filma com devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse entrecruzamento dos personagens n\u00e3o \u00e9 exatamente indispens\u00e1vel. Na verdade, essa escolha por coloc\u00e1-los em di\u00e1logo possui muito mais uma proposi\u00e7\u00e3o de ritmo, uma asser\u00e7\u00e3o de como traduzir o tempo no cinema, do que exatamente uma fun\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Silvio conhece Val\u00e9ria, que frequenta a sua casa e vai at\u00e9 o Seven Bar no dia de sua apresenta\u00e7\u00e3o surpresa. Ela chora ao v\u00ea-lo no palco. O espectador imediatamente se conecta a Silvio, ao marido e a Val\u00e9ria, e periga chorar tamb\u00e9m. A cena \u00e9 forte pelo encontro desses personagens e funciona pelo ac\u00famulo do que vimos at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os acontecimentos em &#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221; s\u00e3o todos corriqueiros, e n\u00e3o por isso menos cativantes. Val\u00e9ria, que trabalha como gari, grava um v\u00eddeo den\u00fancia indignada porque um morador varre o seu pr\u00f3prio quintal todo dia pela manh\u00e3 e empurra o lixo para a cal\u00e7ada p\u00fablica. Silvio revela que tratou mal o marido quando ainda estavam se conhecendo, fazendo-o se humilhar por ele (&#8220;como algu\u00e9m teria a coragem de ficar com uma pessoa assim?&#8221;, ele indaga). Lara \u00e9 desafiada no trabalho e precisa ajudar a m\u00e3e em casa, que a acompanha nos momentos mais importantes de sua atua\u00e7\u00e3o na escola de samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ribeiro adota uma abordagem dupla: em certas horas reafirma o teor ficcional dos acontecimentos, filmando com expressividade os di\u00e1logos e algumas a\u00e7\u00f5es, utilizando-se de plano e contraplano, pe\u00e7as musicais e outros artif\u00edcios comuns \u00e0 fic\u00e7\u00e3o; em outras, finca a c\u00e2mera no trip\u00e9 e prop\u00f5e conversas mais diretas com os personagens, que contam suas hist\u00f3rias tal como um document\u00e1rio comum, ou aproveita na montagem os registros de celular e alguns inserts, com as vozes em off, deles olhando para a c\u00e2mera. Essa confus\u00e3o entre o real e o fict\u00edcio \u00e9 bem-vinda para Ribeiro, que organiza toda a sua narrativa no compasso dessa t\u00eanue conex\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79301\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, cabe apresentar Victor, o quarto personagem que completa a constela\u00e7\u00e3o de &#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221;. Ele se autodenomina her\u00f3i insulano (palavra que remete \u00e0quele que \u00e9 nascido ou morador de uma ilha) &#8211; e, de fato, se veste como tal, com direito \u00e0 capa e um collant azul e amarelo. Victor faz diversos bicos, pega carona com o motot\u00e1xi do bairro e trabalha frequentemente como locutor para uma galeria em Copacabana. Ele tamb\u00e9m \u00e9 comediante e tenta a sorte na ind\u00fastria do stand up comedy. Um dos momentos mais inventivos \u00e9 quando Victor conta uma piada em um show, levando o p\u00fablico (de dentro do filme) \u00e0s gargalhadas. N\u00f3s, espectadores, tamb\u00e9m achamos gra\u00e7a, mas n\u00e3o exatamente da piada em si, e sim do fato de j\u00e1 a conhecermos por conta de uma cena que nos \u00e9 apresentada anteriormente, na qual Victor ensaia para uma (ent\u00e3o sonhada) apresenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse desvio que mora a singularidade. Ribeiro nos conduz a veredas diversas, com farto input emocional, apesar de extremamente sutil, muitas vezes revelado pela presen\u00e7a da trilha sonora, pelo figurino ou pela utiliza\u00e7\u00e3o magistral da composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos a Val\u00e9ria. Al\u00e9m de trabalhar como gari, ela ama dan\u00e7ar charme e ir \u00e0 praia nas horas vagas. Em uma longa sequ\u00eancia, Ribeiro aposta na for\u00e7a da m\u00fasica e na presen\u00e7a dos corpos em estado de dan\u00e7a. As luzes s\u00e3o intensas, o flashback rola solto nas caixas de som do baile e os corpos em cena dan\u00e7am sem parar &#8211; os planos escolhidos pela dire\u00e7\u00e3o salientam a beleza dos passinhos, da coreografia mim\u00e9tica e do suor que escorre pelo pesco\u00e7o. Em outro trecho, Val\u00e9ria \u00e9 filmada no \u00f4nibus voltando para casa e seu pensamento reflete sobre como, no final de um dia inteiro de folga tomando sol na praia da Urca, ela percebe que n\u00e3o mora naquele bairro e precisa tra\u00e7ar todo o dispendioso caminho de volta. Um lapso de realidade que toma conta do que antes era sonho, fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Allan Ribeiro nasceu e viveu na Zona Norte at\u00e9 os seus 26 anos de idade. Tamb\u00e9m por isso conhece bem a gravidade e a expressividade de se filmar um vag\u00e3o de trem. A sequ\u00eancia inicial como um todo \u00e9 \u00f3tima: recortes de uma esta\u00e7\u00e3o do ramal Japeri, sobrepostos por uma trilha sonora singela e emotiva. N\u00e3o \u00e9 de hoje que Ribeiro registra imagens como essas. O longa-metragem \u00e9 uma continuidade em rela\u00e7\u00e3o a &#8220;O Brilho dos Meus Olhos&#8221; (<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/11571332\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dispon\u00edvel no Vimeo do cineasta<\/a>), curta que realizou em 2006 ainda num contexto de forma\u00e7\u00e3o enquanto estudante de cinema da UFF (Universidade Federal Fluminense). Talvez um avan\u00e7o, muito por conta da trajet\u00f3ria do pr\u00f3prio Allan Ribeiro at\u00e9 aqui, mas tamb\u00e9m pelo rumo que o cinema brasileiro tomou de meados dos anos 2000 at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 para c\u00e1 surgiram e consolidaram-se Adirley Queir\u00f3z em Bras\u00edlia, os mineiros da Filmes de Pl\u00e1stico, Affonso Uch\u00f4a e Jo\u00e3o Dumans tamb\u00e9m de Minas Gerais, enfim, uma s\u00e9rie de cineastas que pensaram e seguem pensando o cotidiano perif\u00e9rico e a natureza do trabalho no Brasil. Evidentemente que n\u00e3o exclui-se, aqui, o legado de Nelson Pereira dos Santos (como sugere o t\u00edtulo), mas os \u00faltimos anos do cinema brasileiro s\u00e3o muito fortes para se ignorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em &#8220;O Brilho dos Meus Olhos&#8221; o personagem principal canta &#8220;Sangrando&#8221;, de Gonzaguinha, em um videok\u00ea, em &#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221; Victor \u00e9 eleito para protagonizar uma sequ\u00eancia musical t\u00e3o bonita quanto, desta vez cantando uma m\u00fasica composta pelo pr\u00f3prio diretor e que depois, nos cr\u00e9ditos finais, \u00e9 interpretada pela voz inconfund\u00edvel de Ney Matogrosso. Quando a mesmice do dia a dia \u00e9 confrontada com o instante de fantasia, eis o cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\"><em>Mais sobre a Mostre de Cinema de Tiradentes<\/em><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79299\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1140\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/maisumdia1-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os acontecimentos em &#8220;Mais um Dia, Zona Norte&#8221; s\u00e3o todos corriqueiros, e n\u00e3o por isso menos cativantes. Acompanhamos quatro trabalhadores perif\u00e9ricos da cidade do Rio de Janeiro, moradores da Zona Norte&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/01\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-a-grandiosa-exibicao-ao-ar-livre-de-mais-um-dia-zona-norte-de-allan-ribeiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":79300,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7022,6544],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79298"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79298"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79298\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79350,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79298\/revisions\/79350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}