{"id":79272,"date":"2024-01-30T13:57:08","date_gmt":"2024-01-30T16:57:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79272"},"modified":"2024-02-28T04:46:46","modified_gmt":"2024-02-28T07:46:46","slug":"27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-not-dead-e-o-movimento-punk-nos-arredores-do-centro-historico-de-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/30\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-not-dead-e-o-movimento-punk-nos-arredores-do-centro-historico-de-salvador\/","title":{"rendered":"27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes: &#8220;Not Dead&#8221; e o movimento punk nos arredores do Centro Hist\u00f3rico de Salvador"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que resista nos dias de hoje (como mostrado aqui no Scream &amp; Yell atrav\u00e9s da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/16\/entrevista-desbravando-a-atual-cena-hardcore-soteropolitana-e-interiorana-da-bahia-conheca-a-webserie-cena-morta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">webs\u00e9rie Cena Morta<\/a>), a cena punk &#8220;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo&#8221; de Salvador teve o seu auge nos anos 1980. Felizmente, &#8220;Not Dead&#8221; (2024) \u00e9 um document\u00e1rio que se interessa pouco por nostalgias f\u00e1ceis, apostando no &#8220;agora&#8221;. O t\u00edtulo faz refer\u00eancia a uma loja que vendia discos e que teve uma import\u00e2ncia muito grande para a cena punk soteropolitana. M\u00fasicos, f\u00e3s e ativistas costumavam se reunir em torno da Not Dead para escrever manifestos, produzir zines e reverenciar o som rasgado, frontal e politizado t\u00edpico do g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sinopse oficial d\u00e1 o tom: &#8220;Na terra da ax\u00e9 music, punks velhos resistem e vivem com autonomia&#8221;. Acompanhamos, portanto, algumas das pessoas que participaram do movimento punk nos arredores do Centro Hist\u00f3rico de Salvador: Rai, Piolho, Moska, Neilton, Luciano Rob\u00f4, Ed, Yzgoto, Tinho, Luciana e Robson V\u00e9io s\u00e3o entrevistados pelo diretor Isaac Donato, por sua vez inserido nesta cena desde a adolesc\u00eancia. Donato se interessa muito pelo cotidiano de seus personagens, como vivem, no qu\u00ea trabalham, e coloca debaixo do bra\u00e7o a pergunta-chave: qual \u00e9 o espa\u00e7o do punk na vida dessas pessoas ainda hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rai atua como marceneiro e aparece dando entrevistas constantemente em sua oficina. Moska possui um empreendimento de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de cerveja artesanal, vendendo as suas garrafas pelos bares da cidade. Ednilson Sacramento realiza consultoria de roteiro para servi\u00e7os de audiodescri\u00e7\u00e3o de obras audiovisuais. Este \u00faltimo ganha um interesse narrativo destacado. Donato e seu montador, Frederico Benevides, recorrem ao of\u00edcio de Sacramento para conduzir a montagem, op\u00e7\u00e3o que justifica a sele\u00e7\u00e3o do filme na Mostra Aurora pela sua inventividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Donato n\u00e3o se interessa apenas em ouvir as hist\u00f3rias de seus personagens. Como bom diretor que \u00e9, ele sabe que precisa interferir na narrativa e criar um espa\u00e7o para a inven\u00e7\u00e3o. Isto se d\u00e1 em diversos momentos com a interrup\u00e7\u00e3o, pela montagem, do fluxo de determinadas sequ\u00eancias, abrindo uma janela para o coment\u00e1rio metalingu\u00edstico que se d\u00e1 via o trabalho executado por Sacramento, que atua na constru\u00e7\u00e3o do roteiro para a audiodescri\u00e7\u00e3o de &#8220;Not Dead&#8221;. Em determinado ponto, por exemplo, Sacramento conversa ao telefone com algu\u00e9m da equipe do filme e tenta entender a melhor maneira de transmitir ao p\u00fablico cego, por meio da audiodescri\u00e7\u00e3o, como uma motocicleta aparece e some no quadro. O que significa cruzar a tela? Estaria a moto simplesmente atravessando de um ponto ao outro (da direita para a esquerda ou vice-versa) ou fazendo um zigue-zague? Com um simples coment\u00e1rio como esse, nos damos conta de que h\u00e1 muitas possibilidades e complexidades no ato de se narrar um filme. Essa \u00e9 a compreens\u00e3o que faz valer a nossa experi\u00eancia, algo que nos transforma enquanto espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, o roteiro do filme em si, assinado por Donato em parceria com Mar\u00edlia Cunha, aposta na metalinguagem, algo que pode afastar algumas pessoas menos dispostas para experimenta\u00e7\u00f5es e mais ansiosas por um document\u00e1rio tradicional. N\u00e3o que haja pouca presen\u00e7a musical em &#8220;Not Dead&#8221;, mas as cenas escolhidas para dar conta do universo da m\u00fasica s\u00e3o relativamente fracas. Imagens e sons prec\u00e1rios que poderiam at\u00e9 se justificar pelo teor artesanal da pr\u00f3pria cultura punk, mas que na realidade n\u00e3o conseguem trazer a emo\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em alguns pontos-chave dos 71 minutos do document\u00e1rio. \u00c9 uma lacuna &#8211; talvez por op\u00e7\u00e3o mesmo dos realizadores &#8211; que incomoda, ainda que a obra se paute mais pelas possibilidades de narra\u00e7\u00e3o do que por elementos usuais documentais como imagens de arquivo e depoimentos formais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo desse problema \u00e9 a sequ\u00eancia em que Clemente, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/30\/relancamento-tres-discos-dos-inocentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fundador da banda Inocentes<\/a>, entrevista via chamada de v\u00eddeo uma banda que ensaia em um est\u00fadio local. Nem a m\u00fasica tocada pela banda consegue se traduzir em um grande momento, nem a participa\u00e7\u00e3o do Clemente (artista mais conhecido nacionalmente dentre os que aparecem no filme) se configura como algo essencial \u00e0 obra, deixando transparecer, inclusive, aquele velho h\u00e1bito, comumente visto em document\u00e1rios de qualquer esp\u00e9cie, de inserir algu\u00e9m famoso para ganhar alguma repercuss\u00e3o midi\u00e1tica. N\u00e3o que a presen\u00e7a do baixista, guitarrista e vocalista seja completamente desnecess\u00e1ria (apesar de ser um punk paulista dentro de um contexto baiano), mas certamente n\u00e3o ostenta matizes o suficiente para se justificar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das discuss\u00f5es mais interessantes \u00e9 aberta por um dos personagens que fala sobre uma press\u00e3o social que podia ser sentida \u00e0 \u00e9poca: o que significa(va) ser punk em Salvador (no Brasil)? Seria leg\u00edtimo se espelhar em garotos brancos ingleses de classe m\u00e9dia? O pr\u00f3prio personagem responde que n\u00e3o interessava se todos do Sex Pistols eram brancos rebeldes, mas sim que eles eram &#8220;punks&#8221; e, por serem seus \u00eddolos, era isso que importava. A fragmenta\u00e7\u00e3o narrativa de &#8220;Not Dead&#8221;, em geral, funciona bem, mas em situa\u00e7\u00f5es como essa percebemos que ela n\u00e3o \u00e9 suficiente. Seria importante para este tema, ao inv\u00e9s de passar para outro assunto ou mergulhar novamente em algum elemento narrativo, que o filme se detivesse um pouco mais aqui, ouvindo qui\u00e7\u00e1 de outros personagens sobre quest\u00e3o de tamanha import\u00e2ncia. Punks baianos, punks negros\u2026 muita coisa importante para se refletir acaba sendo deixada de lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tr\u00eas anos, Donato lan\u00e7ou &#8220;A\u00e7ucena&#8221; (2021) tamb\u00e9m na Mostra Aurora em Tiradentes, outro document\u00e1rio nada careta que narra a hist\u00f3ria de uma mulher de 67 anos de idade que, a cada ano, celebra o seu 7\u00ba anivers\u00e1rio. Na ocasi\u00e3o, \u201cA\u00e7ucena\u201d venceu a competi\u00e7\u00e3o e o pr\u00eamio foi concedido pelo j\u00fari (representado pela curadora e artista Graciela Guarani) por meio da seguinte justificativa: &#8220;[o filme] celebra e movimenta as imagens para dar a ver o que n\u00e3o \u00e9 da ordem do vis\u00edvel\u201d. \u00c9 curioso como a mesma justificativa poderia ter sido usada para premiar &#8220;Not Dead&#8221;. No entanto, o j\u00fari deste ano, presidido pelo cineasta Affonso Uch\u00f4a (&#8220;Ar\u00e1bia&#8221;), resolveu agraciar o paranaense \u201cLista de Desejos para Superag\u00fci\u201d, de Pedro Giongo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\"><em>Mais sobre a Mostre de Cinema de Tiradentes<\/em><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79273\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/notdead1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/notdead1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/notdead1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Donato n\u00e3o se interessa apenas em ouvir as hist\u00f3rias de seus personagens. Como bom diretor que \u00e9, ele sabe que precisa interferir na narrativa e criar um espa\u00e7o para a inven\u00e7\u00e3o&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/30\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-not-dead-e-o-movimento-punk-nos-arredores-do-centro-historico-de-salvador\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":79274,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[7019,6544],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79272"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79272"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79272\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79307,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79272\/revisions\/79307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}