{"id":79253,"date":"2024-01-29T01:18:47","date_gmt":"2024-01-29T04:18:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79253"},"modified":"2024-02-24T02:35:24","modified_gmt":"2024-02-24T05:35:24","slug":"27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-noir-futurista-fatalista-aquele-que-viu-o-abismo-ganha-o-trofeu-carlos-reichenbach","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-noir-futurista-fatalista-aquele-que-viu-o-abismo-ganha-o-trofeu-carlos-reichenbach\/","title":{"rendered":"27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes: Noir futurista-fatalista, &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221; ganha o Trof\u00e9u Carlos Reichenbach"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vejam e ou\u00e7am!&#8221;, aconselhou Negro Leo durante a apresenta\u00e7\u00e3o da equipe que antecedeu a estreia mundial de &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221; (2024), um dos seis longas-metragens integrantes da Mostra Olhos Livres em Tiradentes, agraciado pelo J\u00fari Jovem com o Trof\u00e9u Carlos Reichenbach. Em sua justificativa, o j\u00fari, formado por estudantes de diversas cidades do Brasil que passaram pelo acompanhamento dos curadores Juliano Gomes e Francis Vogner dos Reis, salientou a capacidade do filme de perturbar a continuidade dos espa\u00e7os e tempos lineares e exaltou como ele \u201cpropulsiona sons e imagens de um mundo ainda n\u00e3o codificado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, as palavras de Negro Leo antes da sess\u00e3o foram as melhores poss\u00edveis para que o p\u00fablico presente pudesse entrar por inteiro em um filme que proporciona tantas viagens (em tantos sentidos). &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221; pode ser encarado como um noir futurista-fatalista, um thriller pol\u00edtico com personagens misteriosos e caracteriza\u00e7\u00f5es marcadas pelo estado de performance constante. O protagonista \u00e9 interpretado pelo pr\u00f3prio Negro Leo e se chama &#8220;X&#8221;, que se voluntaria para um recrutamento-experimento da Prolife, esp\u00e9cie de mega empresa que realiza testes neuropsicol\u00f3gicos em seus pacientes. O personagem se perde em um emaranhado de tramas regado \u00e0 paran\u00f3ia pol\u00edtica e se expressa por meio de um alucinado fluxo de consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gregorio Gananian e Negro Leo encaram a dire\u00e7\u00e3o com uma verve n\u00e3o menos alucinada, remetendo aos tempos \u00e1ureos do cinema de inven\u00e7\u00e3o de Sganzerla (&#8220;O Bandido da Luz Vermelha&#8221;), Tonacci (&#8220;Bang Bang&#8221;), Rosemberg Filho (&#8220;O Jardim das Espumas&#8221;) e Rocha (&#8220;A Idade da Terra&#8221;). Tiradentes vibrou com o filme (ainda que vibre bem ou mal com qualquer coisa &#8211; a considerar alguns aplausos injustific\u00e1veis em outras sess\u00f5es). Apesar das refer\u00eancias cinematogr\u00e1ficas serem gritantes, a semelhan\u00e7a com essa vertente do nosso cinema, que teve seu auge entre o final dos anos 1960 e o in\u00edcio dos anos 1980, tem o seu limite, uma vez que Gananian e Leo adotam uma abordagem muito pr\u00f3pria, que tem a ver sobretudo com as suas pesquisas sonoras e a vontade de fazer o cinema fluir como m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu texto de apresenta\u00e7\u00e3o, os curadores da Mostra falam em &#8220;explos\u00e3o das formas&#8221; para se referirem \u00e0 obra de Gananian e Leo. Esta explos\u00e3o pode ser observada sob v\u00e1rios pontos de vista. J\u00e1 na primeira cena, somos logo desafiados pelo protagonista, que enfia um rev\u00f3lver dentro da boca para, logo em seguida, cair em um choro compulsivo. Aqui, somos apresentados a uma das duas loca\u00e7\u00f5es principais do filme: uma sala futurista de fundo infinito, \u00e0s vezes tomada pela escurid\u00e3o absoluta, \u00e0s vezes pela branquid\u00e3o, mas na maior parte das vezes habitada por luzes e proje\u00e7\u00f5es coloridas que s\u00e3o o palco para as elucubra\u00e7\u00f5es paran\u00f3icas de X (a anima\u00e7\u00e3o a laser \u00e9 assinada pelo artista Dyogo Terra Vargas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda loca\u00e7\u00e3o (na verdade, v\u00e1rias loca\u00e7\u00f5es em uma) que se faz mais presente \u00e9 a viagem empreendida pelos atores\/personagens por diversas cidades da China. Para al\u00e9m de Negro Leo, o elenco \u00e9 composto por Ava Rocha, Uma, Danielly O.M.M. Kaufmann, Al\u00ea Amaz\u00f4nia, Lena Kilina, Sun Yuchen, Sun Mingzhen e Clara Choveaux, esta \u00faltima em participa\u00e7\u00e3o vocal especial. Neste contexto, outro tipo de explos\u00e3o que podemos observar \u00e9 a peregrina\u00e7\u00e3o pelas ruas chinesas, que \u00e9 capturada pela c\u00e2mera incessante e indom\u00e1vel de Gananian. Ao contr\u00e1rio do estilo mais comedido e vagaroso que encontramos em seu longa-metragem anterior, &#8220;Inaudito&#8221; (o qual Gananian j\u00e1 havia recebido o pr\u00eamio de melhor filme na Mostra Olhos Livres em 2017), <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/06\/08\/entrevista-gregorio-gananian-fala-sobre-o-filme-inaudito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um document\u00e1rio sobre o processo de composi\u00e7\u00e3o de Lanny Gordin<\/a>, um dos maiores guitarristas da hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, em &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221; os seus diretores evitam a todo custo o trip\u00e9 e n\u00e3o mostram ter qualquer apre\u00e7o pela estabiliza\u00e7\u00e3o das imagens. Desestabilizar \u00e9 a ordem. Sentimos isso juntamente ao protagonista, que agoniza tocando piano em determinada cena, vocifera profecias quase inintelig\u00edveis em outra. Enquanto isso, o nosso c\u00e9rebro, acostumado \u00e0 linearidade e treinado para montar quebra-cabe\u00e7as, tenta a todo custo organizar as informa\u00e7\u00f5es que jorram feito cachoeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma viagem que remonta ao \u00c9pico de Gilgam\u00e9s (antigo poema \u00e9pico da Mesopot\u00e2mia, uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial), a hist\u00f3ria de Pantagruel (her\u00f3i do romance de Fran\u00e7ois Rabelais, publicado em 1532), \u00e0 Fita de M\u00f6bius (objeto estudado pelo matem\u00e1tico August Ferdinand M\u00f6bius em 1858 que desafia as leis da f\u00edsica &#8211; a sua representa\u00e7\u00e3o mais comum e conhecida \u00e9 como um s\u00edmbolo do infinito), entre outras mil refer\u00eancias que apenas deixam mais confusa e densa a tran\u00e7a de &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221;. Para dar alguma forma e garantir a (des)ordem do extenso material bruto que re\u00fane tantas ideias, o cineasta e montador Jo\u00e3o Dumans (&#8220;Ar\u00e1bia&#8221;, &#8220;As Linhas da Minha M\u00e3o&#8221;) foi escalado e conseguiu, em certa medida, realizar um trabalho dific\u00edlimo. O desafio era dar conta de expressar o caos exigido pela natureza da obra sem deixar de implicar o ritmo que o material necessita para funcionar. A maneira como os sons e as imagens se integram no filme \u00e9 fundamental e bem-sucedida, com destaque para o momento em que Ava canta uma m\u00fasica de Leo, performando com um colar de p\u00e9rolas pelas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos cr\u00e9ditos finais, as letrinhas mi\u00fadas indicam uma dedicat\u00f3ria a Paula Gait\u00e1n, Jos\u00e9 Roberto Aguilar e S\u00e9rgio Villafranca, tr\u00eas grandes artistas que, de uma maneira ou de outra, representam o que o pr\u00f3prio texto dos curadores diz a respeito da Mostra Olhos Livres, na qual o filme est\u00e1 inserido: &#8220;Quando escolhemos o nome do m\u00edtico blog do grande cineasta, cr\u00edtico e programador Carlos Reichenbach, optamos por uma forma \u00e9tica mais do que uma linhagem espec\u00edfica do cinema brasileiro? [&#8230;] A forma, seguindo a linha de Reichenbach, brota da frase de Oswald de Andrade [\u201cNenhuma f\u00f3rmula para a contempor\u00e2nea express\u00e3o do mundo. Ver com olhos livres&#8221;]&#8221;. Liberdade para olhar, no olhar, ao olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome do protagonista segue reverberando\u2026 &#8220;X&#8221;, tal qual o &#8220;Mr. X&#8221;, codinome assumido por Leos Carax (&#8220;Annette&#8221;, &#8220;Holy Motors&#8221;) no instigante document\u00e1rio de Tessa Louise-Salom\u00e9, lan\u00e7ado em 2014. Ou tal qual o &#8220;Corredor X&#8221; de Speed Racer, o mang\u00e1 e anime japon\u00eas. Jogar com tantas possibilidades, elaborando sobre a subjetividade e manipulando a mat\u00e9ria do tempo \u00e9 o que garante frescor a &#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221;. Importante chamar aten\u00e7\u00e3o para o nome do personagem porque boa parte da discuss\u00e3o gira em torno das no\u00e7\u00f5es de subjetividade e de alteridade. Reflete-se a respeito de uma fluidez e de uma liquidez que assola o mundo. Cabe ao filme, ent\u00e3o, refletir sobre a necessidade de restitui\u00e7\u00e3o de alguma materialidade ou continuidade, e os meios s\u00e3o os seus mist\u00e9rios que, como jamais s\u00e3o desvendados por completo, garantem a preserva\u00e7\u00e3o de um estado de cria\u00e7\u00e3o abertamente filos\u00f3fico e pol\u00edtico para com as suas imagens e os seus sons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sound and vision!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema-de-tiradentes\/\"><em>Mais sobre a Mostre de Cinema de Tiradentes<\/em><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79255\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/abismo2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/abismo2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/abismo2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Aquele Que Viu o Abismo&#8221; pode ser encarado como um thriller pol\u00edtico com personagens misteriosos e caracteriza\u00e7\u00f5es marcadas pelo estado de performance constante e um alucinado fluxo de consci\u00eancia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-noir-futurista-fatalista-aquele-que-viu-o-abismo-ganha-o-trofeu-carlos-reichenbach\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":79254,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7017,6544,1501],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79253"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79253"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79253\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79256,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79253\/revisions\/79256"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79254"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}