{"id":79245,"date":"2024-01-29T00:51:44","date_gmt":"2024-01-29T03:51:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79245"},"modified":"2024-04-09T00:45:07","modified_gmt":"2024-04-09T03:45:07","slug":"entrevista-marao-fala-sobre-o-processo-de-criacao-de-bizarros-peixes-das-fossas-abissais-seu-primeiro-longa-metragem-de-animacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/entrevista-marao-fala-sobre-o-processo-de-criacao-de-bizarros-peixes-das-fossas-abissais-seu-primeiro-longa-metragem-de-animacao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Mar\u00e3o fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cBizarros Peixes das Fossas Abissais\u201d, seu primeiro longa de anima\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma nuvem atrapalhada e com incontin\u00eancia pluviom\u00e9trica. Uma tartaruga mal humorada com transtorno obsessivo compulsivo por arruma\u00e7\u00e3o. Uma super-hero\u00edna mutante em busca das pe\u00e7as de um jarro que lhe dar\u00e1 o mapa para uma salva\u00e7\u00e3o. A inesperada e destemida equipe que se forma da jun\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas personagens \u00e9 a espinha dorsal de \u201cBizarros Peixes das Fossas Abissais\u201d (2024), primeiro longa metragem do veterano Marcelo Mar\u00e3o, um dos her\u00f3is da anima\u00e7\u00e3o brasileira com 14 curtas metragens no curr\u00edculo, mais de uma centena de pr\u00eamios, al\u00e9m de quase tr\u00eas d\u00e9cadas (seu primeiro filme data de 1996) de experi\u00eancia nesse mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mergulho nas tais &#8220;fossas abissais&#8221; do enigm\u00e1tico t\u00edtulo dessa sua estreia no formato de longas \u00e9 literal, mas, tamb\u00e9m, emocional e metaf\u00f3rica. Na trama, ap\u00f3s uma enchente no Rio de Janeiro, a intr\u00e9pida tartaruga v\u00ea o local onde &#8220;trabalha&#8221; arrumando itens \u00e0 venda ser inundado. Ao cair no mundo fazendo valer seu esfor\u00e7o por ordem (leia-se TOC), encontra com a nuvem mijona, que salva a hero\u00edna das garras de rinocerontes espaciais que buscam, tamb\u00e9m, as mesmas pe\u00e7as do jarro que formam o mapa salvador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecendo a filmografia de Mar\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@mmarao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dispon\u00edvel no YouTube gratuitamente<\/a> com destaque aos hil\u00e1rios \u201cO An\u00e3o que Virou Gigante\u201d, de 2008, e \u201cAt\u00e9 a China\u201d, de 2015), \u00e9 poss\u00edvel perceber em \u201cBizarros Peixes das Fossas Abissais\u201d a inten\u00e7\u00e3o de referenciar situa\u00e7\u00f5es autobiogr\u00e1ficas que se relacionam de forma c\u00f4mica \u00e0 pr\u00f3pria vida do artista. Aqui, no entanto, h\u00e1 um aspecto diferente que, uma vez percebido pelo espectador, vai toc\u00e1-lo de maneira mais emocional. Mas, para n\u00e3o estragar tal imers\u00e3o (trocadilho intencional), conv\u00e9m deixar que as fossas abissais e emocionais o alcancem dentro da pr\u00f3pria escurid\u00e3o da sala de cinema. E s\u00e3o as mesmas fossas repletas de trevas que, quando surgem, acompanhadas de um denso mon\u00f3logo da protagonista, levam a reflex\u00e3o trazida pelo filme a um n\u00edvel al\u00e9m do c\u00f4mico. Mas \u00e9 v\u00e1lido frisar que, antes disso, as gargalhadas diante das situa\u00e7\u00f5es que beiram o nonsense e abra\u00e7am o absurdo se fazem presentes, como j\u00e1 \u00e9 de h\u00e1bito nas produ\u00e7\u00f5es de Mar\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O filme inteiro \u00e9 autobiogr\u00e1fico&#8221;, pontua Mar\u00e3o em entrevista ao Scream &amp; Yell. &#8220;Mas \u00e9 um autobiogr\u00e1fico onde tem cenas que, enquanto estava fazendo, eu dizia para quem estava comigo, pintando, escaneando: &#8216;Ah, isso \u00e9 sobre essa minha ex-namorada&#8217;. A pessoa falava: &#8216;Mas \u00e9 uma lula lutando. Como assim?&#8217; &#8216;N\u00e3o, mas \u00e9 o meu jeito de falar sobre&#8217;. E outros momentos que s\u00e3o mais expl\u00edcitos. Os lugares onde a hist\u00f3ria acontece, por exemplo. O filme come\u00e7a no Rio de Janeiro, que \u00e9 onde eu moro, agora. Depois ele passa por Nil\u00f3polis, que foi onde eu nasci&#8221;, explica o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O simbolismo da busca dos tr\u00eas personagens e o encontro com as fossas abissais ganham os citados contornos biogr\u00e1ficos de um modo cuja rela\u00e7\u00e3o do cineasta com a trama espelha sua pr\u00f3pria vida, mas, tamb\u00e9m, a do espectador e suas pr\u00f3prias ra\u00edzes familiares. A citada cena do mon\u00f3logo revelador da protagonista \u00e9 um dos pontos de maior impacto emocional nesse sentido. &#8220;O mon\u00f3logo da mulher, que n\u00e3o vou falar para n\u00e3o ser spoiler, pois \u00e9 um momento importante do filme, \u00e9 um mon\u00f3logo dela. Mas ele \u00e9 todo literalmente meu. Tudo. Tudo o que ela fala ali aconteceu comigo e com o meu av\u00f4. Assim, n\u00e3o \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o&#8221;, salienta Mar\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79247\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros2-300x217.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seus aspectos t\u00e9cnicos, \u201cBizarros Peixes\u201d reflete muito da dificuldade em produzir um longa-metragem de anima\u00e7\u00e3o. Com oito anos de produ\u00e7\u00e3o, o filme, que conta com as vozes de Nat\u00e1lia Lage, Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs, chega aos cinemas ap\u00f3s longa labuta. Seu lan\u00e7amento acontece atrav\u00e9s da Sess\u00e3o Vitrine Petrobr\u00e1s, que leva ao p\u00fablico filmes com ingressos a pre\u00e7os populares. Mar\u00e3o relembra o processo inicial e como foi para encontrar o direcionamento e ver a produ\u00e7\u00e3o engrenar. &#8220;Tirando a parte financeira, uma das dificuldades foi a de construir uma narrativa que n\u00e3o fosse irregular. Na pr\u00e1tica, a gente improvisou na cria\u00e7\u00e3o das cenas. A primeira cena do filme foi a primeira a ser animada. A \u00faltima cena do filme \u00e9 a \u00faltima ser animada. Tudo foi evoluindo desse modo. Quando eu tinha 30 minutos prontos, eu tinha exatamente os primeiros 30 minutos do filme&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o aspecto financeiro, Mar\u00e3o relembra uma compara\u00e7\u00e3o que fez durante uma entrevista concedida a um jornalista que lhe perguntou qual era o or\u00e7amento do filme. &#8220;Ao inv\u00e9s de dizer o valor total, eu comparei com o longa da Pixar\/Disney que estava sendo lan\u00e7ado na \u00e9poca&#8221;, afirma Mar\u00e3o, entre sorrisos. &#8220;Quase todos os longas blockbusters de grandes est\u00fadios t\u00eam o or\u00e7amento que \u00e9 para fazer o filme e, em geral, eles t\u00eam outro or\u00e7amento, que \u00e9 para divulga\u00e7\u00e3o, para m\u00eddia. \u00c0s vezes \u00e9 o mesmo valor. \u00c0s vezes, \u00e9 maior do que o valor do que foi (gasto) para fazer o filme. Desconsiderando todo esse valor de divulga\u00e7\u00e3o de m\u00eddia no filme da Pixar, considerando s\u00f3 a produ\u00e7\u00e3o, somando todo o dinheiro que a gente teve para fazer o \u2018Bizarros Peixes\u2019, de desenvolvimento, de produ\u00e7\u00e3o e de finaliza\u00e7\u00e3o, daria para fazer nove segundos de um longa da Pixar. Eu fiz a conta&#8221;, revela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As presen\u00e7as de Nat\u00e1lia Lage, Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs despontaram para o filme a partir de convites especiais feito por Mar\u00e3o, que, ao conceder uma entrevista \u00e0 Nat\u00e1lia h\u00e1 alguns anos, percebeu sua for\u00e7a de entona\u00e7\u00e3o vocal quando ela proferiu uma das frases mote do longa. J\u00e1 Santoro, experiente dublador, j\u00e1 possui sua voz em filmes como \u201cUma Hist\u00f3ria de Amor e F\u00faria\u201d, filme de 2013, al\u00e9m de \u201cRio\u201d, filme lan\u00e7ado por Carlos Saldanha em 2011. Em sua vers\u00e3o brasileira, Santoro dublou seus di\u00e1logos em portugu\u00eas e contou com a dire\u00e7\u00e3o de Guilherme Briggs. Quando aceitou convite de Mar\u00e3o para \u201cBizarros Peixes\u201d, o ator sugeriu a presen\u00e7a do pr\u00f3prio Briggs, uma das principais e mais famosas vozes do cen\u00e1rio recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Desde o in\u00edcio do roteiro, quando o Guilherme, a Nat\u00e1lia e o Rodrigo estavam lendo, j\u00e1 havia caracter\u00edsticas mais expl\u00edcitas dos personagens. A timidez da nuvem, a sisudez da tartaruga, por exemplo&#8221;, diz o diretor. Tendo um processo natural de cria\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, com as cenas que iam sendo animadas seguindo a posi\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica dentro do filme, nada mais de acordo, ent\u00e3o, que o processo de dublagem seguisse a naturalidade de Mar\u00e3o e da dupla de animadores Ros\u00e1ria e Fernando Miller, com quem ele divide a atribui\u00e7\u00e3o. &#8220;Uma das coisas que lembro que eu mais pedia \u00e9 para (a dublagem) ser menos interpretada, para ser menos atuada, para ser mais monoc\u00f3rdios, mais monot\u00f4nico, mais espont\u00e2neo. E, \u00e0s vezes, quando algu\u00e9m gaguejava ou errava, se ele ou ela pedisse pra gravar de novo, a gente gravava para ter v\u00e1rias vers\u00f5es. Mas, em geral, eu optava pela vers\u00e3o que encavalou a letra, a palavra, gaguejou. Isso porque acaba sendo mais espont\u00e2neo e natural do que do que quando era atuado &#8220;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo abaixo, Mar\u00e3o aprofunda mais como foi esse mergulho nas Fossas Abissais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ovIvLbNid-M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma experi\u00eancia longeva na produ\u00e7\u00e3o de curtas metragens de anima\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m da quest\u00e3o de mercado, de apoio financeiro, como foi o processo de passagem para a cria\u00e7\u00e3o de um longa? Foi algo natural ou voc\u00ea passou por algum choque de adapta\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nO problema maior, como voc\u00ea falou, \u00e9 sempre pecuni\u00e1rio, conseguir o apoio, o dinheiro. Seja para curta, longa, para os projetos. Sempre considerei o curta metragem um formato nobre da anima\u00e7\u00e3o. Nos festivais, eu assistia aos longas, assistia aos epis\u00f3dios das s\u00e9ries, mas os curtas sempre foram para mim um momento de experimenta\u00e7\u00e3o, mais espont\u00e2neo, mais autoral, mais pessoal. Seja narrativamente, ou graficamente, ou tematicamente. E a diferen\u00e7a maior no momento de tentar fazer um projeto mais longo, inicialmente era conseguir manter o interesse do p\u00fablico. Era como manter o ritmo do filme, manter o interesse da pessoa para ela n\u00e3o se levantar no meio da sess\u00e3o e ir embora. Porque de todos os curtas, o mais longo que eu havia feito at\u00e9 ent\u00e3o tinha 15 minutos. E, ao mesmo tempo, quase todos os trabalhos, que eram o que pagavam as contas, que traziam o dinheiro para comprar comida e para pagar o aluguel, eram trabalhos encomendados. Pela minha gera\u00e7\u00e3o, na sua maioria, eram trabalhos de propaganda, publicidade e institucionais. E s\u00e3o trabalhos muito curtos. \u00c0s vezes, aparecia um trabalho que tinha que levar o final de semana fazendo para entregar na segunda. E \u00e0s vezes aparecia um segundo comercial para fazer no mesmo final de semana. Eu era obrigado a aceitar os dois. Tinha que dar um jeito de me ensaboar, de n\u00e3o dormir e fazer os dois, porque, talvez, no resto daquele m\u00eas, n\u00e3o houvesse mais trabalhos. E sempre era um per\u00edodo breve para lidar. Mesmo quando era um curta metragem, era no m\u00e1ximo um ano para voc\u00ea produzir, para voc\u00ea lidar com aquele personagem, com a personalidade dele, com a evolu\u00e7\u00e3o do design. Ent\u00e3o, uma gana que eu tinha era conseguir ter um trabalho maior para poder me dedicar, para poder me divertir durante mais tempo com um mesmo grupo de personagens, com um mesmo trabalho. Nunca tentei escrever uma hist\u00f3ria que funcionasse para um longa. Na verdade, esse projeto &#8220;Bizarros Peixes&#8221; era uma hist\u00f3ria que precisava de mais tempo. E ele tinha v\u00e1rios momentos em que, apesar de no roteiro que eu mandava para os editais, eu informar que a hist\u00f3ria j\u00e1 estava pronta, ele estava pr\u00e9 programado de uma maneira que eu sabia que eu ia ter que mudar depois. Na sequ\u00eancia do fundo do mar, por exemplo, que tem 16 minutos, se voc\u00ea olhar o roteiro, ela tem uma p\u00e1gina, que seria equivalente a um minuto. No roteiro, essa cena de imers\u00e3o no fundo do mar durava s\u00f3 um minuto, mas no filme tem 16. Eles descem, resolvem a situa\u00e7\u00e3o em uma p\u00e1gina, e voltam. Isso porque eu sabia que eu quereria me divertir improvisando as cenas. E isso era tamb\u00e9m uma coisa que acontecia em todos os (meus) 14 curtas metragens. Acho que em tr\u00eas ou quatro deles, n\u00f3s tivemos algum tipo de apoio, de fomento. O que quer dizer que t\u00ednhamos que mandar um projeto, um roteiro j\u00e1 com in\u00edcio, meio e fim. Nos outros curtas, mesmo sem nenhum apoio, eu passava um, dois, tr\u00eas anos fazendo em paralelo ao trabalho encomendado (que pagava as contas). Porque, para mim, era o momento mais importante em trabalhar com anima\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse momento que voc\u00ea est\u00e1 produzindo, que est\u00e1 fazendo algo que \u00e9 pessoal, que \u00e9 autoral, que \u00e9 seu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s 14 curtas metragens na sua carreira, quais as dificuldades que voc\u00ea teve na produ\u00e7\u00e3o de &#8220;Bizarros Peixes das Fossas Abissais&#8221;?<\/strong><br \/>\nCom o longa, tirando a parte financeira, na pr\u00e1tica, foram duas dificuldades. A primeira foi a de construir uma narrativa que n\u00e3o fosse irregular. Na pr\u00e1tica, a gente improvisou na cria\u00e7\u00e3o das cenas. A primeira cena do filme foi a primeira a ser animada e a \u00faltima cena do filme foi a \u00faltima a ser animada. Tudo foi evoluindo desse modo. Quando eu tinha 30 minutos prontos, eu tinha exatamente os primeiros 30 minutos do filme. Fizemos sem model sheet, sem storyboard, sem animatic. Foi de uma maneira mais teatral. J\u00e1 que eu ia passar quatro, cinco, seis, oito anos fazendo o mesmo trabalho&#8230; \u00c9 quase n\u00e3o profissional se voc\u00ea passa oito anos fazendo exatamente o mesmo roteiro que voc\u00ea escreveu l\u00e1 atr\u00e1s. De tudo que voc\u00ea assiste, de tudo que voc\u00ea l\u00ea, as pessoas que voc\u00ea conhece, de tudo que acontece na sua vida nesse tempo, \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o mudar a sua abordagem, a sua opini\u00e3o. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o queria que isso tamb\u00e9m fosse um trabalho engessado, como eram os trabalhos encomendados durante a vida inteira. E, ao mesmo tempo, a outra dificuldade nova era a log\u00edstica de equipe, mesmo sendo uma equipe muito pequena. No Brasil, s\u00e3o 106, quase 107 anos de anima\u00e7\u00e3o brasileira at\u00e9 hoje. Nos primeiros 90 anos, foram menos de duas d\u00fazias de longas de anima\u00e7\u00e3o. Foram 23 ou 24 longas de anima\u00e7\u00e3o. Algo que \u00e9 muito pouco para quase 90 anos. Isso quer dizer que temos muito pouca experi\u00eancia pr\u00e1tica com isso. J\u00e1 neste ano de 2024, j\u00e1 existem 40 longas em produ\u00e7\u00e3o nas cinco regi\u00f5es do Brasil. No Sudeste e Sul, que era onde eventualmente mais se produzia, al\u00e9m do Centro-Oeste, do Nordeste, e, tamb\u00e9m, no Norte. \u00c9 um n\u00famero de filmes sendo produzidos em 2D e 3D, em stop motion, em cut out, em vetorial tradicional. E na hora de come\u00e7ar o &#8220;Bizarros Peixes&#8221;, eu sabia que n\u00e3o ia adiantar para a estrutura de est\u00fadio, de equipe, emular, repetir ou copiar a estrutura de uma produ\u00e7\u00e3o americana ou europeia ou japonesa, e nem as outras brasileiras que estavam come\u00e7ando a ser feitas. A maioria das produ\u00e7\u00f5es que estavam acontecendo no ano em que come\u00e7amos a fazer o &#8220;Bizarros Peixes&#8221;, tinham equipes grandes. Eram produ\u00e7\u00f5es em 2D, vetorial. Tinham outra l\u00f3gica muito diferente. N\u00f3s t\u00ednhamos, ent\u00e3o, que inventar uma log\u00edstica para poder trabalhar. E nos quase dez anos de produ\u00e7\u00e3o do longa, o primeiro ano de trabalho, n\u00e3o de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, mas de produ\u00e7\u00e3o de fato, com todo mundo animando, escaneando, pintando e montando o filme, foi o ano que, na pr\u00e1tica, rendeu menos. Isso porque demorou para encontrarmos uma l\u00f3gica de trabalho no dia a dia. Eu n\u00e3o abri vagas para equipe nesse filme. Eu optei por chamar pessoas que eu j\u00e1 conhecia, pessoas que eu j\u00e1 amava. Isso porque eu j\u00e1 imaginava que eu ia passar cinco, seis, sete anos na produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eu ia querer trabalhar com pessoas com quem eu gosto de conviver. Mais importante do que gostar do filme, s\u00e3o as pessoas de quem eu vou me lembrar durante esse per\u00edodo enquanto n\u00f3s est\u00e1vamos trabalhando nele. Foram pessoa como a Ros\u00e1ria, que \u00e9 uma das minha melhores amigas e ex-namorada, o (Fernando) Miller, que \u00e9 um dos melhores amigos, a Silvana (Andrade) tamb\u00e9m. Mas, mesmo assim, cada detalhe pequeno da produ\u00e7\u00e3o, detalhes que n\u00e3o eram um problema quando a gente fazia os curtas ou os comerciais, em uma produ\u00e7\u00e3o desse tamanho acabou virando uma encrenca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se recorda de algum exemplo dessas &#8220;encrencas&#8221; que a produ\u00e7\u00e3o de um longa trouxe?<\/strong><br \/>\nSim. Por exemplo, vou falar uma coisa que eu achava que era uma bobagem: fazer o backup. Tradicionalmente, voc\u00ea faz backup de tudo o que voc\u00ea produz nos est\u00fadios da sua produtora todo m\u00eas, a cada dois meses. Mas quando o trabalho leva oito anos at\u00e9 ser conclu\u00eddo, voc\u00ea, de repente, descobre que h\u00e1 uma cena de quatro anos atr\u00e1s, sumiu da nuvem. Sumiu do Dropbox. N\u00e3o est\u00e1 mais no backup. Quando voc\u00ea vai procurar e descobre que o fato da nomenclatura dos arquivos ter o nome em mai\u00fascula ou min\u00fascula. Ter o underline ou n\u00e3o, isso que parece uma bobagem, vira um problema gigantesco. Ent\u00e3o, muitas coisas que pareciam pequenas da log\u00edstica, n\u00f3s fomos descobrindo e inventando \u00e0 medida em que a gente ia fazendo o filme. O ideal seria, quando voc\u00ea termina um longa, um trabalho maior, come\u00e7ar o outro seguinte. Porque uma lacuna, uma coisa que me deixa triste, \u00e9 perder essa log\u00edstica de estrutura de trabalho com as pessoas em um eventual lapso de tempo entre um trabalho e o pr\u00f3ximo trabalho maior. Eu tinha muito medo, tamb\u00e9m, de, graficamente, ficar enfadonho pra quem assiste e pra n\u00f3s mesmos enquanto est\u00e1vamos fazendo, a mesma cara do filme. Durante a maior parte da minha vida, eu ia aos festivais de anima\u00e7\u00e3o assistir \u00e0s sess\u00f5es com muitos curtas. Ent\u00e3o, munido dessa uma hist\u00f3ria pregressa, o que fizemos no longa metragem foi perceber a narrativa dele. Existe uma hist\u00f3ria muito simples, uma linha muito simples de narrativa. Ela \u00e9 a de uma mulher, uma tartaruga, uma nuvem que tentam encontrar os cacos de um vaso para formar um mapa. Ent\u00e3o, baseado nessa linha muito simples, eu podia me divertir inventando e improvisando bizarrices e maluquices, mas sem interferir na hist\u00f3ria. E eu tamb\u00e9m n\u00e3o queria finalizar tudo da mesma forma. Isso, porque, tamb\u00e9m, tinha esse receio de mudar a equipe ou da qualidade de finaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79248\" aria-describedby=\"caption-attachment-79248\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-79248\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros4-300x158.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79248\" class=\"wp-caption-text\"><em>A tartaruga com TOC, a super-hero\u00edna e a nuvem com incontin\u00eancia na pausa antes da guerra<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais foram as escolhas na parte t\u00e9cnica que voc\u00ea teve que fazer em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de anima\u00e7\u00e3o, ao tipo de renderiza\u00e7\u00e3o, por exemplo?<\/strong><br \/>\nNa \u00e9poca, a gente podia pagar o equipamento que renderizava o que estava sendo escaneado em 2K. E a\u00ed eu pensei: &#8220;se voc\u00ea vai levar seis anos para fazer um filme, ser\u00e1 que daqui a seis anos todos os filmes ser\u00e3o em 4K ou em 8k? E a\u00ed? Eu n\u00e3o vou conseguir exibir isso em lugar nenhum?&#8221; Porque para poder escanear mais do que 2K, o scanner que temos tinha que escanear em 600 dpi. Isso levava muito tempo para fazer uma fun\u00e7\u00e3o simples. Se voc\u00ea pinta no computador, o computador tem que ser poderoso. Porque o pincel, quando voc\u00ea pinta digitalmente no computador, demora um tempinho para reconhecer. Ent\u00e3o, a sua tablet j\u00e1 est\u00e1 aqui (indicando o ponto na tela), mas a imagem, a pintura, ainda est\u00e1 atrasada. Ent\u00e3o, fizemos tudo em 2K. Mas t\u00ednhamos um receio do resultado final porque ele tinha qualidades e estilos diferentes nessa finaliza\u00e7\u00e3o. O filme come\u00e7a em preto e branco. Tem uma sequ\u00eancia que \u00e9 toda monocrom\u00e1tica. Depois tem outra sequ\u00eancia que tamb\u00e9m \u00e9 monocrom\u00e1tica, mas em outra cor, em outro tom. Depois vem uma sequ\u00eancia colorida, chapada. Ap\u00f3s isso, outra sequ\u00eancia colorida, mas onde cen\u00e1rios s\u00e3o pintados. Inclusive, quase todas as cenas do filme t\u00eam alguma refer\u00eancia l\u00f3gica pessoal para mim, mas que n\u00e3o tem l\u00f3gica nenhuma para voc\u00ea, Jo\u00e3o, ou para quem estiver assistindo, eventualmente. S\u00e3o refer\u00eancias obscuras. Mas \u00e9 como se fosse uma sess\u00e3o de curtas metragens. Se eu n\u00e3o conseguisse resolver esse ritmo para manter o interesse do p\u00fablico, seria uma inten\u00e7\u00e3o escondida de tentar enganar, fazendo o c\u00e9rebro da pessoa achar que est\u00e1 vendo v\u00e1rios curtas diferentes. E a\u00ed muda para o fundo do mar, e no fundo do mar \u00e9 tudo preto. Ent\u00e3o vira outra cara, outro designer tamb\u00e9m do filme. A inten\u00e7\u00e3o era tentar experimentar da mesma forma que acontecia nos curtas. No cinema, a gente tem uma janela. 16X9, uma janela parecida com essa que a gente est\u00e1 aqui (entrevista via Zoom), do formato da televis\u00e3o, do computador. Quando voc\u00ea desenha quadrinhos, voc\u00ea pode fazer um quadrinho quadrado, outro comprido vertical, outro comprido horizontal, outra p\u00e1gina inteira. No cinema, a gente sempre \u00e9 muito limitado a essa \u00e1rea, a essa composi\u00e7\u00e3o. Toda composi\u00e7\u00e3o tem que ser nessa \u00e1rea. Ent\u00e3o, tem um, tem um trecho do longa onde eu mudei a janela. Gradualmente, eu ia mudando a janela para poder me divertir com a composi\u00e7\u00e3o dos elementos no layout daquelas cenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Come\u00e7amos o papo falando sobre as dificuldades em rela\u00e7\u00e3o a grana, em rela\u00e7\u00e3o ao aspecto pecuni\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nO \u00faltimo edital do BNDES foi o apoio de produ\u00e7\u00e3o para o filme. N\u00f3s recebemos apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro para desenvolvimento, que \u00e9 para escrever a hist\u00f3ria, preparar o or\u00e7amento, cronograma. E o BNDES deu aquilo que a gente chama de seed money, que o dinheiro inicial, o &#8220;dinheiro semente&#8221;, o primeiro dinheiro. Sabendo que o nosso filme seria esquisito e potencialmente n\u00e3o comercial, e para a gente poder experimentar dessa forma, ent\u00e3o a proposta foi fazer um filme inteiro s\u00f3 com esse seed money. Um jornal na \u00e9poca me perguntou qual era o or\u00e7amento do filme. Ao inv\u00e9s de dizer o valor total, eu comparei com o longa da Pixar\/Disney que estava sendo lan\u00e7ado na \u00e9poca. Quase todos os longas blockbusters de grandes est\u00fadios t\u00eam o or\u00e7amento que \u00e9 para fazer o filme e, em geral, outro or\u00e7amento para divulga\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes \u00e9 o mesmo valor e \u00e0s vezes \u00e9 maior do que o valor do que foi (gasto) para fazer o filme. No nosso caso, a gente ainda recebeu o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) para a finaliza\u00e7\u00e3o do filme. Desconsiderando todo esse valor de divulga\u00e7\u00e3o de m\u00eddia no filme da Pixar, considerando s\u00f3 a produ\u00e7\u00e3o, eu fiz a conta no papel e somando todo o dinheiro que a gente teve para fazer o \u201cBizarros Peixes\u201d, de desenvolvimento, de produ\u00e7\u00e3o e de finaliza\u00e7\u00e3o, daria para fazer nove segundos de um longa da Pixar. Na \u00e9poca, saiu no jornal: &#8220;Seria poss\u00edvel fazer mais ou menos dez segundos&#8221;. A\u00ed eu liguei para ele depois, nem para reclamar, mas s\u00f3 para explicitar: \u201cN\u00e3o, cara! N\u00e3o d\u00e1 para fazer dez segundos. Preciso de mais R$150 mil pra fazer dez segundos. D\u00e1 fazer nove. N\u00e3o \u00e9 mais ou menos. S\u00e3o nove, mesmo&#8221;. Ent\u00e3o, quanto mais oneroso, quanto mais caro o projeto, maior \u00e9 o medo de quem coloca o dinheiro. Mais medo essas pessoas t\u00eam em fazer uma coisa que n\u00e3o seja igual a outra, que j\u00e1 \u00e9 um \u00eaxito de bilheteria ou de p\u00fablico. E a proposta da gente era fazer com esse baix\u00edssimo or\u00e7amento para poder justamente ter essa liberdade. Estou com 52 anos e fiquei surpreso de ter conseguido terminar um filme, um longa-metragem, em vida. Na minha refer\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es anteriores, raramente algu\u00e9m conseguia fazer um longa. E quando conseguia, fazia e morria. N\u00e3o dava tempo de fazer outro longa na mesma vida. Ent\u00e3o, eu queria tentar aproveitar essa talvez \u00fanica oportunidade de fazer um longa. Faz quase um ano que o \u201cBizarros Peixes\u201d est\u00e1 nessa carreira de festivais. Ele estreou dia 25 (janeiro de 2024) comercialmente nas salas de cinema, mas j\u00e1 estava circulando nos festivais. E eu estava bem apreensivo com isso. Mas fiquei bem surpreso em como muitas pessoas de estados e pa\u00edses diferentes aceitaram esse filme. Um filme que \u00e9 simples, esdr\u00faxulo, esquisito. Fiquei bem feliz como algumas pessoas que vieram conversar depois dizendo que estavam incentivadas a fazer uma coisa delas, do jeito delas. \u00c9 algo que n\u00e3o tem nada a ver com o nosso filme, mas eu fiquei bem feliz em ouvir isso. Que elas se sentiam mais \u00e0 vontade para tentar fazer uma coisa que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 comercial, mas da maneira que elas quereriam fazer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O An\u00e3o Que Virou Gigante\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BAXHzuKs-L0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Assistindo aos teasers promocionais de \u201cBizarros Peixes das Fossas Abissais\u201d, voc\u00ea fala sobre alguns dos seus curtas terem refer\u00eancias biogr\u00e1ficas pessoais, como \u00e9 o caso de \u201cO An\u00e3o que virou Gigante\u201d, no qual voc\u00ea aborda uma refer\u00eancia a sua estatura, e, tamb\u00e9m, com \u201cAt\u00e9 a China\u201d, que traz um di\u00e1rio de viagem seu. Neste longa, me perguntei sobre essas refer\u00eancias suas estarem representadas em diversos aspectos. Sem spoilers da trama, queria lhe perguntar sobre essas inser\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\nAdorei voc\u00ea deve ter percebido e assimilado isso. Porque o filme inteiro \u00e9 autobiogr\u00e1fico. Mas \u00e9 um autobiogr\u00e1fico onde tem cenas que, enquanto estava fazendo, eu dizia para quem estava aqui, pintando, escaneando: &#8220;Ah, isso \u00e9 sobre essa minha ex-namorada&#8221;. A pessoa falava: \u201cMas \u00e9 uma lula lutando. Como assim?&#8221;. E eu: &#8220;\u00c9 o meu jeito de falar sobre&#8221;. Outros momentos s\u00e3o mais expl\u00edcitos. Os lugares onde a hist\u00f3ria acontece, por exemplo. O filme come\u00e7a no Rio de Janeiro, que \u00e9 onde eu moro, agora. Depois ele passa por Nil\u00f3polis, que foi onde nasci. Os meus pais s\u00e3o do interior de S\u00e3o Paulo. De Tanabi, que \u00e9 a cidade que aparece no final do filme. Eles se casaram e vieram para a Baixada Fluminense. Nil\u00f3polis \u00e9 a cidade da escola de samba Beija-Flor. Eles foram para l\u00e1 e come\u00e7aram a trabalhar com um armarinho para tentar fazer um p\u00e9 de meia. Acabaram que est\u00e3o l\u00e1 at\u00e9 hoje, n\u00e9? Continuaram l\u00e1 nos \u00faltimos 60 anos. Quando eu era crian\u00e7a, os meus pais tinham muito medo, pois a Baixada Fluminense \u00e9 perigosa hoje, mas j\u00e1 era naquela \u00e9poca. Ainda mais para quem vem do interior, da ro\u00e7a. Ent\u00e3o, quando eu era crian\u00e7a, eu n\u00e3o sa\u00eda para brincar. N\u00e3o jogava bola. N\u00e3o ia para a rua soltar pipa. Eu ficava em casa, brincava de Playmobil e lia gibi. No armarinho do meu pai, os funcion\u00e1rios, as funcion\u00e1rias, quando estavam vendendo l\u00e3, tecido, tinha uns bloquinhos onde faziam contas, anotavam as contas em rela\u00e7\u00e3o aos tecidos, \u00e0s metragens. E a\u00ed, quando eu era crian\u00e7a, eu pegava esses bloquinhos e desenhava tipo uma bola na \u00faltima folha, depois desenhava outra bola na folha de cima. A\u00ed quando eu fripava, essa bola ia quicando. Eu n\u00e3o sabia ainda, mas isso era o princ\u00edpio flipbook. \u00c9 o princ\u00edpio da anima\u00e7\u00e3o 2D tradicional. E apesar da minha fam\u00edlia ser formada por professores, comerciantes e m\u00e9dicos, os meus pais sempre me apoiaram muito quando eu evidenciei que tinha o intuito de fazer uma coisa que n\u00e3o era uma profiss\u00e3o no Brasil. Na \u00e9poca do vestibular, nos anos 1980, era t\u00e3o dif\u00edcil anima\u00e7\u00e3o no Brasil que era mais vi\u00e1vel voc\u00ea sobreviver fazendo quadrinhos naquela \u00e9poca do que fazendo anima\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, no filme, eu quis fazer essa homenagem. O armarinho ainda existe at\u00e9 hoje. Meu pai est\u00e1 l\u00e1, hoje, aos 80 anos, trabalhando no armarinho. Eu quis homenagear e agradecer. Ent\u00e3o, aparece exatamente o armarinho como era na \u00e9poca que eu era jovem. Aparece meu pai ainda jovem, de bigode preto. Aparece minha m\u00e3e trabalhando no caixa. Apare\u00e7o eu no pacote, n\u00e9? Cabeludo, magro e jovem ainda. E cada sequ\u00eancia do filme tem alguma outra refer\u00eancia que, pra mim, \u00e9 muito expl\u00edcita e que eu achei que estava escondida, mas eu espero que n\u00e3o atrapalhe a pessoa em assistir ao filme. Mas fiquei bem feliz que voc\u00ea assimilou assim. Quando vai para Araraquara, que \u00e9 perto de Tanabi, perto de onde a minha fam\u00edlia est\u00e1 e para onde minha irm\u00e3 foi estudar, aquilo, para mim, \u00e9 a refer\u00eancia do que aconteceu na faculdade. Tem v\u00e1rios simbolismos bizarros dentro da minha cabe\u00e7a que para mim \u00e9 o trecho de Araraquara. \u00c9 o trecho sobre a \u00e9poca em que eu estava da adolesc\u00eancia para a vida adulta na faculdade. Depois de me formar, come\u00e7ando a ir para os festivais, a cada ano, eu descobria um pa\u00eds e uma outra cultura diferente. E no ano em que eu estava fazendo o filme, eu tinha acabado de ir para um festival de anima\u00e7\u00e3o na S\u00e9rvia. Ent\u00e3o, esse trecho da S\u00e9rvia, que poderia ter sido Arm\u00eania, que poderia ter sido algum outro pa\u00eds, ele simboliza o per\u00edodo em que eu viajava com os curtas para os festivais. N\u00e3o faz nenhum sentido o que eu estou dizendo, n\u00e9?! (risos) Mas \u00e9 a raz\u00e3o era essa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chifre de Camale\u00e3o\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F4cg8w2_8o8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao assistir ao longa, fiquei imaginando, inclusive, diversos significados para as tais &#8220;fossas abissais&#8221; e como elas representam estados de esp\u00edrito dos personagens.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea lembra da Superinteressante? Desde que sou adolescente, lembro que tinha umas hist\u00f3rias prontas l\u00e1. Mat\u00e9rias sobre os supercondutores. Teve uma capa sobre os Bizarros Peixes das Fossas Abissais. O t\u00edtulo era quase igual ao t\u00edtulo do filme. E aquilo me fascinava. Sempre me fascinou. O Discovery Channel \u00e9 outro exemplo. Eu inclu\u00eda coisas como a vida dos camale\u00f5es, ou como funciona a c\u00f3pula das girafas, nos curtas de anima\u00e7\u00e3o sem inventar nada. Para mim, j\u00e1 era uma hist\u00f3ria pronta saber que os camale\u00f5es lutam cromaticamente. Que o camale\u00e3o n\u00e3o tem agress\u00e3o f\u00edsica. Que eles mudam compulsivamente de cor at\u00e9 obter a vit\u00f3ria moral sobre o outro. E no caso dos peixes das fossas abissais, cada document\u00e1rio que eu eventualmente conseguia assistir, eu via uma esp\u00e9cie nova. \u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil algu\u00e9m chegar l\u00e1, a seis mil metros abaixo da superf\u00edcie do mar, que cada vez que algu\u00e9m desce l\u00e1, descobre uma esp\u00e9cie nova. Ent\u00e3o, cada document\u00e1rio que eu via, tinha alguma outra esp\u00e9cie. E a\u00ed tem esse trecho no qual eu tenho 16 minutos do filme em que n\u00e3o acontece nada. Que s\u00e3o s\u00f3 os peixes no fundo do mar. Esse \u00e9 um momento que eu tenho medo de as pessoas irem embora da sala de cinema. E s\u00f3 parei porque as pessoas que trabalham comigo me mandaram parar. Porque eu queria desenhar mais peixes. E o mon\u00f3logo da mulher, que eu n\u00e3o vou falar mais para n\u00e3o ser spoiler, pois \u00e9 um momento importante do filme. \u00c9 um mon\u00f3logo da mulher, mas ele \u00e9 todo literalmente meu. Tudo. Tudo o que ela fala ali aconteceu comigo e com o meu av\u00f4, com o nosso av\u00f4. Assim, n\u00e3o \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o. Vou te contar um segredo. Quando o filme ficou pronto, o primeiro lugar onde eu exibi ainda o arquivo antes de ter o DCP, antes de a c\u00f3pia de proje\u00e7\u00e3o, foi para a fam\u00edlia l\u00e1 em Tanabi, que \u00e9 a cidade que aparece no final do filme. E a\u00ed aconteceu uma situa\u00e7\u00e3o que nunca mais vai se repetir, que \u00e9 a fam\u00edlia inteira assistindo e chorando, porque todo mundo identificava, inclusive aquela sala, aquele quarto, aquela casa que n\u00e3o existia mais, mas que era do nosso av\u00f4. Ent\u00e3o \u00e9 tudo muito literal. Exatamente o que tinha acontecido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Voz da nuvem\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ubF74J_jMhE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o trabalho de dublagem? Como foi o processo de encontrar os tons de cada um dos dubladores, no caso o Rodrigo Santoro, o Guilherme Briggs e a Nat\u00e1lia Lage?<\/strong><br \/>\nDesde o in\u00edcio do roteiro, quando o Guilherme, a Nat\u00e1lia e o Rodrigo estivessem lendo, j\u00e1 havia caracter\u00edsticas mais expl\u00edcitas dos personagens. A timidez da nuvem, a sisudez da tartaruga, por exemplo. Mas a mulher, a gente n\u00e3o sabe muito bem sobre ela, sobre a personalidade dela at\u00e9 o meio do filme. Eu falei no come\u00e7o que tinha chamado s\u00f3 pessoas que eu conhecia, que eram pr\u00f3ximas, \u00edntimas para toda a equipe. Mas nesses tr\u00eas casos, n\u00e3o s\u00e3o pessoas t\u00e3o pr\u00f3ximas quanto a equipe que desenhou junto comigo, que pintou, que escaneou, mas tamb\u00e9m tem outras refer\u00eancias. A Nat\u00e1lia Lage tinha um programa de entrevistas sobre cinema brasileiro. Durou v\u00e1rios anos. E teve um ano em que me chamaram para participar. O programa era sobre os meus curtas e eu j\u00e1 tinha vontade de fazer esse longa. Mas na \u00e9poca eu ainda n\u00e3o tinha nem o desenvolvimento ou o apoio para a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o t\u00edtulo do filme era &#8220;Minha Bunda \u00e9 um Gorila&#8221;, que \u00e9 a frase do come\u00e7o do filme. E quando a Nat\u00e1lia leu, ela leu com v\u00e1rias inflex\u00f5es na voz. Era a primeira vez que eu via uma atriz de verdade lendo. E quando terminou a grava\u00e7\u00e3o do programa, eu perguntei pra ela: &#8220;Ser\u00e1 que voc\u00ea tem algum interesse, algum dia, em fazer voz original para anima\u00e7\u00e3o?&#8221; Guilherme Briggs estudou com a gente na Escola de Belas Artes da UFRJ. Ele come\u00e7ou a carreira como desenhista e \u00e9 desenhista at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o, o Briggs sempre participou desde o meu primeiro curta. Ele fazia as vozes tendo dinheiro ou n\u00e3o. Ele \u00e9 a pessoa que a gente conhece desde bem jovem e que virou uma celebridade respeitad\u00edssima hoje. Mas continua t\u00e3o af\u00e1vel, t\u00e3o humilde e f\u00e1cil de lidar quanto era na \u00e9poca. E o Rodrigo Santoro eu n\u00e3o conhecia pessoalmente, mas ele tinha feito uma anima\u00e7\u00e3o do Luiz Bolognesi, o \u201cUma Hist\u00f3ria de Amor e F\u00faria\u201d, que tinha as vozes do Selton Mello, da Camila Pitanga e do Rodrigo Santoro. Todo os tr\u00eas formid\u00e1veis, mas quando o Selton Mello e Camila Pitanga falam, voc\u00ea identifica imediatamente que s\u00e3o essas pessoas pela voz. O filme tem quatro momentos da hist\u00f3ria do Brasil, incluindo at\u00e9 o futuro, e eles s\u00e3o personagens que variam nesses quatro momentos. E o Rodrigo Santoro est\u00e1 formid\u00e1vel no filme. Mas voc\u00ea n\u00e3o quebra o personagem. Voc\u00ea n\u00e3o percebe que \u00e9 ele. E no filme \u201cRio\u201d, do Carlos Saldanha, que foi feito nos Estados Unidos, o Rodrigo Santoro fez a voz de um dos personagens. J\u00e1 na vers\u00e3o brasileira, ele se dublou. O diretor da vers\u00e3o dublada \u00e9 o Briggs. Na \u00e9poca, contei com a ajuda muito gentil do Bolognesi, contatei o Santoro. Ele topou, mas pediu para o Briggs participar, tamb\u00e9m. S\u00f3 que fora esse momento, as vozes foram gravadas em dias diferentes. A Nat\u00e1lia gravou em S\u00e3o Paulo todas as falas dela sem refer\u00eancia. O Briggs gravou as falas dele aqui no Rio, tamb\u00e9m, sem ter a outra pessoa para trocar. E por \u00faltimo, o Santoro gravou. O momento das vozes \u00e9 o momento em que eu me divirto bastante, porque eu n\u00e3o tenho que desenhar. Mas a gente tem muitas op\u00e7\u00f5es, muitas vers\u00f5es de cada fala. Muitas vers\u00f5es variadas onde, apesar de eventualmente n\u00e3o ser a inten\u00e7\u00e3o, como a gente grava muitas vers\u00f5es e te d\u00e1 uma gama ampla para voc\u00ea conseguir construir uma resposta emocional do que um falou em S\u00e3o Paulo e outro gravou tr\u00eas meses depois no Rio, que funciona entre os dois e que funciona de acordo com o que te interessa pra anima\u00e7\u00e3o, pro desenho. Porque uma das coisas que lembro que eu mais pedia \u00e9 para ser menos interpretado, para ser menos atuado, para ser mais monoc\u00f3rdico, mais monot\u00f4nico, mais espont\u00e2neo. E, \u00e0s vezes, quando algu\u00e9m gaguejava ou errava, se ele ou ela pedisse pra gravar de novo, a gente gravava para ter v\u00e1rias vers\u00f5es. Mas, em geral, eu optava pela vers\u00e3o que encavalou a letra, a palavra, gaguejou. Isso porque acaba sendo mais espont\u00e2neo e natural do que do que quando era atuado. Agrade\u00e7o muito, pois nos tr\u00eas casos, eles gravaram in\u00fameras vers\u00f5es de cada fala. \u00c0s vezes, eu nem sabia. Pedia para parar de dar op\u00e7\u00f5es, porque eu n\u00e3o sei o que eu vou escolher depois. E era sempre muito mais dram\u00e1tico. Dram\u00e1tico no sentido de ser uma inflex\u00e3o naturalista do que uma voz que, teoricamente, convencionalmente, seria para uma anima\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito bom para a gente na hora que a gente vai animar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79249\" aria-describedby=\"caption-attachment-79249\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-79249\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/bizarros5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79249\" class=\"wp-caption-text\"><em>Mar\u00e3o com Rodrigo Santoro (esquerda) e Guilherme Briggs (direita) \/ Foto de Silvana Andrade<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem dar spoiler do seu conte\u00fado, lembrei agora do tom dram\u00e1tico do mon\u00f3logo.<\/strong><br \/>\nSim. O mon\u00f3logo da Nat\u00e1lia, enquanto a gente estava montando, algu\u00e9m me perguntou: &#8220;Voc\u00ea vai colocar imagens, fotografias do passado para o mon\u00f3logo?&#8221; E a inten\u00e7\u00e3o era n\u00e3o. Eu queria que a imagem fosse toda preta. A inten\u00e7\u00e3o era que voc\u00ea, espectador, quando estivesse assistindo, lembrasse de quaisquer refer\u00eancias do passado em sua vida. Apesar de ser um filme de anima\u00e7\u00e3o, o momento importante do filme n\u00e3o tem anima\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem desenho, n\u00e3o tem imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Preciso lhe perguntar, tamb\u00e9m, sobre como foi o desenvolvimento do trabalho musical feito por Duda Lasso para a trilha do filme. Ele consegue captar a alegria de certos momentos, a introspec\u00e7\u00e3o de outros, a tens\u00e3o em v\u00e1rias cenas. E isso sem perder aquele tom c\u00f4mico.<\/strong><br \/>\nUma lacuna na minha vida e que eu nunca soube tocar nenhum instrumento. Jo\u00e3o, voc\u00ea toca piano? Toca viol\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o. Tenho essa lacuna id\u00eantica em minha vida. Tentei aprender at\u00e9 com partituras, mas desisti homericamente falando .<\/strong><br \/>\n(risos) Porque eu, mesmo sendo um potencial m\u00fasico med\u00edocre, acho que seria importante para eu saber conversar com o m\u00fasico, com a pessoa que vai compor, que vai executar. E eu tinha muito receio de ofender, de magoar, na hora de pedir o que eu queria. Porque eu n\u00e3o queria dar refer\u00eancias de outras coisas. Na anima\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria, a vida inteira a gente trabalha recebendo tipo um desenho do Frajola e a\u00ed a pessoa chega e pede: &#8220;Eu quero que seja assim&#8221;. Mas eu tinha que mudar, sei l\u00e1, o nariz dele, que \u00e9 redondo, vermelho, tinha que virar um tri\u00e2ngulo, mudar s\u00f3 o suficiente para n\u00e3o ser processado, para a ag\u00eancia n\u00e3o ser processada. Mas sempre era um design pronto. E eu n\u00e3o queria fazer isso com a m\u00fasica. O Duda \u00e9 de Ribeir\u00e3o Preto. Ele trabalha fazendo m\u00fasica infantil, fez a trilha de alguns curtas do Thomas Larson, que \u00e9 o irm\u00e3o dele, e ele fez a trilha do &#8220;At\u00e9 a China&#8221;, que \u00e9 o \u00faltimo curta que eu tinha feito. Mas ele nunca tinha composto trilha para longa-metragem. A gente n\u00e3o sabia qual seria a melhor op\u00e7\u00e3o. Se seria escrever e gravar toda a trilha antes para eu animar as cenas de a\u00e7\u00e3o em cima dessa m\u00fasica. O &#8220;Fantasia&#8221;, filme da Disney de 1940, era assim, a m\u00fasica toda j\u00e1 existente e a sua anima\u00e7\u00e3o est\u00e1 submissa \u00e0quele som que j\u00e1 est\u00e1 pronto. Na maioria dos outros filmes, voc\u00ea filma, edita, monta e a m\u00fasica que \u00e9 submissa \u00e0 imagem, ao tempo da imagem. Durante esses seis anos de produ\u00e7\u00e3o ininterrupta, o Duda ia escrevendo, compondo em MIDI uma pr\u00e9via da m\u00fasica e, no final das contas, a gente conseguia conversar de uma maneira que ele me deixava muito \u00e0 vontade para falar sobre a m\u00fasica sem ficar ofendido. E a\u00ed eu podia dizer algumas coisas como quando ele ia apresentar uma vers\u00e3o do tema da tartaruga e eu pegava, sei l\u00e1, uma pintura, um desenho no celular e pedia pra ele: &#8220;Voc\u00ea pode fazer uma outra vers\u00e3o dessa cor? Igual a essa pintura da m\u00fasica. E a\u00ed ele falava: &#8220;Ah, entendi, posso!&#8221;. &#8220;Nem eu entendi o que estou pedindo para voc\u00ea&#8221; (risos). E ao inv\u00e9s da gente mandar para uma orquestra no leste europeu, que \u00e9 uma coisa normal, porque \u00e9 uma orquestra, de fato, e fica mais barato, eu tinha essa inten\u00e7\u00e3o forte desde sempre de ter s\u00f3 profissionais daqui do Brasil trabalhando. E o Duda sugeriu um conservat\u00f3rio em Tatu\u00ed, no interior de S\u00e3o Paulo. A gente foi para l\u00e1 durante dois, tr\u00eas finais de semana. E toda a trilha foi gravada com alunos e professores de m\u00fasica erudita dessa escola. Uma parte \u00e9 de professores, outra de alunos que, tamb\u00e9m, participavam de uma big band de l\u00e1 de Tatu\u00ed, no est\u00fadio que era na casa de um dos professores. Tamb\u00e9m era uma equipe pequena. Se voc\u00ea ouve tr\u00eas violinos, foi o mesmo cara que gravou e depois dobrou, e depois dobrou de novo o violino. Mas foi tamb\u00e9m muito, muito espont\u00e2neo e quase experimental, no sentido de o Duda levar uma partitura, desses alunos j\u00e1 terem a partitura. Na primeira execu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 funcionava. E quaisquer varia\u00e7\u00f5es que a gente pedisse, eles conseguiam fazer com refer\u00eancias que iam desde John Williams at\u00e9 Jaspion e at\u00e9 o Guarani, que terminou na trilha, na m\u00fasica do filme. E alguns trechos do filme que j\u00e1 estavam animados e montados tinham essa m\u00fasica que seguia fielmente, que j\u00e1 estava no tempo, e em alguns outros momentos a m\u00fasica era mais livre. N\u00e3o era submissa \u00e0 minutagem espec\u00edfica da a\u00e7\u00e3o, mas onde a gente encaixava os pontos principais da m\u00fasica que j\u00e1 estava feita, j\u00e1 estava executada, antes de a gente animar de fato, que era para poder ter a liberdade para os dois momentos. Eu gosto muito da m\u00fasica, Jo\u00e3o. Eu gosto muito do trabalho do Duda e desses alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse m\u00eas fez um ano da morte de Chico Liberato, um dos precursores da anima\u00e7\u00e3o brasileira. Na ocasi\u00e3o de sua partida, voc\u00ea fez um belo texto tributo a ele, falando de sua visita \u00e0 casa dele aqui em Salvador, quando ele falou da mesa que ele tinha. Eu queria fechar esse papo com uma pergunta que pode soar um tanto romantizada. \u00c9 sobre os horizontes da anima\u00e7\u00e3o brasileira. Voc\u00ea como representante de uma gera\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 de Chico Liberato, mas tendo dificuldades semelhantes em termos de produ\u00e7\u00e3o. Nessa conversa, voc\u00ea falou sobre pessoas que se aproximaram para falar sobre a vontade delas em trilhar esse caminho. Como voc\u00ea avalia esse horizonte para a anima\u00e7\u00e3o brasileira?<\/strong><br \/>\nO Chico Liberato sempre foi uma inspira\u00e7\u00e3o, apesar de ser t\u00e3o diferente a qualidade, o perfil do trabalho dele, sempre foi uma refer\u00eancia para mim por fazer os trabalhos dessa forma na qual ele acreditava. Sim, eu fui uma vez \u00e0 casa dele. A Alba estava l\u00e1. A C\u00e2ndida estava l\u00e1. E ele pintava em folhas que estavam crescendo nas \u00e1rvores do quintal dele. E sempre eram trabalhos que n\u00e3o se submetiam ao que era a Hanna-Barbera da televis\u00e3o da \u00e9poca ou a Disney da \u00e9poca. Era admir\u00e1vel como era importante pra ele, por exemplo, desenhar nos filmes dele a vegeta\u00e7\u00e3o que s\u00e3o as \u00e1rvores que existem na Bahia. Que n\u00e3o s\u00e3o \u00e1rvores gen\u00e9ricas, nem canadenses, nem europeias. E isso para o figurino, isso para tudo. Nesse momento, depois de AnimaMundi, depois de ABCA (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cinema de Anima\u00e7\u00e3o), de cursos acad\u00eamicos que est\u00e3o acontecendo, da produ\u00e7\u00e3o de s\u00e9ries de longas. Quando comecei a carreira, a refer\u00eancia de 20 anos atr\u00e1s, h\u00e1 20 anos, eram 30 e poucos longas, nenhuma s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o. Hoje, existem esses 40 longas em produ\u00e7\u00e3o. Existem mais de 80 s\u00e9ries de anima\u00e7\u00e3o brasileiras que est\u00e3o no ar. Mais do que isso, que j\u00e1 foram feitas, mas 80 que est\u00e3o sendo exibidas no momento. Inclusive, v\u00e1rias delas baianas, tamb\u00e9m. E pela primeira vez no Brasil, hoje, nesse momento de reconstru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m, a gente tem as cinco regi\u00f5es produzindo anima\u00e7\u00e3o. A gente tem v\u00e1rios bra\u00e7os do que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de s\u00e9ries de TV, de publicidade encomendados, de institucionais, de longas metragens, de curtas metragens autorais. Tudo isso est\u00e1 sendo produzido e, ao mesmo tempo, as t\u00e9cnicas 2D, 2D vetorial, 3D, stop motion, e at\u00e9 o tradicional, em projetos com todas essas t\u00e9cnicas que est\u00e3o sendo feitos. As pessoas est\u00e3o produzindo gra\u00e7as ao que come\u00e7ou muito atrasado e que tem que ser mantido, tem que continuar, que s\u00e3o as cotas, para tentar come\u00e7ar a cobrir uma lacuna muito grande em anima\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 algo muito parecido com o cinema live action: quando voc\u00ea mensura a porcentagem de pessoas pretas ou de mulheres que est\u00e3o creditadas como dire\u00e7\u00e3o de anima\u00e7\u00e3o nesse \u00faltimo s\u00e9culo inteiro, \u00e9 1%. S\u00f3 1% dos t\u00edtulos de anima\u00e7\u00e3o do \u00faltimo s\u00e9culo s\u00e3o de mulheres. S\u00f3 1% de pessoas pretas. E nos dois casos, meio que dos \u00faltimos quinze anos. \u00c9 muito recente isso, tamb\u00e9m. Para minha alegria, desses longas que est\u00e3o sendo feitos, quase metade \u00e9 de dire\u00e7\u00e3o de mulheres. Ent\u00e3o, estamos no que eu, assim, de maneira otimista, vou dizer que \u00e9 o melhor momento que a gente j\u00e1 teve at\u00e9 agora. Existe como voc\u00ea aprender de maneira autodidata, como foi na minha gera\u00e7\u00e3o, mas existem cursos livres e existe forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. E se a pessoa, ao inv\u00e9s de ir para o mercado, quiser seguir a vida acad\u00eamica, tem essa possibilidade no Brasil. Durante metade da minha vida profissional, se a pessoa chegasse, galgasse a um patamar de anima\u00e7\u00e3o, tinha que ir embora do pa\u00eds. Hoje, d\u00e1 para seguir aqui sem precisar sair da regi\u00e3o e optando pelo estilo, pela t\u00e9cnica e pela dire\u00e7\u00e3o que se quer ir. Uma das lutas imediatas agora \u00e9 pela volta, pela import\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o autoral. Apesar de eu estar lan\u00e7ando um longa-metragem, continuo entendendo que o formato nobre da anima\u00e7\u00e3o \u00e9 o curta, e \u00e9 fundamental para a qualidade dos longas, das s\u00e9ries, do trabalho encomendado, essa cont\u00ednua produ\u00e7\u00e3o pessoal, autoral das novas gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 uma escada onde voc\u00ea para de fazer o curta e evolui para o longa e para s\u00e9rie. N\u00e3o! \u00c9 uma estrada paralela para a gente seguir de bra\u00e7o dado. Todo mundo de bra\u00e7o dado e alternando e continuando a fazer essa produ\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o que tornou o Brasil t\u00e3o respeitado e conhecido num primeiro momento l\u00e1 fora, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o pessoal, autoral, dos realizadores, das realizadoras de anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SESS\u00c3O VITRINE PETROBRAS: A DOBRA | Ep. 02: &quot;Bizarros Peixes das Fossas Abissais&quot;, de Mar\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H4y2F-RSlk4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"AT\u00c9 A CHINA\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/48RFKRJPbww?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"EU QUERIA SER UM MONSTRO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8An1hHsbBMk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma nuvem atrapalhada e com incontin\u00eancia pluviom\u00e9trica. Uma tartaruga mal humorada com TOC. Uma super-hero\u00edna mutante em busca das pe\u00e7as de um jarro que lhe dar\u00e1 o mapa para uma salva\u00e7\u00e3o&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/29\/entrevista-marao-fala-sobre-o-processo-de-criacao-de-bizarros-peixes-das-fossas-abissais-seu-primeiro-longa-metragem-de-animacao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":79250,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7016],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79245"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79245"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79252,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79245\/revisions\/79252"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}