{"id":79218,"date":"2024-01-26T02:43:08","date_gmt":"2024-01-26T05:43:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=79218"},"modified":"2024-02-22T02:34:49","modified_gmt":"2024-02-22T05:34:49","slug":"27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-o-conflito-de-a-camara-de-cristiane-bernardes-e-tiago-de-aragao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/26\/27a-mostra-de-cinema-de-tiradentes-o-conflito-de-a-camara-de-cristiane-bernardes-e-tiago-de-aragao\/","title":{"rendered":"27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes: O conflito de &#8220;A C\u00e2mara&#8221;, de Cristiane Bernardes e Tiago de Arag\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79222 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar4.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"617\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar4.jpg 400w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar4-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A C\u00e2mara&#8221; (2023) \u00e9 uma velha nova pe\u00e7a no quebra-cabe\u00e7as da produ\u00e7\u00e3o documental brasileira contempor\u00e2nea. Parte desse conjunto se dedica incansavelmente a registrar os pormenores agudos da vida pol\u00edtica dentro das quatro paredes dos imponentes monumentos arquitet\u00f4nicos do Distrito Federal. Est\u00e3o neste cerco filmes como &#8220;Alvorada&#8221; (Anna Muylaert e L\u00f4 Politi, 2021), &#8220;Democracia em Vertigem&#8221; (Petra Costa, 2019), &#8220;O Processo&#8221; (Maria Augusta Ramos, 2018), &#8220;Excelent\u00edssimos&#8221; (Douglas Duarte, 2018), entre outros. Todos com diferen\u00e7as bem delimitadas, tanto na escolha de seus temas centrais quanto de suas abordagens est\u00e9ticas, por\u00e9m com semelhan\u00e7as o bastante para apontarmos alguns v\u00edcios que ora funcionam pelo ac\u00famulo, ora cansam pela repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste filme, dirigido pela dupla Cristiane Bernardes e Tiago de Arag\u00e3o (diretor do curta-metragem &#8220;Entre Parentes&#8221;, de 2018, que j\u00e1 se valia de imagens da vida pol\u00edtica brasileira), a c\u00e2mera se volta para as deputadas habitantes do parlamento na reta final do ano de 2022. Para introduzir tal interesse, os primeiros planos s\u00e3o compostos por fotografias 3&#215;4 dessas mulheres, plotadas lado a lado em uma parede branca, sem qualquer aparente distin\u00e7\u00e3o. Denota-se ent\u00e3o uma das premissas \u00e9ticas principais: as deputadas ser\u00e3o filmadas independentemente de partido pol\u00edtico ou vis\u00e3o ideol\u00f3gica, sem protagonismos muito evidentes ou grandes teses previamente elaboradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso de fato acontece, mas n\u00e3o sem obst\u00e1culos. Toda vez que um artista se dedica a abordar um determinado tema tomando uma dist\u00e2ncia relativamente grande para evitar assumir discursos f\u00e1ceis e por demais manique\u00edstas, nasce um conflito inerente. Ao cabo, observar \u00e9 o suficiente? Sobretudo quando lidamos com a natureza do document\u00e1rio, corre-se sempre um risco: cair na fogueira ou permanecer o tempo todo em banho maria. &#8220;A C\u00e2mara&#8221; sofre deste conflito, e \u00e9 curioso notar como o filme se preocupa muito em tomar a devida dist\u00e2ncia, ainda que a sua c\u00e2mera insista em chegar bem pr\u00f3ximo das personagens, por vezes ignorando o foco, buscando uma intimidade entre cotovelos e palet\u00f3s no meio de um campo de guerra. Dist\u00e2ncias que dizem respeito a campos distintos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79221\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conscientes de tudo (dos riscos, da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de document\u00e1rios no Brasil, das dist\u00e2ncias que precisam constantemente calcular), os diretores se valem da montagem, assinada por Marisa Mendon\u00e7a, para criar algum tipo de fric\u00e7\u00e3o. Tanto \u00e9 que um dos momentos mais interessantes do filme mora num corte: a Deputada Federal S\u00e2mia Bomfim escracha um deputado em virtude de uma discuss\u00e3o em torno do direito ao aborto; nesta cena, o homem imp\u00f5e a sua opini\u00e3o e ainda procura atingir a deputada levantando quest\u00f5es a respeito da materniadade dela; na cena seguinte, S\u00e2mia entra em seu gabinete para reencontrar o filho, \u00e0 espera do reencontro (t\u00edpico da vida de uma trabalhadora no Brasil, que vira e mexe precisa carregar a prole para o terreno de seu of\u00edcio). Esta \u00e9 a \u00faltima sequ\u00eancia do filme e tamb\u00e9m o seu cl\u00edmax. Os diretores sabem disso e conseguem explorar as performances muito bem, em todos os seus pormenores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas de instantes bem-sucedidos que &#8220;A C\u00e2mara&#8221; \u00e9 composto. H\u00e1 um embate perform\u00e1tico, um cabo de guerra ideol\u00f3gico que, apesar da ci\u00eancia dos realizadores, a sua interfer\u00eancia n\u00e3o parece suficiente. Na busca por respeitar as dist\u00e2ncias, como apontado acima, a \u00e9tica, que tamb\u00e9m e sobretudo reside nas imagens, fragiliza-se, causando alguns questionamentos em torno do quanto de dura\u00e7\u00e3o o filme concede a cada um dos grupos (direita, esquerda, os seus supostos extremos, o centr\u00e3o, e por a\u00ed vai).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, um dos trunfos da obra \u00e9 explorar a ideia de performance e de relaxamento. O document\u00e1rio \u00e9 composto basicamente por um mosaico de eventos, alguns bastante curiosos: uma deputada bolsonarista \u00e9 entrevistada em um telejornal a respeito do projeto de combate \u00e0s fake news; outra explana, tamb\u00e9m para uma TV aberta, a sua vis\u00e3o sobre preconceito, afirmando que n\u00e3o existe racismo estrutural no Brasil; discuss\u00f5es a respeito do pedido de veto a um projeto de lei que garantiria o direito \u00e0 pens\u00e3o para idosos v\u00edtimas de hansen\u00edase, que sofreram segrega\u00e7\u00e3o at\u00e9 meados dos anos 1980 no Brasil. Em cada uma dessas situa\u00e7\u00f5es, as deputadas em quest\u00e3o est\u00e3o cientes da presen\u00e7a da c\u00e2mera e, portanto, suas performances s\u00e3o exaltadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jogo inteligente executado pelos realizadores, contudo, est\u00e1 em valorizar o &#8220;p\u00f3s-evento&#8221;, quando, teoricamente, n\u00e3o haveria mais o interesse do filme, mas a c\u00e2mera segue rodando; da\u00ed saem os gestos mais relevantes, neste \u00ednterim de relaxamento: no intervalo do telejornal, a deputada conta o que verdadeiramente est\u00e1 em jogo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Fake News; quando acaba o programa que busca debater o racismo, duas deputadas se enfrentam em um bate-boca agressivo; ao final do debate na plen\u00e1ria sobre a hansen\u00edase, a deputada (Maria do Ros\u00e1rio) olha para o lado e suspira de al\u00edvio por ter conquistado uma pequena grande batalha. N\u00e3o \u00e0 toa preserva-se um plano de um homem ajustando uma c\u00e2mera em um trip\u00e9 de mesa, que fica instantes sozinha no quadro fitando-nos, quase como nos convidando para tamb\u00e9m participarmos dessa encena\u00e7\u00e3o entre a performance e o relaxamento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79219\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/still_a_camara-Tiago-de-Aragao-1920x429-copiar-300x105.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar desse trunfo, a montagem \u00e0s vezes exagera na dura\u00e7\u00e3o dos planos. Neste \u00e2mbito, vale ressaltar a cena do culto evang\u00e9lico comandado por uma deputada nas depend\u00eancias da C\u00e2mara, \u00e0s oito e meia da manh\u00e3 que, apesar de intrigante, se estende em demasia. Qual a gra\u00e7a de mostrar por tanto tempo algo que tortura uma parcela grande dos espectadores se, no final das contas, o prop\u00f3sito da cena est\u00e1 muito mais no seu subtexto: denota-se, entre uma cena e outra, que o qu\u00f3rum do culto por vezes \u00e9 muito maior do que encontramos nas pr\u00f3prias sess\u00f5es da c\u00e2mara. Revela-se o esc\u00e1rnio da pol\u00edtica brasileira, sim, mas a que custo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A C\u00e2mara&#8221; tamb\u00e9m evidencia, assim como o faz outros document\u00e1rios citados no in\u00edcio deste texto, momentos singelos. Benedita da Silva \u00e9 a primeira deputada a ganhar maior destaque no filme, e suas apari\u00e7\u00f5es, em geral, cumprem a fun\u00e7\u00e3o do &#8220;respiro fofo&#8221; diante de tanto assunto pol\u00eamico (e remete, por exemplo, ao relato de Dilma Rousseff ensinando como fazer uma receita em outro document\u00e1rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no in\u00edcio do filme, Benedita conversa com a deputada Jandira Feghali sobre a blusa que est\u00e1 vestindo, e relembra que a comprou na China, quando ambas visitaram um pa\u00eds na ocasi\u00e3o de um encontro de mulheres na pol\u00edtica (&#8220;muito bem preservada, tecido bom&#8221;, afirma ela). Mais tarde, pede para um assessor ajustar a gola da mesma blusa antes de gravar um v\u00eddeo de apoio para uma campanha e comenta como os brincos est\u00e3o intoc\u00e1veis nas orelhas, ainda que tenha perdido as tarrachas. Bom, s\u00e3o obviamente a\u00e7\u00f5es afetuosas para quem conhece e admira a hist\u00f3ria da primeira senadora negra do Brasil e uma das lideran\u00e7as mais significativas do PT, n\u00e3o obstante perguntamo-nos, ao final, de que maneira isso colabora com o que o document\u00e1rio pretende discutir. Ali\u00e1s, esta \u00e9 uma pergunta importante que fica (e incomoda): o que se quis contar com este grande mosaico de ideias?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Doclisboa&#039;23 | A C\u00e2mara | Tiago de Arag\u00e3o, Cristiane Brum Bernardes\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XLw0LkEy3vY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um dos trunfos do filme \u00e9 explorar a ideia de performance e de relaxamento. 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