{"id":78999,"date":"2024-01-13T10:04:24","date_gmt":"2024-01-13T13:04:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=78999"},"modified":"2024-03-02T10:34:42","modified_gmt":"2024-03-02T13:34:42","slug":"literatura-cinema-orly-reconta-as-andancas-de-luis-capucho-pelos-corredores-de-um-cinema-pornografico-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/13\/literatura-cinema-orly-reconta-as-andancas-de-luis-capucho-pelos-corredores-de-um-cinema-pornografico-carioca\/","title":{"rendered":"Literatura: \u201cCinema Orly\u201d reconta as andan\u00e7as de Lu\u00eds Capucho pelos corredores de um cinema pornogr\u00e1fico carioca"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na virada dos anos 1980 para os 1990 come\u00e7amos a acompanhar o decl\u00ednio dos cinemas de rua pelo Brasil: muitos fecharam as portas e uma grande maioria abrigou novos com\u00e9rcios tais como supermercados, estacionamentos e, principalmente, in\u00fameras igrejas evang\u00e9licas. Nas capitais, no entanto, muitos desses cinemas ganharam sobrevida com a exibi\u00e7\u00e3o de filmes pornogr\u00e1ficos. Cinemas que sempre exibiram filmes heterossexuais acabaram se tornando ponto de encontro de todas as sexualidades tidas como desviantes: gays, bissexuais, homens, mulheres trans e travestis, todos se tornam um \u00fanico corpo em movimento por entre os corredores escuros dessas salas de exibi\u00e7\u00e3o. Um desses frequentadores foi o cantor, compositor e escritor Lu\u00eds Capucho, que passar horas de seus dias nas sess\u00f5es do Cine Orly, no centro do Rio de Janeiro. A narrativa despudorada e po\u00e9tica desses dias ganha vida no livro \u201cCinema Orly\u201d, de 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1ssico cult da literatura marginal brasileira da virada do s\u00e9culo, \u201cCinema Orly\u201d ganhou uma <a href=\"https:\/\/carambaia.com.br\/cinema-orly-luis-capucho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nova edi\u00e7\u00e3o luxuosa pela Editora Carambaia<\/a>, dentro da cole\u00e7\u00e3o Sete Chaves, voltada para a literatura er\u00f3tica e que tem curadoria de Eliane Robert Moraes, importante pesquisadora de literatura er\u00f3tica brasileira e internacional, com trabalhos em torno de nomes como Hilda Hilst e Marqu\u00eas de Sade. Lan\u00e7ado em capa dura e com bel\u00edssimo projeto gr\u00e1fico de Laura Lotufo, o livro ainda acompanha posf\u00e1cio assinado por Eliane Robert Moraes ao lado de Bruno Cosentino, compositor e doutor em literatura brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na narrativa de \u201cCinema Orly\u201d pouco sabemos do personagem principal, nem mesmo seu nome \u00e9 informado, tudo que nos \u00e9 contado \u00e9 que ele tem 30 anos, trabalha em um of\u00edcio desconhecido e mora com a m\u00e3e. No Orly ele conhece, ao longo do romance, dois namorados, sem que os encontros an\u00f4nimos deixem de acontecer. De todo modo, a espinha dorsal do livro est\u00e1 nas incurs\u00f5es desse narrador entre as fileiras de poltronas do cinema, descrevendo de forma direta e sem pudores os encontros, os corpos tesos e toda a fauna de bichas, travestis e discretos homens que por ali circulam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, sabemos que esse mist\u00e9rio que se esconde nas p\u00e1ginas de \u201cCinema Orly\u201d tem a ver com o mundo real onde habita Lu\u00eds Capucho. Nos anos 1990, Capucho trabalhava como professor ao mesmo tempo em que estava se lan\u00e7ando no universo musical \u2013 suas can\u00e7\u00f5es seriam posteriormente gravadas por pares geracionais dele como C\u00e1ssia Eller, Da\u00fade e Pedro Lu\u00eds e a Parede. Por\u00e9m, em 1996, Capucho entra em coma devido a uma neurotoxoplasmose e, nesse mesmo momento, se descobre HIV positivo. A doen\u00e7a deixaria sequelas f\u00edsicas e motoras no artista, um dos principais pontos est\u00e1 na sua fala, que se torna mais lenta e dif\u00edcil. Aos poucos, ainda sem conseguir voltar a tocar viol\u00e3o, ele come\u00e7a o trabalho de escrita de \u201cCinema Orly\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79002\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly3-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 2000, Capucho conseguiria retomar sua carreira musical e lan\u00e7aria uma s\u00e9rie de discos, o mais recente \u00e9 uma colet\u00e2nea chamada \u201c<a href=\"https:\/\/www.luiscapucho.com.br\/la-vida-es-libre-vol-01\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">La Vida Es Libre \u2013 Canciones de Lu\u00eds Capucho, Vol.1<\/a>\u201d (2023), com uma s\u00e9rie de releituras feitas por nomes como Nehedar, Arthur Nogueira, Luiza Brina e Gustavo Galo. Uma parte dos escritos de Capucho inspirou a narrativa do excepcional filme po\u00e9tico-biogr\u00e1fico \u201cPeixe Abissal\u201d, de Rafael Saar, que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/21\/15o-in-edit-brasil-peixe-abissal-e-um-mergulho-profundo-e-poetico-na-vida-do-artista-underground-luis-capucho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conferimos por aqui na 15\u00aa edi\u00e7\u00e3o do festival In-Edit<\/a>. Ainda que m\u00fasica e cinema ampliem o olhar sobre Lu\u00eds Capucho s\u00e3o nas p\u00e1ginas de seus livros que conseguimos desvendar de forma mais profunda suas complexidades e as nuances. \u201cCinema Orly\u201d \u00e9 uma narrativa sedutora, que nos pega pela m\u00e3o e nos guia no escuro desse cinema de forma quase sinest\u00e9sica: sentimos os cheiros, entendemos a temperatura do ambiente, quase conseguimos ouvir a respira\u00e7\u00e3o de cada corpo ali presente. E tudo isso se d\u00e1 pela escrita \u00fanica de Lu\u00eds Capucho, que consegue transitar entre descri\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas de genitais masculinos da mesma maneira com que concatena signos religiosos para entender aquela prociss\u00e3o de corpos em torno do sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso tudo se d\u00e1 pela liberdade ampla do texto \u2013 h\u00e1 um ou outro por\u00e9m que deixa claro o seu tempo de escrita e quest\u00f5es que s\u00e3o bastante anos 1990 para o nosso tempo, mas nada que diminua a leitura. \u201cCinema Orly\u201d segue ousado e forte, dialogando com grandes cl\u00e1ssicos da literatura er\u00f3tica e de t\u00edtulos importantes nacionais, como os livros mais pornogr\u00e1ficos de Hilda Hilst ou a ousadia de \u201cA casa dos budas ditosos\u201d, de Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, tamb\u00e9m lan\u00e7ado em 1999. O livro de Capucho tem as nuances de ainda captar as experi\u00eancias de uma comunidade marginalizada, funcionando como um retrato de todos esses corpos desviantes em um mundo p\u00f3s-HIV\/AIDS e que experiencia possibilidades \u00fanicas de sua sexualidade ali dentro daquele cinema \u2013 esse mesmo microcosmo, ali\u00e1s, \u00e9 captado por Jacques Nolot no \u00f3timo filme \u201cLa chatte \u00e0 deux t\u00eates\u201d, de 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso tudo podemos entender a literatura de Capucho como uma possibilidade distinta de olhar para o sexo e o desejo por outras lentes, compreendendo as perspectivas e o desejo do outro em todas as suas nuances. Por isso mesmo, \u201cCinema Orly\u201d se torna uma leitura surpreendente e \u00fanica e sua reedi\u00e7\u00e3o deve ser celebrada!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-79000\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"705\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/orly1-300x282.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Renan Guerra<\/em><\/a><em>\u00a0\u00e9 jornalista e escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/\">Revista Balaclava<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lan\u00e7ado originalmente em 1999, \u201cCinema Orly\u201d segue ousado e forte, dialogando com grandes cl\u00e1ssicos da literatura er\u00f3tica e de t\u00edtulos importantes nacionais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/13\/literatura-cinema-orly-reconta-as-andancas-de-luis-capucho-pelos-corredores-de-um-cinema-pornografico-carioca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":79001,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[7000,6752],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78999"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78999"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79310,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78999\/revisions\/79310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}