{"id":78941,"date":"2024-01-08T02:28:36","date_gmt":"2024-01-08T05:28:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=78941"},"modified":"2024-01-31T00:37:18","modified_gmt":"2024-01-31T03:37:18","slug":"meu-disco-favorito-de-2023-yo-la-tengo-por-bruno-capelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/01\/08\/meu-disco-favorito-de-2023-yo-la-tengo-por-bruno-capelas\/","title":{"rendered":"Meu disco favorito de 2023:\u00a0Yo La Tengo, por Bruno Capelas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>MEU DISCO FAVORITO DE 2023 #10<br \/>\n\u201cThis Stupid World\u201d, Yo La Tengo<br \/>\nescolha de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/noacapelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\">Lan\u00e7amento \u2013 10\/02\/2023<br \/>\nSelo \u2013 Matador Records<br \/>\nOu\u00e7a \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/3LaJpJFSY3cmLFEHJl2z6E\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Spotify<\/a>\u00a0\/\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=OLAK5uy_ki4srDpLIVnjVPNELQQXQGT1BzhggW1GU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Youtube<\/a>\u00a0\/\u00a0<a href=\"https:\/\/yolatengo.bandcamp.com\/album\/this-stupid-world\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bandcamp<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO tempo est\u00e1 passando mais r\u00e1pido esse ano, n\u00e3o est\u00e1?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes voc\u00ea j\u00e1 se pegou dizendo essa frase nos \u00faltimos tempos? E quantos anos podem caber dentro de uma \u00fanica temporada de 365 dias? Ainda faz sentido pensar num \u201cdisco do ano\u201d, se fevereiro de 2023 parece ter acontecido h\u00e1 umas quatro d\u00e9cadas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas quest\u00f5es ficaram rebatendo na minha cabe\u00e7a nas \u00faltimas semanas, enquanto eu tentava escolher um disco como o meu favorito de 2023 \u2013 \u201co primeiro ano do resto das nossas vidas\u201d. Desculpe falar em pandemia a uma hora dessas, mas eu vou chorar: enquanto 2020 e 2021 dilapidaram a nossa no\u00e7\u00e3o de tempo-espa\u00e7o, 2022 foi como colocar os p\u00e9s de volta no mar. J\u00e1 2023 foi um mergulho intenso num tempo el\u00e1stico \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma gracinha com outro grande disco dessa temporada (procure saber). Talvez por isso, nada mais justo escolher um disco que eu ouvi l\u00e1 no come\u00e7o do ano, amei\u2026 e depois fui fazer outras coisas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado em fevereiro \u00faltimo, \u201cThis Stupid World\u201d \u00e9 o primeiro disco de can\u00e7\u00f5es do Yo La Tengo em cinco anos, o que equivale mais ou menos a umas duas era geol\u00f3gicas nos dias de hoje. (Estou descontando da conta \u201cWe Have Amnesia Sometimes\u201d, um experimento pand\u00eamico cheio de drones e ambi\u00eancias, ok?). Desde o primeiro single, eu sabia que o que viria pela frente ia grudar nos meus ouvidos e possivelmente me acompanhar pelo ano todo. Surgida em janeiro, \u201cSinatra Drive Breakdown\u201d mistura melodias c\u00e2ndidas com guitarras cheias de ru\u00eddo, cortesia do mestre Ira Kaplan, em sete minutos de doideira e del\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a verdade \u00e9 que depois que o \u00e1lbum saiu, eu ouvi umas cinco vezes, destaquei como lan\u00e7amento no \u201c<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u201d e deixei de lado, em busca de alguma outra novidade. E s\u00f3 fui lembrar dele agora no final de dezembro, j\u00e1 come\u00e7ando a fazer minhas listas de melhores do ano. Foi como encontrar um casaco quentinho no fundo do arm\u00e1rio, depois de um ano de intenso calor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 culpa do Yo La Tengo, \u00e9 minha. De 2018 para c\u00e1, entre \u201cThere\u2019s a Riot Going On\u201d e este \u201cThis Stupid World\u201d, minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica mudou muito. A dist\u00e2ncia entre minha cama e meu local de trabalho j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais percorrida em horas de transporte p\u00fablico, mas em quest\u00e3o de dez passos. H\u00e1 mais tempo para viver (e ver shows, que agora s\u00e3o perto de casa!), mas passo menos tempo com fones de ouvido na cabe\u00e7a para espantar o t\u00e9dio entre Utinga e o bairro do Lim\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu trabalho, por sua vez, n\u00e3o consiste mais apenas em not\u00edcias sobre tecnologia e startups, <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/brindando-a-mandioca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas toda sorte de formatos de texto<\/a> \u2013 al\u00e9m de um programa de r\u00e1dio no qual um dos destaques da programa\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente apontar novidades. Pelo menos uma vez por m\u00eas, preciso ter cinco ou seis dicas boas na ponta da l\u00edngua pra mostrar para os ouvintes. E felizmente, h\u00e1 sempre muito mais do que um punhado de can\u00e7\u00f5es bacanas. Mas nem sempre h\u00e1 tempo para ouvir todas com calma, separando o joio do trigo, tentando entender o que \u00e9 pirita e o que reluz de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meados de 2022, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/08\/10\/mauricio-pereira-micro-entrevista-imperdivel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevistei o Mauricio Pereira para este site<\/a>. No meio da entrevista, uma frase dele me pegou no contrap\u00e9. \u201cA gente normaliza muita brutalidade pelo excesso de informa\u00e7\u00e3o. Excesso de arte tamb\u00e9m: excesso de arte faz a arte virar n\u00e3o-arte, faz tudo ficar chapado\u201d, disse ele, explicando o significado da can\u00e7\u00e3o \u201cN\u00e3o Me Incommodity\u201d. Na \u00e9poca eu fiquei exasperado: excesso de arte n\u00e3o \u00e9 um problema! Pelo contr\u00e1rio! Foi justamente ter consumido doses cavalares de m\u00fasica, literatura e cinema que salvou minha cabe\u00e7a durante a pandemia. Hoje sou for\u00e7ado a concordar com ele: com est\u00edmulo demais, \u00e0s vezes n\u00e3o d\u00e1 tempo mesmo para deixar fruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se o mundo pop muitas vezes pede que a gente consuma uma can\u00e7\u00e3o de tr\u00eas minutos no tempo de vida de uma borboleta (aquele abra\u00e7o, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/autor\/miguel-esteves-cardoso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Miguel Esteves Cardoso<\/a>), a arte pede um pouco mais de calma. \u00c9 o caso desse disco do Yo La Tengo, como talvez seja o caso de toda a discografia do Yo La Tengo. \u00c0 primeira vista, \u00e9 f\u00e1cil entender a maior parte da obra do trio americano como um encontro daqueles dois elementos que eu defini l\u00e1 em cima e descart\u00e1-los para uma prateleira qualquer do rock alternativo. Mas, com tempo pra se aprofundar, h\u00e1 camadas e mais camadas no universo do trio, com ecos de diferentes eras da can\u00e7\u00e3o (e da antican\u00e7\u00e3o) americana do s\u00e9culo XX. (Fica o desafio: vai l\u00e1 ouvir o cl\u00e1ssico \u201cI Can Hear the Heart Beating as One\u201d e tente encontrar Beach Boys, Elvis, Velvet Underground e o folk do in\u00edcio do s\u00e9culo passado. Quem achar ganha um abra\u00e7o meu no dia que o Yo La Tengo aparecer no Brasil de novo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um amigo budista esses dias escreveu no Instagram que um ano \u00e9 uma escala arbitr\u00e1ria de tempo, porque tudo \u00e9 imperman\u00eancia. Meu lado racional gosta da divis\u00e3o astron\u00f4mica que criamos para marcar a passagem, mas depois do 2023 que vivi, um ano cheio de pequenas crises e um punhado de bons momentos, sou for\u00e7ado a concordar com ele. Escrevo este texto enquanto o pernil da ceia de Rev\u00e9illon ainda est\u00e1 virando sandu\u00edche na casa dos meus pais, mas a \u00faltima temporada foi a em que menos senti o impacto das festas e da cis\u00e3o do tempo em algarismos indo-ar\u00e1bicos. Passar de 2023 para 2024 n\u00e3o foi fluxo interrompido, foi ato-cont\u00ednuo, e apesar dos pesares, tor\u00e7o para que este novo ano seja mais sequ\u00eancia do que revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que tamb\u00e9m faz sentido com o Yo La Tengo: \u201cThis Stupid World\u201d n\u00e3o chega a ser exatamente uma revolu\u00e7\u00e3o na carreira do grupo, mas um reaparecimento depois do torpor pand\u00eamico de \u201cWe Have Amnesia Sometimes\u201d. Uma amostra de vida, ainda que muito do disco seja melanc\u00f3lico, triste, reflexivo, em claro reflexo do que vivemos nos \u00faltimos tempos. Quem sabe em 2024 eu consiga escolher um disco sem falar de pandemia, mas ainda n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinestesicamente, \u201cThis Stupid World\u201d tamb\u00e9m funciona como um resumo de 2023. Digo mais: d\u00e1 para encapsular a \u00faltima temporada dentro dos sete minutos da faixa de abertura, \u201cSinatra Drive Breakdown\u201d. De um lado, foi um ano cheio de ru\u00eddo e confus\u00e3o, de crises pessoais e pequenas ou grandes tretas que pareciam se repetir, como a guitarra insistente, ruidosa e quase met\u00e1lica que abre can\u00e7\u00e3o. Desse ru\u00eddo, por\u00e9m, \u00e0s vezes surgiam momentos de eleva\u00e7\u00e3o \u2013 da mesma forma que um beijo de boa noite, um abra\u00e7o em fam\u00edlia, um brinde com amigos ou um show de quase tr\u00eas horas do The Cure surgiram como o\u00e1sis em meio aos problemas cotidianos. O resultado final \u00e9 mais bonito do que ca\u00f3tico, ainda que o caos fa\u00e7a parte da beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que eu tenha entendido isso durante o ano. Na verdade, foi no marasmo entre o Natal e o Ano Novo \u2013 o per\u00edodo de uma semana que \u00e9 t\u00e3o bom que deveria durar um m\u00eas inteiro \u2013 que eu me dei conta da pura beleza de \u201cThis Stupid World\u201d, da delicadeza de \u201cAselestine\u201d ao poder de \u201cFallout\u201d, da flutua\u00e7\u00e3o de \u201cMiles Away\u201d \u00e0 aspereza da faixa-t\u00edtulo. (Pude tamb\u00e9m mergulhar em \u201cThe Bunker Sessions\u201d, EP de demos do disco que o Yo La Tengo lan\u00e7ou j\u00e1 no apagar das luzes de 2023, entendendo a diferen\u00e7a entre rascunho e vers\u00e3o final, \u00e0s vezes apreciando o croqui mais do que a tela).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas entre lamentar o tempo perdido no qual \u201cThis Stupid World\u201d poderia ter sido meu melhor amigo e aprender a li\u00e7\u00e3o, sigo com a segunda op\u00e7\u00e3o. Sei que \u00e9 brega acabar um texto desses com um desejo, mas v\u00e1 l\u00e1: que, em 2024, a gente tenha tempo para ouvir certos discos com mais calma. Eles merecem.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/noacapelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista. Apresenta o <a href=\"https:\/\/twitter.com\/indieeldorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, na Eldorado FM, e escreve a newsletter <a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 e espera, em 2024, n\u00e3o se parecer o coelho da Alice no Pa\u00eds das Maravilhas.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"This Stupid World\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_ki4srDpLIVnjVPNELQQXQGT1BzhggW1GU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/favorito\/\"><strong>CONHE\u00c7A OUTROS DISCOS FAVORITOS<\/strong><\/a><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cThis Stupid World\u201d n\u00e3o chega a ser uma revolu\u00e7\u00e3o na carreira do grupo, mas um reaparecimento depois do torpor pand\u00eamico de \u201cWe Have Amnesia Sometimes\u201d. 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