{"id":7865,"date":"2011-01-31T21:42:06","date_gmt":"2011-02-01T00:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=7865"},"modified":"2011-03-03T22:34:16","modified_gmt":"2011-03-04T01:34:16","slug":"um-lugar-qualquer-sofia-coppola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/31\/um-lugar-qualquer-sofia-coppola\/","title":{"rendered":"Um Lugar Qualquer, Sofia Coppola"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7866\" title=\"umlgarqualquer\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/umlgarqualquer.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um barulho de motor de carro toma o ambiente enquanto os letreiros surgem sob uma tela escura. O ronco continua e o primeiro quadro pega uma Ferrari negra cortando a pel\u00edcula rapidamente com uma paisagem des\u00e9rtica ao fundo. A Ferrari roda o pequeno circuito em c\u00edrculos por mais de dois minutos, quando enfim o motorista para o carro, desce e se p\u00f5e a olhar est\u00e1tico para um lugar qualquer. Nenhuma palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quarto longa-metragem de sua carreira, Sofia Coppola volta a mirar sua lente para o vazio, tentando encontrar algo quase imposs\u00edvel de ser visto. A busca come\u00e7ou em \u201cAs Virgens Suicidas\u201d (1999), filme denso e belo (como a morte, diria algu\u00e9m). Seguiu-se com o premiado \u201cEncontros e Desencontros\u201d (2003), em que dois personagens perdidos encontravam o amor no lugar mais improv\u00e1vel (e imposs\u00edvel), como se s\u00f3 a visualiza\u00e7\u00e3o desse instante bastasse para preencher o vazio que se prosseguiria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMarie Antonieta\u201d (2006) levava o espectador \u00e0 corte real da Fran\u00e7a para mostrar que at\u00e9 ali era poss\u00edvel tatear o vazio. Pena que para justificar sua hist\u00f3ria realista (quer maior solid\u00e3o do que um alto cargo \u201cp\u00fablico\u201d), Sofia tenha transformado a Rainha que perdeu sua cabe\u00e7a na guilhotina e era odiada pelos franceses em um personagem mais&#8230; hummm&#8230; humano e correto (na contram\u00e3o da Hist\u00f3ria). \u201cUm Lugar Qualquer\u201d (&#8220;Somewhere&#8221;, 2010) corrige essa falha com louvor e parece o filme mais bem acabado da diretora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, ainda n\u00e3o existe um roteiro tang\u00edvel. Sofia volta a praticar algo em que parece estar se tornando mestre: iludir o espectador. Os primeiros 20 minutos de \u201cUm Lugar Qualquer\u201d soam praticamente como se fossem videoclipes estrelados \u2013 primeiramente \u2013 por dan\u00e7arinas de poledance que se exibem para um ator famoso de Hollywood ao som de Foo Fighters (\u201cMy Hero\u201d) e Amerie (\u201c1 Thing\u201d) combinados com uma bonita passagem de patina\u00e7\u00e3o no gelo ao som de Gwen Stefani (\u201cCool\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-7868 aligncenter\" title=\"umlgarqualquer2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/umlgarqualquer2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/umlgarqualquer2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/umlgarqualquer2-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><br \/>\nPor\u00e9m, apesar de subir o som e deixar a hist\u00f3ria em segundo plano no come\u00e7o arrastado de \u201cUm Lugar Qualquer\u201d, Sofia consegue demonstrar com exatid\u00e3o aquilo que prop\u00f5e: o mundo vazio de Johnny Marco (Stephen Dorff), um famoso ator de Hollywood (daqueles que as mulheres chegam se oferecendo) que t\u00eam dificuldades em preencher seu tempo com algo que seja&#8230; relevante. Na verdade, o adjetivo aqui pouco importa, pois nada parece t\u00e3o importante quando o vazio se instala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johnny at\u00e9 tenta recorrer ao b\u00e1sico (da fama): sexo, drogas e rock and roll funcionam como passatempo, mas n\u00e3o preenchem a alma. Ent\u00e3o surge Cleo (Elle Fanning), numa cena interessante: ap\u00f3s fechar o quadro anterior beijando uma loira\u00e7a, Sofia flagra Johnny sendo acordado na manh\u00e3 seguinte por outra loira, sua filha de 11 anos. E o mundo do ator vira de cabe\u00e7a pra baixo. A m\u00e3e de Cleo (ex-esposa de Johnny) surtou e decidiu sumir do mapa. A garota passa a ser responsabilidade dele, que pouco a conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm Lugar Qualquer\u201d desfere estocadas certeiras de esgrima nos olhos daqueles que v\u00eaem os atores de Hollywood como pessoas inteligentes, sagazes e sempre com a resposta certa para a pergunta mais imbecil. No filme de Sofia (assim como em uma passagem de \u201cEncontros e Desencontros\u201d), os atores s\u00e3o personagens vazios levados de l\u00e1 para c\u00e1 no globo terrestre (no caso, dos Estados Unidos para a It\u00e1lia) como joguetes de uma ind\u00fastria que privilegia o externo, a carca\u00e7a, o rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme ainda reserva cutucadas para o pai (ausente), Francis, na rela\u00e7\u00e3o de Johnny com Cleo (o livro \u201cComo a Gera\u00e7\u00e3o Sexo, Drogas e Rock and Roll salvou Hollywood\u201d, de Peter Biskind, alimenta o mito), mas mais do que um acerto de contas familiar e com a ind\u00fastria do entretenimento, \u201cUm Lugar Qualquer\u201d \u00e9 o filme em que Sofia Coppola mais se aproxima da perfei\u00e7\u00e3o em filmar o vazio (com sutileza e, quase, admira\u00e7\u00e3o \u2013 algo que no bel\u00edssimo \u201cAs Horas\u201d, de Stephen Daldry, era mais evidente que o nariz falso de Nicole Kidman).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7869 aligncenter\" title=\"umlgarqualquer4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/umlgarqualquer4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDuas passagens se destacam: na primeira, Johnny precisa \u201cemprestar\u201d seu rosto para o molde de uma m\u00e1scara (a ser usada em seu pr\u00f3ximo filme). Tr\u00eas homens come\u00e7am o processo de \u201cengessar\u201d o rosto do ator. Trabalho feito, o grupo deixa Johnny e Sofia lentamente aproxima a c\u00e2mera do rosto mumificado do ator em 1m30s de cena que causam risos nervosos no espectador (e Kie?lowski acreditava que oito segundos focando um cubo de a\u00e7\u00facar em \u201cA Liberdade \u00e9 Azul\u201d era muito para o p\u00fablico) enquanto se ouve apenas o respirar dif\u00edcil do personagem (como se sem o rosto a vida fosse realmente mais complicada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na outra, ao som de um b-side dos Strokes (\u201cI&#8217;ll Try Anything Once\u201d \u2013 outro momento videoclipe), Cleo e Johnny s\u00e3o focalizados longamente tomando sol a beira de uma piscina, aparentemente felizes, propondo uma simplicidade para a vida que pode ser uma resposta para a necessidade de preenchimento da alma (\u201cser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o\u201d) como tamb\u00e9m um retrato da leveza do cotidiano refletida em um momento de aus\u00eancia de palavras (que, embora muita gente discorde, servem mais para confundir do que para explicar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sofia Coppola aconchega o vazio naquele que parece ser seu filme mais bem definido (e mais arrastado, e mais&#8230; dif\u00edcil) at\u00e9 os dez minutos finais, quando acaba escolhendo a sa\u00edda mais \u00f3bvia, e joga fora tudo o que conquistou em 1h25 de hist\u00f3ria (preenchida com 90% de assuntos banais e momentos idem \u2013 como a vida), deixando uma d\u00favida\/certeza no ar: ser\u00e1 poss\u00edvel mudar? Abandonar tudo e come\u00e7ar do zero? Largar os v\u00edcios (fama, sexo e drogas)? Ser\u00e1 poss\u00edvel, ao menos uma vez, se salvar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As virgens n\u00e3o acreditavam nisso (ou n\u00e3o tiveram tempo para refletir \u2013 ah, a adolesc\u00eancia), da\u00ed o suic\u00eddio. Charlotte e Bob Harris tiveram sobrevida na paix\u00e3o (que faz com que a pessoa se sinta viva, mesmo quando \u00e9 apenas platonicamente retribu\u00edda). Maria Antonieta perdeu a cabe\u00e7a. Johnny encontrou a pieguice de Sofia Coppola e saiu a caminhar. Parece uma solu\u00e7\u00e3o simplista demais para um filme t\u00e3o&#8230; vazio, e a simplicidade pode at\u00e9 enganar (Sofia, Johnny, o espectador, o resenhista) mas n\u00e3o consegue diluir o gosto adocicado de um final burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um filme 90% \u00f3timo \u00e9 bom ou ruim? Veja e decida.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/mGQKBE59Wvo?fs=1&amp;hl=pt_BR\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/mGQKBE59Wvo?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">********<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong><br \/>\n&#8211; Trilha de &#8220;Encontros e Desencontros&#8221; \u00e9 rock&#8217;n roll, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/musica.terra.com.br\/interna\/0,,OI261514-EI1267,00.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Maria Antonieta&#8221;: os franceses sabem que a Hist\u00f3ria \u00e9 diferente, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/maria_antonieta.htm\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Como a Gera\u00e7\u00e3o Sexo, Drogas e Rock n Roll salvou Hollywood&#8221;, por Gabriel e Ismael (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/10\/a-era-mais-criativa-de-hollywood\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; A Trilogia das Cores (Bleu, Rouge, Blanc), de Krzystof Kieslowski, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/trilogia.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nSofia Coppola aconchega o vazio naquele que parece ser seu filme mais bem definido, por\u00e9m se rende a um final piegas&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/31\/um-lugar-qualquer-sofia-coppola\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7865"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7865"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7877,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7865\/revisions\/7877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}