{"id":78477,"date":"2004-04-08T14:51:00","date_gmt":"2004-04-08T17:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=78477"},"modified":"2023-12-08T15:00:13","modified_gmt":"2023-12-08T18:00:13","slug":"ao-vivo-caetano-veloso-trafega-entre-a-paixao-e-o-poder-no-show-a-foreign-sound","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/04\/08\/ao-vivo-caetano-veloso-trafega-entre-a-paixao-e-o-poder-no-show-a-foreign-sound\/","title":{"rendered":"Ao vivo: Caetano Veloso trafega entre a paix\u00e3o e o poder no show &#8220;A Foreign Sound&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Minha paix\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua portuguesa&#8221;, disse Caetano Veloso para o p\u00fablico que lotou a terceira noite (sexta\/28) do show &#8220;A Foreign Sound&#8221; no Tom Brasil Na\u00e7\u00f5es Unidas, em S\u00e3o Paulo. A frase surgiu no meio do show, ap\u00f3s Caetano cantar uma longa seq\u00fc\u00eancia de m\u00fasicas em ingl\u00eas e se preparar para apresentar a \u00fanica m\u00fasica in\u00e9dita do repert\u00f3rio do show, o sambinha &#8220;Diferentemente&#8221;. Por\u00e9m, se a l\u00edngua p\u00e1tria \u00e9 a paix\u00e3o, &#8220;o ingl\u00eas \u00e9 o poder&#8221;, diz o m\u00fasico logo depois. Balizado por estas duas hastes &#8211; a paix\u00e3o e o poder -, Caetano apresentou seu novo projeto aos paulistanos, uma ode aos Estados Unidos via repert\u00f3rio do cancioneiro norte-americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Foreign Sound&#8221;, o show, \u00e9 um passeio pelo disco com a inteligente inclus\u00e3o de can\u00e7\u00f5es que usam a contradi\u00e7\u00e3o como objeto de refor\u00e7o. N\u00e3o espere, ent\u00e3o, ouvir sucessos de carreira, can\u00e7\u00f5es para se cantar e bater palmas. O repert\u00f3rio (ao mesmo tempo) inibe e convida a admira\u00e7\u00e3o. A plat\u00e9ia, lotada, saboreia o inusitado. Assim, &#8220;N\u00e3o Tem Tradu\u00e7\u00e3o&#8221;, can\u00e7\u00e3o de Noel Rosa de 1933 que abre o show, prega que &#8220;as rimas do samba n\u00e3o s\u00e3o i love you&#8221; e traz, na seq\u00fc\u00eancia, &#8220;Baby&#8221;, que termina curiosamente com &#8220;leia na minha camisa: Baby, baby, i love you&#8221;. E &#8220;Baby&#8221; surge emendada, como um medley, com &#8220;Diana&#8221;, de Paul Anka, explicitando uma cita\u00e7\u00e3o que Caetano havia usado de backing vocal ao final da vers\u00e3o da m\u00fasica cantada por Gal Costa no cl\u00e1ssico disco &#8220;Tropic\u00e1lia&#8221;, de 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com as duas can\u00e7\u00f5es de quase dom\u00ednio p\u00fablico vertidas em medley, a plat\u00e9ia mais observa que participa. Seguem-se, reverentes, &#8220;So in Love&#8221; (Cole Porter), &#8220;I Only Have Eyes For You&#8221; (Harry Warrens) e &#8220;Body and Soul&#8221; (conhecida na voz de Louis Armstrong), destacando o acompanhamento luxuoso de 21 membros da Orquestra Sinf\u00f4nica de S\u00e3o Paulo regidos por Jaques Morelenbaum (completam o grupo o viol\u00e3o de Lula Galv\u00e3o, o baixo de Jorge Helder, a percuss\u00e3o de L\u00e9o Reis, a guitarra de Pedro S\u00e1 e a bateria de Carlos Bala). Surge ent\u00e3o Bob Dylan. De \u00f3culos e letra em punho, Caetano praticamente declama &#8220;It&#8217;s Alright, Ma (I&#8217;m Only Bleeding)&#8221;, de 1965, desconstruindo a melodia, optando pela estranheza em um arranjo que soa exagerado, mas ganha brilho com um forte (e arrebatador) riff de guitarra que Pedro S\u00e1 deixa flutuando pela atmosfera em um bom e estranho momento do show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o dil\u00favio, a suavidade volta a marcar presen\u00e7a com &#8220;The Man I Love&#8221; de George &amp; Ira Gershwin. Minutos de devo\u00e7\u00e3o depois, o p\u00fablico assovia e d\u00e1 sinais de participa\u00e7\u00e3o pela primeira vez na noite. \u00c9 &#8220;Come As You Are&#8221;, um dos sucessos do \u00e1lbum &#8220;Nevermind&#8221;, do Nirvana, o disco mais famoso do movimento &#8211; norte-americano &#8211; grunge. Pedro S\u00e1 conduz a balada fazendo na guitarra o que no Nirvana era contrabaixo. O p\u00fablico canta, t\u00edmido, mas canta. Ao quase final da m\u00fasica, Caetano levanta do banquinho pela primeira vez no show (e j\u00e1 era a oitava can\u00e7\u00e3o), simulando atirar no p\u00fablico com a arma imagin\u00e1ria que Kurt Cobain dizia n\u00e3o ter na letra da m\u00fasica. A performance arranca aplausos do p\u00fablico, que ovaciona, tamb\u00e9m, a mais paulista que americana &#8220;Feelings&#8221;, de Morris Albert.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano, ent\u00e3o, apresenta a sua \u00fanica m\u00fasica in\u00e9dita do repert\u00f3rio, um sambinha pra l\u00e1 de bacana que explica que seu autor, &#8220;diferentemente de Osama e Condolezza&#8221;, n\u00e3o acredita em Deus. O passeio pela l\u00edngua p\u00e1tria rende uma declara\u00e7\u00e3o de amor a Nova York (via leitura de um trecho de seu livro &#8220;Verdade Tropical&#8221;, p\u00e1ginas 504\/505: &#8230;&#8217;\u00c9 completamente estimulante sentir-se a vontade na capital sax\u00e3 do Imp\u00e9rio Mundial&#8217;&#8230;) e serve para relembrar Carmen Miranda (a primeira a cantar em l\u00edngua portuguesa e conquistar os States, como n\u00e3o), em uma triste vers\u00e3o de &#8220;Adeus Batucada&#8221;. Com a ben\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto &#8211; &#8220;que tudo sabe e tudo ensina a todos&#8221; &#8211; surge uma vers\u00e3o da can\u00e7\u00e3o que Assis Valente comp\u00f4s especialmente para Carmen Miranda cantar, mas ela n\u00e3o ousou gravar, deixando a batucada para os jovens Novos Baianos: Brasil Pandeiro (sintom\u00e1tico que em um show de can\u00e7\u00f5es norte-americanas, uma can\u00e7\u00e3o brasileira ateste que &#8220;o Tio Sam est\u00e1 querendo conhecer a nossa batucada&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um ex\u00edmio exerc\u00edcio de bate\/assopra, Caetano brinca com suas d\u00favidas, em frente ao p\u00fablico, divertindo, entretendo e criando a sua arte. O exerc\u00edcio faz o m\u00fasico explicar que \u00e9 imposs\u00edvel acreditar que um disco de Caetano Veloso cantando standarts norte-americanos tenha chance nas paradas dos Estados Unidos, assim como &#8220;Fina Estampa&#8221; (seu disco em espanhol) n\u00e3o podia competir em vendagens com Christina Aguilera. A deixa permite an\u00e1lises: &#8220;Eu sou um cara obl\u00edquo&#8221;, avalia Caetano, contando que quando gravou em espanhol, apenas quis ampliar o alcance de suas interpreta\u00e7\u00f5es, mas sabia que n\u00e3o tinha como competir no mercado hisp\u00e2nico. Por\u00e9m, os caminhos tortos fizeram o obl\u00edquo Caetano encontrar o obl\u00edquo cineasta Pedro Almod\u00f3var. E d\u00e1-lhe &#8220;Cucurucucu Paloma&#8221;, irrepreens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show caminha para o final, mas Caetano ainda exercita suas liga\u00e7\u00f5es obl\u00edquas, unindo a No Wave (movimento novaiorquino do fim dos anos setenta) de uma ex-banda de Arto Lindsay (na minimalista e curtinha Detached) com o Caetano &#8220;Estrangeiro&#8221; produzido pelo pr\u00f3prio Arto, vertendo opini\u00f5es de famosos como Cole Porter, Paul Gauguin e Claude Levis-Strauss sobre o Rio de Janeiro, a cidade que o interlocutor &#8220;menos a conhecera, mais a amara, e \u00e9 cego de tanto v\u00ea-la&#8221;, perfeito modo de validar seu modo de olhar &#8216;estrangeiro&#8217; ao admirar o cancioneiro gringo. O golpe final com &#8220;The Carioca&#8221; (o Brasil visto &#8211; pelos gringos &#8211; e dan\u00e7ado por Ginger Rogers e Fred Astaire) n\u00e3o serve para arrematar a noite. Caetano ainda volta, emociona com uma bela vers\u00e3o de &#8220;Love Me Tender&#8221; (eternizada na voz de Elvis Presley) e &#8216;amea\u00e7a&#8217;, para alegria do p\u00fablico, uma sess\u00e3o de &#8220;standarts brasileiros&#8221;, descendo as cortinas ao som de &#8220;Mam\u00e3e Eu Quero&#8221; (que chegou a ser gravada por um trio vocal norte-americano nos anos 50, as The Andrews Sisters).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do embate entre a paix\u00e3o pela l\u00edngua portuguesa e o poder da l\u00edngua inglesa surge &#8220;A Foreign Sound&#8221;, um show que n\u00e3o re\u00fane sucessos como os de &#8220;Noites do Sert\u00e3o Ao Vivo&#8221; (2001) (que trazia, entre outras, &#8220;Tropic\u00e1lia&#8221;, &#8220;Meia Lua Inteira&#8221; e &#8220;Menino do Rio&#8221;) ou &#8220;Prenda Minha&#8221; (1998) (que ultrapassou a marca de 1 milh\u00e3o de c\u00f3pias, sustentado pelo sucesso de &#8220;Sozinho&#8221;), mas que consegue brilho na estranheza de ver (e ouvir) standarts norte-americanos em arranjos \u00e0 la Caetano, obl\u00edquos, por\u00e9m, bastante pessoais. \u00c9 um show at\u00edpico, como \u00e9, alias, o pr\u00f3prio disco (segundo o pr\u00f3prio Caetano), mas bonito, muito bonito. Entre a paix\u00e3o e o poder, sobrevive a musicalidade de Caetano Veloso, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o brasileira, nem americana, nem espanhola, mas mundial.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Caetano Veloso - A Foreign Sound Live [Full Album]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZRtFFNzlQNg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 um show at\u00edpico, como \u00e9, alias, o pr\u00f3prio disco (segundo o pr\u00f3prio Caetano), mas bonito, muito bonito.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/04\/08\/ao-vivo-caetano-veloso-trafega-entre-a-paixao-e-o-poder-no-show-a-foreign-sound\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":78479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1972],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78477"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78477"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78481,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78477\/revisions\/78481"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}