{"id":78466,"date":"2023-12-08T15:11:32","date_gmt":"2023-12-08T18:11:32","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=78466"},"modified":"2024-01-14T23:50:13","modified_gmt":"2024-01-15T02:50:13","slug":"caetano-veloso-em-detalhes-lado-c-de-luiz-felipe-carneiro-e-tito-guedes-e-um-livro-excepcional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/12\/08\/caetano-veloso-em-detalhes-lado-c-de-luiz-felipe-carneiro-e-tito-guedes-e-um-livro-excepcional\/","title":{"rendered":"Caetano Veloso em detalhes: \u201cLado C\u201d, de Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes, \u00e9 um livro excepcional"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-78488 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"719\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc2.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc2-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\">texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1983, o ent\u00e3o colunista da Folha de S\u00e3o Paulo (h\u00e1 muito atuando como correspondente em Nova York) Paulo Francis apelidou Caetano Veloso como \u201cpaj\u00e9 sujo, doce e maltrapilho\u201d, num artigo em que discorria sobre uma entrevista realizada na cidade americana com Mick Jagger pouco antes, e que contou com a participa\u00e7\u00e3o do jornalista Roberto D\u2019\u00c1vila. Francis cutuca, especialmente, a maneira com a qual o cantor, de forma aparentemente espont\u00e2nea e deslumbrada, se dispunha a aturar um certo cinismo e condescend\u00eancia do \u00eddolo brit\u00e2nico. A regra, segundo o escritor, era de que Caetano seria capaz de fazer de tudo para se tornar relevante num momento em que o Olimpo reservado aos maiores da MPB parecia intranspon\u00edvel. O baiano, de uma forma que viria a ser repetida a exaust\u00e3o nos anos seguintes, respondeu \u00e0 altura, de modo incisivo: \u201cAs pessoas me debatem e me perguntam coisas porque sou pol\u00eamico mesmo. E da\u00ed?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a verdade \u00e9 que existem poucos artistas na linha evolutiva da m\u00fasica popular brasileira \u2013 como dizia Raul Seixas \u2013 que demandem e mere\u00e7am tanta an\u00e1lise quanto Caetano Veloso. E \u00e9 muito bom que seja assim: \u201cLado C: A Trajet\u00f3ria Musical de Caetano Veloso At\u00e9 a Reinven\u00e7\u00e3o com a Banda C\u00ea\u201d (2022), a mais nova obra dos jornalistas Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes, lan\u00e7ada pela editora M\u00e1quina de Livros, se prop\u00f5e a discorrer com esperteza e gra\u00e7a sobre um dos aspectos mais not\u00e1veis da carreira de Caetano: o musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carneiro e Guedes, vale citar, foram os respons\u00e1veis pelo quadro A Caravana do Del\u00edrio, apresentado por ambos como uma pe\u00e7a mais do que bem-vinda ao universo expandido do canal <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@AltaFidelidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alta Fidelidade<\/a>, mantido pelo primeiro h\u00e1 mais de dez anos com a premissa de discutir m\u00fasica pop de maneira ao mesmo tempo coesa, inclusiva e muito, muito divertida. A bordo d&#8217;A Caravana, a dupla se debru\u00e7ou sobre algumas das mais intrigantes e imersivas discografias da hist\u00f3ria do pop nacional. E isso inclui, naturalmente, a Caetano Veloso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o pr\u00f3prio t\u00edtulo j\u00e1 faz quest\u00e3o de mostrar, o livro \u00e9 uma iniciativa did\u00e1tica e meticulosa de tra\u00e7ar um panorama da carreira de Veloso tomando como ponto inicial \u2013 e final \u2013 o fim de suas atividades ao lado dos m\u00fasicos cariocas Pedro S\u00e1 (guitarra), Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e piano el\u00e9trico) e Marcelo Callado (bateria), coletivamente conhecidos como Banda C\u00ea. Durante dez anos, entre 2005 e 2015, a alian\u00e7a entre os jovens instrumentistas e o compositor santamarense rendeu tr\u00eas discos de est\u00fadio, tr\u00eas registros ao vivo, e diversas turn\u00eas pelo Brasil e pelo exterior. \u00c9 certeiro, da parte dos bi\u00f3grafos, come\u00e7ar tra\u00e7ando um paralelo sobre a carreira de Caetano que nos leva ao in\u00edcio dos anos 70, com o personagem central exilado e isolado em Londres. Ao lado de Jards Macal\u00e9, \u00c1ureo de Souza, Moacyr Alburquerque e Tutty Moreno, Caetano produziria um dos mais celebrados discos de m\u00fasica popular da hist\u00f3ria do Brasil, \u201cTransa\u201d (1972) \u2013 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/09\/clube-da-esquina-eleito-melhor-album-brasileiro-de-todos-os-tempos-conheca-o-top-10\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">8\u00ba melhor disco brasileiro de todos os tempos<\/a> segundo vota\u00e7\u00e3o do podcast Discoteca B\u00e1sica -, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/28\/transa-ao-vivo-caetano-veloso-num-dos-shows-mais-bonitos-que-se-tem-noticia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que recentemente foi recriado ao vivo<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta do ex\u00edlio, ap\u00f3s briga com Macal\u00e9 e participa\u00e7\u00f5es pontuais de alguns dos m\u00fasicos j\u00e1 citados em \u201cAra\u00e7\u00e1 Azul\u201d (1972) e decisivas nos \u00e1lbuns g\u00eameos \u201cQualquer Coisa\u201d e \u201cJ\u00f3ia\u201d (1975), ele embarca em uma pol\u00eamica temporada ao lado da Banda Black Rio para divulgar \u201cBicho\u201d (1977). No entanto, Veloso continuava brincando com a ideia de ter uma banda para si. E a oportunidade veio com a forma\u00e7\u00e3o d&#8217;A Outra Banda da Terra, que acompanhou o artista entre 1978 e 1983 \u2013 e gravou cinco discos com o baiano \u2013 e tamb\u00e9m junto da Banda Nova, que se metamorfoseou conforme Caetano avan\u00e7ou ao longo dos anos 1980 ap\u00f3s as grava\u00e7\u00f5es daquele que se anunciava como seu disco mais \u201crock\u201d, \u201cVel\u00f4\u201d (1984).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte, no entanto, em que explorou territ\u00f3rios que fariam toda a diferen\u00e7a no ponto futuro sobre o qual Guedes e Carneiro focam suas lentes. Ap\u00f3s duas colabora\u00e7\u00f5es com o produtor e m\u00fasico anglo-brasileiro Arto Lindsay (\u201cEstrangeiro\u201d, de 1989, e \u201cCirculad\u00f4\u201d, de 1991), Caetano descobriu, ao longo da turn\u00ea deste \u00faltimo, um aliado valioso na forma do diretor musical do espet\u00e1culo, Jacques Morelembaum. Levando em considera\u00e7\u00e3o os v\u00e1rios discos que fez ao longo dos cerca de 15 anos, produzindo tanto resultados multi-aclamados pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico (como \u201cFina Estampa\u201d, de 1994, ou \u201cPrenda Minha\u201d, gravado ao vivo em 1997 e lan\u00e7ado no ano seguinte) quanto \u00e1lbuns que acenavam ou somente para as audi\u00eancias (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/04\/08\/ao-vivo-caetano-veloso-trafega-entre-a-paixao-e-o-poder-no-show-a-foreign-sound\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como \u201cA Foreign Sound\u201d, 2004<\/a>) e para a m\u00eddia especializada (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/10\/08\/tres-discos-superfantastico-ritchie-e-caetano-veloso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como \u201cEu N\u00e3o Pe\u00e7o Desculpa\u201d, de 2001<\/a>), um per\u00edodo muito bem aproveitado n\u00e3o deixa de trazer certo desgaste, que tamb\u00e9m se anunciava na vida pessoal do protagonista \u2013 Caetano se divorciara de sua esposa, a empres\u00e1ria Paula Lavigne. Era compreens\u00edvel que o compositor precisasse de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi o que ele conseguiu, por meio da associa\u00e7\u00e3o com a banda com quem divide o t\u00edtulo do livro; cooptando o guitarrista Pedro S\u00e1 da cena de rock alternativo carioca dos anos 1990 (por meio de uma amizade deste com o filho primog\u00eanito, Moreno, que tamb\u00e9m virou um fiel colaborador), e, por associa\u00e7\u00e3o, a cozinha r\u00edtmica de Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria), Caetano conseguiu o que queria: uma banda enxuta, jovem, com peso de grupo de rock (\u00e9 sabido que o artista foi inspirado ao formato atrav\u00e9s de sua exposi\u00e7\u00e3o, por meio de Pedro, aos Pixies), e que o ajudaria a transpor suas ideias para uma linguagem que dialogasse com um p\u00fablico mais jovem, que a princ\u00edpio associaria sua imagem ao sucesso da regrava\u00e7\u00e3o de \u201cSozinho\u201d, de Peninha. O que se <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/09\/18\/disco-da-semana-6\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">iniciou com \u201cC\u00ea\u201d<\/a> (2006) \u00e9 um processo de troca de pele antropof\u00e1gico por meio de Veloso. Entre versos pungentes supostamente direcionados, ou influenciados, pela separa\u00e7\u00e3o matrimonial (\u201c[&#8230;] Tu \u00e9 g\u00eania, gata, etecetera\/Mas &#8216;c\u00ea foi mesmo rata demais [&#8230;]\u201d de \u201cRocks\u201d, ou o refr\u00e3o de \u201cOdeio\u201d, recheado de ironia &#8211; \u201cOdeio voc\u00ea\/Odeio voc\u00ea\u201d) e pela liberdade decorrente disso \u2013 tal como na abertura, em \u201cOutro\u201d, que inicia os trabalhos com \u201cVoc\u00ea nem vai me reconhecer\/quando eu passar por voc\u00ea\u201d -, Caetano parece ter mais f\u00f4lego em aceitar seu papel como um estranho em uma terra estranha. Isso \u00e9 percept\u00edvel nos outros grandes momentos do \u00e1lbum, como em \u201cN\u00e3o Me Arrependo\u201d, \u201cMusa H\u00edbrida\u201d e \u201cUm Sonho\u201d, al\u00e9m da eulogia de \u201cWaly Salom\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma longa turn\u00ea ao lado do trio de m\u00fasicos, grande aclama\u00e7\u00e3o da maior parte dos jovens em suas audi\u00eancias, e uma surpreendente boa vontade por parte da cr\u00edtica especializada separam \u201cC\u00ea\u201d de \u201cZii e Zie\u201d (2009), <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/06\/14\/caetano-veloso-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que chegou ao p\u00fablico intrigando e atraindo ao mesmo tempo<\/a>. Com o misterioso subt\u00edtulo \u201cTransambas\u201d, este encontrou menos boa vontade do que o outro, e, no entanto, n\u00e3o deixou de ser visto como algo al\u00e9m de um bom trabalho. Embora truncado em muitas de suas rimas (\u201cBrilhou, piscou [\u2026] Ardeu, resplandeceu\/A nave da cidade\u201d, em \u201cPerdeu\u201d) e talvez claro demais em outras (\u201cO fato dos Americanos\/Desrespeitarem\/Os direitos humanos\/Em solo cubano\/\u00c9 por demais forte\/Simbolicamente\/Para eu n\u00e3o me abalar\u201d, de \u201cA Base de Guant\u00e1namo\u201d), \u201cZii e Zie\u201d \u00e9, conforme o texto de Guedes e Carneiro, um disco chuvoso, numa atmosfera que \u00e9 carregada desde a capa. Talvez o fato de ter tido boa parte de suas m\u00fasicas demonstradas primeiro no projeto multim\u00eddia \u201cObra em Progresso\u201d tenha amolecido o cora\u00e7\u00e3o dos aficionados por Caetano antes do lan\u00e7amento. Somente assim can\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00e3o inspiradas tal como as outras \u2013 como a confusa \u201cLob\u00e3o Tem Raz\u00e3o\u201d, a quase intranspon\u00edvel \u201cIncompatibilidade de G\u00eanios\u201d e a arrastada \u201cIngenuidade\u201d \u2013 poderiam figurar t\u00e3o facilmente em meio a diversas outras boas adi\u00e7\u00f5es ao repert\u00f3rio de Caetano. N\u00e3o que ele se importasse tanto com isso: em meio a novos relacionamentos e disposto a fazer mais uma turn\u00ea internacional, quaisquer cr\u00edticas n\u00e3o muito favor\u00e1veis n\u00e3o impactaram o cantor tanto quanto talvez tivessem nos anos 1970 ou 1980. Seria natural que o ritmo continuasse de forma est\u00e1vel. N\u00e3o foi exatamente o caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre manchetes espertamente lembradas pelos escritores (o famoso epis\u00f3dio no qual Caetano virou not\u00edcia ao estacionar no Leblon) e novas empreitadas (a produ\u00e7\u00e3o de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/03\/cds-gal-costa-marisa-monte-karina-buhr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Recanto<\/a>\u201d, da amiga de longa data Gal Costa), levariam outros tr\u00eas anos at\u00e9 que Caetano e a banda C\u00ea se reencontrassem. Aconteceu, e com \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d (2012), os quatro m\u00fasicos parecem ter alcan\u00e7ado uma esp\u00e9cie de ponto l\u00f3gico de conclus\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/31\/cds-abracaco-de-caetano-veloso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ou, diriam os indispostos, esgotamento<\/a>) do modelo adotado em 2006. Basta escutar a faixa de abertura, \u201cA Bossa Nova \u00e9 Foda\u201d, com suas cita\u00e7\u00f5es a lutadores de MMA, hashtags e rever\u00eancias a (sim) Jo\u00e3o Gilberto, para se dar conta que a abordagem \u201catualizada\u201d de Caetano come\u00e7ava a atingir estados de limita\u00e7\u00e3o. Na longa e progressiva \u201cUm Comunista\u201d, com seus arranjos r\u00edtmicos e guitarr\u00edsticos angulares e letra homenageando Carlos Marighella, bem como na propulsiva \u201cO Imp\u00e9rio da Lei\u201d, percebe-se uma moderniza\u00e7\u00e3o, e otimiza\u00e7\u00e3o, da abordagem de Macal\u00e9 para \u201cTransa\u201d: a ideia de m\u00fasicos que colaborassem com as cria\u00e7\u00f5es de Caetano partindo do modo particular deste \u00faltimo tocar viol\u00e3o. \u201cEstou Triste\u201d deixa a peteca cair, embora \u201cFunk Mel\u00f3dico\u201d chute a mesma alto demais para saber com seguran\u00e7a onde ela vai cair (por sorte, ela cai no lugar certo). \u201cQuando o Galo Cantou\u201d e \u201cGayana\u201d, momentos \u00f3timos que passam em branco em meio ao repert\u00f3rio, s\u00e3o devidamente lembradas pelos autores, que tamb\u00e9m acertam ao enquadrar \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d como um encontro entre a disson\u00e2ncia de \u201cC\u00ea\u201d e o experimentalismo de \u201cZii e Zie\u201d, com maturidade e solidez suficientes para assegurar o sucesso da associa\u00e7\u00e3o entre compositor e banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro tamb\u00e9m acerta em come\u00e7ar pelo fim: a noite de 21 de junho de 2015, quando Caetano e os m\u00fasicos da banda C\u00ea se despediram pela \u00faltima vez do p\u00fablico que, em frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o J\u00falio Prestes, no centro de S\u00e3o Paulo, testemunhou o fechamento da turn\u00ea de \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d, que havia come\u00e7ado quase tr\u00eas anos antes. Tal acerto se evidencia pelo cuidado dos escritores ao detalhar as experi\u00eancias das quatro turn\u00eas (contando os shows de \u201cObra em Progresso\u201d) realizadas por Caetano, Ricardo, Marcelo e Pedro a partir de 2006. Seja em momentos redentores (a \u201cpr\u00e9-estreia\u201d de \u201cC\u00ea\u201d no Tim Festival, seguidas pelas apresenta\u00e7\u00f5es do repert\u00f3rio no Circo Voador do Rio) ou tensos (como o show que originou o primeiro dos registros ao vivo do quarteto, \u201cMultishow: C\u00ea Ao Vivo\u201d, apontado pelos m\u00fasicos como aqu\u00e9m do atingido em outras apresenta\u00e7\u00f5es), os shows protagonizados pelos quatro m\u00fasicos s\u00e3o parte chave das transi\u00e7\u00f5es entre um trabalho e outro. Caetano j\u00e1 se mostrava inquieto e disposto a partir para outros projetos \u2013 como a turn\u00ea que come\u00e7aria em 2015 ao lado de Gilberto Gil, ou o mais recente disco de in\u00e9ditas, \u201cMeu Coco\u201d (2021 \u2013 o primeiro desde \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d). Da parte de Marcelo, Pedro e Ricardo, n\u00e3o permaneceram m\u00e1goas, conforme os tr\u00eas fazem quest\u00e3o de salientar em v\u00e1rios momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano tamb\u00e9m parece guardar muitas lembran\u00e7as \u00f3timas do per\u00edodo de 2005-2015. Por dez anos, ao lado de m\u00fasicos de outra gera\u00e7\u00e3o, com outra linguagem, foi capaz de ganhar um novo p\u00fablico sem deixar de ser t\u00e3o caracteristicamente Caetano Veloso: idiossincr\u00e1tico, iconoclasta, irreverente, ic\u00f4nico. Todos estes adjetivos tamb\u00e9m s\u00e3o cab\u00edveis ao trabalho de Carneiro e Guedes, que fazem um trabalho excepcional, atrativo ao f\u00e3 de longa data assim como ao ne\u00f3fito em termos de MPB, ao documentar e analisar a trajet\u00f3ria de um dos mais relevantes e mitol\u00f3gicos personagens da hist\u00f3ria do cancioneiro popular com foco em um de seus per\u00edodos mais misteriosos, discutidos, e irresist\u00edveis. \u00c9 revelador que o pr\u00f3prio Caetano pare\u00e7a ter se dado conta de uma outra dimens\u00e3o do pr\u00f3prio legado, e, quem sabe sem querer, acabou retornando ao formato de banda t\u00e3o bem evidenciado pelos dois autores: apresentando pela primeira vez, em 2023, um show baseado diretamente no repert\u00f3rio de \u201cTransa\u201d, no qual conta inclusive com a participa\u00e7\u00e3o de Jards Macal\u00e9 (em um espet\u00e1culo que debutou no festival Doce Maravilha, de Nelson Motta), Caetano abra\u00e7ou sua obra de maneira respeitosa, e nunca olhando para tr\u00e1s em detrimento de trabalhos futuros. O outrora \u201cpaj\u00e9 sujo e maltrapilho\u201d parece ter aprendido a abra\u00e7ar seu pr\u00f3prio legado \u2013 pelo qual os dois autores mostram profundo respeito e ao qual fazem mais do que justi\u00e7a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-78489\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1078\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ladoc3-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cLado C: A Trajet\u00f3ria Musical de Caetano Veloso At\u00e9 a Reinven\u00e7\u00e3o com a Banda C\u00ea\u201d (2022) se prop\u00f5e a discorrer com esperteza e gra\u00e7a sobre um dos aspectos mais not\u00e1veis da carreira de Caetano: o musical.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/12\/08\/caetano-veloso-em-detalhes-lado-c-de-luiz-felipe-carneiro-e-tito-guedes-e-um-livro-excepcional\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":78486,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[1972,6953],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78466"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78466"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78466\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78972,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78466\/revisions\/78972"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78486"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}