{"id":77919,"date":"2006-01-24T22:10:00","date_gmt":"2006-01-25T00:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77919"},"modified":"2023-11-12T22:28:22","modified_gmt":"2023-11-13T01:28:22","slug":"cinema-munique-e-incomodo-constrangedor-e-irreal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/01\/24\/cinema-munique-e-incomodo-constrangedor-e-irreal\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Munique&#8221; \u00e9 incomodo, constrangedor e irreal"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-77922 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/munich1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/munich1.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/munich1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso muito cuidado para se analisar &#8220;Munique&#8221; (&#8220;Munich&#8221;, 2005). N\u00e3o s\u00f3 por ser obra de um dos cineastas mais importantes de todos os tempos, Steven Spielberg, mas principalmente por lidar com pseudos-fatos reais e pesar a m\u00e3o na milit\u00e2ncia pol\u00edtica\/religiosa, que no caso em quest\u00e3o envolve palestinos e \u00e1rabes, o terrorismo abarcado no ideal de que &#8220;viol\u00eancia gera viol\u00eancia&#8221; e at\u00e9 d\u00e1 uma m\u00e3ozinha para a pol\u00edtica preventiva do senhor George W. Bush. Mais do que um blockbuster arrasa-quarteir\u00e3o, &#8220;Munique&#8221; \u00e9 uma obra pesada e pensada, que exagera na dura\u00e7\u00e3o, na vis\u00e3o pessoal do diretor (que humaniza terroristas palestinos) e nada tem de pacifista. Bobagem analisar o filme por seus valores est\u00e9ticos. &#8220;Munique&#8221; \u00e9 cinema de guerrilha que serve ao prop\u00f3sito de um povo, e seu formato \u00e9 o que menos importa, mas a mensagem que traz \u00e9 que inquieta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme de Spielberg desenha o contra-ataque do Mossad, o servi\u00e7o secreto israelense, aos terroristas \u00e1rabes que, durante as Olimp\u00edadas de 1972, na Alemanha, mataram onze atletas de Israel, dois na Vila Ol\u00edmpica e os outros nove em um aeroporto. Spielberg filma com viol\u00eancia e certa pieguice as cenas do seq\u00fcestro e morte dos atletas. E com frieza o contra-ataque de Mossad, autorizado pela ent\u00e3o primeira-ministra Golda Meir, e que contou com a organiza\u00e7\u00e3o do esquadr\u00e3o secreto Cesarea, liderado pelo agente Avner Kauffman. O ponto de partida de Spielberg foi o livro &#8220;A Hora da Vingan\u00e7a&#8221;, do canadense George Jonas, baseado em depoimentos do agente l\u00edder da miss\u00e3o, mas nunca apontado como relato real por Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que isso, o personagem Avner (interpretado por Eric Bana) \u00e9 desenhado com bastante cuidado. Ao mesmo tempo em que lidera um grupo de exterm\u00ednio que visa matar todos os l\u00edderes do atentado em Munique, que tamb\u00e9m ficou conhecido como Setembro Negro, Avner \u00e9 um pai de fam\u00edlia dedicado, que se ausenta no meio dos preparativos de uma nova miss\u00e3o para ver a filha rec\u00e9m-nascida. No entanto, essa faceta \u00e9 exposta apenas nesta passagem (e no final confuso), pois conforme a miss\u00e3o vai se transformando em realidade, e os corpos palestinos come\u00e7am a se amontoar no curr\u00edculo do agente, Avner parece esquecer que t\u00eam uma fam\u00edlia e s\u00f3 deseja exterminar todos os lideres do terrorismo rival. Em uma cena capital, um agente franc\u00eas vende informa\u00e7\u00f5es de que o l\u00edder que acabara de tomar o lugar do homem assassinado pelo esquadr\u00e3o Ces\u00e1rea est\u00e1 na cidade. E Avner prepara mais um ataque, fora dos planos, j\u00e1 que o l\u00edder em quest\u00e3o n\u00e3o participou do Setembro Negro, mas \u00e9 um inimigo que dar\u00e1 seq\u00fc\u00eancia aos ataques terroristas, e precisa ser eliminado. A grande tolice do gesto \u00e9 que para cada l\u00edder assassinado, um outro ser\u00e1 colocado no lugar. E para cada assassinato, um ato de repres\u00e1lia \u00e9 executado pelo lado oposto, incluindo seq\u00fcestros de avi\u00f5es, bombas em trens, ataques a embaixadas. A viol\u00eancia que gera viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00edticos norte-americanos renderam elogios ao filme escrevendo que Spilberg humanizou os terroristas. Um cr\u00edtico em especial dissertou que \u00e9 poss\u00edvel sentir &#8220;simpatia por estes homens&#8221;. Humanizar os terroristas? Eles s\u00e3o marcianos? A Guerra Santa que tanto abala o Oriente M\u00e9dio acaba por ser pano de fundo nesta hist\u00f3ria do cineasta, que tenta a todo custo justificar a pol\u00edtica de defesa preventiva de um Estado, o que faz a Hist\u00f3ria (com H mai\u00fasculo) saltar de 1972 e chegar at\u00e9 os tempos atuais de George W. Bush. &#8220;Munique&#8221; \u00e9 altamente militante, e n\u00e3o d\u00e1 para dizer que o diretor n\u00e3o sabia em que cumbuca estava metendo a m\u00e3o. Spielberg teve auxilio de rabinos, pol\u00edticos, do ex-presidente Bill Clinton, e do conselheiro pol\u00edtico Eyal Arad, colaborador de Ariel Sharon, entre tantos outros. Mudou o nome do filme, que seria o forte &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, e ainda recrutou o dramaturgo Tony Kushner para amaciar a crueldade do roteiro de Eric Roth dando aos agentes de Mossad uma carga de drama de consci\u00eancia. Com tantas m\u00e3os no mesmo projeto, h\u00e1 de se entender o qu\u00e3o espinhoso era o tema, e o qu\u00e3o dif\u00edcil era agradar a gregos e troianos, judeus e mu\u00e7ulmanos, israelenses e palestinos. N\u00e3o agradou ningu\u00e9m, t\u00e3o somente os norte-americanos, que mesmo assim v\u00eaem o filme com certo cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como cinema, &#8220;Munique&#8221; \u00e9 extremamente pol\u00eamico, ainda mais surgindo com a assinatura de Steven Spilberg, um cara que traz no curr\u00edculo obras milion\u00e1rias como &#8220;E.T.&#8221;, &#8220;Tubar\u00e3o&#8221; e &#8220;Jurrassic Park&#8221; (entre tantas outras), e que j\u00e1 tratou do tema pol\u00edtico\/religioso com soberba em &#8220;A Lista de Schindler&#8221;. As imagens de &#8220;Munique&#8221; tendem a vender como real uma hist\u00f3ria baseada no depoimento de um \u00fanico homem, que \u00e9 registrada como verdade absoluta, e pode ser encarada futuramente como o resumo de um per\u00edodo. N\u00e3o \u00e9. O cartaz apresenta: &#8220;Em 1972, 11 atletas de Israel foram assassinados por terroristas. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria do que aconteceu depois&#8221;. Baseado em fatos reais, &#8220;Munique&#8221; trope\u00e7a na pieguice moral (a cena de um atleta de Israel prestes a fugir por uma janela, mas que decide retornar ao quarto para lutar com uma faca contra metralhadoras \u00e9 extremamente grandiloq\u00fcente e constrangedora), no peso da milit\u00e2ncia pol\u00edtica (que transforma a ca\u00e7ada de Mossad num ato de justi\u00e7a enquanto as retalia\u00e7\u00f5es palestinas s\u00e3o exibidas em televis\u00e3o como atos terroristas) que exibe apenas um lado dos fatos e, principalmente, na pseudodefesa de atos retaliativos que justificam a morte de dezenas de milhares de pessoas com base no argumento da prote\u00e7\u00e3o do Estado. Entre extremos, &#8220;Munique&#8221; \u00e9 muito mais pol\u00edtica do que cinema. E Spilberg domina mais a segunda arte do que a primeira. O resultado final \u00e9 incomodo, constrangedor e irreal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Munich (2005) Theatrical Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OuT_uh0CAf8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Baseado em fatos reais, &#8220;Munique&#8221; trope\u00e7a na pieguice moral, no peso da milit\u00e2ncia pol\u00edtica e, principalmente, na pseudodefesa de atos retaliativos que justificam a morte de dezenas de milhares de pessoas.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/01\/24\/cinema-munique-e-incomodo-constrangedor-e-irreal\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":77923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77919"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77919"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77925,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77919\/revisions\/77925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77923"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}