{"id":77850,"date":"2023-11-09T13:39:02","date_gmt":"2023-11-09T16:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=77850"},"modified":"2024-02-24T14:00:11","modified_gmt":"2024-02-24T17:00:11","slug":"entrevista-preocupa-me-quando-me-colocam-num-patamar-como-se-fosse-so-isso-nunca-e-so-isso-diz-ana-frango-eletrico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/09\/entrevista-preocupa-me-quando-me-colocam-num-patamar-como-se-fosse-so-isso-nunca-e-so-isso-diz-ana-frango-eletrico\/","title":{"rendered":"Ana Frango El\u00e9trico: &#8220;Preocupa-me quando me colocam num determinado patamar como se fosse s\u00f3 isso. Nunca \u00e9 s\u00f3 isso&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos desafios que \u00e9 colocado ao m\u00fasico popular contempor\u00e2neo consiste em estar \u00e0 altura ou at\u00e9 mesmo superar a barreira de um disco anterior aclamado e inspirado. De alguma forma, era essa a quest\u00e3o que se colocava sobre o \u00e1lbum,\u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/mechamadegatoqueeusousua\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua<\/a>\u201d (2023), lan\u00e7ado a 20 de outubro, que sucede ao celebrado \u201cLittle Electric Chicken Heart\u201d (2019) e dominar\u00e1 a conversa que mantenho com Ana Frango El\u00e9trico numa sala do piso superior do espa\u00e7o cultural Bota (Base Organizada da Toca das Artes), situado na freguesia lisboeta dos Anjos. \u201cA minha imposi\u00e7\u00e3o passava por fazer um disco para mim pr\u00f3pria. Quando isso acontece estamos sendo verdadeiros e originais e por ser para todos \u00e9 para todo o mundo\u201d, come\u00e7a por me dizer, estabelecendo igualmente uma ponte com o trabalho anterior: \u201cEu queria dialogar com \u2018Little Electric Chicken Heart\u2019 e as baladas da minha discografia, que neste \u00e1lbum t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de fazer uma conversa. Por mais que os discos sejam diferentes ou doidos, a pr\u00f3pria comunica\u00e7\u00e3o entre eles \u00e9 de ser antagonista e protagonista, rival e opositor. O que me move dentro de mim s\u00e3o as minhas oposi\u00e7\u00f5es e a reinven\u00e7\u00e3o. Por isso, oponho-me tanto que tudo faz mais sentido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pesquisas sonoras e as refer\u00eancias de vida que Ana transportou consigo fazem com que \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/mechamadegatoqueeusousua\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua<\/a>\u201d seja um trabalho vibrante, renovando heran\u00e7as musicais setentistas e oitentistas com uma pegada dan\u00e7ante de puro frescor e apresentando igualmente uma faceta baladeira de fino recorte emotivo e po\u00e9tico. O irresist\u00edvel single \u201cElectric Fish\u201d representa o pin\u00e1culo do groove e da frui\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum e desenvolve um paralelismo com a disco assertiva \u201cDr. Sabe Tudo\u201d, colando a explora\u00e7\u00e3o r\u00edtmica desenvolvida e assumindo a fun\u00e7\u00e3o de retorno no contexto do trabalho. Em faixas como \u201cNuvem Vermelha\u201d (marcada principalmente pela influ\u00eancia da harpista e compositora norte-americana Dorothy Ashby), \u201cInsista Em Mim\u201d ou na magn\u00edfica \u201cCamelo Azul\u201d, o disco entra num territ\u00f3rio amoroso, cinematogr\u00e1fico e igualmente sedutor, enquanto a envolvente \u201cCoisa Maluca\u201d parece situar-se a meio caminho dos diferentes estados de alma exibidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o desenrolar da entrevista, Ana Frango El\u00e9trico revela a sua verdadeira ess\u00eancia: uma personalidade cativante, espirituosa e atenta que assume igualmente a import\u00e2ncia do seu papel como produtora. \u201cDescobri recentemente que me considero uma pessoa construtivista suprematista russa, no sentido em que o sentimento \u00e9 a for\u00e7a motriz. Eu tamb\u00e9m analiso uma boa produ\u00e7\u00e3o como tendo diferentes tonalidades, timbres, come\u00e7os e finais. Por isso, nunca faria um disco inteiro sozinha ou um trabalho s\u00f3 de baladas. O \u00e1lbum para mim \u00e9 como um filme e tem a sua din\u00e2mica e esse aspecto \u00e9 muito importante\u201d, conta. Relativamente ao t\u00edtulo \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d, faz uma confiss\u00e3o: \u201cO voc\u00ea \u00e9 um pronome neutro e significa todo o mundo ao mesmo tempo e acedemos \u00e0 cabe\u00e7a do outro de uma forma profunda. Eu quis trazer isso para o disco assim como na preposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 t\u00e3o pessoal para mim como para quem est\u00e1 a ler o t\u00edtulo\u201d e prossegue: \u201cAcho que o nome \u00e9 flertivo e \u00e9 quase uma consequ\u00eancia do respeito ao pronome e de que emocionalmente sou sua\u201d. A partir da\u00ed, \u201co \u00e1lbum foi-se descobrindo atrav\u00e9s do t\u00edtulo\u201d e exibindo diversas facetas como o romantismo, a sexualidade ou a nostalgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspeto importante do trabalho e que o valorizou bastante foi a presen\u00e7a de diversos convidados. Desde os arranjos de cordas de Dora Morelenbaum e de metais, por Marlon Sette, sem esquecer a incr\u00edvel sec\u00e7\u00e3o r\u00edtmica composta pelo baixista Alberto Continentino e pelo baterista S\u00e9rgio Machado. \u201cAs colabora\u00e7\u00f5es neste \u00e1lbum tiveram a ver com o que eu imaginava para ele e com os m\u00fasicos que se relacionavam com determinadas faixas e tamb\u00e9m havia uma aposta de ter por perto pessoas que eram importantes na minha vida. Eu contei com o S\u00e9rgio Machado, o Alberto Continentino e o Guilherme Lirio como base para utilizar nas v\u00e1rias faixas e conduzi o processo dando liberdade aos m\u00fasicos, mas direcionando cada can\u00e7\u00e3o. N\u00f3s grav\u00e1mos as bases sem ensaios e as coisas decorreram de forma direta no est\u00fadio durante seis dias\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o seu modo de trabalho, que em \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d atingiu um novo ponto de supera\u00e7\u00e3o, Ana Frango El\u00e9trico relativiza a observa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 feita de ser uma perfeccionista. \u201cEu n\u00e3o sou assim com um \u2018take\u2019. Se ele tiver um pequeno erro, mas \u00e9 m\u00e1gico e est\u00e1-me mostrando amor, raiva, paz ou qualquer coisa que eu gostaria que passasse, isso \u00e9 o mais importante. No entanto sou obsessiva com o disco. Eu fa\u00e7o-o desde o in\u00edcio da minha carreira e no \u00e1lbum \u2018Morma\u00e7o Queima\u2019 (2018), que \u00e9 um disco estranho e anti-ind\u00fastria, eu pretendia ser respeitada por fazer aquilo que sou. Neste momento, reverencio parte da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e quando digo isso estou a referir-me \u00e0 engenharia de som, \u00e0 grava\u00e7\u00e3o, m\u00fasica, compositores e aos cantores e quero esfor\u00e7ar-me para fazer o meu melhor\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Lisboa para o Brasil, Ana Frango El\u00e9trico conversou com o Scream &amp; Yell. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Electric Fish\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/i1XguaKfhb0?list=OLAK5uy_mZ2l8dm7ElZ771wkdLAkztYp0umCOes0c\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando come\u00e7ou a compor o seu novo disco, \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d, em 2021, voc\u00ea tinha a inten\u00e7\u00e3o de expressar no\u00e7\u00f5es e sentimentos sobre um amor n\u00e3o-bin\u00e1rio, mas a sua vis\u00e3o como produtora e a vontade de renovar influ\u00eancias musicais brasileiras dos anos 70 e 80 tamb\u00e9m se imp\u00f4s. O que procurou alcan\u00e7ar objetivamente com este trabalho?<\/strong><br \/>\nEm primeiro lugar, este disco \u00e9 mais sobre interroga\u00e7\u00f5es, d\u00favidas, micro muta\u00e7\u00f5es e neologias pessoais do que qualquer coisa que seja exclamativa ou tenha um ponto de chegada espec\u00edfico \u2013 apesar de eu j\u00e1 ter uma ideia muito forte sobre o que queria desde o come\u00e7o. O resultado do \u00e1lbum est\u00e1 bastante ligado ao que eu pretendia. Sinto que \u00e9 o primeiro disco que fiz como desejava. De alguma forma, \u00e9 um trabalho em que procurei ser bastante verdadeira comigo, com as minhas refer\u00eancias de vida e com as minhas pesquisas. H\u00e1 sempre uma aproxima\u00e7\u00e3o aos outros \u00e1lbuns nem que seja por antagonismo. O meu primeiro disco, \u201cMorma\u00e7o Queima\u201d (2018), \u00e9 um anti-\u00e1lbum, anti-processo e anti-cantora e no meu segundo trabalho, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/29\/entrevista-ana-frango-eletrico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Little Electric Chicken Heart<\/a>\u201d (2019), sou eu a querer ser produtora e digo: \u201cSe voc\u00eas querem que fique nesta ind\u00fastria est\u00e1 bem, ent\u00e3o eu vou fazer um \u00e1lbum, mas \u00e9 uma experimenta\u00e7\u00e3o\u201d. Por isso, sinto que o \u201cLittle Electric Chicken Heart\u201d est\u00e1 ligado a uma pesquisa que foi feita em cima de Nora Ney, Johnny Alf, Dorothy Ashby ou Anita Oday, entre outros, e que est\u00e1 um pouco situado nos anos 50. Apesar de ser em torno das minhas composi\u00e7\u00f5es, tem a ver com um som e uma investiga\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea escutar o novo trabalho, apercebe-se da sua sonoridade incomum, mas \u00e9 de uma maneira menos cabe\u00e7a dura do que o \u00e1lbum anterior, porque o tom desse disco determinou muitas coisas. Em \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d (2023), as imposi\u00e7\u00f5es resultaram do que eu queria fazer e experimentar. \u00c9 um trabalho onde aproveitei o espa\u00e7o de produtora de mim mesma. Quando eu produzo outras pessoas n\u00e3o tenho tanta liberdade, embora coloque uma vis\u00e3o pessoal e tamb\u00e9m d\u00ea as minhas opini\u00f5es enfaticamente, mas estou a servi\u00e7o de um artista e quero que ele fique feliz. Por isso, procuramos chegar a um ponto comum e ele confia igualmente na perspetiva que apresento, j\u00e1 que me chamou por essa raz\u00e3o. No \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d tive uma liberdade est\u00e9tica muito grande na parte musical e visual e o maior objetivo era fazer experi\u00eancias. A contribui\u00e7\u00e3o desse disco relaciona-se com a sonoridade e a quest\u00e3o \u2018queer\u2019 e quando a menciono refiro-me \u00e0 diverg\u00eancia. Sinto que no Brasil n\u00e3o entendem assim e no \u2018press release\u2019 mudei a express\u00e3o para n\u00e3o-bin\u00e1rio, que \u00e9 como me identifico, para as pessoas entenderem melhor. Nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, deduzem esse conceito n\u00e3o s\u00f3 pela sigla \u2018Q\u2019, mas como \u2018queerness\u2019, o estranho e o divergente. Acho que o \u00e1lbum engloba esse t\u00f3pico e a est\u00e9tica que lhe est\u00e1 associada. Quando dizemos isso n\u00e3o falamos em est\u00e9tica gay ou sapat\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que possuem as suas, mas noto que no disco eu falo em \u2018queerness\u2019 esteticamente. O objetivo deste \u00e1lbum est\u00e1 relacionado com a sua contribui\u00e7\u00e3o e com a pesquisa sonora e de timbre, bem como o fato de eu como artista \u2018queer\u2019 ter autonomia para me expressar e assumir o comando da minha identidade no momento atual da ind\u00fastria musical, algo que foi vetado at\u00e9 meados dos anos 90. Por isso, a pot\u00eancia do meu trabalho \u00e9 sentir que posso afirmar-me, ter o controle est\u00e9tico da minha obra e sobre quem eu sou neste momento social da ind\u00fastria. Isso reflete-se na dire\u00e7\u00e3o musical e na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o pop \u201cElectric Fish\u201d voc\u00ea arranca o disco num tom festivo e escutamos um crossover que recorda Jamiroquai, Rita Lee e Earth Wind and Fire. Escolheu-o como primeiro single pelo seu imediatismo ou para simbolizar o seu momento art\u00edstico atual?<\/strong><br \/>\nAcho que se trata de uma escolha conjunta da equipe que tem o selo Risco (Brasil), a Mr. Bongo (Inglaterra) e o Think! Records (Jap\u00e3o). Sinto que foi um desejo principalmente da Mr. Bongo por querer abordar o ingl\u00eas como l\u00edngua e de ser acess\u00edvel para o lan\u00e7amento que pens\u00e1vamos a n\u00edvel mundial. Acredito que a m\u00fasica cumpriu essa fun\u00e7\u00e3o que \u00e9 o mais importante. Apesar de eu ser uma pessoa que odiava o fato da primeira can\u00e7\u00e3o do disco ser o single. Mas, engoli a l\u00edngua. Tamb\u00e9m quis deixar de lado os meus \u201cachismos exacerbados\u201d ligados ao meu primeiro disco antagonista, \u201cMorma\u00e7o Queima\u201d, contra a ind\u00fastria e contra tudo. Achei que era bom para mim e para todos e decidi avan\u00e7ar. Acho que o fonograma comunica-se tamb\u00e9m com a faixa \u201cMulher, Homem, Bicho\u201d de alguma forma. Ele dialoga com essa m\u00fasica e com uma presen\u00e7a que vir\u00e1 e depois segue-se \u201cInsista Em Mim\u201d que a complementa de certa maneira. \u00c9 dif\u00edcil escolher um single para o meu novo disco, porque ele n\u00e3o tem uma unidade de produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 muito diversificado. Acredito que cada m\u00fasica daria um single. Eu tenho sempre uma preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica no \u00e1lbum. Neste trabalho, eu tinha can\u00e7\u00f5es e o meu processo \u00e9 em torno da can\u00e7\u00e3o, porque eu gosto bastante dessa forma nem que ela seja doida. De certa forma, quis esticar as possibilidades das m\u00fasicas. As faixas dan\u00e7antes que s\u00e3o com bateria org\u00e2nica t\u00eam uma import\u00e2ncia fundamental no \u00e1lbum que passavam por eu tentar descobrir os limites da m\u00fasica org\u00e2nica. Por isso, \u201cElectric Fish\u201d \u00e9 decisiva nesse sentido. Mais importante do que ser o single, ela tinha uma grande import\u00e2ncia como primeira can\u00e7\u00e3o na minha discografia. At\u00e9 ent\u00e3o os meus come\u00e7os de disco eram din\u00e2micos e neste trabalho eu quis come\u00e7ar num registo \u2018in your face\u2019 e depois descer e subir variando as condu\u00e7\u00f5es. Antes de saber qual era a faixa escolhida, eu queria abrir com essa m\u00fasica. Mesmo sendo cantada em ingl\u00eas e gerando algumas d\u00favidas iniciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cCamelo Azul\u201d voc\u00ea revela maior ousadia quando canta: \u201cSeu cheiro me lembra meu lado feminino, mas hoje sou menino \/Seu cabelo \u00e9 brega sua jaqueta amarela \/ Me deixe transar com voc\u00ea\u201d. Qual \u00e9 o seu coment\u00e1rio sobre a can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu canto essa can\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitos anos, guardei-a durante bastante tempo e s\u00f3 a gravei recentemente. A m\u00fasica foi composta pelo Victor Conduru, que \u00e9 um grande amigo meu do col\u00e9gio. Ele \u00e9 fil\u00f3sofo, comp\u00f5e pouco, nem viol\u00e3o tem e segue uma linha meio Baden Powell. Senti que era a hora de grav\u00e1-la, porque ela \u00e9 muito bonita e eu identifico-a quase como minha. Quando canto, tenho vontade de cantar algo que soe como meu. Eu procuro encontrar-me na m\u00fasica no momento em que a interpreto e \u00e9 isso que acontece nessa can\u00e7\u00e3o. Agrada-me a parte po\u00e9tica e as minhas coisas t\u00eam essa coisa ordin\u00e1ria que est\u00e3o ligadas ao registo de tempo e fotografia. Se eu vou falar do metr\u00f4 eu falo do cinema e essa faixa fala de cigarro e cerveja. Sinto que me revejo na frase que voc\u00ea citou e nesse lugar cinematogr\u00e1fico em termos de imagem. Tamb\u00e9m havia a vontade de fazer algo com classe e um arranjo de madeiras. Neste disco, em vez de ter um arranjador, eu tive a flexibilidade que talvez seja fundamental para que as mudan\u00e7as nas m\u00fasicas sejam de alguma forma verdadeiras e org\u00e2nicas no sentido homog\u00eanio e lixado do termo (risos). Por isso, chamei pessoas mais relacionadas com aquele arranjo como o Vov\u00f4 Beb\u00ea e a Aline Gon\u00e7alves que trabalham com madeira e a Aline toca muito bem clarinete e flauta. De certa forma, veio dessa vontade e da identifica\u00e7\u00e3o completa que tinha tudo a ver com o \u00e1lbum. Porque essa frase talvez seja a \u00fanica no disco que fala exatamente \u201cMe Chama de Gato Que Eu Sou Sua\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mulher Homem Bicho\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/37LcfCk76oQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o single \u201cMulher, Homem, Bicho\u201d, lan\u00e7ado durante a pandemia, voc\u00ea venceu o WME Awards 2021 como Melhor produtora musical. O que representou para si este pr\u00e9mio e em que medida o trabalho que desenvolveu na can\u00e7\u00e3o influenciou a sua vis\u00e3o musical presente?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um ponto importante, porque acho que a faixa \u201cMulher, Homem, Bicho\u201d \u00e9 quase parte do \u00e1lbum. S\u00f3 n\u00e3o o \u00e9 porque foi gravada \u00e0 dist\u00e2ncia e lan\u00e7ada um ano antes de eu pensar em gravar o novo disco. No entanto, sinto que ela j\u00e1 \u00e9 um pensamento sobre o \u00e1lbum em todos os sentidos. Mais na produ\u00e7\u00e3o do que no timbre e som, porque haviam limita\u00e7\u00f5es devido \u00e0 pandemia. Principalmente, \u00e9 uma pesquisa sobre a produ\u00e7\u00e3o, ritmos, ideias e formas. Ela \u00e9 quase um trailer do disco e est\u00e1 muito relacionada com o lado po\u00e9tico. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental e est\u00e1 ligada ao fato de ver-me como eu a partir dos outros, porque a letra \u00e9 da Ava Rocha, que me decifrou maravilhosamente. Eu propus-lhe uma letra que fosse uma Rita Lee sapat\u00e3o, a Ava deu-me retorno e eu adaptei-a para uma m\u00fasica pensando nisso e na produ\u00e7\u00e3o. No caso dela, foi uma faixa que eu fiz cinco dias antes de entrar no est\u00fadio e compus pensando no que eu imaginava sobre a parte da estrutura, dos ritmos e das ideias. Hoje em dia eu componho de uma forma direcionada relativamente ao que estou imaginando sobre o fonograma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea inicou um tour europeu que arranca em Portugal (com shows em Coimbra no Sal\u00e3o Brazil e Lisboa na Musicbox &#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/03\/ao-vivo-ana-frango-eletrico-apresenta-novo-album-em-festival-lisboeta-sob-o-signo-da-festa-e-da-emotividade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">saiba como foi o show<\/a>). Que receptividade espera da parte do p\u00fablico portugu\u00eas e qual \u00e9 o seu conhecimento sobre a cena musical portuguesa?<\/strong><br \/>\nConfesso que a minha expectativa \u00e9 voltar, porque, de alguma forma, o show vai ser mais doido do que o disco. A banda \u00e9 reduzida e n\u00e3o vou trazer o meu tecladista. Ser\u00e1 um power trio comigo nos teclados e \u00e0s vezes no sintetizador. Por isso, h\u00e1 que confiar em mim e nas can\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio do \u00e1lbum vai ser uma atua\u00e7\u00e3o para mostrar mais as m\u00fasicas do que o fonograma. Eu gostaria de voltar e fazer um espet\u00e1culo fonogr\u00e1fico. Para isso, eu precisaria de estrutura, mas n\u00e3o tive tempo nem suporte para preparar tudo como se fosse um concerto. Sinto que vai ser um show mais livre. \u00c9 algo que \u00e9 muito legal tamb\u00e9m e recorda-me as atua\u00e7\u00f5es que fiz h\u00e1 anos atr\u00e1s. N\u00e3o sinto medo, porque tenho muita pr\u00e1tica de experimenta\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 aberta e inclusivamente a minha banda morre de rir. Eles sabem que depois do ensaio, na hora do show, eu posso mudar a forma, decidir fazer mais refr\u00e3o, n\u00e3o tocar m\u00fasica ou acabar e voltar. O David Byrne fala que voc\u00ea tem de se adaptar sempre ao lugar e ao p\u00fablico durante o espet\u00e1culo. Vai ser uma atua\u00e7\u00e3o em aberto, mais solta do que no disco, o que n\u00e3o \u00e9 necessariamente um problema, e espero que gostem (risos). Sobre a cena musical portuguesa n\u00e3o conhe\u00e7o muita coisa. Lembro-me apenas do Bruno Pernadas, que gosto bastante. Eu conheci a m\u00fasica dele atrav\u00e9s do Spotify e na verdade demorei a descobrir que ele era portugu\u00eas, porque chamava-se Bruno e cantava em ingl\u00eas. Mas, esse desconhecimento n\u00e3o \u00e9 restrito a Portugal porque eu n\u00e3o conhe\u00e7o a m\u00fasica europeia. Acho que isso sucede porque consumo muita m\u00fasica brasileira, soul, pop e jazz americanos e tamb\u00e9m gosto bastante de algumas coisas japonesas e alguns artistas africanos. No entanto, aceito dicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea faz parte de uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos brasileiros como Tim Bernardes, Z\u00e9 Ibarra e Rubel, que est\u00e3o a obter um reconhecimento art\u00edstico consider\u00e1vel. Como antev\u00ea o vosso papel no cen\u00e1rio musical futuro do Brasil?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma quest\u00e3o truculenta (risos). Acho que \u00e9 um pouco delicado colocar-nos como o futuro de alguma coisa quando h\u00e1 tanta gente a fazer coisas interessantes e n\u00e3o tem visibilidade ou espa\u00e7o. Voc\u00ea falou de tr\u00eas caras que s\u00e3o parceiros, queridos amigos e eu admiro-os bastante. Talvez o nosso papel fosse de continuar a abrir um espa\u00e7o para outros artistas que n\u00e3o est\u00e3o em voga. Numa entrevista que dei antes, estava dizendo que esteticamente divirjo de algumas pessoas, inclusivamente de projetos onde eu trabalho. Acho que continuam bebendo e mostrando uns brasis espec\u00edficos e talvez um pouco estereotipados. Quando n\u00f3s vimos para a Europa apresentando e colocando isso como o futuro acho que n\u00e3o \u00e9 verdade. Para mim, o novo neg\u00f3cio \u00e9 o rap. H\u00e1 um pessoal no Rio de Janeiro atualmente a fazer um grime incr\u00edvel, mas n\u00e3o sai no jornal nem passa na r\u00e1dio. Eles n\u00e3o t\u00eam visibilidade nenhuma. Eu questiono-me sobre os lugares onde acedemos e tamb\u00e9m temos a responsabilidade em n\u00e3o deixar que achem que s\u00f3 existimos n\u00f3s. A fun\u00e7\u00e3o devia ser essa porque h\u00e1 muita diversidade. Eu espero que venha muita mais gente e que seja interessante. Falo de pessoas com novas identidades em que a originalidade e a individualidade sejam coisas importantes e n\u00e3o reproduzam o que j\u00e1 conhecemos. A contribui\u00e7\u00e3o dos outros n\u00e3o sei qual ser\u00e1, mas a minha \u00e9 de abrir caminho e mostrar outras possibilidades nem que sejam loucas. Sinto que devemos reverenciar os nossos mestres, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas nem eles est\u00e3o a fazer tropicalismo hoje em dia. Temos de nos lembrar disso e tomar um pouco de cuidado quando fazemos revisita\u00e7\u00f5es, principalmente a n\u00edvel est\u00e9tico. H\u00e1 um disco do Dad\u00e1 Jo\u00e3ozinho que saiu agora, \u201cTds Bem Global\u201d (2023), com que eu me identifico, bem como o trabalho do Bruno Berle. Eles fazem mais coisas eletr\u00f4nicas do que eu, mas n\u00e3o tem a ver com isso e sim com o conceito, est\u00e9tica e pol\u00edtica. Sinto que a minha carreira \u00e9 doida e o pessoal faz uma piada comigo de que eu sou o mainstream do underground, porque a galera do underground diz que j\u00e1 passou por essa fase e fez shows para duas, 60 ou 200 pessoas. Eles acham que eu sou mainstream, mas eu n\u00e3o sou nem tenho p\u00fablico mainstream. Sinto-me um pouco num n\u00e3o lugar. Mas, tamb\u00e9m gosto de tomar decis\u00f5es est\u00e9ticas e pol\u00edticas que fa\u00e7am sentido. Por isso, voc\u00ea n\u00e3o me vai ver reproduzir esteticamente o tropicalismo, porque eu acho que \u00e9 um mau servi\u00e7o vir tocar aqui assim e dizer que isso \u00e9 a m\u00fasica brasileira. Sei que \u00e9 bom para voc\u00eas meter-nos numa caixa e apresentar-nos como a nova m\u00fasica brasileira, mas \u00e9 perigoso. No <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/06\/20\/15o-in-edit-brasil-com-imagens-de-arquivo-belissimas-elis-tom-tropeca-na-narrativa-no-formato-e-em-forcas-ocultas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">document\u00e1rio do Tom e da Elis<\/a> citam Johnny Alf, mas ele morreu pobre, enquanto Tom Jobim estava bebendo whisky em Las Vegas ou Los Angeles. Temos que aprender alguma coisa com isso e a Ala\u00edde Costa com a idade que est\u00e1 s\u00f3 foi ovacionada agora, porque houve um produtor que recordou que ela \u00e9 parte da bossa nova. Entendo a sua pergunta, mas ser\u00e1 correto continuar pondo caixas, que fecham e s\u00f3 cabem alguns? Devemos lembrar que o jornalismo, curadoria, colet\u00e2nea, e o poder de aquisi\u00e7\u00e3o e do meio de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o a escrever hist\u00f3ria e preocupa-me quando me colocam num determinado patamar como se fosse s\u00f3 isso. Nunca \u00e9 s\u00f3 isso. Nunca foi s\u00f3 aquilo tamb\u00e9m. H\u00e1 pessoas que s\u00e3o esquecidas e h\u00e1 gente que ganha dinheiro e outra que morre de fome a fazer a mesma coisa. \u00c9 muito delicado e temos de nos consciencializar quando falamos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ana Frango El\u00e9trico @ Coala.FSTVL 2022\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/91ifucz1C9A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ana Frango El\u00e9trico no Levada+ (26\/09\/19)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iBhYtpMRQHA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O que me move dentro de mim s\u00e3o as minhas oposi\u00e7\u00f5es e a reinven\u00e7\u00e3o. Por isso, oponho-me tanto que tudo faz mais sentido\u201d, explica Ana Frango El\u00e9trico em conversa com o Scream &#038; Yell.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/09\/entrevista-preocupa-me-quando-me-colocam-num-patamar-como-se-fosse-so-isso-nunca-e-so-isso-diz-ana-frango-eletrico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":77851,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4047,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77850"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77850"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77854,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77850\/revisions\/77854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77851"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}